A Língua: Metáforas.

Veja bem como é realista o que essas comparações manifestam, mesmo limitando-nos a escumar agora algumas metáforas sobre a língua que, em boa parte, depois haveremos de considerar com mais vagar.

Não é exato dizer, por exemplo, como São Tiago, que a língua é um fogo…, e sendo inflamada pelo inferno, incendeia o curso da nossa vida (Tg 3, 6)? Quantas vidas não conhece que a língua própria ou alheia reduziu a cinzas: umas vezes, foi o incêndio provocado pela calúnia brutal que estraçalhou um prestígio; outras, uma palavra ofensiva, repetida entre marido e mulher tantas vezes, que acabou por desfazer um lar?

Mas também é verdade, como diz belamente o livro dos Provérbios, que as palavras da boca de um homem são águas profundas e que a fonte da sabedoria é uma torrente transbordante (Prov 18, 4). Pense somente nas águas profundíssimas, luminosas, vivificantes e curativas, que foram e continuam a ser para os homens as palavras de Cristo. Pense no que significam ainda para muitos as palavras ardentes dos que vivem sinceramente da fé de Cristo.

E para lembrar imagens da “charada”, veja se não têm razão os Provérbios ao afirmarem que as palavras agradáveis são como um favo de mel, doçura para a alma… (Prov 16, 24). Não vai dizer-me que nunca teve a felicidade de experimentar isso na sua vida… Há palavras cuja influência doce e benfazeja não se esquece jamais.

Da mesma forma, todos nos sentimos atingidos quando ouvimos São Tiago – grande invectivador da má língua! – dizer sem rebuços que a língua… é um mal irrequieto, cheia de veneno mortífero (Tg 3, 8). Será que não experimentamos já a maligna comichão de falar o que não devemos, o que antes mesmo de tê-lo dito, deixa na boca o sabor do veneno que a nossa língua se dispõe a instilar…?

Ao lado disso, certamente não faltaram ocasiões felizes – pela bondade de Deus – em que a nossa língua teve o belo privilégio de curar, de dar saúde às feridas (cf. Prov 12, 18), tanto às provocadas por nós mesmos como às causadas por outros; e então a nossa boa língua foi uma árvore de vida – porque alimentou esperanças, revigorou o amor, levantou, reabilitou -, ao contrário da língua perversa, que corta o coração (Prov 15, 4) como uma navalha afiada (Sl 52, 4).

FRANCISCO FAUS, A LÍNGUA , 2ª edição, QUADRANTE, São Paulo 1996.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s