Valores morais e cristãos – Os valores cristãos e Jesus Cristo (V)

Por Pe. Marcial Maciel L.C.

Todos os valores sobre os quais temos falado têm sido elevados e transformados por Jesus Cristo. Com a chegada de Cristo, os valores humanos são afetados, se elevando e transformando, na ordem da redenção. O cristianismo não suprime nem menospreza os valores humanos, senão que lhes dá uma nova orientação, um novo espírito, uma nova inspiração. Surgem assim, os valores cristãos que Cristo nos deixou consignados em sua mensagem evangélica. Talvez sua melhor síntese sejam as bem-aventuranças que nos apresentam uma radiografia do que deveria ser o coração do homem evangélico: a pobreza de espírito, a mansidão, a misericórdia, a pureza de coração, a busca da paz e da justiça, a paciência defronte à perseguição.

Junto as bem-aventuranças, os Evangelhos sublinham também a importância de algumas atitudes que Cristo exige de seus discípulos: a fé, a confiança absoluta na Providência, a humildade, a simplicidade, a capacidade de levar a própria cruz, a abnegação, o perdão dos inimigos e, sobretudo, o amor mútuo que é o distintivo que caracterizará a qualquer um que deseje seguir-Lhe e que Jesus propõe em forma de um «mandamento novo» que substitui à multiplicidade de mandamentos da antiga lei (Jn 13, 34).

A vinda de Cristo ao mundo, operou neste a maior revolução que jamais se havia imaginado: revolução pacífica do Evangelho que modifica o homem internamente, purificando-o do pecado e abrindo sua alma à ação transformadora do amor e da graça. Cristo não somente sanou o homem da ferida do pecado original, senão elevou todo o humano a um nível superior. Por isso, podemos dizer verdadeiramente, seguindo a grande tradição cristã, que a graça não suprime, senão que aperfeiçoa e leva a sua plenitude à natureza.

Creio que o melhor modo de considerar os valores cristãos é vê-los refletidos na pessoa mesma de Jesus Cristo. A contemplação de sua personalidade é fonte de perenes graças para nossa vida. O Evangelho nos apresenta a Cristo num ato de contínua doação de si mesmo ao Pai e aos homens. Jesus Cristo vive em perene atitude de serviço (Mt 20, 28). O que Lhe preocupa por acima de tudo é realizar sempre o querer supremo do Pai (Jn 4, 34), agradar-Lhe em tudo (Jn 8, 29). E para tal, não Lhe perturba nem inquieta a opinião dos homens (Mt 22, 15).

Porém, o fato de viver sempre pendente das coisas do Pai (Lc 2, 49) não Lhe impede de apreciar as realidades criadas em todo seu valor: a beleza dos passarinhos do céu, as flores dos campos (Mt 6, 26-28), a majestade dos montes solitários aonde se dirige para orar (Mc 1, 35; 9. 2), a solidão do deserto onde foi tentado. É também sumamente sensível, diante das realidades que tocam a vida dos homens. Quer participar do gozo dos esposos, santificando o matrimônio, com sua presença nas bodas de Caná. Aprecia a amizade que Lhe oferecem Lázaro e suas irmãs (Lc 10, 38). Se comove diante a dor da viúva que perdeu seu filho (Lc 7, 13), ou diante do abandono do homem que havia caído nas mãos de ladrões e a quem ninguém ajuda (Lc 10, 25-37).

Observa o desespero do paralítico que não tem ninguém que o leve à água da piscina de Betesda para ser curado (Jn 5, 6). Se admira muitíssimo da fé da mãe cananéia que deseja ardentemente a cura de sua filha (Mt 15, 28). Lhe dói a desorientação das multidões que caminham como ovelhas sem pastor (Mt 9, 36). Se compadece da vergonha da mulher surpreendida em flagrante adultério (Jn 8, 1-11). Lhe enche de gozo a alma o desejo de conversão e de renovação interior de Zaqueu (Lc 19, 1-10).

