Teologia das Virtudes Ascéticas: A Mansidão

Por Izabel Ribeiro Filippi

Num mundo onde há, se não uma ausência de valores, uma inversão completa deles, dificilmente se encontra lugar para o verdadeiro Bem, que não está em objeto ou homem qualquer, mas vem do alto. Por isso, talvez, a imagem do Cristo calado, tal qual cordeiro levado ao matadouro, é muito apreciada, mas dificilmente vivida, uma vez que o manso e humilde é tido como fraco e medíocre, ou ainda falso e resignado. A virtude da mansidão parece, como tantas outras virtudes que deveríamos cultivar, fadada ao esquecimento e desprezo, já que não se vê como pode coadunar com o homem moderno e competitivo. É preciso um profundo senso cristão para compreender que a mansidão não é “a fraqueza de caráter que dissimula, sob exteriores adocicados, um profundo ressentimento. É uma virtude interna que reside ao mesmo tempo na vontade e na sensibilidade, para lá fazer reinar a serenidade e a paz, mas que se manifesta exteriormente, nas palavras e nos gestos, por maneiras afáveis” (TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007. p. 599).

Como em todas as demais virtudes, a mansidão poderá tornar-se em nós uma disposição habitual para o bem se buscarmos sempre praticá-la. “Quando estás com ânimo calmo e sem motivo algum de irritar-te, faze um grande provimento de brandura e benignidade, acostumando-te a falar e a agir sempre com este espírito, tanto em coisas grandes como pequenas” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 217). Quanto mais nos acostumamos com o bem e nos afeiçoamos por ele, mas facilmente o empregaremos quando as grandes tentações advierem.

Esta não é uma virtude que caminha sozinha. Exigindo controle de si mesmo para moderar os movimentos da cólera, é anexa à temperança, pois a tranqüilidade da alma, por excelência, é resultado desta virtude, muito embora seja de todas. Por suportar os defeitos dos irmãos, exige-se que ande junto da paciência, e, portanto, da virtude da fortaleza, que também auxilia a vencer a ira e coibir a indignação. E não deixa de caminhar com a mais nobre das virtudes, a caridade, pois o manso perdoa as injúrias e é benevolente para com todos.

É sabido que toda virtude tem seu vício oposto, que é sufocado com a habitual prática do bem. Mas, neste caso, a teologia costuma indicar duas possibilidades para a ira: a que se submete à razão e é moderada por ela, e a que é movida pelas paixões e desordenada. A ira que está em desacordo com a ordem da razão deseja o mal ao próximo, e é esta ira que conhecemos como vício capital, também chamada de iracúndia. A ira por zelo, se moderada, é boa, mas deve-se ter extremo cuidado para que ela não deixe de ser instrumento de virtude e permaneça sempre escrava da razão, pronta a servi-la se necessário for. A ira apenas é boa e ordenada quando quer corrigir um vício e não visa a vingança e o dano alheio, mas unicamente a justa emenda das injúrias.

Não se conformar com um pecado e querer sua correção são atos virtuosos. Assim, a ira como movimento do apetite sensitivo, pode servir à razão, de modo a estar submetida à ela para pôr em prática a justiça contra o pecado. Mas quando se quer o extermínio de quem peca, irando-se não contra o pecado, mas contra o irmão que peca, querendo vingar seu pecado nele, causando-lhe dano, aí sim se encontra o mal. A ira “impede o juízo da razão, pois a alma só pode avaliar a verdade com uma certa tranqüilidade de mente, por isso diz o filósofo que a alma, tendo paz, se faz conhecedora e prudente” (AQUINO, Santo Tomás. De malo in Sobre o Ensino – Os Sete Pecados Capitais. São Paulo: Martins Fontes, 2001, pág. 97).

“Nutrirá um desejo vicioso da ira, a qual por isso se chama ira por vício, quem deseja a vingança de qualquer modo, contra a ordem da razão; por exemplo, se deseja castigar a quem não merece, ou além do merecido, ou ainda não seguindo a ordem legítima, ou enfim, não em vista do fim devido, que é a realização da justiça e a correção da culpa” (AQUINO, Santo Tomás: Suma Teológica – Primeira Parte da Segunda Parte. Porto Alegre: Sulina, 1980, Q. CLVIII). Longe do virtuoso estará, portanto, querer fazer justiça com as próprias mãos, fugindo da retidão e da ordem. E até mesmo a ira por zelo deve ser constantemente moderada, pois se deixa de servir à razão e toma ardor excessivo, não estará isenta de pecado. “É melhor, diz Santo Agostinho, escrevendo a Profuturo, fechar inteiramente a entrada do coração à cólera, por mais justa que seja, porque ela lança raízes tão profundas que é muito difícil de arrancá-las” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 214).

