Os milagres de jesus: mito ou história?

Por D. Estêvão Bettencourt

Causam certa dificuldade à fé do homem moderno os milagres em geral e, especialmente, os milagres de Jesus. A crítica dos Evangelhos vem tentando explicá-los ou como relatos de ficção ou como fenômenos parapsicológicos, negando a sua realidade transcendental. — Ora quem lê os Evangelhos, tem a impressão de que os milagres têm grande importância na missão de Jesus, pois Jesus os tem como sinais da sua Messianidade e Divindade. Eis por que, nas páginas seguintes, 1) definiremos a noção de milagre; 2) analisaremos alguns textos referentes a milagres nos Evangelhos e 3) consideraremos narrações de milagre no mundo pagão antigo.

I. QUE É MILAGRE?

O milagre não deve ser tido como mera ostentação ou show do poder de Deus. Não é o meramente extraordinário que importa no milagre, mas é o extraordinário feito sinal. O Evangelho de São João usa sistematicamente o vocábulo sinal (semeion) para designar os feitos extraordinários de Jesus; ver Jo 6,26; 10,37s; 12,37s; 15,24 e ainda Mt 12,39s.

O milagre é propriamente uma palavra de Deus… mais forte do que as palavras orais; o Senhor Deus dirige às suas criaturas esse tipo de discurso sempre que o julgue oportuno

— ou para responder à oração humilde e confiante dos homens

— ou para autenticar a missão de alguém que se diga enviado por Deus.

Para se poder falar de autêntico milagre, requer-se o cumprimento de três condições:

1) Trate-se de um fato real… Este deve ser averiguado com exatidão, para que se tenha notícia fiel à realidade ocorrida. Freqüentemente os relatos de milagres ocorrentes entre a gente simples vem-se tão somente à fantasia popular, que os tornou “portentosos”.

2) Trate-se de fato real que as ciências naturais contemporâneas ao fato não possam em absoluto explicar. A Igreja não faz questão de descobrir ou impingir milagre ao público; desde que qualquer brecha se ofereça para uma elucidação científica, o fato portentoso deixa de ser considerado pelos teólogos. A Igreja apenas aceita os milagres que, à luz de crítica objetiva e severa, pareçam real mente ser sinais de Deus.

3) O fato histórico inexplicável pela ciência deve ter ocorrido em contexto que possa merecer a chancela ou a resposta do Senhor Deus.

Vê-se, pois, que não basta o aspecto portentoso do fato. Com efeito, se o milagre é sinal, deve-se inserir em âmbito de diálogo entre Deus e as criaturas. Por conseguinte, não pode ser milagre no sentido da apologética católica qualquer fato portentoso que confirme a vaidade, o espírito mercenário ou comercial, os vícios, o charlatanismo… Se, por hipótese, alguma vez se verifique um fenômeno inexplicável pela ciência em moldura de pecado e corrupção, dir-se-á que se trata de artimanha do demônio. Tal caso, porém, é tido como extremamente raro, pois, nos ambientes de vícios, os portentos são geralmente explicáveis pela psicologia e a parapsicologia…

Aliás, sabemos pelo progresso da ciência que muitos e muitos fatos portentosos são perfeitamente explicáveis pela parapsicologia, principalmente quando se trata de doenças funcionais ou nervosas, resultantes de um bloqueio psicológico (o desbloqueio pode ser obtido por via psicológica, ou seja, pela sugestão ou pelo aparato do curandeirismo).

O milagre é um fato que foge à ordem normal ou natural dos acontecimentos… Esta afirmação suscita a objeção seguinte: Deus não estaria derrogando às leis que Ele mesmo imprimiu à natureza, se Ele fosse autor de um milagre? — A isto respondemos:

O milagre não está fora da ordem geral da Providência Divina. Esta se exerce habitualmente através das leis da natureza. Mas pode também intervir extraordinariamente, fora e acima das leis da natureza, desde que isto contribua mais eficiente mente para a realização do plano de Deus destina do a salvar e santificar os homens. Quando Deus realiza um milagre, Ele o faz sabiamente, visando à finalidade mesma que Ele se propôs ao criar o mundo e o homem.

