O Nosso Sofrimento

O grande teólogo, filósofo e Doutor da Igreja Santo Agostinho disse: “A firmeza cristã exige não só fazer o bem, mas também sofrer o mal”.

A raiz do sofrimento está no pecado: “Ele retomou: “E quem te fez saber que estavas nu? Comeste, então, da árvore que te proibiu de comer!” O homem respondeu: “A mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu comi!” Deus disse à mulher: “Que fizeste?” E a mulher respondeu: “A serpente me seduziu e eu comi”. Depois disse Deus: “Se o homem já é como um de nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre!” E Deus o expulsou do jardim do Éden para cultivar o solo de onde fora tirado (Gênesis 3,9-13.22.23).

Sofremos pelos nossos erros, enganos e seduções. “Ninguém, ao ser tentado, deve dizer: É Deus que me está tentando”, pois Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. Antes, cada qual é tentado pela própria concupiscência, que o arrasta e seduz. Em seguida a concupiscência, tendo concebido, dá a luz ao pecado, e o pecado, atingido a maturidade, gera a morte (Tiago 1,13-15).

Pela nossa ignorância, estupidez, ambição, orgulho, prepotência e ira desenfreada, acarretamos muitas dores e sofrimentos para o nosso corpo e alma. O sofrimento é uma grande ferramenta para o nosso ensino e disciplina espiritual. Os grandes homens da humanidade se serviram desta ferramenta para realizarem as suas grandes obras. Ninguém escreve seu nome na História, ninguém torna se herói sem passar pela escola do sofrimento. Ninguém chega ao Paraíso sem passar primeiro no calvário. “A cruz é uma escola”, dizia Santo Agostinho.

Grandes conquistas, grandes vitórias, grandes tormentas. Impossível chegar lá, sem grandes dificuldades. O sofrimento é a poderosa arma do corajoso, do persistente. A maior e a melhor lapidação para o homem é o sofrimento. O salmista reconheceu a riqueza do sofrimento em sua própria vida: “Antes de ser afligido, andava errado, mas agora guardo a tua palavra… Foi-me bom ter um passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos” (Salmo 119,67-71).

É no meio do infortúnio que o homem se ver acuado da sua soberba. É na adversidade e na humilhação que o homem enxerga melhor a sua miserabilidade. É na desgraça e no óbice que o homem entende que não é nada. É na doença incurável que o homem se ver como um verme. “Os vermes o comerão gostosamente”. “Quanto menos o homem, essa larva, e o filho de homem, esse verme” (Jó 24,20; 25,6).

ENTREGÁ-LO A DEUS

As maiores bênçãos do mundo foram geradas através dos maiores sofrimentos. Nas grandes vitórias foram derramados sangue e lágrimas. As glórias deixam marcas de terríveis dores. Conta-se que o grande poeta alemão Johann Goethe disse certa vez: “Nunca tive uma aflição que não se tenha transformado em poema”. Goethe afirmou: “O homem que não é posto a prova não evolui”.

Similarmente, escreve São Pedro Apóstolo: “Nisso deveis alegrar-vos, ainda que agora, se necessário, sejais contristados por um pouco de tempo, em virtude de várias provações, a fim de que a autenticidade comprovada da vossa fé, mais preciosa do que o ouro que perece, cuja genuinidade é provada pelo fogo, alcance louvor, glória e honra por ocasião da Revelação de Jesus Cristo” (1 Pedro 1,6.7).

O insigne escritor sacro Paul E. Bilheimer escreveu: “Os melhores traços do caráter cristão, em geral, são frutos do sofrimento. Quando estão no início de uma provação, a maioria dos cristãos se encontra num estado de frieza, com uma mente mundana e carnal; no final dela, porém, seu espírito já está abrandado, amadurecido e edificado”.

As aflições santificadas abrandam a aspereza e aplainam as quinas pontiagudas da nossa vida. Consomem as impurezas do egoísmo e do materialismo. Abatem o orgulho, moderam as ambições humanas e sufocam o fogo das paixões. Expõem o mal que existe em nosso coração, revelando fraquezas, falhas e defeitos e tornando-nos conscientes do perigo espiritual. Disciplinam o espírito obstinado. Para alguns de nós, somente a escola do sofrimento será capaz de transmitir as lições sobre paciência, tolerância e domínio próprio que precisamos aprender.

