Personalidade e afetividade: independência e dependência

Por Michel Esparza 

É freqüente confundir a independência com a frieza do arrogante. Mas é errado. A verdadeira independência procede da liberdade interior e da capacidade de amar de modo desprendido, não da frieza. 

Regra geral, a idade e as experiências da vida ajudam-nos a vencer o medo do “que vão dizer de nós?” Percebemos pouco a pouco que os respeitos humanos reduzem a nossa liberdade e são sintomas de imaturidade. Além disso, por vezes as decepções fazem-nos ver que não vale a pena depender da opinião alheia: que temos de saber por nós mesmos o que valemos. Mas, como vimos, há pessoas que, para adquirirem essa maturidade, viram as costas aos outros porque pensam que só conseguem vencer essas dependências à força de desamor. No fundo, não se tornam verdadeiramente independentes, mas indiferentes.

É freqüente confundir a independência com a frieza do arrogante. Mas é errado. A verdadeira independência procede da liberdade interior e da capacidade de amar de modo desprendido, não da frieza. Não se trata de virar as costas aos outros, mas de aprender a não depender da estima alheia. Vejamos agora como o homem ideal desenvolve ao mesmo tempo uma grande personalidade, que o faz ser independente, e uma grande capacidade afetiva, que o faz ser dependente.

 

As energias do coração

O motor que nos impele a amar, a dar-nos, é o coração. Não devemos deixar-nos levar somente por ele – porque não somos apenas coração, mas também razão e vontade -; no entanto, convém que nos sirvamos de todos os seus recursos. “Estai atentos” – observa Antonio Machado -: “um coração solitário não é um coração1.

Se o coração transborda de afeto, desejamos ardentemente a felicidade dos que amamos e estamos dispostos a qualquer sacrifício para consegui-la. E se a conseguimos, a felicidade que lhes proporcionamos recompensa de longe o nosso sacrifício, já que, quanto maior é o afeto, maior é a felicidade de fazer feliz.

No homem virtuoso, coração e vontade apóiam-se mutuamente. Por um lado, sem carinho, os sacrifícios realizados para fazer o outro feliz tornam-se muito árduos; quando há carinho, a entrega à pessoa amada caminha às mil maravilhas. Por outro, o amante ideal é capaz de sacrificar-se com gosto, embora não tenha desejo de fazê-lo: ainda que o seu coração esteja fisiologicamente frio, a sua vontade inflama-lhe o coração.

Com efeito, “a perfeição moral consiste em que o homem não seja movido para o bem unicamente pela sua vontade, mas também pelo seu «coração»2. No homem virtuoso, com a passagem do tempo, a bondade impregna a inteligência, a vontade e o coração. Como afirma um filósofo, “uma boa formação do caráter é aquela que consiste em que chegue a dar-me prazer o que é bom e a desagradar-me o que é mau. Porque então será sinal de que a minha liberdade se vai sedimentando no meu corpo, de que a sensibilidade reta se vai entranhando na massa do meu sangue. Consigo assim superar a esquizofrenia, tão típica dos dias de hoje, entre o frio racionalismo que domina de segunda a sexta-feira, e a febre de dispersão que campeia no fim de semana. Vou conseguindo uma vida unitária, embora não unívoca nem monocórdica. Integro progressivamente na minha vida os bens que se encontram na base da minha personalidade. A poesia do coração vai penetrando na prosa da inteligência3.

O homem virtuoso consegue, pois, entrelaçar todos os seus recursos – inteligência, vontade e afetividade – a serviço do amor. A sua inteligência inspira-lhe boas intenções e a sua vontade, sustida pelo coração, põe-nas em prática.

É impressionante a bondade que um homem virtuoso é capaz de irradiar. Dir-se-ia que o afeto dá asas à vontade. “Tudo o que eu fiz na minha vida, em todos os terrenos, fi-lo movido pelo carinho“, dizia um renomado professor de medicina, admirado tanto pela sua ciência como pela santidade de sua vida 4.

Em muitas mães, podemos admirar essa mesma bondade inesgotável, nascida aliás da mesma fonte: “Admirável energia a do amor materno, santo reflexo do amor divino que para tudo encontra forças e nunca se cansa dos sacrifícios e fadigas mais insuportáveis!5, diz-se num romance. A capacidade de abnegação da mulher que se apóia nos seus recursos afetivos é admirável, e geralmente supera a do homem. Talvez sucumba superficialmente às pequenas contrariedades, mas perante uma grande dor costuma mostrar-se mais valorosa que o homem.