Se acaso sofremos injustiças, não podemos nutrir pensamentos vingativos, que levem nosso ânimo a inchar-se, perturbando nossa mente, características do vício da ira. O manso, apesar de não se conformar com a injustiça sofrida por si ou por outrem, manterá firme a disposição de amar a todos, ainda que tanto dano tenham causado. Se for necessária uma correção da injúria, a deseja por justiça, tendo em vista o reparo do mal feito e não causar igual ou maior dano e dor ao que foi injusto.

Os que principiam na prática da virtude precisam combater os desejos e todos os movimentos apaixonados da alma. Para progredir nela é necessário buscar a Cristo, suas palavras, seus exemplos, d’Ele que foi anunciado como manso desde o Antigo Testamento: “Ele não grita, nunca eleva a voz, não clama nas ruas. Não quebrará o caniço rachado, não extinguirá a mecha que ainda fumega. Anunciará com toda a franqueza a verdadeira religião; não desanimará, nem desfalecerá, até que tenha estabelecido a verdadeira religião sobre a terra, e até que as ilhas desejem seus ensinamentos” (Is 42,2-4). Quando fala, Cristo é firme, mas suave e tranqüilo. Não apaga as faíscas da fé e da esperança que ainda permanecem nos corações dos que pecaram, e acende ainda mais a chama viva nos corações que O amam. Foi assim que Cristo inaugurou o Reino de Deus, que estabeleceu sua Igreja, que nos deixou a Salvação.

Em momentos onde estamos por ser levados pelas paixões, é mister esforçar-nos em medir as palavras, de modo a não cair em insultos e blasfêmias. Ainda que a ira seja causada por grande mal, não justifica ferir o outro que, ainda que pecador, continua naturalmente dotado da dignidade que Deus deu a cada homem ao nos criar e fazer-nos imagem e semelhança d’Ele. E por isso Nosso Senhor colocou a mansidão ao lado da humildade: “Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas” (Mt 11,29). A humildade suscitará uma postura mansa frente às injustiças, pois o humilde sabe-se indigno de honras e quer andar ao lado do Cristo, que rumou silencioso para o Calvário, tendo sobre si o peso dos pecados – não os Dele, porque jamais os teve, mas os de toda a humanidade. É a mansidão “que faz o homem passar por cima de todo o sofrimento e que excede a todas as virtudes, porque é a flor da caridade que, como diz São Bernardo, só possui o auge da sua perfeição quando ajunta a virtude à paciência” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 211)

“Digo-vos a vós, afirma o Senhor: Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos caluniam. Por que o ordenou? Para libertar-te do ódio, da tristeza, da ira e do rancor, e tornar-te digno de grandíssimo tesouro da perfeita caridade; é impossível que a possua quem não ama igualmente a todos os homens, à imitação de Cristo, o qual ama igualmente a todos os homens e quer que se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (MÁXIMO, São: Centúrias sobre a Caridade e Outros Escritos Espirituais. São Paulo: Landy, 2003. p. 64). Se vemos almas em todos aqueles com quem convivemos, isso ajudará a não irar-se contra eles, pois assim veremos Cristo em tudo e todos. É nosso dever, inclusive, orar pelos nossos inimigos, o que ajudará não apenas estas almas, mas também fortalecerá aos que por conta de seus atos se escandalizaram. Fazendo isso a alma fica em paz consigo, com o próximo e com Deus. Tudo suporta, pois sabe “que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios” (Rm 8,28).

Não só de atos exteriores nos fazemos mansos, pois o Cristo diz ser “manso e humildade de coração”. Quem mantém a tranqüilidade no espírito, não se exaspera com ardor e orgulho diante das mágoas sofridas. O orgulhoso acha que deve ser exaltado e que é imerecedor de qualquer desonra ou injúria, e por isso se volta com ira contra aquele que lhe fere. O humilde se compraz com as humilhações e danos, pois, diferente do orgulhoso que só quer compartilhar com Cristo sua glória, assim se assemelha mais ao seu Senhor e pode compartilhar uma pequena parte do sofrimento da Cruz.

