Valores morais e cristãos – Os valores e sua classificação (IV)

Traduzimos esta carta do saudoso Pe. Marcial Maciel destinada aos Legionários de Cristo no encontro realizado na cidade de St. Louis, no período de 23 a 25 de maio de 1997. O texto completo foi dividido em dez partes a serem publicadas a cada semana. Há dez anos atrás, o chamado era o mesmo e os temas abordados remetem aos valores morais e evangélicos.

Por Pe. Marcial Maciel L.C.

Seu texto afirma que ao início do cristianismo houve um punhado de homens e mulheres que creram na força transformadora dos valores do Evangelho e que souberam levá-los à vida penetrando desta maneira no mundo.

Boa leitura!

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(Continuação...)

Temos que administrar a vida sabiamente no cumprimento da missão que Deus nos deu e para isso a temos que construir sobre a rocha de sólidos valores. Hoje se fala muito, e com razão, do vazio de valores, porém muitas vezes não se chega a compreender que no fundo esse vazio provém da ausência de Deus. Quando o homem perde a Deus, quando o desconhece como valor supremo, tampouco alcança a compreensão de que os valores nada são senão bens particulares que somente têm consistência em relação a Ele.

O sentido da vida e da missão enquadram assim o tema dos valores enquanto que estes são bens parciais que encontram em Deus, bem supremo, seu ponto de referência e seu fundamento final. Poderíamos definir os valores como os diversos bens objetivos aos quais o homem aspira e que o aperfeiçoam como tal.

Ainda que sem deter-me agora profundamente, posto que isso iria muito mais além do propósito desta conversação epistolar convosco, desejaria fazer uma breve referência ao debate em curso entre os moralistas e pensadores católicos sobre a conveniência do uso do termo valor. Efetivamente, não são poucos os que asseguram que o termo valor  é ajeno à grande tradição cristã e que seu uso implica a aceitação implícita de uma ética relativista. Em seu lugar propunham o retorno ao uso generalizado do termo virtude.

É certo que o abandono de um termo como o da virtude, tão arraigado na grande tradição filosófica e teológica da Igreja, seria lamentável e que devemos promover com força seu renovado uso. Porém, isso não implica deixar de lado o uso, também legítimo, do termo valor, se por ele entendemos, como nós o fazemos, um bem objetivo que a pessoa não cria por si mesma, senão que mais bem reconhece ou descobre na realidade.

O termo valor, assim entendido, evita o perigo do relativismo e ao mesmo tempo se recupera o uso de uma palavra que – se bem que sem dúvida, como tantas outras de tipo ético pode ser manipulada – penetrou já profundamente na cultura contemporânea.

O mesmo Santo Padre, em diversas encíclicas e discursos, tem mostrado como é possível dar a um dito termo um sentido apropriado, reivindicando deste modo o uso do termo valor dentro do âmbito da ética cristã.

Os valores se referem a todas ls dimensões humanas: à esfera sensitiva e biológica, à esfera econômica e social, à esfera propriamente espiritual, e à esfera moral e religiosa. Dado que estas dimensões, ainda sendo todas elas partes integrantes e constitutivas do homem, não o são de um mesmo modo, senão que há nelas uma ordem, é possível classificar os valores, hierarquizando-os segundo sua importância.

No nível inferior, se encontram os valores materiais, dons do Criador que há que serem recebidos com coração agradecido. O Pai sabe que de todos esses bens temos necessidade (cf. Mt 6. 32). Porém existe o risco de se atribular excessivamente para obtê-los, como se de eles dependesse exclusivamente a felicidade. Cristo admoestou com clareza aos seus sobre este perigo e numa sociedade como a nossa que tende ao consumismo, sempre é útil escutar a admoestação evangélica ao homem que se dedicou em acumular bens sem pensar na salvação de sua alma: «Nécio, esta noite te será pedida a alma. E tudo aquilo que hás acumulado, para quem será? Assim será de quem acumula tesouros para si e não se enriquece ante Deus» (Lc 12, 20-21). Apreciando em sua justa medida estes valores, temos sem dúvida de recordar que a felicidade não provém do possuir mais coisas, senão da bondade do coração, de uma consciência em paz consigo mesmo, com os demais e com Deus. Outro valor fundamental é o da vida humana desde sua concepção até sua morte.

A vida tem um caráter sagrado, e somente Deus, que a dado, detém o direito absoluto sobre ela. Há que se defender a vida nos momentos em que mostra mais desprotegida: a vida inocente que se desenvolve no seio materno, e a vida que se apaga por uma enfermidade grave ou de modo natural. A Igreja tem empenhado toda sua força moral e espiritual na defesa do valor da vida humana, combatendo energicamente o aborto e a eutanásia como crimes abomináveis contra a humanidade.

Sei que muitos dos participantes neste encuentro estão comprometidos pessoalmente na luta em favor da vida. Os animo a seguir com espírito firme nesta batalha para que as autoridades civis e a sociedade inteira reconheçam este valor fundamental, que é ao mesmo tempo um direito inalienável da pessoa humana, cuja negação é um sinal de barbárie e de perfídia do sentido da sacralidade e da dignidade do ser humano.

