Valores morais e cristãos – Edificar a vida sobre a rocha(I)

Traduzimos esta carta do saudoso Pe. Marcial Maciel destinada aos Legionários de Cristo no encontro realizado na cidade de St. Louis, no período de 23 a 25 de maio de 1997. O texto completo foi dividido em dez partes a serem publicadas a cada semana. Há dez anos atrás, o chamado era o mesmo e os temas abordados remetem aos valores morais e evangélicos.

Seu texto afirma que ao início do cristianismo houve um punhado de homens e mulheres que creram na força transformadora dos valores do Evangelho e que souberam levá-los à vida penetrando desta maneira no mundo.

Boa leitura!

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Por Pe. Marcial Maciel, L.C.

 

Muito estimados em Cristo:

Antes de tudo desejo lhes enviar uma saudação muito cordial a todos e a cada um dos participantes deste encontro, agradecendo-lhes sua presença e de modo especial, seu apoio espiritual e suas orações. Dado que me é impossível dialogar pessoalmente com cada um de vocês, como desejaria, desejo ao menos por este meio epistolar, refletir com vocês sobre um tema que me parece especialmente importante na presente situação do mundo e da sociedade. Me refiro ao tema dos valores, dos valores humanos e cristãos.

Sou consciente de que é uma temática muito ampla e inclusive debatida na atualidade tanto a nível mundial como no contexto americano, e certamente não pretendo abarcá-la em toda sua extensão. Quero simplesmente oferecer algumas idéias em torno dos valores autênticos sobre os quais edificar uma vida digna de um ser humano e de um cristão.

Somente assim se poderá evitar que tudo o que ea vida se há construído com tanto afã e esforço não se desfaça estrondosamente, como por desgraça sucede na existência de muitas pessoas que não souberam edificá-la sobre a rocha firme dos valores humanos e evangélicos.

O Santo Padre sinalizou que «voltar a compreender o sentido último da vida e de seus valores fundamentais é a grande tarefa que se impõe hoje para a renovação da sociedade»; (Familiaris Consortio, 8). Por desgraça são muitos os homens e mulheres que vivem um profundo vazio existencial, que se encontram desorientados no que constitui o sentido de suas vidas. Possuem todo o necessário para conseguir o que o mundo considera a felicidade e, contudo são profundamente infelizes, pois perderam o rumo de seu existir e não sabem se apoiar em pontos sólidos e seguros.

Isto gera por contraste, em nossa geração atual, uma profunda «fome espiritual» que nada nem ninguém pode erradicar do coração humano. Assim o recordava um autor contemporâneo quando escrevia: «Ao meu parecer, o verdadeiro problema de nossa sociedade é a fome espiritual que nos leva a empreender atividades fúteis para satisfazer essa fome. Nos voltamos às drogas, ao dinheiro, ao prestígio, ao sexo o ao poder (que inclui o crime e a política) como substitutos num intento funesto de satisfazer esta fome».

O Dr. C.G. Jung atestou essencialmente o mesmo nuna carta que escreveu em 1961 sobre o álcool, na qual afirma: “Álcool em latim se diz spiritus, e se usa a mesma palavra para a mais elevada experiência religiosa como para o veneno mais depravador. Portanto, uma fórmula útil: spiritus contra spiritum“. O espiritual é o único meio verdadeiro para satisfazer a fome (Kim E. Light).

Edificar a vida sobre rocha

Lhes convido a reler a passagem do Evangelho que nos convida a construir sobre a rocha sólida da palavra de Jesus Cristo: «Todo aquele que escuta estas palavras minhas e as põe em prática é semelhante a um homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e se abateram sobre aquela casa. E ela não caiu porque estava edificada sobre a rocha. Todo aquele que escuta minhas palavras e não as põe em obra, é como um homem néscio que construiu sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e se abateram sobre aquela casa; esta caiu e sua ruína foi grande» (Mt 7, 24-27).