O mal não está só no ato, mas em nosso interior. Quando nos apresentarmos a Deus, é o que somos (que se reflete no que fazemos) que será visto: estaremos nús diante de Deus, e não poderá coexistir o mal junto do Supremo Bem: se nosso coração não tende à perfeição de Cristo, e não se faz manso como o d’Ele, só por isso já teremos nossa condenação. Um coração amargurado, indignado com tudo e todos, com ódio e rancor, que não tem tranqüilidade nem paz, com certeza não está próximo ao Coração de Jesus. É certo que muitas vezes nosso coração é massacrado pelo pecado, pelas injustiças, pelas humilhações e todo tipo de sofrimento, mas aquele que tem certeza de onde quer chegar não se atormenta por isso: permanece com Cristo, clama a Ele em todas as suas angústias, e não se volte contra ao próximo e muito menos contra Deus. Luta persistente e eficazmente, mas sem violência, seja a física ou a de coração: esta é a verdadeira paz com Deus.

Conforme aconselha São Francisco de Sales, “a ciência de viver sem cólera é muito melhor do que a de servir-se dela com sabedoria e moderação; e, se por qualquer imperfeição ou fraqueza, esta paixão surpreender o nosso coração, é melhor reprimi-la imediatamente que procurar regrá-la” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 215). Ainda segundo o santo, a melhor forma de reprimi-la é doce e eficazmente, não de um modo brusco que perturbe a alma; mas, recorrendo a Deus, em oração, sempre com suavidade, para que Ele nos auxilie em nossas fraquezas. Caso formos tentados com a cólera, não podemos reter a irritação, não permitindo que o ânimo se exalte e venhamos a expressar a ira, retribuindo as injúrias recebidas ou ainda atacando os que sequer nos fizeram algo. Se porventura nos irarmos contra alguém, é importante corrigir logo a falta com atos de mansidão e brandura, pois as feridas recentes são mais fáceis de curar que as antigas.

“A vida é uma viagem que temos que fazer para atingir o céu; não nos zanguemos no caminho uns contra os outros; andemos em companhia com nossos irmãos, em espírito de paz e amizade. Generalizando, aconselho-te: nunca por nada te exaltes, se for possível, e nunca, por pretexto algum, abras teu coração à ira; pois São Tiago diz expressamente: a ira do homem não opera a justiça” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 213). Assim, se no afã contra a injustiça, nos exaltamos contra o injusto, de certo modo tornamo-nos como ele quando à falta de justiça, pois, conforme citou São Francisco de Sales: “Todo homem deve ser pronto para ouvir, porém tardo para falar e tardo para se irar; porque a ira do homem não cumpre a justiça de Deus” (Tg 1,19-20).

O homem perde muito tempo de sua vida empregando-o no mal. Se, frente o mal praticado pelos ímpios, não pagamos o mal com o mal, mas nos esforçamos em fazer o bem, aplicaremos muito mais eficazmente nosso tempo – que não sabemos quanto ainda nos resta para gastar – e esforços na correção justa do que se os perdêssemos com vinganças, que só fariam aumentar a injustiça e as ofensas a Deus e de nada adiantariam senão para saciar o orgulho de quem se vinga. Pagar o mal com o bem é o que diferenciará o cristão dos que não levam Deus no coração, porque os que O levam vêm tudo com sentido sobrenatural e querem fazer valer o exemplo de Cristo, uma vez que “a caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,4-8). Assim, a mansidão abre as portas para que esta caridade adentre o coração do homem.

Ser manso significa, muitas vezes, calar o desnecessário, mas nem sempre o silêncio é essencial. Se é nosso dever corrigir um erro e podemos realmente fazer algo para emendá-lo e emendar aquele que errou, precisamos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para que assim seja, visando o bem de todos os envolvidos e o agrado de Deus. “Deve-se resistir ao mal e corrigir os maus costumes dos seus subalternos com santo ânimo e muita firmeza, mas sempre com uma inalterável mansidão e tranqüilidade; nada pode aplacar tão facilmente um elefante com a vista dum cordeirinho, e o que mais diminui o ímpeto duma bala de canhão é a lã […] Se a razão procura com mansidão seus direitos de autoridade por meio de algumas correções e castigos, todos aprovarão e a estimarão, mas se a razão mostra indignação, despeito e cólera, […] ela mais faz-se temer que amar e perturba e oprime a si mesma” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 213-214).

É desta forma, com a razão soberana em nós, que devemos ser veementemente contra calúnias contra a Igreja e a Nosso Senhor, corrigindo quem o faz sem ira nem tristeza: é dever de todo cristão não permitir que o Santo Nome de Deus seja insultado ou que sua doutrina seja deturpada, porém nossa defesa só será eficaz se for humilde, mansa e racional. Com esta mesma mansidão os pais devem criar seus filhos. Vivemos numa sociedade que acha que qualquer tipo de correção é repressão, e deixa suas crianças à mercê delas mesmas, não dando a elas diretrizes para seguir e tornarem-se adultos cristãos, que respeitem a todos e saibam seus direitos e deveres. A educação com limites não é violência – e não pode vir a ser –, pelo contrário, é por amor e com amor que os pais dão aos seus filhos a noção do certo e do errado, levando-os aos caminhos do bem desde cedo, para que se habituem a ele e o amem. Lembremos de Nossa Senhora – aquela que melhor guardou o santo silêncio – que, quando encontrou o menino Jesus que havia se separado da caravana, não tardou em questioná-lo de seu sumiço, firme e brandamente. Foi com a ajuda da sua Sagrada Família que Cristo cresceu em estatura, em sabedoria e em graça (Cf. Lc 2,52).