Jesus Cristo é um apaixonado do homem. Lhe interessa o humano porque veio resgatar o homem do pecado e mostrar-lhe o caminho seguro de sua salvação. Cristo sabe que nem todos os valores são iguais e para tal, não teme exigir a renúncia de alguns deles para alcançar outros superiores. Aprecia o valor das riquezas, porém sabe que a verdadeira riqueza é Deus e por Ele pede a seus discípulos a pobreza de coração.

Tem em grande conta o matrimônio, porém sabe que Deus pode chamar a alguns homens a viver exclusivamente para o Reino dos Céus e a eles lhes propõe o carisma da consagração virginal. Estima muito o valor do corpo, porém ao mesmo tempo designa à alma um maior valor: «Não tenhas medo dos que matam o corpo e não podem matar a alma. Temei mais a quem pode lançar a alma e o corpo na geena» (Mt 10, 28).

Surgem assim os paradoxos evangélicos do morrer para viver (Jn 12, 24), de servir para reinar (Mt 20, 27-28), de humilhar-se para ser o maior no Reino dos Céus (Mt 18, 4). São paradoxos que se esclarecem ao considerá-los à luz dos valores supremos: morrer para si para viver em Deus; servir aos homens para reinar no Céu; humilhar-se na terra para ser grande aos olhos de Deus.

Jesus Cristo sabe que se exige a renúncia a bens transitórios é para poder obter os eternos.

Ele é o homem perfeito e nos revela o ideal da perfeição humana. Quando Pilatos, depois haver mandado açoitá-Lo, pronuncia diante da multidão as palavras: “Ecce homo!”, não sabia que na realidade estava apresentando diante da História o homem perfeito, aquele que, como nenhum outro, encontrou o sentido mais profundo de sua existência na entrega oblativa de sua vida ao Pai por amor à humanidade, e em quem todos os valores encontram sua plenitude e sua consumação.

Ele é o homem maduro que luta para alcançar seu ideal, movido por uma consciência totalmente lúcida do porquê de sua existência. Esta percepção tão profunda e tão clara do sentido de sua vida, fez que vivesse a todo instante atado à missão. Sabia que havia vindo a este mundo para realizar a redenção e não perdeu nunca o sentido do essencial. Par tal, quando deu cumprimento na cruz à obra para a qual o Pai o havia enviado, apesar de ter sido  considerado pelos homens como um fracasso ou um iludido, Cristo se reconhece triunfante porque cumpriu com perfeição a sua missão, viveu com total plenitude o sentido de sua existência.

Esta contínua tensão que se percebe em sua vida, na ordem do cumprimento de sua missão, nos apresenta a Jesus Cristo como alguém que não toma a vida por pouco, senão que se compromete profundamente com ela. Passou sua vida fazendo o bem (Hch 10, 38) e servendo à Verdade (Jn 18, 37), amando ao Pai e aos homens. Ele é o homem por antonomásia em quem todos os valores alcançam seu cume. Basta contemplar a profundidade e clarividência de sua inteligência, a consistência e a força de seu caráter, o equilíbrio perfeito de sua vida passional, emotiva e afetiva.

Ele é o homem de princípios, coerente com os mesmos, fiel à sua palavra, amigo de seus amigos e inimigos, homem de uma só peça. Ele sabe resistir as dificuldades inerentes à vida humana: não se desespera diante do fracasso, nem se abate diante o sofrimento; sabe dar sentido a dor, sobrepôe-se à angústia, não se arreda diante da incompreensão, não se deixa vencer pela fadiga. Nasceu por amor, viveu amando e morreu sem deixar de amar: «havendo amado aos seus, os amou até o fim» (Jn 13, 1). Não temos outro modelo melhor nem mais perfeito que o de Jesus Cristo para dar sentido pleno à vida, para enchê-la de valores, para vivê-la em plenitude.

(Continua…)

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