A Quaresma

Dom Eugenio Sales
Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro

Na quarta-feira de cinzas foi iniciado o tempo da Quaresma. O Concílio Vaticano II nos adverte: “A penitência quaresmal deve ser também externa e social, não só interna e individual” (“Sacrosantum Concilium”, 10). Aliás, este dever não se restringe apenas ao período preparatório à Páscoa, mas é uma decorrência da própria natureza da vida cristã.

O homem moderno busca o prazer a qualquer preço e reage às restrições feitas ao mesmo. O sofrimento, para ele, é algo meramente negativo, que deve ser afastado. Por isso, as crenças religiosas que surgem na atualidade, alcançam mais sucesso, são aquelas que oferecem um produto que é ansiosamente desejado. Mesmo se falso, muitos se deixam enganar na expectativa de obter a saúde, o emprego, o dinheiro, felicidade imediata na terra, por meios fáceis, sem compromissos com a liberdade.

Cristo veio ensinar uma doutrina que se expressa na seguinte comparação: “Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição e muitos os que entram por ele. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que conduz à vida e poucos são os que o encontram” (Mt 7,13-14).

Todo o cristianismo brota de um instrumento de suplício: a Cruz. E somente através do sofrimento do homem, unido ao de Cristo, abrem-se para nós as portas da salvação.

Intimamente relacionadas com essa verdade, estão as determinações decorrentes dos Mandamentos. Com a desordem instalada em nossa vida, tornou-se difícil seguir o caminho estabelecido pelo Criador para as suas criaturas. Somente esta constatação nos faz compreender que não é possível sem grande esforço cumprir o que nos é exigido. A corrente segue em direção contrária e é preciso remar contra, para assegurar o rumo.

Por isso, a Sagrada Escritura nos fala repetidamente dessa luta que convive conosco e que deve ser levada a bom termo.

No Antigo Testamento, repetidas vezes e sob variados aspectos, nos é apresentado o sentido religioso da penitência. Ora para aplacar a ira divina, desencadeada por nossos delitos, outras vezes para conseguir a benevolência do Senhor. O jejum, a esmola e a oração tem especial destaque no texto sagrado.

No Novo Testamento assumem dimensões novas e mais amplas. Sua importância se revela no fato de Jesus ter assim inaugurado sua pregação: “Depois que João foi preso, veio Jesus para a Galileia, proclamando o evangelho de Deus: ‘Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho'” (Mc 1,14-15).

A explicação dessa exigência é simples. O homem foi feito à imagem de Deus. A liberdade que lhe dá essa dignidade única em toda a criação é, ao mesmo tempo, uma fonte do mal – quando usada para contrariar a ordem estabelecida pelo Senhor. Para guardar o reto equilíbrio entre as paixões decorrente da estrutura material e a razão, iluminada pela Fé, característica do seu componente espiritual, faz-se mister o emprego de recursos outorgados pelo Salvador. Entre eles, está o autodomínio que se adquire pelas restrições que solidificam a vontade e manifestam ao Senhor nossa adesão às suas orientações. A obediência é um ato de louvor a Deus que nos impõe deveres, no caso: os Mandamentos de Deus e, em seu nome, os da Igreja.

A independência que se adquire, pela ascese cotidiana nos faz crescer na dimensão transcendental e fortalece os valores que asseguram posições em consonância com o Salvador. Em toda nossa existência, o cumprimento do Evangelho nos garante admirável paz e segurança no presente e no futuro.

Toda essa visão é absolutamente incompreensível e inaceitável para quem não acredita no Redentor nem vive seus ensinamentos. Caminham pelas estradas da vida, lado a lado, duas correntes humanas: uma que assume posições decorrentes da Fé e a outra, sem esse rumo, que opta por diversos outros procedimentos. O resultado é o que vemos cada dia e a expressar-se constantemente nos meios de comunicação social, em nosso relacionamento nas ruas, nos lugares de trabalho e, muitas vezes, no próprio lar.

O cristão não se satisfaz em ser fiel à sua crença. Esta o compele (cf 2Cor 5,14) a iluminar o próximo desgarrado. E este tempo da Quaresma nos oferece uma grande oportunidade ao aperfeiçoamento pessoal e eficaz atuação missionária, em nosso ambiente. Um dos principais recursos é a prática da penitência. Sem dúvida, este comportamento nos deve ser familiar durante todo o ano, mas de modo especial, nesse período do ano litúrgico que prepara a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição, a Semana Santa, o Tríduo Sagrado.

Convém lembrar que “penitência” não se identifica com a dor física, supressão do alimento ou algo semelhante. Estes aspectos de mortificação do corpo, evidentemente, estão aí incluídos como meios. Contudo, muito mais ampla é sua dimensão. Assim, toda nossa atividade em favor do próximo é um fator de crescimento religioso. Outrossim, o cumprimento do dever ocupa lugar especial na vida cristã. Há, realmente, uma ampla liberdade de escolha. Restrito é o que há de ser obedecido: o jejum e abstinência, na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira da Paixão. No entanto, trata-se de matéria obrigatória e não simplesmente, uma opção voluntária; atingindo que tem idade e saúde cumpri-los. A Constituição Apostólica “Poenitemini” (nº 18) resume estas duas faces – a observância estrita de certos atos e a opção por outras modalidades – quando exorta “a buscar, além da abstinência e do jejum, expressões novas mais aptas a realizar, segundo a índole das diversas épocas, o próprio fim da penitência”.

O tempo da Quaresma é rico de graças. Aproveitemo-lo com a alegria de quem segue os passos de Jesus.

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