O coração é ao mesmo tempo forte e fraco. À primeira vista, a pessoa insensível parece mais forte, mas, com o andar do tempo, mostra-se menos perseverante na adversidade. Em contrapartida, o problema da pessoa sensível consiste em ser mais vulnerável no imediato; tem mais necessidade de ser querida, e isso expõe-na a maiores decepções. Se essa pessoa não conta com outros recursos, a sua fortaleza depende da medida em que se sinta querida.

Se, para completarmos o quadro, acrescentarmos a isso a irracionalidade que a sensibilidade pode trazer consigo quando exacerbada, entendemos melhor os problemas das pessoas sensíveis. Costumam dar mais importância a sentir-se queridas do que a saber-se queridas. Precisam de que o amor, o afeto, lhes entre pelos olhos. Por isso, às vezes, sofrem desnecessariamente: deixam-se levar pela imaginação, o que faz com que as suas decepções amorosas não tenham uma base real.

Originam-se assim não poucos mal-entendidos entre esposos. É mais fácil que uma mulher se convença do amor do seu marido se o vê chorar por ela, do que se o marido lhe desse explicações racionais. A causa deste receio de ser repelida pode estar, às vezes, em que a própria mulher duvida da sua capacidade de fazer-se amar, e é lógico que essa insegurança a leve a não confiar no amor do marido. Já o dizia Cícero: “Há pessoas que tornam mortificantes as amizades por pensarem que são desprezadas, coisa que raramente sucede senão aos que se têm a si mesmos por desprezíveis6.

Penso que se evitariam não poucos problemas matrimoniais se cada cônjuge aprendesse a pôr-se na pele do outro e, mais concretamente, se as esposas especialmente sensíveis aprendessem a dar mais importância ao saber que ao sentir, e os maridos especialmente viris aprendessem a ter um pouco mais de “mão esquerda“…

 

Afeto e desprendimento

Não há nada que nos faça tão dependentes, no melhor e no pior dos sentidos, como o amor. O carinho autêntico é desprendido, ao passo que o carinho barato é possessivo.

No fundo, o afã possessivo é uma forma de egoísmo. Vai desde o açambarcamento espiritual próprio do soberbo e do autoritário, que impõe à pessoa amada os seus gostos e caprichos, até o açambarcamento sexual próprio de quem a converte em mero objeto de prazer, passando pelo açambarcamento afetivo de quem necessita receber constantes elogios.

As atitudes afetivamente possessivas são próprias de pessoas centradas em si mesmas, absorventes e ciumentas. “Ele ama-me muito, tanto que às vezes me sufoca“, diz-se num romance 7. O amante possessivo pensa que tem direitos exclusivos sobre a pessoa amada: mais ou menos conscientemente, pretende açambarcá-la para si mesmo, coagi-la com a desculpa de um grande afeto. Muitas vezes, especialmente se se trata de uma pessoa sensível ou sentimental, não impõe a sua vontade pela arrogância – por exemplo por meio de cenas de ciúmes -, mas de censuras que parecem bem-intencionadas. Diz, por exemplo: “Como é que me fazes isto a mim, que te amo tanto?

Respeitar a liberdade alheia, não avassalar os outros, é uma arte. No casal ideal – costuma-se dizer -, ninguém manda: os dois obedecem. Este é um dos aspectos mais difíceis de conseguir. Sirva de ilustração esta passagem em que um escritor evoca a relação com a sua defunta esposa: “A nossa obra era uma empresa de dois sócios: um produzia e o outro administrava. Normal, não é verdade? Ela nunca se sentiu postergada por isso; pelo contrário, sempre teve habilidade de sobra para erigir-se em cabeça sem golpes de estado prévios. Declinava da aparência de autoridade, mas sabia exercê-la. Eu podia às vezes dar uma ordem em voz mais alta, mas, em última instância, ela era quem resolvia em cada caso o que convinha fazer ou deixar de fazer. Em todos os casais, existe um elemento ativo e outro passivo, um que executa e outro que se dobra. Eu, embora parecesse outra coisa, dobrava-me ao seu bom critério, aceitava a sua autoridade8.

