Valores morais e cristãos – A maturidade integral (VI)

Por Pe. Marcial Maciel L.C.

A. Maturidade humana e cristã

Quem, como Cristo, busca realizar em sua vida os valores segundo a devida hierarquia é uma pessoa madura. O homem maduro guia sua conduta pela razão e pelos critérios de fé; orienta sua vontade até o bem; sabe se relacionar com os demais de modo altruísta e generoso. Possui um claro projeto de vida e se entrega com decisão, a exemplo de Cristo, a sua realização; um homem que sabe o que quer e luta por conseguí-lo; um homem que tem dado a sua vida um sentido trascendente e que a concebe como uma missão; um homem que persegue um ideal verdadeiro e que se esforça por alcançá-lo sem vacilações nem subterfúgios; um homem de princípios claros, seguros e firmes; um homem que é coerente e fiel as suas próprias convicções, que usa sua liberdade de modo responsável; um homem reflexivo, rico em interioridade e sabedoria.

Uma pessoa madura se reconhece pela perfeita harmonia que reina em suas faculdades. A maturidade humana dá como resultado o que chamamos o homem cabal. Aqueles que lograram em harmonizar os diversos aspectos que compõem suas personalidades, nos surpreendem e maravilham por esse senhorio que possuem sobre si mesmos, pela simplicidade com que se dão aos demais e por sua coerência de vida. Têm sabido direcionar todas as forças de seu ser até um ideal superior. São pessoas ardentemente apaixonadas que têm sabido por toda sua riqueza emotiva e afetiva ao serviço do bem e da verdade, e que portanto exercem ao máximo sua capacidade de livre arbítrio.

O homem maduro é, como diz uma popular canção italiana, l’impero dell’armonia («o império da harmonia»), um ser que despreende paz, serenidade, energia, plenitude, gozo e entusiasmo pela vida, pelo bem e pela verdade. Um homem assim construiu sua vida sobre rocha. É claro, sem dúvida, que a maturidade não é sinônimo de total perfeição, a qual é impossível nesta terra. O homem maduro não carece de limites, porém os aceita, procurando sempre superá-los na medida de suas possibilidades.

O cristão maduro é aquele que, sobre a base dos valores humanos, vive os valores evangélicos. São Paulo chama a este tipo de homem, regenerado pela graça de Cristo, o homem novo (Ef 4, 24). Este homem, que nasce de novo no Espírito Santo (Jn 3, 5) é plenamente maduro porque vive segundo Cristo, o homem perfeito, revestindo-se d’Ele em seu ser e em suas obras, de tal modo que pode repetir com São Paulo: «Já não sou eu, é Cristo quem vive em mim» (Ga 2, 20). O homem novo vive da fé (Rm 3, 26) e da esperança; goza da liberdade gloriosa dos filhos de Deus (R 8, 21), se nutre da verdade do Evangelho, e tem por máxima lei a caridade (Rm 13, 8).

O cristão maduro é o santo que segue a Cristo pelo trilha da cruz para chegar, junto com Ele, à glória da resurreição. A maturidade cristã tampouco está totalmente isenta do pecado e da imperfeição, porém o cristão maduro, longe de fazer um pacto com o mal que todavia pode dominá-lo, procura viver em atitude de vigilância e de combate espiritual, aproveitando com humildade suas faltas para confiar mais em Deus e na ação da graça em sua alma.

Em contraposição ao homem maduro se encontra o homem superficial, que carece de princípios, que simplesmente vive o dia, sem um projeto de vida e sem ideal, que não sabe nem por que nem para que vive. A norma do seu atuar não é a convicção, senão a conveniência, o prazer do momento ou a emoção mais forte. Este tipo de homem se guia por um pensamento débil, de onde tudo é verdade e mentira ao mesmo tempo, tudo é relativo. Nada há de absoluto: nem normas morais, nem princípios, nem convicções. Tudo lhe é permitido contanto que satisfaça as suas tendências. É um homem dominado pela busca constante de novas sensações, do prazer e do sexo a todo custo, pela fuga da realidade e do compromisso moral e espiritual; porém vazio por dentro, sem valores sólidos, sem sentido na vida. É um ser amorfo, que vive de flor em flor: construíu sua vida sobre areia movediça.

