Teologia das Virtudes Ascéticas: A Castidade

Por Izabel Ribeiro Filippi

“A castidade – a de cada um no seu estado: solteiro, casado, viúvo, sacerdote – é uma triunfante afirmação do amor” (ESCRIVÁ, Josemaria: Sulco. São Paulo: Quadrante, 2005. p. 267, Ponto 831). É de suma importância ver a castidade como afirmação de amor, não meramente como negação do pecado da luxúria. Assim é também com tudo aquilo que fazemos para Deus; a santa pureza, como muitas vezes é chamada esta virtude, é uma resposta de amor ao Amor. A castidade nos é dada como dom do Espírito Santo, primícia da Glória Eterna. Não é, portanto, como nos lembra o santo já citado, um fardo pesado, mas uma coroa triunfal para aqueles que se decidirem com firmeza a ter a vida limpa (Cf. ESCRIVÁ, Josemaria: Caminho. São Paulo: Quadrante, 1999. p. 59, ponto 123).

“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados” (Ef 5,1), é o que pede São Paulo nas Sagradas Escrituras. O mesmo afirma a Igreja, com seu Magistério infalível: “todo batizado é chamado à castidade. O cristão ‘se vestiu de Cristo’, modelo de toda castidade. Todos os fiéis de Cristo são chamados a levar uma vida casta segundo seu específico estado de vida. No momento do Batismo, o cristão se comprometeu a viver sua afetividade na castidade” (Catecismo da Igreja Católica, 2348). Somos, portanto, chamados a ser como Cristo. É este o convite que Ele nos faz ao dizer “sede santos, porque eu sou santo” (1Pe 1,16).

Infelizmente, em nossa sociedade atual, a castidade está tão deturpada que, na maioria das vezes, sequer tem-se a noção de seu verdadeiro sentido, sendo vista meramente como privação sem propósito. A psicologia freudiana, unida ao pensamento marxista, influem diretamente nesta concepção, e dão as bases para esta situação da sociedade que vivemos, onde a castidade é tratada como repressão sexual, com a qual o Estado e a Igreja poderiam manipular as pessoas, tornando-as dependentes. Sem este “entrave” as pessoas não só se veriam livres de muitas doenças psíquicas, que para Freud são ligadas à sexualidade, mas também seriam menos alienadas, menos susceptíveis à ordem social imposta. Mas hoje, onde a sexualidade está banalizada e sem freios, qual seria o motivo das pessoas continuarem tão doentes ou mais, como há séculos atrás? Obviamente, esta resposta apenas encontraremos junto de Cristo.

Aqui, como em qualquer ponto da vida cristã, é preciso reconhecer na virtude da castidade a sua plena comunhão com o amor de Deus. Cristo nos provou este amor se doando na Cruz. Ele é “o crucificado que só domina a partir da Cruz” (RATZINGER, Joseph – Bento XVI. Jesus de Nazaré: do Batismo do Jordão à Transfiguração. São Paulo: Planeta, 2007. p. 287). Não podemos, portanto, pensar que o caminho será fácil. “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). O chamado de Deus à castidade, sem dúvida, passará por esta cruz, e pensar o contrário é um comum engano que dificulta ainda mais a prática desta virtude. Temos que ficar atentos, pois a luta é árdua, e é preciso vigilância constante. Nesta batalha, a espada é a oração, a procura pelos Sacramentos e também a mortificação, pois não há castidade sem domínio do próprio corpo e dos sentidos: a alma deve dominar o corpo, jamais o contrário.

O apoio de Deus não faltará a ninguém que estiver disposto a tudo entregar por Sua causa, e não há causa maior que agradar a Deus. A humildade, como companheira da castidade, nos leva a desconfiar de nós mesmos e a confiar que somente com a ajuda de Deus seremos castos. Sabendo de nossas fraquezas, recorremos mais agilmente ao auxílio divino. Aos que já pecaram gravemente contra a castidade, a desconfiança é necessária para que não sucumbam novamente. Aos que conservam a inocência, é também importante para que se fortaleçam mais através da luta, uma vez que ninguém pode dar-se por seguro. Não é necessário, no entanto, temer a tentação, pois assim mais a atrairíamos. Muito nos ajuda sabermos que com Deus estamos seguros.