II. OS MILAGRES NA VIDA PÚBLICA DE JESUS

Quem considera atentamente os Evangelhos, verifica que Jesus associou intimamente os seus dizeres a feitos ou sinais portentosos, que deviam autenticar e confirmar a sua pregação. Em especial, três passagens do Evangelho merecem consideração, pelo seu caráter muito enfático e arcaico:

1) Mt 12,27s: Diz Jesus: “Se eu expulso os demônios por Beelzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, o Reino de Deus chegou a vós” (cf. Lc 11,20).

Este texto dá a ver que os judeus reconheciam a atividade de Jesus como exorcista (pois a atribuíam à ação remota do príncipe dos demônios); não negavam as ações milagrosas do Senhor; apenas questionavam a procedência ou a origem do poder de Jesus (cf. Mc 3,22). — A referência a Beelzebu, por parte dos judeus, é sinal de antigüidade e genuinidade desse episódio, pois é de crer que, se os discípulos tivessem forjado tal relato, não teriam sugerido a possibilidade de Jesus estar agindo em nome do príncipe dos demônios. — Ademais a referência ao Reino de Deus que vem, e a consciência do poder, de Jesus, para vencer Satanás são ele mentos que se encontram em outras secções do Evangelho (cf. Mc 1,14s; Mt 4,23; Jo 12,31) e que abonam a antiguidade e genuinidade do episódio.

2) Mt 11,20-24: “Jesus começou a verberar as cidades onde havia feito a maior parte dos seus milagres por não se terem arrependido: ‘Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidônia tivessem sido realizados os milagres que em vós se realizaram, há muito se teriam arrependido, vestindo-se de cilício e co brindo-se de cinza. Mas eu vos digo: no dia do julgamento haverá menos rigor para Tiro e Sidônia do que para vós. E tu, Cafarnaum, por acaso te elevarás até o céu? Antes, até o inferno descerás. Porque, se em Sodoma tivessem sido realizados os milagres que em ti se realizaram, ela teria permanecido até hoje. Mas eu vos digo que no dia do julgamento haverá menos rigor para a terra de Sodoma do que para vós”. Cf. Lc 10,13-15.

Jesus se queixa da incredulidade das cidades onde Ele mais milagres havia feito. Em tais dizeres, encontram-se elementos arcaicos: assim dynamis, vocábulo que o português traduz por “milagre”, mas que significa “força, poder”; é o designativo mais antigo dos portentos de Jesus. — A menção da cidade de Corozaim é outro indício de antiguidade do texto ou indício de que não foram os antigos cristãos que criaram tais dizeres e os atribuíram a Jesus, pois Corozaim não é mencionada em nenhuma outra secção do Novo Testamento. De resto, ficou na consciência dos cristãos a lembrança de que Jesus efetuara muitos milagres; cf. At 2,22; 10,38. Diz São Pedro no dia de Pentecostes: ‘Homens de Israel, ouvi estas palavras! Jesus, o Nazareu, foi por Deus aprovado diante de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus operou por meio dele entre vós, como bem sabeis (cf. At 2,22).

Em casa de Cornélio, centurião romano, disse Pedro: ‘Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírita Santo e com poder, ele passou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo, porque Deus estava com ele’ (cf. At 10,38).

3) Mt 11,2-6: “João, ouvindo falar, na prisão, a respeito das obras de Cristo, enviou a ele alguns de seus discípulos para lhe perguntarem: ‘És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?’ Jesus respo
ndeu-lhes: ‘Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados’. E bem-aventurado aquele que não se escandalizar a meu respeito!”. Cf. Lc 7,18-23.

A resposta de Jesus a João faz eco a profecias do Antigo Testamento que anunciavam o Messias como restaurador do homem e do mundo feridos pelo pecado; cf. Is 26,19; 29,18s; 35, 5s; 61,1. Jesus aponta milagres por Ele realizados para dizer a João Batista que Ele, Jesus, é o Messias predito pelos Profetas. A autenticidade destes dizeres se depreende do fato de que o conceito de Messias assim apresentado por Jesus não é o conceito alimentado pelos judeus, que pensavam num Messias político e nacionalista; por conseguinte, o novo conceito de Messias não deve ter tido origem nas comunidades cristãs antigas, mas sim na pregação mesma de Jesus. — Ademais a resposta de Jesus a João está em plena conformidade com os ensinamentos e a atividade de Jesus; daí poder-se dizer que é genuína; ela evidencia que Jesus associava entre si pregação e milagres, sendo estes o sinal que confirmava e comprovava aquela.

