Sobre como fazer oração

Por François-Marie-Paul Libermann

Alguns conselhos dados por uma alma experiente que podem ajudar o cristão na prática da oração mental. Um breve itinerário que começa na adoração a Deus e termina na elaboração de propósitos de melhora.

Louvo a Deus pelos bons desejos que Ele lhe dá, e só posso animá-lo a aplicar-se à oração mental. Aqui está, em linhas gerais, o método que você poderá seguir para se habituar à oração.

Em primeiro lugar, leia na véspera um bom livro sobre algum tema piedoso, o que mais lhe agradar e vier ao encontro das suas necessidades, como, por exemplo, sobre a maneira de praticar as virtudes, ou principalmente sobre a vida e os exemplos de Nosso Senhor Jesus Cristo ou da Santíssima Virgem. À noite, adormeça nesses bons pensamentos e, de manhã, ao levantar-se, recorde algumas reflexões piedosas que devem ser o tema da sua oração. Após uma oração vocal preparatória, coloque-se na presença de Deus: pense que esse Deus tão grande está em toda a parte, que está no lugar em que você se encontra, que está de uma maneira toda particular no fundo do seu coração, e adore-o. Depois, lembre-se de como você é indigno, pelos seus pecados, de aparecer diante de Sua Majestade infinitamente santa, peça-lhe humildemente perdão das suas faltas, faça um ato de contrição e recite o Confiteor. Em seguida, reconheça que, por si mesmo, é incapaz de rezar adequadamente a Deus; invoque o Espírito Santo; suplique-lhe que venha em sua ajuda e o ensine a orar, que lhe permita fazer uma boa oração, e recite o “Vinde, Espírito Santo”. É nesse momento que começará a sua oração propriamente dita. Contém três pontos, que são: a adoração, a consideração e os propósitos.

1º. ADORAÇÃO

Comece por prestar homenagem a Deus, a Nosso Senhor Jesus Cristo ou à Santíssima Virgem, conforme o tema da meditação. Assim, por exemplo, se você medita sobre uma perfeição de Deus ou sobre uma virtude, preste homenagem a Deus, que possui essa perfeição em grau infinitamente elevado, ou a Nosso Senhor, que praticou essa virtude tão perfeitamente: por exemplo, se a sua oração for sobre a humildade, pense como Nosso Senhor foi humilde, Ele que era Deus desde toda a eternidade e que se humilhou até o extremo de se fazer criança, nascer numa manjedoura, obedecer a Maria e a José durante tantos anos, até o extremo de lavar os pés dos seus apóstolos e de sofrer toda a espécie de opróbrios e ignomínias por parte dos homens. Então, manifeste-lhe a sua admiração, o seu amor, o seu agradecimento, e incite o seu coração a amá-lo e a desejar imitá-lo. Pode também considerar essa virtude na Santíssima Virgem ou em algum outro santo: ver como a praticaram e manifestar a Nosso Senhor o desejo de imitá-los.

Se estiver meditando sobre um mistério de Nosso Senhor, por exemplo sobre o mistério do Natal, pode evocar com o auxílio da imaginação o lugar onde se passou esse mistério, as pessoas que lá se encontravam; poderá imaginar, por exemplo, a gruta onde o Salvador nasceu, representar o divino Menino Jesus nos braços de Maria, com São José ao lado, os pastores e os magos que lhe vêm prestar as suas homenagens; e unir-se a eles, para adorá-lo, louvá-lo e orar-lhe.

Pode também servir-se de representações parecidas quando meditar sobre as grandes verdades, como o inferno, o juízo e a morte; imaginar, por exemplo, que você está na hora da morte, pensar nas pessoas que estarão à sua volta: um sacerdote, os seus pais; nos sentimentos que experimentará nesse momento; e dirigir para Deus os afetos, os sentimentos de temor, de confiança ou outros que terá nessa hora. Depois de se deter nesses afetos e sentimentos pelo tempo em que lhe derem gosto e matéria para se ocupar utilmente, passe para o segundo ponto, que é a consideração.