Um dos métodos usados por Deus para aperfeiçoar o caráter cristão consiste em permitir que soframos injustamente. A maioria pensa que sofrer já é difícil, quem diria sofrer injustamente! Contudo, ao falar sobre sofrer injustamente, Pedro declara: “Pois, que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais com paciência? Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto mesmo fostes chamados…” (1 Pedro 2,20.21).

Sem dúvida, estamos falando de uma ferramenta muito afiada e dolorosa para nossa alma. Você sabe, no entanto, que quando um torneiro mecânico tem um trabalho muito fino e detalhado para executar, ele escolhe a ferramenta mais afiada que possui. De modo semelhante, Deus emprega o afiado recurso do sofrimento injusto quando deseja esculpir um lindo desenho na vida do cristão. É difícil receber injúria dos outros e sempre retribuir com o bem, mas enquanto o molde divino não for profundamente gravado na estrutura de nossa alma, Deus não terá completado a sua obra em nós.

Não podemos evitar sofrer nas mãos dos outros. É certo que isso acontecerá. No entanto, em última análise, ninguém consegue ferir-nos a não ser nós mesmos. Nenhuma injustiça que os homens cometam contra nós poderá machucar-nos a menos que permitamos que ela nos torne ressentidos e rancorosos. Um ato ou atitude só pode nos causar mal de verdade se dermos lugar à amargura e a ira.

Porém, você pode perguntar: “Como posso evitar a amargura? Como posso deixar de me sentir magoado?” Existe a história de uma criança indígena que se aproximou de um velho líder da tribo, levando um pássaro ferido nas mãos. O velho olhou para o pássaro e disse: “Leve-o de volta e deixe-o onde você o encontrou. Se você o segurar, ele morrerá. Se você devolve-lo para as mãos de Deus, ele curará sua ferida, e o pássaro viverá”.

Eis uma lição sobre o que devemos fazer quando somos atingidos pela dor. Nenhuma mão humana é capaz de curar um coração ferido; é preciso entregá-lo a Deus (Lucas 4,18; Mateus 11,28-30). “O meu Deus proverá magnificamente todas as vossas necessidades, segundo a sua riqueza, em Cristo Jesus” (Filipenses 4,19).

Temos consciência que muito sofrimento fica sem explicação. Toda a sua realidade será revelada na eternidade. É impossível a razão humana entender o mistério do sofrimento.

O sofredor Jó passou seus dias implorando e suplicando ao Senhor Deus que lhe desse maiores informações e explicitasse o seu padecimento. Quando o Todo-Poderoso finalmente manifestou, ele demonstrou que seu servo Jó não tinha capacidade nem para entender a resposta, muito menos para discutir com o seu Eterno Criador. E no final do seu calvário, o patriarca Jó compreendeu e se colocou nas mãos de Deus com absoluta confiança (Jô 3,1-4; 9,1-4; 42,1-17).

Em alguns casos o sofrimento que é inexplicável no momento, mais adiante, por vontade de Deus é simplesmente compreendido. Por que o bondoso Deus permitiu que o jovem José do Egito fosse vendido pelos seus próprios irmãos como escravo e depois sofresse dois anos na prisão por permanecer honesto e casto? Mais tarde o propósito ficou claro, ou seja, o por quê? Foi respondido (Gênesis 50,17-21; Romanos 8,28).

Nem sempre podemos obter a reposta para as nossas dificuldades, todavia, temos a capacidade de entender que só em Deus, o Todo-Poderoso, podemos confiar absolutamente.

“Entrega teu caminho ao Senhor, confia Nele, e ele agirá; manifestará tua justiça como a luz e teu direito como o meio-dia” (Salmo 37,5.6).

Do sofrimento, podemos tirar uma grande lição, ele nos diz que necessitamos desesperadamente do Senhor Deus.

Pe. Inácio José do Vale
Pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo
Professor de História da Igreja
Faculdade de Teologia de Volta Redonda
e-mail: pe.ináciojose.osbm@hotmail.com

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