Edificar a vida sobre rocha. Desde a minha infância e primeira juventude foi esta uma de minhas maiores preocupações e um dos meus mais profundos desejos. Consciente de que a vida é uma e se vive uma só vez, não queria que o tempo de vida que Deus me haveria de dar passasse em vão edificando um edifício que logo haveria de desplomar por haver sido edificado sobre inconsistente areia movediça. A meditação destas palavras de Jesus Cristo me levou a buscar com todas minhas forças edificar minha vida sobre uma rocha firme, incomovível, capaz de atravessar a fronteira do tempo e ancorá-la na eternidade de Deus.

A vida é algo que nos foi dado. Nenhum homem ou mulher a pediu. Num bom dia se encontrou na terra, em meio a uma família, num determinado país, numa situação histórica concreta. Ninguém escolheu as circunstâncias de seu nascimento, como tampouco escolheu a cor do cabelo nem a dos olhos, nem a da pele, nem seu grau de coeficiente intelectual, nem a carga genética que lhe foi concedida. A vida a nós é dada, como um presente, como um dom magnífico e misterioso.

Quando uma pessoa se encontra com todos esses materiais para edificar a vida, a primeira coisa que tem que descobrir é o que fazer com eles. A tarefa primordial do homem é descobrir o sentido de sua vida. Quando nos vemos, como dizem alguns filósofos da existência, «projetados» para esta vida, a primeira pergunta que concebemos é a do porquê, o porquê da vida. Tem algum sentido a vida? Para onde caminho Quem me terá dado todos estes dons? Que quer que faça com eles?

Santo Agostinho expressa de modo magnífico sua busca pelo sentido de sua própria vida quando em seu livro As Confissões reconhece que  havia convertido para si mesmo numa grande pergunta: Factus eram ipsi mihi magna quaestio (l. 4, 4, 9). É a pergunta pela identidade e pelo fim. Se não conhecemos o fim, com dificuldade poderemos chegar a ele.

Porém se é relativamente fácil descobrir os fins imediatos de nosso atuar, não o é tanto assim achar a resposta do fim último de nossa existência. Se numa manhã fossemos à Quinta Avenida de Nova Iorque a perguntar às pessoas qual é o seu fim imediato, todos, ao menos os que estivessem em seu sadio juízo, saberiam nos responder. Alguns iriam investir na Bolsa, outros ao trabalho numa oficina. Outros simplemente às compras, à igreja de São Patrício, a passear no Central Park ou a visitar o Museu Metropolitano.

Todos saberiam dizer qual é o fim imediato de seu atuar. Porém, se em lugar de lhes perguntar pelo fim próximo, lhes disséssemos, assim de supetão, esta outra pergunta: “Por que você vive?“, ou “Qual é o sentido de sua vida?“, talvez nem todos teriam a resposta a mão. É possível que alguns nos dissessem que sua família, seu trabalho, ganhar dinheiro, ser feliz, porém outros encolheriam seus ombros e seguiriam seu caminho, nos mirando como a seres raros. Muitas pessoas chegam ao fim de sua existência sem haver realizado a primeira e fundamental tarefa que é descobrir o sentido da mesma. De muitos se poderia escrever este epitáfio: «Aqui jaz alguém que nunca supôs por que viveu».

Não parece ilógico viver sem saber por que? Lutar, se esforçar, levantar dia após dia para retornar e deitar pela noite, sem haver descoberto qual é o fim de tão frenética corrida, sem saber sequer se todos esses esforços valem a pena? Por que tantos esforços, tantos sacrifícios, por que suportar tantas contrariedades já que se desconhece o porque de tudo isso?

Não é tempo perdido o que se dedica a refletir sobre o sentido da vida, porque se a vida dele não carecesse, se fosse somente uma funesta casualidade, um erro da evolução, ou simplesmente o jogo de uns deuses aborrecidos que se divertem com as penalidades dos homens, então seriam inúteis todos nossos esforços de edificação e de construção. Então, não importaria que os ventos se abatessem contra a casa e a derrubassem.

Porém se a vida tem um sentido, se tem uma direção, se tem uma razão de ser, uma inteligibilidade, então é próprio do homem sábio e prudente se dedicar a descobrí-lo, pois a resposta a este porque determinará o como e o para que.

(Continua…)

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