A Humildade

Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo” (Fl 2,5).

Se tivesses estado presente à última ceia, terias aprendido duas lições. Terias aprendido a amar: “Dou-vos um novo mandamento. Assim como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros.” (Jo 13,34). E terias aprendido a humildade, porque eu teria lavado os teus pés.

A humildade não consiste em atos exteriores, ainda que estes sejam motivados por ela. a humildade é interior. É uma disposição interna de conhecer a verdade sobre si mesmo, de aceitá-la e de viver de acordo com ela. É a base sólida sobre a qual deves levantar tua vida espiritual.

Pela humildade meus santos tornaram-se dignos do amor da Santíssima Trindade. Aprende a humildade de Maria. Ela, a mãe do Altíssimo, a mais favorecida de minhas criaturas, jamais se orgulhou. Reconheceu, aceitou e viveu a verdade sobre si mesma, cumprindo perfeitamente o seu dever. Apesar de saber que era bendita entre todas as mulheres da Terra, não se retirou na solidão, esperando que o mundo reconhecesse sua grandeza e viesse servi-la. Sabendo que Isabel, sua prima, estava no sexto mês de gravidez, foi imediatamente ajudá-la. E ficou com ela durante três meses. Depois, com admirável respeito, partiu, porque Isabel deveria gozar a alegria do filho de sua velhice e ser a rainha do lar. Nisto ninguém deveria interferir. Depois de ter prestado seus serviços à prima, Maria logo se retirou.

Humildade!

Aprende também a humildade de João Batista, o maior profeta dentre os filhos dos homens. Medita em seu desprendimento, em não deixar o Jordão para me procurar e depois de me descobrir, em não me seguir fisicamente. “O homem não pode receber coisa alguma”, disse João, “se não lhe for dada do Céu” (Jo 3,27).

E assim, João permaneceu no Jordão cumprindo seu dever até o dia em que Herodes o lançou na prisão por dizer a verdade de Deus.

Aprende a humildade do Filho do Homem que, como criança, obedecia às suas próprias criaturas; e que disse a João, no batismo: “Convém que cumpramos toda a justiça” (Mt 3,15). Ele pagou o tributo do templo para que ninguém se escandalizasse. Seus lábios muitas vezes repetiram a frase de obediência: para que se cumprissem as Escrituras.

Tornei-me um ser humano, um servidor, uma criatura, não exigindo ficar imune daquilo que acontece à humanidade: viver, na Terra, entre dores. Sabendo plenamente o que este fato me traria, jamais murmurei, muito menos me revoltei contra os erros, as injustiças e os tormentos que me sobrevieram.

Submeti-me em tudo às minhas criaturas. Insultaram-me, chamaram-me de louco, desprezaram-me como o mais vil dos seres: o demônio. Prenderam-me, açoitaram-me, bateram-me, zombaram de mim e cuspiram em mim. Como reagirias a tais ultrajes de criaturas, cujas vidas estivessem em tuas mãos, criaturas que não pudessem mover-se e menos ainda existir sem tua vontade?

Atravessaram, com pregos, os meus pés e as minhas mãos. Deixaram-me pendente do madeiro da cruz, morrendo lentamente, enquanto minha mãe observava tudo aquilo. Suportarias tudo isto?

Mas era vontade de meu Pai que eu sofresse, e por isso, era também minha vontade.

Adão e Eva tinham somente de obedecer. Mas, apesar de todas as vantagens que lhes tinham si, do apresentadas, não quiseram aceitar a supremacia do Criador.

Eu reparei seu pecado, obedecendo em todas as coisas, mesmo quando o demônio arremessava toda a sua fúria sobre mim. Abatido, no jardim, pelos pensamentos de agonia, diante da expectativa de ter de suportar sobre meus ombros todos os pecados da humanidade, entregue a mim mesmo, à terrível tentação de recusar sofrer os mais horríveis tormentos, não obstante submeti-me inteiramente. “Não se faça, contudo, a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,42).

Isto é humildade. Aprende de mim!

Do livro Cristo minha vida, págs. 93-95.

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