No Antigo Testamento temos o testemunho do justo Jó, que havia feito um pacto com Deus de não olhar mulheres que lhe poderiam vir a ser causa de tentação (Cf. Jó 31,1). Este é um excelente conselho que nos trazem as Sagradas Escrituras: não dar ocasião para que a tentação se achegue a nós e, assim, nos coloquemos em situação de pecado. E se, mesmo fugindo das tentações, elas advierem, nossa liberdade deve fazer com que neguemos veementemente o pecado, não consentindo na tentação, afastando qualquer imagem ou pensamento contra a santa pureza. Temos também o dever de regular as conversas que incentivem o prazer desregrado, o desrespeito ao corpo e ao outro, ou que perturbem a nossa imaginação, assim como evitar todo tipo de livros, apresentações, filmes, shows e festas onde sabemos que a prática da castidade será colocada em risco.

“Fugi da fornicação. Qualquer outro pecado que o homem comete é fora do corpo, mas o impuro peca contra o seu próprio corpo. Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual recebestes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis? Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1 Cor 6,18-20).

Mas, além de evitar o pecado, como foi frisado inicialmente, importa construir o sentimento de pudor, incentivando a vontade a sempre querer o bem, e tendo em vista a dignidade e a beleza da vida casta. Pecar contra a castidade é, segundo São Paulo, prostituir o próprio Corpo de Cristo (Cf. 1Cor 6,16), do qual fazemos parte. O cristão deve estar consciente de sua condição de filho de Deus, templo do Espírito Santo, membro do Corpo de Cristo. A conduta daquele que é casto não é apenas uma mera imposição, é uma conseqüência da dignidade que Deus deu a nossos corpos, a ponto de serem chamados sagrados, por serem habitação de Deus (Cf. 1Cor 3,17-18).

Adolph Tanquerey, em seu tratado de Teologia Ascética e Mística, A Vida Espiritual Explicada e Comentada, descreve quatro graus de prática da virtude castidade. O primeiro consiste em evitar consentir em qualquer pensamento, imaginação, sensação ou ação contrária à virtude. O segundo, indo além do apenas não consentir, busca afastar tais coisas, imediata e energicamente, não permitindo qualquer coisa que possa deslustrar o brilho desta virtude. Já no terceiro, adquirido após muita prática do amor de Deus, domina-se os pensamentos e sentidos a tal ponto que se pode falar sobre questões relativas à castidade aberta e serenamente, com grande paz. Por fim, à alguns poucos santos, por privilégio especial, é concedido não terem qualquer movimento desordenado. Por estes devemos dar glória ao Senhor, que manifesta sua grandeza e bondade com estas graças especiais dadas a poucos.

A castidade, sendo chamado universal, está contida em todas as vocações que Deus suscita em nosso meio, tanto a matrimonial como a religiosa. Não é, como muitos pensam, limitada aos que se dedicam a Deus de uma forma mais perfeita, “por amor do Reino dos Céus” (Mt 19,12), através da vida celibatária.

Assim, o Sagrado Magistério da Igreja sempre viu na vocação matrimonial um grande bem. “O matrimônio que, por vontade de Deus, continua a obra da primeira criação (cf. Gn 2,18), ao ser integrado no desígnio total da salvação, adquire novo significado e valor. Na verdade, Jesus, restituiu-lhe a dignidade primitiva (Mt 19,3-8), honrou-o (cf. Jo 2,1-11) e elevou-o à dignidade de sacramento e de sinal misterioso da sua união com a Igreja (Ef 5,32). Assim, os cônjuges cristãos, no exercício do amor mútuo e no cumprimento dos próprios deveres, e tendendo para aquela santidade que lhes é própria, caminham juntos em direção à pátria celeste” (Sua Santidade o Papa Paulo VI, Encíclica Sacerdotalis Caelibatus).