O risco de que o amor se torne possessivo aumenta em função da sua intensidade. Daí a alta freqüência com que esse desvio se dá entre namorados ou entre mãe e filhos. Tudo o que se possa dizer sobre as virtudes das mães é pouco, mas, se não purificam o seu afeto, tendem a proteger os filhos com a ferocidade exclusivista de uma galinha choca. Em outros casos, esse egoísmo do coração dá lugar ao favoritismo; e não me refiro aqui a essa virtude das boas mães que sabem tratar desigualmente os filhos desiguais, mas à discriminação de alguns pais que beneficiam injustamente um filho preferido. Tanto em um caso como no outro, é um amor imperfeito que denota “uma espécie de auto-confirmação egocêntrica9.

De algum modo, esse afã possessivo do coração é compreensível. Lewis fala a este respeito da “terrível necessidade de ser necessário” que a afeição experimenta10. Esse amor desvirtuado procede do intenso desejo de a pessoa se sentir útil, de ser apreciada para assim ver confirmado o seu valor: se o seu afeto for desdenhado, duvidará de si mesma. Quem pede carinho não procura somente o que este tem de agradável, mas muito mais que se reconheça a sua dignidade como pessoa.

Para distinguir entre o que há de bom e de mau no coração, convém distinguir entre o coração ferido e o orgulho ferido. Quando uma pessoa muito querida me rejeita, pode acontecer que não me fira somente o coração, mas também o orgulho. Se só ferisse o meu coração, o meu desgosto seria legítimo; não geraria mágoas e, quando muito, far-me-ia chorar em silêncio. Mas o amor-próprio gera ofensa.

Há quem não se atreva a mostrar o seu afeto por medo de ser considerado kitsch, mas são mais freqüentes as pessoas que não se atrevem a manifestá-lo por pelo medo de serem repelidas. Preferem a segurança. Talvez sejam pessoas muito corretas e equilibradas, mas não querem aceitar que “amar sempre é ser vulnerável. Ame qualquer coisa, e o seu coração certamente doerá e talvez se parta. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, não deve entregá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. […] Evite qualquer envolvimento, guarde-o em segurança no esquife do seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sombrio, sem movimento, sem ar -, ele vai mudar. Não se partirá; tornar-se-á indestrutível, impenetrável, irredimível11.

Não há dúvida de que o afeto dificulta o desprendimento, mas sem o calor do carinho a vida torna-se desumana. No mundo do trabalho, por exemplo, a frieza de coração leva a descurar o fator humano, a dar mais importância às coisas – aos planos, às regras, ao rendimento -, do que às pessoas. Essa falta de humanidade também rouba autenticidade às relações familiares e sociais: sem afeto, a urbanidade degenera em formalismo. A cortesia e as boas maneiras só despertam agradecimento na medida em que são uma expressão sincera de afeto.

A paixão afetiva, enquanto tal, não é boa nem má. O coração é uma grande ajuda, mas, para que não nos atraiçoe, precisa de um corretivo espiritual. Em vez de reduzir o coração para evitar possíveis inconvenientes, é preciso purificá-lo, tirando-lhe a tendência para o afã possessivo. O lema poderia ser este: “sempre com o coração, mas nunca só com o coração!”

Trata-se, pois, de amar com um afeto ao mesmo tempo intenso e desprendido. Por um lado, o afeto dá asas à vontade e a leva ao sacrifício generoso; por outro, a consciência da própria dignidade liberta o coração do seu afã possessivo.

 

Sensíveis e fortes

O homem ideal é ao mesmo tempo terno e desprendido. Não é fácil conjugar esses dois aspectos. Na prática, a maioria das pessoas tem uma dessas qualidades à custa da outra. O mundo está cheio de pessoas afetuosas, mas excessivamente dependentes, ou independentes, mas pouco afetuosas.