2ª. CONSIDERAÇÃO

Agora, repasse lentamente no seu espírito os principais motivos que devem convencê-lo da verdade sobre a qual medita. Por exemplo, considere a necessidade de trabalhar na sua salvação, se estiver meditando sobre ela; ou os motivos que devem fazê-lo amar e praticar esta ou aquela virtude; se o tema for a humildade, poderá considerar as muitas razões que o levam a ser humilde: em primeiro lugar, porque esse foi o exemplo de Nosso Senhor, o da Santíssima Virgem e o de todos os santos; depois, porque o orgulho é a fonte e a causa de todos os pecados, ao passo que a humildade é o alicerce de todas as virtudes; enfim, porque você não tem nada de que possa orgulhar-se. O que tem você que não tenha recebido de Deus? A vida, a conservação nela, a saúde do espírito, os bons pensamentos, tudo vem de Deus; portanto, você não tem nada de que se possa vangloriar; ao contrário, tem muito de que se humilhar, pensando nas inúmeras vezes em que ofendeu o seu Deus, o seu Salvador, o seu Benfeitor.

Para fazer estas considerações, não procure repassar na memória todos os motivos que tenha para convencê-lo desta ou daquela verdade ou para praticar esta ou aquela virtude. Detenha-se apenas em alguns motivos que o toquem particularmente e que serão os mais apropriados para levá-lo a praticar essa virtude. Faça essas considerações serenamente, sem cansar o espírito. Quando uma consideração já não o impressionar, passe para uma outra. Entremeie tudo isso com piedosos afetos para com Nosso Senhor, com desejos de ser-lhe agradável; dirija-lhe, de vez em quando, algumas breves súplicas e aspirações, para testemunhar-lhe os bons desejos do seu coração.

Depois de ter considerado os motivos, penetre no fundo da sua consciência e examine cuidadosamente como se comportou até esse momento em relação a essa verdade ou a essa virtude sobre a qual meditou; quais as faltas que cometeu, por exemplo, contra a humildade, se tiver meditado sobre a humildade; em que circunstâncias cometeu essas faltas; que meios poderá adotar para não tornar a cair nelas. Então, passará ao terceiro ponto, que são os propósitos.

3º. PROPÓSITOS

Aqui está um dos maiores frutos que você deve colher da sua oração: o de fazer bons propósitos. Lembre-se de que não basta dizer: “Não voltarei a ser orgulhoso, não me gabarei, não ficarei de mau humor, praticarei a caridade com todos, etc.”

Sem dúvida, são todos desejos excelentes, pois demonstram uma boa disposição da alma. Mas é preciso ir mais longe: pergunte-se em que circunstâncias do dia você correrá o risco de cair nessa falta que se propôs evitar, em que circunstâncias poderá fazer um ato desta ou daquela virtude. Por exemplo, imaginemos que você meditou sobre a humildade; muito bem! Ao examinar-se, terá notado que, quando é interrogado em aula, sente dentro de si um grande amor-próprio, um vivo desejo de ser apreciado; nesse caso, faça o propósito de recolher-se um instante antes de responder, para dizer ao Senhor, num ato interior de humildade, que renuncia de todo o coração a qualquer sentimento de amor-próprio que possa surgir na sua alma. Se notou que, em determinada circunstância, costuma dissipar-se, faça o propósito de fugir dessa ocasião, se puder, ou de recolher-se um pouco no momento em que perceber que pode dissipar-se. Se notou que tem uma certa antipatia por esta ou aquela pessoa, tome a resolução de ir ter com ela e manifestar-lhe amizade. E assim por diante.

Mas lembre-se de que, por muito belos e bons que sejam os seus propósitos, tudo será inútil se Deus não vier em seu socorro. Cuide de pedir-lhe insistentemente a sua graça. Faça-o depois de ter tomado as suas resoluções – e ao tomá-las –, para que Ele o ajude a cumprir fielmente esses propósitos; mas faça-o também de vez em quando nos outros
momentos da sua oração.