Muitos, entretanto, são levados por Deus a abrirem mão deste bem que é o matrimônio por algo muito maior. São aqueles que “se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus” (Mt 19,12). Neste sentido, continua o Papa Paulo VI na Encíclica acima citada: “Mas Cristo, Mediador dum Testamento mais excelente (Hb 8,6), abriu também novo caminho, em que a criatura humana, unindo-se total e diretamente ao Senhor e preocupada apenas com Ele e com as coisas que lhe dizem respeito (1Cor 7,33-35), manifesta de maneira mais clara e completa a realidade profundamente inovadora do Novo Testamento”.

Faz-se necessário ter em mente que esta virtude não consiste somente em usar moderadamente dos prazeres sensuais, quando ordenados aos seus fins naturais, ou em abster-se deles por amor de Deus. Há também a castidade espiritual, cuja matéria consiste da união espiritual da alma com aquilo que lhe dá prazer. Esta castidade metafórica nos priva da união com tudo quanto é ilícito e nos aproxima de Deus, que é Aquele em excelência com o qual devemos nos unir. Assim diz Santo Tomás de Aquino: “Chama-se castidade espiritual o deleitar-se o homem na união espiritual com o ser com que se deve unir, isto é, com Deus; e o abster-se da união deleitável com o que é proibido pela lei divina, conforme àquilo do Apóstolo: eu vos tenho desposado com Cristo, para vos apresentar como virgem pura ao único esposo” (AQUINO, Santo Tomás de: Suma Teológica, Segunda Parte da Segunda Parte. Porto Alegre: Sulina, 1980. p. 3114, Q. 151).

O Modo Mais Perfeito de Viver a Castidade

“A sagrada virgindade e a perfeita castidade consagrada ao serviço de Deus contam-se sem dúvida entre os mais preciosos tesouros deixados como herança à Igreja pelo seu Fundador” (Sua Santidade o Papa Pio XII, Carta Encíclica Sacra Virginitas). Desde os primeiros cristãos, este tesouro foi cultivado, havendo abundantes testemunhos dos Santos Padres sobre sua importância. Ele é guardado não somente por sacerdotes e religiosos, mas por uma legião de leigos.

A entrega da virgindade a Deus encontra fundamento nas palavras de Nosso Senhor, quando feita “por amor do Reino dos Céus” (Mt 19,12). Desta forma, como já nos falava São Paulo, pode o cristão cuidar inteiramente das coisas de Deus, sem que fique divido com os cuidados que requer a vida conjugal (Cf. 1Cor 7,32-35).

É certo que o matrimônio é um bem, ou jamais teria sido elevado à dignidade sacramental. Entretanto, a virgindade ou celibato são mais excelentes que o matrimônio, porque é da sua consagração a Deus que vem sua dignidade, e não de si mesmos. Todos devemos buscar a fuga do pecado e a prática das virtudes, mas abrir mão de um ato lícito e bom, como é o matrimônio e a geração de filhos, encontra maior mérito diante de Deus. São “duas obras, da qual uma é boa e outra melhor”, e “a glória deste maior bem não se baseia em que se evita o pecado do matrimônio, mas pelo fato de ultrapassar o bem do matrimônio” (AGOSTINHO, Santo: A Santa Virgindade. São Paulo: Paulus, 2000. p. 120 e 123).

Isso também decretou o Sacrossanto Concílio de Trento, ao estabelecer que “se alguém disser que o estado conjugal deve ser preferido ao estado de virgindade ou celibato, e que não é melhor ou mais valioso permanecer na virgindade ou celibato do que unir-se em matrimônio: seja anátema” (Denzinger 1810, Concílio de Trento, Sess. XXIV, cân.10). Esta excelência da virgindade e celibato sobre o matrimônio é, portanto, dogma de fé. A Igreja nos explica porque a virgindade consagrada a Deus é a perfeita castidade; ensina que este estado auxilia a pessoa a entregar-se mais facilmente às coisas divinas e à oração, mais seguramente alcançar as bem-aventuranças e contribui para mais livre e eficazmente poder levar outros ao Reino dos Céus (Cf. Sua Santidade o Papa Pio XII, Carta Encíclica Sacra Virginitas).

