Desprendimento (I)

Domínio de si mesmo

… que aproveita ao homem…?” (Mc 8,36)

Meu amigo , compreende tua incrível felicidade. Convidei-te não somente para ser outro Cristo, mas para seres um outro eu.

Desejas isto, mas também alimentas as tuas paixões e os teus apetites inferiores. As duas coisas não podem estar juntas. Não podes ser um outro eu a não ser que renuncies a ti mesmo.

Meu amor por ti só será compatível com outros amores enquanto não for contrário ao meu, que deve ser supremo. Eu te ordeno o amor ao próximo. Contudo, nenhum outro amor, a pessoa ou a coisas, deve superar o teu amor por mim. Deves dominar todos os desejos que te afastas de mim. É impossível ser vaidoso, desejar ser mais importante que os outros, e ser, ao mesmo tempo, um outro eu.

É impossível ser demasiadamente sensível, vingativo, sempre pronto a contradizer os outros, e ser um outro eu.

Não podes ser ganancioso, sensual, guloso, invejoso, e ser um outro eu.

São todas formas de egoísmo, que deves renunciar. Não quero meias medidas.

Eu disse: “Se o teu olho direito te serve de escândalo, arranca-o e lança-o para longe de ti” (Mt 5,29). Que nada impeça tua devoção, teu amor a mim, tua identificação comigo.

Para estares unido totalmente com a Santíssima Trindade e participares da visão beatífica, deves ser perfeito. A essência da perfeição é a união de tua vontade com a minha. Mas como poderás unir tua vontade perfeitamente com a minha, se não conquistares, primeiro, tua própria vontade? É por isso que deves extirpar tuas paixões, destruir teu apego às coisas materiais, suprimir em ti o desejo de louvores, de facilidades, de popularidade, e deixar de vangloriar-te diante de tuas idéias, de tuas qualidades, ou de teu progresso espiritual.

Os impuros não podem ver a Deus. Ser puro é entregar-se totalmente à minha vontade, sem recusar nada. Ser puro no olhar e no coração é não desejar os bens terrenos que são contrários à minha vontade.

Se não te purificas completamente nesta vida, fá-lo-ás no purgatório. Ali serás purificado do apego aos bens matérias pelo método da privação. Tua vontade ficará privada daquilo que mais desejas: ver minha face. O purgatório purifica pelo fato de te encontrares tão perto de mim e, no entanto, também fora do teu alcance.

Será muito melhor suprimir, agora, todos os desejos que não te aproximam mais de mim. E não somente aqueles que seriam gravemente pecaminosos, mas até mesmo aqueles que constituiriam faltas leves ou imperfeições. Todos estes desejos voluntários servem apenas para te perturbar, te atormentar, te cegar e tornar-te indiferente. Purifica-te, negando-te aquelas coisas e aqueles prazeres que possam ser alimentá-los.

Procura o que é difícil e não o que é fácil, por amor a mim.

Procura o desagradável em vez do que agrada, por amor a mim.

Procura o que é simples em vez daquilo que é grandioso, por amor a mim.

Procura não desejar nada a não ser o que eu te envio, e não recusas nada daquilo que permito que te aconteça, por amor a mim.

São duras estas palavras? Significam, por ventura, que daqui por diante terás de abandonar tudo o que é prazer?

De forma alguma! Eu te levarei ao grau de renúncia que é melhor para ti. O que é conveniente para uma pessoa, não será para outra. Se procurares fazer, por amor, tudo o que te peço, encontrarás alegria no sacrifício.

Mortifica-te. Mas entende que a maior mortificação é a prática da verdadeira humildade. Aceitar humildemente as mortificações que te envio é melhor do que acumular mortificações escolhidas por ti.

Observa os jejuns e as penitências impostas por minha Igreja. Lembra-te, porém, que em geral, não desejo que as pessoas façam mortificações que as deixem irritadas e descontentes. Que tuas penitências voluntárias limitem-se aquelas que não perturbem a tua paz. Há pessoas que se tornam escravas da mortificação.

De vez em quando eu mando algum sofrimento para que sejas mais completamente meu, desapegando-te daquilo que me separa de ti. Aceita os sofrimentos que te envio, e seu fardo se tornará leve, porque meu jugo é suave para aqueles que me amam.

O desejo de sofrer por causa de mim é santo. Contudo, melhor ainda é a virtude da indiferença. Procura fazer minha vontade, na alegria ou na tristeza, com santa indiferença, dizendo a ti mesmo: “não escolho nem prazer nem dor, mas desejo unicamente conformar-me a vontade de Deus”. Procura amar-me em todas as coisas, igualmente: na doença, na saúde, na morte, na riqueza ou na pobreza, no prazer ou na dor, na consolação ou na desolação.

Não te tornes demasiadamente apegado nem mesmo à perfeição. Uma vez que agora não me podes servir perfeitamente, oferece-me tua insatisfação. Agora deseja tão-somente servir-me o melhor que podes. Que teu único desejo seja agradar-me na situação em que estiveres.

Em resumo: cuidado para não te apegares a coisa alguma terrena, especialmente ao prazer. Sei muito bem que o corpo e o espírito necessitam de descanso. O que fazes a ti mesmo, fazes a mim. Quando te alegras com um prazer sadio, eu participo de tua alegria, porque estou contigo e em ti. Não escolhas um prazer do qual eu não possa participar contigo. Procura-o no tempo em que eu possa aprová-lo. Procura-o no grau que eu desejo. Pergunta-te de vez em quando, no meio de teu prazer: “Eu o deixaria, de uma vez, se soubesse não ser da vontade de Deus? Posso deixar isto, neste momento, sem me perturbar?”

Para ser totalmente um outro eu deves ser todo meu, desejando fazer apenas a minha vontade. Quanto mais “puro” fores, quanto mais “limpo” for teu coração, mais plenamente eu viverei contigo.

Do livro Cristo minha vida, págs. 73-76.

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