Uma vez mais, só os santos conseguem conciliar os dois elementos. Só eles conseguem aumentar a sua capacidade afetiva e ao mesmo tempo dobrar o apegamento egoísmo egoísta e possessivo que envenena a afetividade. Só os que se parecem com Jesus Cristo conseguem conjugar o afeto mais intenso com o mais delicado respeito pela liberdade alheia. “Num homem cujo centro de resposta aos valores e ao amor superou vitoriosamente o orgulho e a concupiscência, a afetividade nunca será excessiva. Quanto maior e mais profunda for a capacidade afetiva, melhor12

Não sabendo como desenvolver um afeto intenso, mas isento de afã possessivo, uns são desprendidos, mas silenciam o coração; outros têm um grande coração, mas desrespeitam a liberdade alheia. Os primeiros tornam-se insensíveis e mostram-se indiferentes, ao passo que os segundos se tornam possessivos e se mostram susceptíveis. Os primeiros, por medo, atrofiam o coração; os segundos, pelo medo de perder a auto-estima, servem-se da chantagem afetiva para açambarcar aqueles que amam.

À vista do afã possessivo e da dependência que o afeto gera, não é de estranhar que alguns desconfiem sistematicamente do coração. Essas pessoas asfixiam-se por causa de necessidades afetivas insatisfeitas ou do afã possessivo alheio, e preferem resguardar-se. Como não conhecem uma solução, optam por reduzir o coração.

Mas a solução não consiste em abafar a afetividade. Se o coração se atrofia, perde-se uma grande fonte de energia. Na ausência de afeto, força-se a vontade, como se a perfeição moral estivesse reservada apenas aos que são capazes de realizar titânicos esforços de vontade. Aqui está um dos fatores que levam ao voluntarismo. O voluntarista põe tal acento na vontade que tende a menosprezar qualquer outro gênero de recursos, como são o coração, a inteligência e a graça. E, além disso, debate-se com um problema de falta de retidão de intenção: com freqüência, como a inspiração – e a fonte de energia – do voluntarista não mergulha as suas raízes no amor, acaba por fazê-lo no amor-próprio.

É evidente que, sem esforço, é impossível a luta cristã pela santidade. Mas trata-se de um heroísmo prazeroso. Todos os santos viveram as virtudes em grau heróico, mas sabem que a santidade, como perfeição de amor, não é o mesmo que a heroicidade. Todos os santos são heróicos, mas nem todos os heróis são santos. Tanto o santo como o herói realizam proezas, mas a motivação do herói não está isenta de certa vaidade.

O santo, porém, cônscio da sua dignidade de filho de Deus, purifica o amor-próprio e faz-se assim capaz de sacrificar-se desinteressadamente por Deus e pelos outros. Sabe que “Jesus não olha tanto para a grandeza das obras, nem mesmo para o seu grau de dificuldade, como para o amor com que se fazem13. Não precisa fazer obras boas para estar em paz consigo mesmo, já que o amor que recebe de Deus o reconcilia consigo mesmo. Como veremos mais adiante, intui que Jesus precisa de Cireneus – co-redentores que aliviem os seus padecimentos redentores – e, por isso, qualquer sacrifício, mesmo heróico, lhe parece pequeno, contanto que proporcione alegrias ao seu Senhor.

 

Conjugar dependência e independência

O coração é, pois, o motor; mas, como afirma Edith Stein, “o amor, para alcançar a sua perfeição, exige o dom recíproco das pessoas14 que é obra da vontade. Sem essa entrega mútua, tudo fica a meio do caminho. A união de amor pressupõe que ambas as pessoas sejam capazes de dar e de receber: a arte de amar não consiste somente na generosidade à hora de dar, mas também na humildade à hora de receber. Se alguém sabe dar, mas não sabe receber, o outro não pode dar.

Por outro lado, dar pode ser uma manifestação de auto-suficiência, e neste caso bloqueia a relação de amor. Com efeito, há pessoas que são serviçais, mas são-no por uma turva vontade de sentir-se superiores. Enquanto podem dar, vêem-se a si mesmas sob uma perspectiva lisonjeira. Têm necessidade de fazer favores para sentir-se importantes. Esse “egoísmo da doação” faz pensar no que dizia ironicamente Chateaubriand do seu amigo Joubert: “É um perfeito egoísta, porque só se ocupa dos outros…15.

Se o homem auto-suficiente sabe dar, não sabe dar-se. Parece ignorar que “o modo mais radical de dar é dar-se a si mesmo: possuir-se para dar-se à pessoa que nos o ama16. Porque o amor é entrega recíproca e livre do mais íntimo entre um eu e um tu. Uma das melhores definições que encontrei do amor verdadeiro exprime-o claramente: “Amar significa dar e receber o que não se pode comprar nem vender, mas apenas oferecer livre e reciprocamente17.