Os santos padres ainda fazem uma relação entre o pecado da luxúria e a gula, e, nesta linha, São Máximo, o Confessor, explica porque a continência extingue a concupiscência: “Faz com que nos abstenhamos de todas aquelas coisas que não satisfazem uma necessidade, senão que somente produzem prazer; e faz com que participemos de nenhuma outra coisa senão as necessárias para viver; e faz buscar não as coisas agradáveis, mas as necessárias; mede a comida e a bebida de acordo com a necessidade, e não permite ao corpo uma moleza supérflua; e mantém a vida do corpo, protegendo-a do impulso carnal” (Máximo, São: Centúrias sobre a Caridade e Outros Escritos Espirituais. São Paulo: Landy, 2003. p. 34). Assim, o dom da procriação não é vital ao ser humano, não constituindo uma necessidade. A perfeita castidade abstém-se deste dom, vivendo a perpétua continência, tendo em vista ocupar-se mais do bem divino. E nisso auxilia a constante educação do corpo, para que tenha somente o necessário e nunca atraiçoe, como meio para exercitar o controle de si e poder viver fielmente neste estado.

“O coração do homem é feito para amar; o sacerdócio ou o estado religioso não nos tira este lado afetuoso da nossa natureza, mas ajuda-nos a sobrenaturalizá-los. Se amarmos a Deus com toda a alma, se amarmos a Jesus sobre todas as coisas, sentiremos muito menos o desejo de nos expandir sobre as criaturas. […] Em presença daquele que possui a plenitude da beleza, da bondade e do poder, todas as criaturas desaparecem e não têm encanto” (TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007. p. 580).

A caridade, sendo forma de todas as virtudes, influencia a castidade, ao fazê-la uma doação por amor. “A castidade leva aquele que a pratica a tornar-se para o próximo uma testemunha da fidelidade e da ternura de Deus” (Catecismo da Igreja Católica, 2346). Esta caridade se explica na exortação de Santo Agostinho às virgens: “amai de todo coração ‘o mais belo dos filhos do homem’(Sl 44,3). […] Contemplai a beleza daquele que vos ama” (AGOSTINHO, Santo: A Santa Virgindade. São Paulo: Paulus, 2000. p. 169 e 170). Ainda segundo o Santo, Cristo se torna para estas almas o esposo que não vêm com os olhos do corpo, mas a quem contemplam com os olhos da fé.

Na mesma obra, Santo Agostinho afirma que o meio mais apropriado de assegurar a santa castidade é a humildade. Diz que se fala de “algo tão santo e grande, que se torna necessário cuidar ao máximo para evitar o perigo do orgulho”. Ao lembrar as palavras da Sagrada Escritura, que dizem que “quanto maior és, mais deve humilhar-te em todas as coisas, e acharás graça diante de Deus” (Eclo 3,20), ele escreve: “com a continência perpétua e principalmente a virgindade é tão grande bem entre os santos de Deus, esse devem guarda-lo com a máxima vigilância, para não o ver corrompido pela soberba”. “Logo, a guardiã da virgindade é a caridade, e a morada dessa caridade é a humildade” (AGOSTINHO, Santo: A Santa Virgindade. São Paulo: Paulus, 2000. p. 141 e 166).

Os que guardam a perfeita castidade têm um exemplo a seguir, um refúgio para se abrigarem: a Virgem das virgens. A simples menção de Nossa Senhora já nos inspira a uma vida na santa pureza. A perfeita castidade é fomentada com a sólida e fervorosa devoção à Santa Mãe de Deus. Aqueles que guardarem a virgindade ou o celibato não terão filhos, mas serão fecundos pela caridade. Assim, “o que é fruto de uma única santa Virgem é a glória de todas as outras santas virgens. Pois elas também, unidas a Maria, são mães de Cristo, se fizerem a vontade do Pai” (AGOSTINHO, Santo: A Santa Virgindade. São Paulo: Paulus, 2000. p. 105).

Desta santa virgindade, foi guardião fiel seu castíssimo esposo São José, do qual se afirma: “a castidade do esposo haveria de receber igualmente o que produzira a castidade da esposa”, “à piedade e caridade de José foi dado um filho, o nascido da Virgem Maria, o mesmo que é Filho de Deus” (AGOSTINHO, Santo: Sermão 51 em A virgem Maria – Cem Textos Marianos Com Comentários. São Paulo: Paulus, 1997. p. 73 e 74).

