Exigências da Fé

Por Dom Eugênio Sales

A autenticidade na vida e nas atitudes, é como o alicerce firme nas construções sólidas. O cristão que vive a sua Fé, nas diversas ocasiões de sua existência, contribui para a edificação da Igreja. A credibilidade com que esta se apresenta diante dos homens é, em parte, constituída pelas ações de seus filhos. Há um outro dever que desejo lembrar: ser sinal. O católico, reconhecido como tal, assume esse encargo e dele não se pode esquivar.

Dirijo-me aos que procuram realmente viver de modo autêntico e íntegro os ensinamentos de Cristo, não aos simples batizados e aos que apenas e ocasionalmente vão à Missa. Apresento, aos que querem ser membros conscientes e vivos, em toda extensão da palavra, alguns dados e levanto determinadas questões diante deste duplo dever: ser autêntico e ser sinal do Redentor. Aliás, esse é o único caminho que nos deixou o Cristo para sermos a Ele fiéis.

Examinemos, sob esse ângulo, a responsabilidade social. Depois, poderemos inquirir sobre a posição diante de doutrinas que hoje pululam.

Metade da população no Brasil sobrevive com até cinco salários mínimos por mês. Assim, 85 milhões de brasileiros pertencem às famílias que sobrevivem com essa renda mensal. Esta é uma das informações fornecidas pela pesquisa do orçamento familiar (POF 2002-2003) divulgada pelo IBGE. O total inclui 26.502.399 de brasileiros que sobrevivem sem rendimentos ou com rendimento inferior a dois salários mínimos por mês.

Não se trata de atribuir responsabilidades ao Governo ou às estruturas, mas de interrogar, diante de Deus, a própria consciência.

Certamente, não devemos ser ingênuos e pedir simplesmente uma distribuição, da qual resultariam mendigos em maior número, pelo estímulo à ociosidade. Devemos ir às raízes do mal. Não podemos deixar de refletir sobre a aplicação de grandes somas no supérfluo, por uma restrita parcela da população, quando, para nós cristãos, todos são filhos do mesmo Pai. Importâncias vultosas são despendidas unicamente em proveito próprio, na ostentação e no luxo. Busca-se uma afirmação pelo acidental e transitório, pelo que brilha e não, no valor pessoal.

Deve ser ressalvado o decoro social de uma classe, ou da Autoridade para melhor cumprir sua missão de servir. Entretanto, insisto no que chamo de escândalo e ofensa a um irmão pobre. Repetindo o que escrevi há muitos anos, ainda quando Arcebispo de Salvador: “o que o rico gasta em uma noite, em casas de diversões noturnas, corresponde ao salário mensal de um operário que deve sustentar sua família. E, pela madrugada, quando um se recolhe para dormir, o outro acorda para se encaminhar a um labor cotidiano. Nesta cidade, são milhares que, diariamente, repousam, após terem utilizado o dinheiro alheio, pois o supérfluo do abastado pertence ao pobre“.

Não é um mal, em si, ser rico. A condenação evangélica se caracteriza pelo uso que se faz dessa mesma riqueza. Há uma responsabilidade de quem possui haveres além de suas necessidades. Por exemplo, o aproveitamento de recursos excedentes para acelerar o progresso traz em seu seio um objetivo social, com novos empregos e o desenvolvimento do País.

Outra maneira, é realmente contribuir para instituições que, com boa técnica, ajudam a minorar os males da pobreza, especialmente se estimulam o esforço pela promoção pessoal. Ou, ainda, dar do seu tempo e de sua capacidade operativa para obras que se destinem ao bem comum.

O esbanjamento, sim, é uma injúria ao Cristo feita por quem O recebe na comunhão e ao qual pertence como membro do corpo Místico.

Que outros o façam, é lamentável. O cristão, entretanto, tem o dever de ser anúncio da Boa Nova e de ser autêntico. Caso contrário, faz uma obra demolidora da Igreja, diante da comunidade civil e religiosa a que pertence.

A importância de ser sinal é mais grave hoje, pela ampla difusão através dos meios de comunicação social, do estilo de vida em uma sociedade de consumo. Além disso, há um aspecto explosivo, pois leva até à massa empobrecida detalhes de um desperdício realmente ofensivo. E os exorbitantes gastos durante o Carnaval, além da licenciosidade que vemos pela televisão, são uma ofensa à população mais carente, bem como à família. Assim também a permissividade nos trajes, bem como a sua divulgação pela mídia, provoca uma reação que pode ser contida até certo limite, pela força, mas se constitui em uma permanente ameaça.

Já se manifestam entre nós os efeitos nefastos, creio eu, pelos crescentes atentados ao pudor. Reclamamos da Polícia, mas deveríamos, antes, repartir responsabilidades.

Mais do que estes crimes, temo a força provocada por essa ostentação. Poderia eclodir, desordenadamente, em determinadas circunstâncias.

Estes são argumentos humanos. Quem vive sua Fé, sabe que um dia comparecerá diante do Supremo Juiz. Diz o Senhor: “Todo aquele que der testemunho de Mim diante dos homens, também Eu darei testemunho dele diante do meu Pai. Aquele que Me negar, também eu o negarei” (Mt 10,32-33).

Tão grave como abandonar o nome de católico é professar, por atos, a doutrina contrária. Não ser Cristo onde se vive e se trabalha, especialmente onde se diverte, traz consigo graves conseqüências. Gastar o próprio dinheiro, egoisticamente, conflita com as normas sociais de uma Fé que é exigente.

Fonte: http://www.arquidiocese.org.br/paginas/v20052005.htm

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s