Portanto, o amor ideal dá-se entre pessoas independentes dispostas a fazer-se dependentes. Por exemplo, os esposos poderiam dizer um ao outro: “Num certo sentido, prescindo do que você pense de mim; mas, em outro sentido, morro de vontade de fazer você feliz“. À hora de amar, a pessoa ideal é dona de si mesma; não se deixa subjugar, mas ao mesmo tempo é capaz de entregar a sua liberdade, é capaz de contrair vínculos amorosos com plena liberdade interior. Amar é “não se pertencer, estar submetido venturosa e livremente, com a alma e o coração, a uma vontade alheia… e ao mesmo tempo própria18. Se aquele que ama não é soberano e senhor de si mesmo – quer dizer, se não tem liberdade interior -, entrega-se de modo servil, o que, afinal, não o satisfaz nem satisfaz a pessoa amada.

À medida que nos aperfeiçoamos, adquirimos essa liberdade interior que nos permite conjugar um grande sentido de independência com uma grande dependência das pessoas que amamos. Na personalidade ideal, conjugam-se elementos que à primeira vista parecem contraditórios: a pessoa tem a bondade de dizer que sim, embora tenha suficiente personalidade para dizer que não; consegue ser simultaneamente sensível e forte, dependente por causa dos laços criados pelo amor e independente graças ao orgulho santo de quem se sabe filho de Deus.

Instintivamente, essas pessoas realmente maduras atraem-nos. Causam-nos admiração justamente por serem ao mesmo tempo sensíveis e fortes. Num romance, uma personagem feminina afirma que, para amar um homem, tem necessidade de “vê-lo simultaneamente mais forte e mais fraco do que eu19. Com efeito, quando alguém assume a sua fraqueza, reconhece que precisa ser amado – mostra-se fraco -, e a fortaleza que recebe do outro proporciona-lhe uma segurança que o torna forte. Mas, se não a assume, por mais forte que seja, não se deixa amar, e assim acaba por se fazer fraco.

Bem se vê que não é fácil adquirir a personalidade ideal. É necessário evitar tanto as falsas dependências à custa da legítima independência, como as falsas independências à custa da legítima dependência. Uma falsa dependência denota servilismo: vemo-lo nessas pessoas inseguras que se mostram incapazes de dizer que não por medo de desagradar aos outros. E a falsa independência está aparentada com a auto-suficiência: vemo-lo nessas pessoas arrogantes que prescindem dos outros. A dependência servil adoece de falta de liberdade interior e o desejo de preservar a autonomia própria denota uma idéia errada de liberdade.

Na prática, é difícil evitar tanto a auto-suficiência como a vaidade. Só os santos o conseguem; experimentam o que diz São Paulo: Sendo livre de todos, fiz-me servo de todos (1 Cor 9, 19). Quanto a nós, mesmo que não consigamos atingir plenamente essa atitude, devemos no entanto mantê-la sempre diante dos olhos, como um norte para os nossos esforços. Por isso, examinemos agora como a verdadeira independência traz consigo liberdade interior e esta, por sua vez, mergulha as suas raízes na humilde consciência da própria dignidade.

 

Liberdade interior e humildade

Falamos atrás de liberdade interior, da importância de sermos donos de nós mesmos e capazes de entregar a nossa liberdade por amor. No fundo, a liberdade não é tanto um âmbito como uma capacidade de autodeterminação. Não sou livre apenas porque ninguém me obriga, mas sobretudo porque sou capaz de fazer as coisas porque quero: não é somente ausência de coação externa, mas também de uma certa coação interna pelo medo ou pela insegurança.

Uns, por falta de bondade, não sabem dizer que “sim“, ao passo que outros, por falta de personalidade, não sabem dizer que “não“. A pessoa ideal, porque sabe ser sempre ela mesma, é capaz de dizer tanto “sim” quanto “não“, conforme lhe pareça mais correto: sente-se livre por dentro mesmo quando as pessoas ou as circunstâncias a coagem por fora. Não é que faça sempre o que quer espontaneamente, mas faz o bem porque quer.

Liberdade é a capacidade de autodeterminação para ao bem, não por uma obrigação imperiosa, mas por amor. A pessoa verdadeiramente livre não se guia por um obsessivo sentido do dever – entendido erradamente como uma espécie de coação auto-imposta (“preciso fazer isto“, “tenho de fazer aquilo“) -, mas pela interiorização da virtude. Ao obedecer, por exemplo, não se submete apenas externamente, mas também de coração, porque o seu amor a leva a identificar a sua vontade com o mandato; a sua obediência, longe de ser servil, denota autodomínio.