A Virtude da Castidade na Vocação Matrimonial

Deus criou a humanidade, livremente nos criou, homem e mulher, à sua imagem e semelhança, igualmente dignos, mas com diferenças entre si que apenas enriquecem a criação divina.

A união entre o homem e a mulher foi desde o início fundada por Deus: “Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne” (Gn 2,24). O amor conjugal a que ambos são chamados é imagem do Amor Absoluto, que é Deus. Se este amor é imitação da Perfeição Divina, a união conjugal não pode ser senão santa e sagrada. Não fosse o Matrimônio um bem, Cristo jamais o teria elevado à dignidade sacramental. Este sacramento “santifica a união legítima do homem e da mulher e lhes confere as graças necessárias para cumprirem seus deveres de estado” (Boulenger, A: Doutrina Catholica – Terceira Parte. Rio de Janeiro; São Paulo: F.A.P. Azevedo, 1927. p. 190). Deus quis com esta união fazer o ser humano participante de seu poder criador. Os esposos cooperam na transmissão da vida como na educação dos filhos com o amor de Deus criador.

Desde o Antigo Testamento, o Senhor demonstra que a união matrimonial é indissolúvel. Se permitiu que em alguns casos se rompesse, antes da vinda de Cristo, que levou a Lei à perfeição, foi pela dureza do coração dos homens (Cf. Mt 19,8). “A união matrimonial do homem e da mulher, fundada e dotada de leis próprias pelo Criador, está por sua natureza ordenada à comunhão e ao bem dos cônjuges e à geração e bem dos filhos. Segundo o desígnio originário de Deus, a união matrimonial é indissolúvel, como afirma Jesus Cristo: «O que Deus uniu não o separe o homem» (Mc 10,9)” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 338).

Tendo dito Jesus que “quem repudia sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudia o marido e se casa com outro, comete adultério” (Mc 10,11-12), as “leis da Igreja” sobre a indissolubilidade do matrimônio são apenas seguimento do mandamento que Ele próprio deixou. A Igreja não se isenta diante da realidade, e vê com zelo, como Mãe protetora que é, aqueles que, por motivos diversos, acabam por divorciar-se. Estas pessoas não têm porque achar que, com isso, nunca mais serão felizes. A felicidade não dependerá do matrimônio em si mesmo, mas sim de fazer a vontade de Deus em suas vidas. Cada qual em seu estado, se permanecer com Cristo, encontrará a verdadeira felicidade.

Sendo assim, a Igreja por fidelidade às palavras de Cristo, não pode reconhecer como válida uma segunda união matrimonial, se a primeira foi válida. Aos que vivem em situação de segunda união, “a Igreja encoraja estes fiéis a esforçarem-se por viver a sua relação segundo as exigências da lei de Deus, como amigos, como irmão e irmã; deste modo poderão novamente abeirar-se da mesa eucarística, com os cuidados previstos por uma comprovada prática eclesial” (Sua Santidade o Papa Bento XVI, Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis).

Já desde jovens e ainda sem o compromisso do casamento selado, aqueles que têm a vocação matrimonial são exortados a viver a castidade, que antes do matrimônio se dará na continência, e a respeitar este sacramento. Sobre isso são de muito proveito as palavras do Santo Padre, o Papa Bento XVI, quando se encontrou com os jovens no Brasil. Disse-lhes: “Tende, sobretudo, um grande respeito pela instituição do Sacramento do Matrimônio. Não poderá haver verdadeira felicidade nos lares se, ao mesmo tempo, não houver fidelidade entre os esposos. O matrimônio é uma instituição de direito natural, que foi elevado por Cristo à dignidade de Sacramento; é um grande dom que Deus fez à humanidade. Respeitai-o, venerai-o. Ao mesmo tempo, Deus vos chama a respeitar-vos também no namoro e no noivado, pois a vida conjugal que, por disposição divina, está destinada aos casados é somente fonte de felicidade e de paz na medida em que souberdes fazer da castidade, dentro e fora do matrimônio, um baluarte das vossas esperanças futuras. […] Requer espírito de sacrifício e de renúncia por um bem maior, que é precisamente o amor de Deus sobre todas as coisas. Procurai resistir com fortaleza às insídias do mal existente em muitos ambientes, que vos leva a uma vida dissoluta, paradoxalmente vazia, ao fazer perder o bem precioso da vossa liberdade e da vossa verdadeira felicidade. O amor verdadeiro procurará sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-á cada vez mais dele, doar-se-á e desejará existir para o outro e, por isso, será sempre mais fiel, indissolúvel e fecundo”.