Nem mesmo para conosco devemos nos irar. A dor pelo pecado não deve ser aborrecida, mas mansa e humilde. A verdadeira compunção nos leva a abrandar todas as paixões e a não nos exasperarmos, colocando toda a confiança na Misericórdia de Deus, que tudo perdoa a um coração contrito que o busca no Sacramento da Confissão, e com tranqüilidade e firmeza mantém o propósito de não mais voltar a ofender ao Senhor. Com o salmista, devemos repetir: “meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar” (Sl 50,19).

Quando nos vemos assolados pelo pecado, certamente nos achamos indignos de Cristo… E isto é verdade, não o somos! Mas é igual verdade que nosso Deus é um Deus misericordioso, que abre os braços a todos os seus filhos que o procuram. Se nós não podemos, sozinhos, oferecer reparo suficiente por nossas faltas, unidos aos méritos da Cruz de Cristo podemos ser justificados se nos arrependemos sinceramente e o buscamos. Mas o homem que não dá um passo a frente e, vendo sua miséria, não vê também a misericórdia e o amor de Cristo, se desespera e se consome por seu pecado, não visando seu reparo, mas sim afundando-se cada vez mais nele. Esta não é a atitude do autêntico cristão! O cristão que vive a humildade se compraz em sua miséria, e, toda vez que cai, volta-se para Deus, com ânimo renovado, para continuar a batalha, para seguir no caminho, pois não quer permanecer caído e não quer voltar ao chão lamacento do pecado. Agarra-se, por isso, às mãos estendidas do Cristo – mãos marcadas pelas chagas da Cruz – e segue em frente. Para quem tem um coração manso e humilde, as barreiras do orgulho e do desespero são retiradas do caminho rumo à caridade, e assim pode serenamente aproximar-se de Deus e com Ele permanecer.

Esta virtude se faz presente no encontro da Verdade, a qual conhecemos com certeza através da Igreja Santa e Católica. A mansidão destrói os impedimentos aos atos de piedade, e por isso liga-se a este dom indiretamente. Dom do Espírito Santo, a piedade “convém aos mansos, porque aquele que com piedade investiga e honra as Sagradas Escrituras não critica o que ainda não compreende; e, portanto, não resiste a coisa alguma, o que constitui a virtude da mansidão” (AGOSTINHO, Santo: O Sermão da Montanha. São Paulo: Edições Paulinas, 1992. p.31). É próprio do manso ser obediente à Igreja e solícito com as coisas do Pai, já que não se revolta com aquilo que não entende e busca pacientemente a explicação junto à Santa Madre Igreja.

A mansidão nos prepara para o conhecimento de Deus, removendo-nos os impedimentos ao nos tornar senhores de nós mesmos, com a razão soberana à vontade e às paixões e iluminada pela fé, nos levando, assim, a nos submetermos à Verdade. “É próprio da mansidão não contradizer as palavras da Verdade, o que às vezes muitos fazem pela comoção da ira. Por isso, diz Santo Agostinho: ser humilde é não contradizer à divina Escritura, quer quando, entendendo-a, vemos que condena certos vícios nossos; quer quando não a entendemos, como se pudéssemos saber e mandar melhor que ela” (AQUINO, Santo Tomás: Suma Teológica – Primeira Parte da Segunda Parte. Porto Alegre: Sulina, 1980, p. 3175, Q. CLVII).