III. HISTORICIDADE DOS MILAGRES DE JESUS

1. DEVE TER HAVIDO ALGO…

Os milagres ocupam lugar tão importante nos Evangelhos que não se poderia conceber o ensinamento de Jesus sem esses sinais concomitantes; ensinamentos e milagres devem manifestar, segundo Jesus, a mesma realidade: a chegada do Reino de Deus.

Detendo-nos particularmente no Evangelho de Marcos, verificamos que neste livro os milagres representam 31% do texto global, e, se considerarmos apenas os dez primeiros capítulos de Marcos (ministério público do Senhor), concluímos que aí a proporção chega a 47%. Ora tão ampla narrativa de milagres não se poderia entender se não houvesse base histórica para tanto; leve-se ainda em conta que muitos de tais sinais foram realizados perante multidões, segundo os evangelistas; ora, se não se tratasse de fatos reais, mas de narrações fictícias dos antigos cristãos, tais relatos teriam sido facilmente desmentidos. Precisamente por haver base histórica é que São Pedro no dia de Pentecostes pôde aludir a tais feitos como algo de incontestável (cf. At 2,22); nem mesmo os inimigos de Jesus podiam negar que Ele fizera obras portentosas. Muito interessante, por exemplo, é a atitude do rabino Gamaliel perante o Sinédrio: vendo seus colegas de tribunal enraivecidos e desejosos de matar os Apóstolos, ponderou:

“Deixai de ocupar-vos com esses homens. Soltai-os! Pois, se o seu intento ou sua obra provêm dos homens, destruir-se-ão por si mesmos; mas, se vêm de Deus, não podereis destruí-los. E não aconteça que vos encontreis movendo guerra a Deus” (cf. At 5,38s).

O texto dos Atos acrescenta que os membros do tribunal concordaram com Gamaliel. Ora tal fato bem demonstra que ninguém podia argüir os Apóstolos de mentirosos ou fraudulentos; se houvesse qualquer brecha de ordem ética no comportamento destes, teria sido aproveitada para se lavrar a sua sentença de morte.

2. CINCO CRITÉRIOS DE HISTORICIDADE

Para corroborar quanto até aqui foi dito, pode mos recorrer aos cinco critérios que os críticos aplicam para verificar a autenticidade de algum segmento do Evangelho:

1) Critério de múltiplo testemunho: são autênticos os episódios do Evangelho que vêm atesta dos por várias fontes ou testemunhos convergentes. Ora os sinóticos, o Evangelho de S. João, o livro dos Atos dos Apóstolos, a Epístola aos Hebreus (2,23s) e os apócrifos dão unânime testemunho de que Jesus fez muitos milagres.

2) Critério da descontinuidade: são autênticos os episódios do Evangelho que não se possam reduzir às concepções do judaísmo. Assim, por exemplo, as tentações de Jesus, a sua agonia e morte de Cruz, a atitude de Jesus perante a Lei de Moisés… não são produtos da mentalidade judaica. — De modo semelhante, a maneira como Jesus efetuava milagres contrastava com o modo de proceder dos profetas do Antigo Testamento; estes podiam realizar feitos extraordinários, mas sempre e tão somente em nome de Iahweh. Ao contrário, Jesus fazia milagres em seu nome próprio; disse à filha de Jairo: “Talitha kum, Menina, eu te digo, levanta-te” (cf. Mc 5,41);… a Lázaro: “Lázaro, vem para fora! (cf. Jo 11,43);… ao leproso: “Eu quero, sê purificado! (cf. Mt 8,3);… ao paralítico: “Levanta-te, toma o teu Ieito e vai para casa” (cf. Mt 9,6)…

Frente aos leprosos em particular, o comportamento de Jesus não era de rejeição, como era o dos fariseus; ao contrário, Jesus os chamava a participar do Reino de Deus (cf. Mc 1,40-45).

3) Critério de conformidade: seja considerado autêntico todo gesto ou palavra de Jesus que esteja em íntima conformidade com a sua época e o seu ambiente Iingüístico, geográfico, social, político e também com os ensinamentos fundamentais de Jesus referentes à vinda e à instauração do Reino Messiânico. — Ora os milagres estão em perfeita harmonia com a pregação de Jesus, pois ilustram a vinda do Reino de Deus.

