Reflexões para o Natal

Dom Eugenio de Araujo Sales
Cardeal Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro

Anualmente, este tempo do ano nos oferece uma excelente oportunidade para revermos nossas atitudes com relação ao próximo. Há no tempo que precede o Natal e no período natalino um clima diferente dos outros dias. Mesmo o homem que vive como se Deus não existisse, também é tocado por uma atmosfera que tem, no Presépio, seu centro e explicação.

O nascimento de um Menino que veio para nos salvar, consciente ou não, é celebrado. Pode o Natal estar paganizado, envolvido pelo consumismo, deformado sem seu sentido divino, mas permanece sempre algo de verdadeiro em sua celebração.

Vislumbremos nesse tempo a imagem do Presépio. Um estábulo foi transformado em residência humana por falta de condições materiais para poder encontrar um verdadeiro lar (Lc 2,7). A pobreza é uma característica do Natal. O contraste, sua marca indelével, ainda hoje perdura. É essa a situação de mais de 2.000 anos de pregação da Mensagem divina. Basta olhar ao nosso redor os que dormem ao relento.

O Natal é uma festa eminentemente religiosa e também um momento privilegiado para despertar nossa consciência da responsabilidade social de nossa Fé cristã. O Presépio de Belém é um angustiado apelo a cada filho de Deus para, de imediato, tornar possível a nossa solidariedade com os marginalizados.

Este quadro deveria estar sempre diante de nós, principalmente quando estivermos ajoelhados diante do Presépio, onde está reclinado o Menino. Tenho certeza que o mais belo presente que Ele espera de cada um é o compromisso e testemunho de solidariedade. Ele se manifesta por uma expressão concreta de amor para com todos aqueles que Ele fez nossos irmãos, especialmente os mais pobres e marginalizados.

Essas verdades nos são transmitidas na linguagem da Manjedoura. Não há um grito irado dos revolucionários, mas a humildade e a paz de Deus, em cuja voz está a força transformadora do Evangelho. E esta é mais eficaz que a violência, o ódio, a luta de classes.

Nós, cristãos, temos a obrigação de seguir as diretrizes que nos são dadas, como o filho que escuta o pai e a ele obedece. Não somos escravos, mas livres, nos adverte São Paulo (Gl 4,7). Assim, a reflexão diante do Presépio não pode permanecer somente em nosso interior, mas nos leva a uma ação concreta, motivada pela justiça e caridade, para reduzir esse escândalo da miséria que esmaga tantos brasileiros. A festa do Natal é um brado de alerta, um apelo, a manifestação da esperança para que os filhos de Deus consigam uma melhor participação dos bens criados pelo Pai para toda a sua família.

Outro aspecto de nossa meditação é a importância das mudanças estruturais que põem em relevo o valor da justiça social. Todas as vezes que, movidos pelo sentimento de compaixão, abrimos o coração e as mãos, cumulando o pobre de favores, simplesmente não cumprimos o nosso dever de cristãos de forma integral. Falta, ainda, algo essencial! Principalmente em nossos dias, há maior sede de receber em razão de direito adquirido, do que por simples benevolência momentânea de alguém.

Reconheçamos no Presépio o ensinamento autêntico. Cristo aceita os dons que lhe são oferecidos, mas nunca absolve a injustiça de que é objeto, em seus filhos. É necessária a prática da caridade sem substituir o respeito aos direitos de outrem.

As conclusões em favor da justiça social e da solidariedade brotam, necessariamente, do acontecimento da vinda ao mundo do Salvador com as circunstâncias que a envolveram. As exigências de uma profunda transformação nesse campo são claras e imperativas.

A alegria é parte insubstituível do Natal. Deixemos que ela penetre amplamente na atmosfera que respiramos nesta época do ano, não nos esquecendo, porém, que ela traz consigo graves compromissos sociais.

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