Liberdade e necessidade nem sempre são realidades opostas: “É bem possível que a necessidade não seja o contrário da liberdade” – diz Lewis -, “e talvez o homem seja mais livre quando, em vez de ao invés de produzir motivos para a sua decisão, só é capaz de dizer: «Sou o que faço»20.

Esta liberdade interior é objeto de uma árdua conquista espiritual. Só pessoas generosas e verdadeiramente maduras contraem vínculos amorosos com plena liberdade interior. Para isso, não bastam as boas intenções; é necessária, além de bondade, uma boa dose de humilde consciência da própria dignidade. A liberdade interior pressupõe a maturidade característica de quem tem uma boa relação consigo mesmo. Somos capazes de entregar-nos livremente aos outros na medida em que somos donos de nós mesmos. Portanto, uma baixa auto-estima põe em perigo a qualidade do nosso amor.

Como veremos, só consegue a plena liberdade interior e maturidade espiritual e, em conseqüência, a liberdade interior quem se vê a si mesmo através dos olhos de Deus. Só quem se abandona nas mãos de Deus é que se sente realmente livre em face dos outros: permite-lhes julgá-lo como quiserem. Quem aprende a julgar-se a si mesmo como Deus o julga não tem necessidade de depender da opinião alheia: não perde a confiança em si mesmo, não tem medo de não atingir a “pontuação necessária” nem está ansioso por avaliar-se a cada instante.

 

(1) Antonio Machado, Canciones, n. LXVI, em José Pedro Manglano, Orar con poetas, 3ª. ed., Desclée de Brouwer, Bilbao, 2004, pág. 48.

(2) Catecismo da Igreja Católica, n. 1775.

(3) Alejandro Llano, La vida lograda, pág. 79.

(4) Eduardo Ortiz de Landázuri, professor catedrático de medicina, faleceu em 1985. Chamava a atenção pela sua humilde caridade para com os seus inúmeros pacientes e conhecidos. Em dezembro de 1998, teve início o seu processo de beatificação. Cfr. Esteban López-Escobar e Pedro Lozano, Eduardo Ortiz de Landázuri, Rialp, Madrid, 1994.

(5) Enrique Gil y Carrasco, El Señor de Bembibre, Rialp, Madrid, 1999, pág. 103.

(6) Cícero, De amicitia, XX.

(7) Carmen Martín Gaite, Lo raro es vivir, Anagrama, Barcelona, 1996, pág. 89.

(8) Miguel Delibes, Señora de rojo sobre fondo gris, Destino, Barcelona, 1991, págs. 41-42.

(9) Dietrich von Hildebrand, El corazón, Palabra, Madrid, 1997, pág. 129.

(10) C.S. Lewis, Os quatro amores, trad. de Paulo Salles, Martins Fontes, São Paulo, 2005, pág. 73. A expressão original é “Affection’s need to be needed”.

(11) C.S. Lewis, Os quatro amores, pág. 168.

(12) Dietrich von Hildebrand, El corazón, pág. 111.

(13) Santa Teresa de Lisieux, em José Pedro Manglano, Orar con Teresa de Lisieux, pág. 67.

(14) Edith Stein, Las más bellas páginas de Edith Stein, Monte Carmelo, Burgos, 1998, pág. 32.

(15) Citado em Carlos Pujol, Siete escritores conversos, Palabra, Madrid, 1994, pág. 31.

(16) Ricardo Yepes Stork e Javier Aranguren Echevarria, Fundamentos de Antropologia: um ideal de excelência humana, Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, São Paulo, 2005, pág. 200.

(17) João Paulo II, Carta às famílias, 02.02.1994, n. 11.

(18) São Josemaria Escrivá, Sulco, 2ª. ed., Quadrante, São Paulo, 2005, n. 797.

(19) André Maurois, El instinto de la felicidad, Planeta, Barcelona, 2001, pág. 93.

(20) C.S. Lewis, Surprised by joy, 28 ed., Harper Collins, 1977, pág.179.

 

Fonte: http://www.quadrante.com.br/Pages/servicos02.asp?id=362&categoria=Espiritualidade

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