Considerações de Santo Afonso de Ligório – Vaidade do mundo (III)

Considerações de Santo Afonso de Ligório, sobre a Preparação para a Morte.

Consideração XIII – Vaidade do mundo (III)

Traduzido por Celso de Alencar

 

“Quid prodest homini si mundum universum lucretur, animae vero suae

detrimentum patiatur?”

 

Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder sua alma?

(Mt 16,26)

 

PONTO III

 “O tempo é breve… os que se servem do mundo, sejam como se dele não se servissem, porque a figura deste mundo passa…” (1Cor 7,31). Que é com efeito nossa vida temporal senão uma cena que passa e se acaba logo? “Passa a figura deste mundo“, quer dizer, a aparência, a cena de comédia. “O mundo é como um teatro…” – diz Cornélio a Lápide – “…desaparece uma geração e outra lhe sucede. Quem representou o papel de rei, não levará consigo a púrpura… Dize-me, ó cidade, ó casa, quantos donos tiveste? Quando acaba a peça, o rei deixa de ser rei, o Senhor deixa de ser senhor. Possuis agora essa quinta ou palácio; mas virá a morte e outros passarão a ser donos de tudo“.

A hora da morte faz esquecer todas as grandezas, honras e vaidades do mundo” (Ecl 11,29). Casimiro, rei da Polônia, morreu de repente, quando, achando-se à mesa com grandes do reino, levava aos lábios a taça para beber. Rapidamente acabou para ele a cena do mundo… O imperador Celso foi assassinado oito dias depois de ter sido elevado ao trono, e assim acabou para Celso a peça da vida. Ladislau, rei da Boêmia, jovem de dezoito anos, esperava a sua esposa, filha do rei da França, e lhe preparava grandes festejos, quando certa manhã o acometeu dor veementíssima da qual caiu fulminado. Expediram-se imediatamente correios, advertindo a esposa que voltasse para a França, porque para Ladislau o drama do mundo já tinha acabado… Este pensamento da vaidade do mundo fez santo a Francisco de Borja que (como em outro lugar dissemos), ao ver o cadáver da imperatriz Isabel, falecida no meio das grandezas e na flor da idade, resolveu entregar-se inteiramente a Deus, dizendo: “Assim acabam as grandezas e coroas do mundo?… Não quero servir a senhor que me possa ser roubado pela morte“.

Procuremos, pois, viver de maneira que à hora de nossa morte não se nos possa dizer o que se disse ao néscio mencionado no Evangelho: “Insensato, nesta noite hão de exigir de ti a entrega de tua alma; e as coisas que juntaste, para quem serão?” (Lc 12,20). E logo acrescenta São Lucas: “Assim é que sucede a quem enriquece para si, e não é rico aos olhos de Deus” (Lc 12,21). Mais adiante se diz: “Procurai entesourar para o céu, onde não chegam os ladrões nem rói a traça” (Mt 6,20); ou seja, procurai enriquecer, não com os bens do mundo, senão de Deus, com virtudes e merecimentos que estarão convosco eternamente no céu. Façamos, pois, todo o esforço para adquirir o grande tesouro do amor divino. “Que possui o rico, se não tem caridade? E se o pobre tem caridade, que não possui?” – diz Santo Agostinho. – “Quem possui todas as riquezas, mas não possui a Deus, é o mais pobre do mundo. Mas o pobre que possui a Deus possui tudo… E quem é que possui a Deus? Aquele que o ama. “Quem permanece na caridade, em Deus permanece, e Deus nele” (Mt 4,16).

 

Afetos e Súplicas

Meu Deus, não quero que o demônio volte a reinar na minha alma, mas que vós sejais meu único dono e senhor… Quero renunciar a tudo para alcançar vossa graça, que prefiro a mil coroas e mil reinos. E a quem deveria amar senão a vós, amabilidade infinita, bem infinito, beleza, bondade, amor infinitos? Na vida passada, enjeitei-vos pelas criaturas e isto será sempre para mim profunda dor que me atravessará o coração por vos ter ofendido, que tanto me tendes amado. Mas já que me haveis atraído com vossa graça, espero que não hei de ver-me privado novamente de vosso amor. Tomai, ó meu Amor, toda a minha vontade e tudo o que me pertence e fazei de mim o que vos aprouver. Peço-vos perdão por minhas culpas e desordens passadas. Nunca mais me queixarei das disposições da vossa providência, porque sei que todas elas são santas e ordenadas para meu bem. Fazei, pois, meu Deus, o que quiserdes, e eu vos prometo aceitar com alegria, e dar-vos graças… Fazei que vos ame, e nada mais pedirei… Basta de riquezas, basta de honras, basta de mundo. A meu Deus, só a meu Deus quero. E vós, bem-aventurada Virgem Maria, modelo de amor a Deus, alcançai-me que, ao menos no resto de minha vida, vos acompanhe nesse amor. É em vós, Senhora, que confio“.

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