O ministério da direção espiritual (V Parte)

Por Pe. Adair José Guimarães

A diferença entre o diretor espiritual e o psicólogo

Ambos atuam no mesmo campo: o auxílio à pessoa humana. No entanto, a vertente e a finalidade são diferenciadas. O psicólogo procura auxiliar a pessoa na compreensão de si mesma e de seus traumas ou experiências significativas com o fim de melhorar a atuação da mesma dentro do universo que a cerca. O diretor espiritual, no mesmo processo de escuta, procura orientar a pessoa na experiência de Deus; evidentemente, sem esquecer todas as dimensões que compõem a grandeza de cada um.

O psicólogo não dá nada pronto. Com auxílio do terapeuta o cliente aprende a ler o significado de sua vida e suas condicionantes para redirecionar muitos aspectos de sua existência em busca da felicidade. O diretor espiritual, um pouco diferente do psicólogo, procura orientar a pessoa, exerce realmente um relacionamento de ensino, de orientação.

A direção espiritual jamais pode se confundir com uma sessão de terapia, pois fugiria por completo de sua finalidade precípua que é a orientação espiritual ou ajuda para melhorar o relacionamento com Deus.

Inegavelmente um bom diretor espiritual não pode ignorar a contribuição da ciência do comportamento, a psicologia, no processo de compreensão do humano e na sua orientação para Deus. Desta feita, requer-se do diretor espiritual pelo menos uma noção geral de psicologia. Em determinados momentos ou etapas da direção espiritual, o entreposto de alguns condicionamentos no caminho do crescimento requer noções de temperamentos e outras expressões do comportamento humano para se chegar a uma madura orientação.

Um exemplo fictício: apresenta-me um jovem seminarista que será meu dirigido espiritual por quatro anos, durante todo o período do curso de teologia. Eu sou de Goiás e ele é de uma diocese do nordeste. Depois de ordenado dificilmente nos encontraremos. Fomos trabalhando juntos sua direção espiritual. Muitos aspectos são revisados: a vida pessoal de oração, a vida comunitária, a espiritualidade do tempo litúrgico e a superação de alguns limites humanos, etc. Um dia, no início de agosto, véspera do dias dos pais, resolvo trabalhar com o ele o tema: “quem é Deus Pai para você, na sua vida de oração, etc?”.

Naquele dia descobrimos algo importante na vida dele: não possuía a imagem de Deus Pai. Ele se relacionava muito bem com Jesus, o Espírito Santo e possuía muito afeto pela Virgem Maria. Tive que usar de conhecimentos psicológicos para ajudar o jovem a resgatar a imagem perdida de pai. Não conhecera o pai terreno que havia morrido em situação estranha durante o período de sua gravidez. Sua mãe, por não gostar do pai dele, nunca lhe falou nada de bom do falecido. A ausência do pai lhe ofuscara o caminho de relacionamento com Deus Pai.

O recurso da psicologia, a volta com Jesus à sua infância, uma espécie de cura interior, possibilitou resgatar o verdadeiro sentido de uma espiritualidade sadia e libertadora que se dirige ao amor infinito de Deus Pai. Isso lhe auxiliou, mais tarde, como padre, a fazer as pessoas abrirem-se à misericórdia. Ele entendeu melhor a passagem do Filho Pródigo e teve forças para perdoar a mãe, pois sua avó, na agonia da morte, lhe contara que a mãe dele havia tramado a morte do se pai. Ainda mais, nem por isso perdeu seu afeto pela Mãe de Jesus, pois havia amadurecido sua espiritualidade a partir do momento que assumiu a vivência de um processo difícil que estava impedindo que o desaguadouro da graça inundasse de sentido o seu existir.

Seria bom que certos psicólogos não interferissem drasticamente na espiritualidade dos seus clientes, a ponto de deletá-la. Assim, alcançaríamos o nível da interação ou simbiose de duas dimensões que culminariam no equilíbrio da pessoa. Apenas os excessos anômalos seriam cortados. O mal reside sempre nos excessos que desanda a pessoa por caminhos que atravancam o processo de libertação.

Vejam que não é muito fácil exercer o serviço da direção espiritual. Não se trata apenas de dar receitas espirituais ou simplesmente ensinar a pessoa dirigida a rezar. O orientador espiritual precisa conhecer o todo da pessoa e saber identificar certas dificuldades do dirigido em progredir decorrentes de experiências negativas que podem atravancar os processos que conduzem a uma experiência razoável ou plena de Deus.

Fonte: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/517587

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