Igualmente o cristão imaturo é quem vive na inconsciência ou na indiferença o precioso tesouro de sua fé e todas as riquezas que se derivam de seu ser cristão. Muitos são por desgraça os cristãos que o são somente de nome, pelo fato de haverem sido um dia batizados, porém não têm penetrado nas riquezas imensas do que isso implica para sua vida e que assim, vivem na miséria espiritual quando teriam todas as possibilidades para serem imensamente ricos graças à ação santificante do Espírito Santo e a sua inserção na vida de Cristo e de sua Igreja.

B. A formação da consciência

Parte imprescindível da maturidade integral da perssoa é a formação da consciência, esse sacrário de onde o homem se encontra à sós consigo mesmo e com Deus, e de onde descobre a lei imperiosa de realizar o bem e de evitar o mal. A consciência há de ser formada segundo os princípios da reta razão e da fé. Esta formação assume em nossos dias uma importância especial porque a cultura relativista que penetra por todos os lados, sobretudo através dos meios de comunicação social, faz mais difícil o juízo moral reto e objetivo. Na confusão dos valores morais em que vivemos, é necessário – mais que nunca – iluminá-la com os critérios do Evangelho, do Magistério da Igreja, das pessoas prudentes, para poder emitir juízos morais acertados. A consciência se forma sendo continuamente fiel aos seus ditames, sem permitir pequenas concessões que vão pouco a pouco debilitando a força de sua voz até fazê-la desaparecer. O homem coerente e autêntico é fiel à voz de sua consciência e, quando por debilidade não o é, sabe reconhecer com humildade seu erro e corrigir a rota.

A consciência bem formada assegura o verdadeiro exercício da liberdade. O homem é mais livre quando com maior força se adere ao bem e a verdade, e supera a tentação do egoísmo ou da mentira. A verdade nos faz livres (Jn 8, 32). Uma liberdade governada pela verdade e pelo bem é uma liberdade aberta ao valor moral, aberta a dignidade da pessoa humana, aberta a Dios em última instância. A tarefa da formação da consciência é particularmente importante hoje em dia no campo da ética familiar, social e professional. Nestes âmbitos, às vezes as paixões humanas ou as situações complexas tornam difícil um juízo moral acertado.

O Magistério da Igreja, através de importantes documentos pontifícios, vem iluminando a consciência dos fiéis cristãos e dos homens de boa vontade. Lhes aconselho que leiam e estudem atentamente estes escritos para que possam formar critérios morais seguros em seu atuar matrimonial, familiar, profissional e social. Naturalmente que existem casos concretos nos quais não é fácil emitir um juízo de consciência. Nestas situações, há de se recorrer ao exercício da virtude da prudência, ao conselho de pessoas competentes, plenas de sabedoria humana e cristã e à oração humilde e confiada ao Espírito Santo.

Encontramos um exemplo eloqüente de maturidade integral na pessoa do Papa João Paulo II. Todos aqueles que tiveram a graça de um contato direto com ele, ficaram admirados por sua personalidade tão completa e integrada. É um homem sumamente cordial; de uma grande empatia afetiva; se intui nele um caráter reto e sólido; de uma alta formação intelectual; de um juízo moral seguro, acertado e sereno; amante do exercício físico; de uma extraordinária capacidade de relacionamento; grande comunicador; um homem que se dá ao interlocutor, que se vê dominado por um ideal que o transcende; com um forte sentido da responsabilidade que, distante de agoniá-lo, o liberta e o lança à conquista de novas metas. É um líder humano, intelectual, social. Alguém que atrai, que convida à imitação.

Tudo isto não é fruto do azar nem da improvisação. É o resultado de um extenso esforço; de alguém que se propôs seriamente na vida alcançar uma maturidade humana. Porém, esta maturidade foi a base sobre a qual o Espírito Santo levantou essa outra maturidade cristã. Assim, o Santo Padre nos é apresentado como um homem seguro de sua fé, que sabe confiar em Deus acima de qualquer coisa, um homem de caridade, que vive profundamente o espírito das bem-aventuranças e toda a rica gama dos valores evangélicos. Não cabe dúvida de que é um autêntico líder humano, porém acima de tudo é um líder moral e espiritual que professa sem temores e com íntima convicção sua fé em Cristo, Redentor do homem.

(Continua…)

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