As dificuldades da vivência da castidade na vocação matrimonial, não se resumem à fidelidade entre os esposos. Dentro da própria relação conjugal é necessária a guarda constante desta virtude. “Os atos com os quais os cônjuges se unem íntima e castamente são honestos e dignos. Quando realizados de maneira verdadeiramente humana, significam e favorecem a mútua doação pela qual os esposos se enriquecem com o coração alegre e agradecido.’ A sexualidade é fonte de alegria e de prazer: O próprio Criador… estabeleceu que nesta função (i. e, de geração) os esposos sentissem prazer e satisfação do corpo e do espírito. Portanto, os esposos não fazem nada de mal em procurar este prazer e em gozá-lo. Eles aceitam o que o Criador lhes destinou. Contudo, os esposos devem saber manter-se nos limites de uma moderação justa” (Catecismo da Igreja Católica, 2362).

Consciente dos fins do Matrimônio, procriativo e unitivo, deve ainda o casal cuidar para que estes não sejam dissociados, deturpando a relação conjugal. Neste sentido, na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, Sua Santidade o Papa João Paulo II afirmou a totalidade da doação mútua que deve ter o casal: “esta totalidade, pedida pelo amor conjugal, corresponde também às exigências de uma fecundidade responsável, que, orientada como está para a geração de um ser humano, supera, por sua própria natureza, a ordem puramente biológica, e abarca um conjunto de valores pessoais, para cujo crescimento harmonioso é necessário o estável e concorde contributo dos pais”.

Assim sendo, todo ato que vise por vias artificiais impedir o fim procriativo do ato conjugal, é grave ofensa a Deus, por desvirtuar o fim primordial desta união, impresso pelo próprio Deus desde a criação, que é a geração de filhos. Aos esposos é apenas lícito espaçar o nascimento dos filhos por justa causa, o que se dará somente através dos meios naturais que dispõem. Isso exigirá, certas vezes, períodos de continência, não deixando um pesado fardo apenas sobre um dos cônjuges. Exige cumplicidade, amor e respeito, fortalecendo os laços do matrimônio, que não se resumem ao ato sexual, “o que não conseguirá senão quem houver tomado o hábito de subordinar o prazer ao dever e de buscar na recepção freqüente dos sacramentos remédio para os apetites violentos da concupiscência” (TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007. p. 571)

Para assegurar a vivência da castidade, contam os esposos com as graças específicas concedidas pelo Sacramento do Matrimônio. Além disso, devem buscar a prática conjunta de uma verdadeira devoção, especialmente através da oração em comum, pois por meio da oração poderão obter graças para superar todas as dificuldades e para nutrir eficazmente esta e todas as demais virtudes. Terão ainda o auxílio dos demais Sacramentos, os quais fortalecem o cristão na prática das virtudes.

Tudo isso se resume nas palavras de São Paulo, ao dizer que a relação entre os esposos deve ser como a de Cristo com sua Igreja (Cf. Ef 5, 22-30). Que as mulheres se submetam aos seus maridos, não numa relação de escravidão, mas de confiança e amor, tal qual a Igreja se submete a Cristo. E que o marido se entregue por sua esposa, e a ame como Cristo amou a Igreja.

Fonte: FILIPPI, Izabel Ribeiro. Apostolado Sociedade Católica: Teologia das virtudes ascéticas: a castidade. Disponível em: http://www.sociedadecatolica.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=190 desde 29/03/08.

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