“Se a pessoa não dirige de modo algum toda a sua escolha às coisas visíveis e, por isso, não se encontra sujeita a nenhum sofrimento que lhe advenha ao corpo, então ela perdoa, verdadeira e impassivelmente, àqueles que pecam contra ela, uma vez que absolutamente ninguém pode por a mão no bem que ela busca com tanto zelo, pois o sabe inalienável por natureza” (MÁXIMO, São: Centúrias sobre a Caridade e Outros Escritos Espirituais. São Paulo: Landy, 2003. p. 146). Estes bens que a alma, já nos caminhos da santidade, busca com tranqüilidade e zelo, são os bens eternos, os quais ninguém pode nos privar senão nós mesmos. Se o homem faz caso de bens terrenos e passageiros, como glórias humanas, conforto e prazeres mundanos, se apegando a eles de tal forma a deixar de lado o Bem divino, se vierem a lhe faltar fica perturbado e inconsolável, irado contra os que o privou de tais bens e, por vezes, encolerizado para com Deus, chamando-O injusto por não ter mais aquilo a que tanto ama. Já o manso não tendo os bens temporais como objetivo, mas como meios dos quais pode se utilizar para chegar Àquele para quem foi criado, não tem nada disto como importante o bastante perto de seu Senhor, a quem tanto ama; não será neste mundo que terá sua plena felicidade, e se for privado de tudo, honras, prazeres, consolos, ainda lhe resta uma grande esperança; sabe que, junto de Cristo, tudo pode suportar e que um dia todo sofrimento acabará. Aí, então, na eternidade, possuirá todo o Bem que desejou, o qual neste mundo apenas vê como que em espelho, mas então verá face a face.

Bem-aventurados os mansos, pois estes possuirão a pátria celestial. A herança do manso é o repouso e a vida dos santos, onde reina a paz. “Cada reunião eucarística é para os cristãos esse lugar da soberania do rei da paz. A comunidade da Igreja de Jesus Cristo, que envolve todo o mundo, é então um pré-esboço da terra de amanhã, que deve tornar-se uma terra da paz de Jesus Cristo” (RATZINGER, Joseph – Bento XVI. Jesus de Nazaré: do Batismo do Jordão à Transfiguração. São Paulo: Planeta, 2007. p. 87).

Cristo pediu que deixassem vir a Ele as criancinhas, e falou aos discípulos: “se não voltardes a ser como meninos não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,3). Assim disse pois “as crianças caracterizam-se pela sua incapacidade de ódio, e vê-se nelas uma total inocência no que diz respeito aos vícios, e principalmente ao orgulho, que é o maior de todos. São simples e abandonam-se confiadamente” (Bíblia Sagrada – Santos Evangelhos. Edição da Universidade de Navarra. p. 317). É nas almas inocentes que Jesus Cristo estabelece sua morada, é aí onde o Senhor se deleita. Será tornando-nos almas inocentes, que não levam em conta o mal que lhe fazem e logo se reconcilia com o irmão, que seremos mansos. Nos caminhos da perfeição, os que se unem a Cristo têm uma só vontade com Ele, e compartilham integralmente sua doçura, não havendo lugar nenhum para o que não procede de Deus.

Para quem assim vive, buscando as coisas do alto, nem a maior injustiça é motivo suficiente para irar-se, pois sabe que a ira contra o irmão não procede a justiça divina e a afastará de Deus; antes oferecer a face esquerda a quem ferir a direita, que pecar. Nenhuma injúria é grande o bastante que valha perder o Bem Eterno por sua causa!

A regra de ouro para o manso será: “tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles” (Mt 7,12). Dizendo isto, Cristo indicou que o caminho não seria fácil, e continuou: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram” (Mt 7,13). E para provar-nos que não era algo impossível, Ele mesmo veio até nós e nos ensinou. Doce redentor, que enquanto sofre e está humilhado, perdoa os pecados do que os injuriam e oferece o Céu a quem se arrepende de sua iniqüidade.

E ainda assim, na maioria das vezes, tudo é difícil… Ou, parafraseando Santa Teresinha do Menino Jesus, deveríamos dizer que parece difícil, pois o jugo do Senhor é suave e leve (Cf. Mt 11,30). Por isso temos ainda mais uma fonte de consolo e auxílio, deixada por Cristo a todos os homens. Ele deu-nos uma mãe! “Ama a Senhora. E Ela te obterá graça abundante para venceres nesta luta quotidiana. – E de nada servirão ao maldito essas coisas perversas que sobem e sobem, fervendo dentro de ti, até quererem sufocar, com a sua podridão bem cheirosa, os grandes ideais, os mandamentos sublimes que o próprio Cristo pôs em teu coração. – «Serviam!»”(ESCRIVÁ, São Josemaria: Caminho. São Paulo: Quadrante, 1999. Ponto 493). Se estamos cansados e não encontramos saída no desespero, olhemos para Maria, ela nos retribuirá com seu piedoso olhar, e depois de todo este desterro, nos mostrará seu Filho, ajudando-nos a tornar nosso coração semelhante ao d’Ele, manso e humilde.

FILIPPI, Izabel Ribeiro. Apostolado Sociedade Católica: Teologia das Virtudes Ascéticas: A Mansidão. Disponível em: http://www.sociedadecatolica.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=239 desde 13/05/08

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