O ministério da direção espiritual (Parte IV)

Pe. Adair José Guimarães

3. Como surgem o orientador espiritual

A Igreja é a expressão viva do Corpo Místico de Cristo, onde a variedade de membros e de carismas revela o seu fenômeno humano e divino aos olhos do mundo. De direito divino, a Igreja não pode ser compreendida através dos esquemas sociológicos ou mesmo da ciência histórica; o seu significado está para além dos muros de suas aparências, incluindo aí as pessoas que a compõem. Ela é o Mistério de Cristo que subjaz aos esquemas de sua visibilidade material e humana.

Impulsionada pelo Espírito Santo, a Igreja Povo Deus, desejada e querida por Jesus, é o espaço e tempo onde os batizados fazem a experiência do Deus vivo, doador e protetor da vida. No interior dessa mesma Igreja o Divino Espírito suscita, segundo as necessidades, a diversidade de moções e carismas a serviço da santificação e do crescimento dos eleitos. O ministério da direção espiritual é também suscitado pelo mesmo Espírito para o bem das almas que buscam a perfeição nos caminhos do Senhor.

Um carisma no interior da Igreja é sempre confirmado pela comunidade. Quem possui o dom de curar, por exemplo, não precisa propagandear que o possui; as pessoas descobrem e vêm em busca. Tanto Jesus quanto os apóstolos não divulgavam seus carismas de cura e libertação, pelo contrário, Jesus até proibia que se falassem dos milagres; mesmo assim, estava sempre às voltas com as pessoas que desejavam obter dele os benefícios espirituais e corporais.

O mesmo sucede com as pessoas que possuem o dom de aconselhamento espiritual. Não precisa esconder o dom ou, ao contrário, divulga-lo a bom e alto som. Ele flui naturalmente. Como já aludimos antes, muitas pessoas são nomeadas para o ministério da direção espiritual sem possuir a unção própria deste serviço. Nem sempre funciona. Conheço sacerdotes que ao serem nomeados pelo bispo para a direção espiritual no seminário, simplesmente disseram não por não sentir nenhum chamado ou afeição a esse carisma. Conheço outros que ficaram assustados e se fizeram bons diretores, pois possuíam abertura para o carisma.

Pessoalmente, entendo que um bom diretor espiritual cresce aos pés da cruz e do sacrário. Uma profunda experiência de Deus, de Jesus crucificado e ressuscitado é a base fundamental para o ministro da direção espiritual. Antes de ensinar o caminho da escuta de Deus o diretor espiritual precisa ser alguém experiente na escuta a Deus; deve ser mestre na arte de orar.
Por ser um carisma, nem todos o possuem. Além de ser uma pessoa experiente no caminho da oração e da escuta, o diretor espiritual precisa, necessariamente, possuir o dom de escutar as pessoas e ser capaz de ajudar a quem dirige no caminho do aprofundamento da vida espiritual. Escutar com discernimento, saber separar o joio do trigo.

Geralmente a metodologia empregada na orientação espiritual se pauta nos seguintes pontos, de muito essenciais: a vida de caridade (comunidade), a vida de oração e aprofundamento da fé (liturgia, lectio divina e conhecimento da doutrina). O diretor espiritual deve fazer e refazer sempre, pessoalmente, o caminho da caridade e da vida espiritual. Ele mesmo precisa, de quando em vez, fazer a sua direção espiritual.

O certo é que a Igreja sempre foi carente de pessoas com o carisma do aconselhamento ou direção espiritual. Se você leigo acha difícil encontrar um diretor espiritual, muito mais os padres. Estes têm dificuldades de encontrar alguém, até mesmo dentro do clero, com capacidade de escuta e orientação. Acreditem, há muitos padres que sentem insegurança até para ouvir a confissão de um irmão sacerdote; quando é o bispo, a tensão fica ainda maior. O fato é que perdemos, com o passar dos tempos, o real significado da orientação espiritual. No modelo de Igreja de Cristandade, a pessoa era mais conduzida pela normas morais e a direção ficou mais circunscrita aos recintos dos conventos.

A Igreja do Concílio Vaticano II recuperou, grandemente, aspectos profundos da essencialidade da Igreja que haviam sido ofuscados pelo tempo e pelo próprio excesso de institucionalização da Igreja pós tridentina. Hoje caminhamos numa Igreja que avança no campo da melhor compreensão do humano. Evidente que nesse processo o Espírito Santo tem um campo mais aberto para agir nos corações e suscitar os carismas dos quais dependem o povo de Deus a caminho da pátria definitiva.

Creio firmemente que o dom da direção espiritual está sendo suscitado no interior de muitas experiências eclesiais do pós-concílio. Até nos meios da RCC e de outros movimentos têm despontando leigos com inegável capacidade de escuta que a muitos têm auxiliado na experiência de Deus.

Entendo que a direção espiritual é um serviço indispensável, pois a fé se expressa na dimensão comunitária e requer a presença do outro no auxílio solidário do amadurecimento da experiência de Deus. Por ser um ministério cansativo e de alto grau de responsabilidade, pois requer ética e discrição, muitas pessoas procuram abdicarem-se de exerce-lo. Quem o assume com amor e espírito de missão/serviço sente-se uma grande recompensa.

Nossa missão aqui é apenas procurar despertar nos leitores deste portal a importância desse ministério e, quem sabe, suscitar o dom adormecido no coração de muitos.

Fonte: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/517578

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