Em geral, a sua oração não tem por que ser árida e apenas um trabalho da sua mente; é necessário que o seu coração se abra e se dilate diante do seu bom Mestre, tal como o coração de uma criança se abre diante de um pai que a ama com ternura. Para tornar os seus pedidos mais fervorosos e eficazes, coloque-se amorosamente diante de Deus e diga-lhe que é para a sua glória que lhe pede a graça de praticar essa virtude sobre a qual meditou; que lha pede para poder cumprir a sua santa vontade como fazem os anjos no céu; que a pede em nome do seu amado Filho, Jesus Cristo, que morreu na cruz para merecer-lhe todas essas graças; diga-lhe que Ele prometeu atender a todos os pedidos que lhe fizessem, sempre que o fizessem em nome do seu Filho, etc.

Recomende-se também à Santíssima Virgem. Suplique a essa boa Mãe que interceda por você: Ela é todo-poderosa e cheia de bondade; não sabe recusar nada, e Deus concede-lhe tudo o que pede por nós. Recomende-se igualmente ao seu santo Padroeiro e ao seu Anjo da Guarda: as suas orações não poderão deixar de alcançar a graça, a virtude e a fidelidade às resoluções de que você tanto precisa.

Ao longo do dia, lembre-se algumas vezes dos seus bons propósitos, para que consiga pô-los em prática, ou para ver se os observou bem, e renove-os para o resto do dia. De quando em quando, eleve o coração ao Senhor para se fortalecer nas boas disposições que Ele tiver depositado no seu coração durante a oração da manhã. Se o fizer, esteja certo de que tirará grande proveito deste santo exercício, de que fará grandes progressos na virtude e no amor a Deus.

Quanto às distrações nas suas orações, não se inquiete; assim que as notar, rejeite-as e continue serenamente a sua oração ou as suas preces vocais. É impossível não ter distrações; a única coisa que Deus nos pede é que voltemos fielmente à sua presença logo que percebamos que nos distraímos. Pouco a pouco, essas distrações irão diminuindo e a oração se tornará mais doce e mais fácil.

Estes são, querido sobrinho, os conselhos que lhe podem servir para facilitar a prática tão necessária da oração. É o grande meio que todas as almas santas empregaram para santificar-se. Espero que, como a elas, com a graça, esse meio lhe traga proveito e que a sua boa vontade seja recompensada pelas graças do bom Mestre.

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François-Marie-Paul Libermann
O Venerável Padre Libermann (1802-1852) nasceu no seio de uma família judia muito observante (o seu pai era rabino) e era o quarto de sete irmãos, tendo recebido na circuncisão o nome de Jacob. Era um judeu muito piedoso e o pai tinha esperanças de que Jacob viesse a suceder-lhe. O jovem teve o seu primeiro contato com o cristianismo aos vinte anos de idade, precisamente quando foi enviado a Metz para aprimorar os seus conhecimentos sobre o judaísmo. Aos vinte e três anos, recebeu o Batismo em Paris, seguindo o exemplo de dois dos seus irmãos. Sentiu-se chamado ao sacerdócio imediatamente depois da sua conversão e ingressou no seminário em 1827, embora, devido à sua frágil saúde, só tenha sido ordenado em 1839. Consumido de zelo apostólico, uniu-se aos padres Le Vavasseur e Tisserand, ambos seminaristas negros oriundos de colônias francesas, para fundar uma congregação dedicada à evangelização dos pobres e dos negros da América e da África: a Congregação do Imaculado Coração de Maria, posteriormente unida à Congregação do Espírito Santo. Embora nunca podido visitar pessoalmente nenhum dos dois continentes, trabalhou incessantemente na formação dos noviços (conservam-se milhares de cartas suas) até a sua morte em Paris.

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Fonte: “Lettres du Vénerable Père Libermann”, Paris, DDB, 1964

Tradução: Emérico da Gama
Link: www.quadrante.com.br

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