4) Critério de explicação necessária: se diante de um conjunto de feitos que exigem explicação coerente e adequada, é oferecida uma explicação que ilumine e justifique todos esses feitos (explicação sem a qual o conjunto seria difícil de se entender ou enigmático), pode-se concluir que tal explicação é autêntica. Este critério é de especial importância: sem os milagres, não se poderiam explicar certos dados encontrados no Evangelho: o entusiasmo do povo por Jesus (cf. Mc 11,1-11), o reconhecimento de que Ele era “Profeta” (cf. Lc 7,16), a fé dos Apóstolos na Messianidade de Jesus (cf. Mt 16,16), a decisão, dos fariseus, de eliminar Jesus porque os milagres do Mestre punham em xeque o prestígio dos fariseus (cf. Mc 3,6; Jo 11, 45-53); a pregação da Igreja antiga, que apelava para os milagres de Jesus, a fim de apresentá-lo como Messias e Filho de Deus (cf. At 2,22; 10,38).

5) Critério do estilo de Jesus: a maneira como os evangelistas apresentam os milagres do Senhor é simples e despojada de aparato: Jesus profere uma palavra ou efetua um gesto simbólico muito singelo (cf. Mc 7,33-35 — o surdo-mudo; Jo 9,6s — o cego de nascença; Mc 8,22-25 — outro cego; Mc 10,46-52 — Bartimeu…). Jesus não fazia milagres para dar espetáculo ou show de seu poder; ao contrário, era movido por compaixão e amor; geralmente mandava que o prodígio não fosse divulgado (cf. Mc 1,44s; 5,43; 7,36; 8,26). Ora o modo de Jesus sóbrio e discreto ao realizar milagres corresponde em geral ao estilo de vida de Jesus pobre desprendido de si.

Estes cinco critérios, aplicados pelos críticos aos milagres de Jesus, levam a concluir em favor da autenticidade histórica dos mesmos.

Após estas ponderações sobre o Evangelho parece muito útil comparar o texto dos Evangelhos simples e equilibrado, com os relatos de milagres ocorrentes na antiga literatura pagã.

IV. OS RELATOS PAGÃOS DE MILAGRES NA ANTIGÜIDADE

Sabe-se que em Epidauro (Grécia) havia perto do templo de Asclépio (o Asclepeion) uma fonte sagrada; o acesso ao templo era facultado por duplo pórtico; este, com as suas arcadas, servia de dormitório (ábaton) posto à disposição dos peregrinos que aguardavam a cura. No ábaton (em grego é o lugar inacessível ou o santuário) os sacerdotes praticavam um rito que adormecia o paciente (egkoímesis); este então mergulhava em sono sagrado, que o dispunha a receber as comunicações da Divindade. Esta, como se pregava, aparecia durante o sono e explicava ao doente como ficaria cur
ado. Tal sonho era o grande objetivo da peregrinação.

Os enfermos visitados pela Divindade durante a noite davam-se por curados desde a manhã ou, ao menos, diziam ter recebido as indicações terapêuticas que os curariam. Depositavam sua oferta no templo e voltavam para casa.

Nas paredes internas do santuário de Epidauro, encontram-se relatos escritos de curas aí obtidas. Seis desses narram os casos de mulheres que após a aparição da Divindade em sonho ou depois de ter tido relações com o deus local, deram à luz. Assim, por exemplo:

“CIéo estava grávida havia cinco anos. Por isto, suplicante, foi ao templo do deus; adormeceu no ábaton. Logo que saiu deste e se viu fora do templo, deu à luz um menino, que, ao aparecer, se lavou na água da fonte e se pôs a caminhar junto à sua mãe”.

Uma dezena de casos refere-se a doenças da vista. A falta de higiene ocasiona tais moléstias. O termo “cegueira”, em tais relatos, significa “inflamação e abcessos das pálpebras”, os quais podem ser tão violentos que a visão cesse. A cura, porém, de tais males está ao alcance da medicina. Eis alguns espécimens:

“Um homem foi ter ao templo em súplica. Estava caolho. As suas pálpebras não recobriam coisa alguma… No templo as pessoas o tinham por muito simplório por acreditar que recuperaria a vista, pois do seu olho nada ficava senão o respectivo lugar. Enquanto dormia, foi agraciado por uma visão; parecia que a Divindade lhe preparava um remédio; abria-lhe as pálpebras e nelas derramava o remédio. Por ocasião da aurora, saiu e enxergou com os dois olhos”.