Porém recordem que a mudança que se possa produzir na legislação, sempre há de vir precedida e será conseqüência da mudança do coração e da consciência dos homens. Os valores biológicos e psicológicos se referem à perfeição do corpo e da mente. Um valor humano induvidável é o cuidado prudente da própria saúde corporal.

O corpo é um grande dom que Deus nos deu e não o podemos menosprezar. Tamiém é importante para o homem a higiene mental, buscando uma vida equilibrada, aonde não falte o exercício corporal, e se favoreça a sã psicologia, seguindo aquele ideal clássico de mens sana in corpore sano.

Os valores da inteligência (a claridade e profundidade de pensamento, a penetração intelectual, a força rigorosa na argumentação lógica, a busca sincera da verdade, etc.) aperfeiçoam o homem enquanto ser dotado de razão. Os valores da vontade (a força e solidez de caráter, o domínio das paixões e instintos, a constância nas determinações e propósitos, a energia na decisão, etc.) desempenham um papel determinante na construção do homem maduro e responsável. Os valores estéticos
ou artísticos nos ajudam a captar a beleza ou a produzi-la por meio de obras de arte.

Seguindo a ascensão nesta escala se encontram os valores morais. O valor moral aperfeiçoa o homem não  somente numa de suas faculdades, senão à pessoa como um todo. É aquele que tem que ver diretamente com a bondade ou a maldade dos atos humanos. O valor moral está estreitamente relacionado com a virtude, termo, como havemos dito, usado pela grande tradição cristã e que conserva na atualidade toda sua validade. Sem dúvida, há uma pequena diferença de matizes entre virtudes e valores.

A virtude é um hábito pelo qual o homem orienta seu comportamento de modo constante e fiel até a realização do bem. Além do que, os valores são os bens objetivos até os que tende ao homem virtuoso. Por isso, se pode dizer que quem pratica a virtude busca e realiza em sua vida os valores morais.

Os valores morais englobam uma ampla gama de atitudes que regulam o comportamento da pessoa em relação a si mesma: a responsabilidade, a laboriosidade, a autenticidade e a coêrencia de vida, a sinceridade, etc. ou em relação as demais: a amizade, a amabilidade, a compreensão, a paciência, a capacidade de trato e de relações humanas, o cavalherismo, a gratidão, os bons modos, a nobreza e fidelidade à palavra dada, a compaixão, a gratidão, o perdão, a magnanimidade, a hospitalidade e a acolhida, a nobreza de caráter, a busca do bem comum, a responsabilidade social, a justiça, a solidariedade, etc.

Uma importância especial assumem em nosso tempo os valores familiares, porque a família é antes de tudo escola dos valores mais genuínos e autênticos. Falamos da família fundada sobre a aliança matrimonial, una e indissolúvel, do varão e da mulher, que se abre com gratidão ao dom dos filhos, como o fruto mais precioso do dom sincero de si que fazem os esposos. A família assim entendida constitui uma verdadeira comunhão de pessoas, cujo princípio interior, sua força permanente e sua última meta é o amor. Este é o único modelo de família cristã. Os outros modelos, que por desgraça querem tratar em impor com crescente força numa sociedade permissivista como a atual, não são conformes à lei natural nem à evangélica. Para eles, a Igreja os há reprovado sempre com o máximo vigor.

Dentro da família, o ser humano recebe a vida como um dom que lhe é dado de modo gratuito, aprende a amar e a ser amado, a compreender e ser compreendido, a ajudar e ser ajudado. A relação de amor e de amizade que se instala entre os esposos, e entre estes com os filhos, vai criando todo um clima propício para o desenvolvimento da personalidade, para o amadurecimento humano e cristão. Por isso, João Paulo II afirma na encíclica Familiaris Consortio que a família é «um bem precioso» para a humanidade e para a Igreja (n. 3), cuja grande tarefa é a de custodiar, revelar e comunicar o amor. A família está essencialmente orientada até o amor recíproco das pessoas, até o dom sincero de si mesmos, superando os egoísmos e os pontos de vista pessoais.

Por esse valor, se define a família como «comunhão de pessoas»; uma comunhão que é indissolúvel no amor esponsal, que se sustém na mútua fidelidade conjugal e que está posta ao serviço da vida segundo os desígnios de Deus. Por desgraça, os numerosos ataques de que é objeto a instituição familiar em nossos dias têm causado a desagregação de muitas famílias com os sofrimentos morais tão profundos que isso implica para seus membros. São propostos novos modelos substitutivos da família ou inclusive alguns irão agorar sua desaparição.

É preciso, hoje mais que nunca, defender a unidade e a beleza da família, como um valor precioso para a sociedade e para os indivíduos. A defesa da família há de ser feita antes de tudo através do testemunho de famílias unidas, onde se viva a autêntica comunhão, se apreciem os autênticos valores humanos e cristãos, os esposos se amem sacrificada e fielmente, e todos os membros se nutram de um mesmo amor. Deste modo, as famílias serão escolas vivas de valores onde se forjem os homens e cristãos maduros de amanhã. Tudo o que se faça em favor das famílias será pouco, pois elas são as colunas que fundamentam essa civilização do amor da qual falava o Papa Paulo VI.

Finalmente, no topo da escala de valores, encontramos os valores religiosos que concernem e regulam as relações do homem com Deus, o fundamento de todos os demais valores.

(Continua…)

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