“Um cego perdeu o seu colírio durante o banho. Dormiu no ábaton, sonhou que a Divindade lhe aconselhava que procurasse o colírio no grande albergue à esquerda, na entrada. Uma vez nascido o dia, o cego, auxiliado por um escravo, foi procurar o colírio. Entrou no albergue, viu o colírio e ficou bom”.

“Timão de X, foi ferido por um golpe de lança debaixo do olho. Enquanto dormia, teve um sonho; pareceu-lhe que a Divindade triturava uma erva e lhe derramava algo no olho. Ele está curado”.

Há também casos de mudez e paralisia:

“Uma jovem muda perambulava no santuário. Viu uma serpente descer de uma árvore e penetrar dentro da alvenaria. Espantada, ela chamou pai e mãe. Voltou curada”.

“Clemenes de Argos estava paralítico. Apresentou-se no ábaton; adormeceu e teve um sonho: a Divindade o envolveu com uma coberta vermelha levou-o ao banho fora do recinto sagrado, num tanque de água muito fria. Tremia de angústia; Asklepios disse-lhe que ele não curava os covardes, mas sim, tão somente aqueles que o procurassem com confiança. Ele não lhes fazia mal algum, mas despedia-os, curados, para casa. Clemenes acordou, tomou um banho, e voltou em perfeito estado”.

Há dois casos de feridas purulentas e um de tumor abdominal, que parecem supor uma intervenção cirúrgica elementar:

“Ferido por uma lança, Evippos tinha a ponta da mesma encravada na axila havia seis anos. Adormeceu no ábaton; a Divindade lhe retirou essa ponta de lança e a colocou em suas mãos. Quando despontava o dia, ele se foi curado, levando a ponta nas mãos”.

‘N. N. de X está ferido no peito. A chaga é purulenta; foi ter com a Divindade em súplicas. Dormiu no ábaton e teve uma visão: a Divindade lhe lavou o peito com leite fresco e untou a ferida com ungüento. Depois de tê-la enxugado, ordenou-lhe que se lavasse na água fria. Ao despertar, mergulhou na água corrente e ficou curado”.

“Um homem sofria de tumor no abdômem. Teve um sonho no ábaton: a Divindade mandou a seus auxiliares que o imobilizassem e lhe abrissem o ventre. Ele fugiu, mas foi apreendido e atado quando atravessava a soleira da porta. Asklepios abriu-lhe o ventre, retirou-lhe o abscesso e coseu a ferida; o doente foi desatado. Voltou curado; o solo estava coberto de sangue”.

Eis ainda dois casos:

“Erasipa tinha o ventre inchado e nada conseguia digerir. Dormiu no ábaton; teve um sonho; a Divindade lhe fazia massagens sobre o abdômem e a abraçava; depois o deus lhe ofereceu, numa taça, um remédio, que lhe mandou beber; forçou a vomitar; ela o fez, sujando a sua roupa. A nascer do dia, verificou que o vestido estava todo sujo de vômitos; sentiu-se curada”.

“N. N. de X sofria de um tumor. Entrou no santuário. Não obteve o que pedia. A Divindade não se mostrou durante o seu sono no ábaton; ele julgou então ter sido esquecido pelo deus e voltou par casa. Todavia, não podendo suportar por mais tempo a dor, quis suicidar-se transpassando o abscesso com uma punhalada. A sua filha encontrou-o desfalecido, tomou-o nos braços, retirou o punhal. O sangue jorrou do tumor e o doente ficou curado”.

Outras semelhantes narrações poderiam se aduzidas. Estas, porém, são suficientes para evidenciar que os “milagres” de Epidauro são:

— fatos que as ciências médicas e a psicologia explicam satisfatoriamente;

— as narrações respectivas devem-se, em grande parte, à fantasia do narrador, que explora capacidade de admiração dos leitores;

— diferem profundamente das narrações evangélicas tanto pelo conteúdo como pela forma, evidenciando que os Evangelistas estão longe de haver plagiado os relatos populares de portentos antigos.

Eis como, em poucas páginas, se pode argumentar em prol da historicidade dos milagres de Jesus, sem os quais não se entenderia a projeção de Jesus no seu tempo e nos séculos subseqüentes.

Anúncios

3 respostas em “Os milagres de jesus: mito ou história?

  1. Pingback: Os milagres de jesus: mito ou história? « Vida Espiritual – jesus

  2. Pingback: Diseño| Hosting| Computadoras

  3. Pingback: comment soigner une sciatique

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s