Reverência na Oração

Por Pe. Afonso Rodriguez
"Sobre alguns meios para estar com atenção e reverência na oração"

Pergunta o Bem-aventurado São Basílio Magno: "Como podemos estar na oração firmes e com atenção, e não dispersos?"1 . E responde, que o meio mais eficaz para isto é considerar que está em presença de Deus, que o está vendo como ora; porque se aqui na terra o que está diante de um Príncipe, falando com ele, está com grande respeito e reverência, atendendo com muito cuidado ao que faz, e reparando muito nas ações e modo com que se porta, porque, se lhe desse as costas, o teria por grande indelicadeza, ou outra coisa semelhante, que fará aquele que atentamente considera, que está diante da Majestade de Deus, que o está vendo, não só exterior, mas interiormente, e penetrando o mais recondito do coração? Quem haverá, diz o Santo, que se atreva a apartar os olhos e o coração do que está fazendo, e se atreva a voltar as costas a Deus, e a estar naquele lugar imaginando em coisas indignas d’Ele? Aquele insigne Monge Jacob, como conta Theodoreto,2 usava desta consideração, para mostrar quão grande desatenção seja esta; e o traz também Santo Agostinho. Se eu, diz ele, fora criado de um homem, que é de minha mesma natureza, e no tempo em que o houvesse de servir, lhe não trouxesse de comer e de beber, por falar com outro criado, me reprenderia, e castigaria com muita razão.

Se Fosse diante de um Juiz, a queixar-me de quem me tivesse injuriado, e deixando-o com a palavra na boca, lhe voltasse as costas, e me puzesse a falar com algum dos que estavam presentes, não vos parece, que o Juiz me teria por homem descomedido, e me mandaria expulsar do Tribunal, onde estava julgando, como a um homem mal criado? Pois isto é o que fazem os que, indo à oração a falar com Deus, se distraem, pensando em coisas indignas daquele lugar. Nosso Padre 3 nos põem também este remédio, ou este meio, em uma das adições, ou advertências, que dá para a oração, onde diz, que um pouco antes de entrar na oração, por espaço de um Pai-Nosso, levantemos o espírito ao Céu, e consideremos que nos está vendo, para que, com grande reverência e humildade, entremos na oração. Devemos procurar que esta presença de Deus se nos não perca da vista, em todo o tempo da oração e da meditação, conforme aquilo do Profeta: “Et meditatio cordis mei in conspectu tuo semper”4.

São João Crisóstomo a este intento diz: “Fazei de conta que, quando ides para a oração, entrais naquela Corte Celestial, na qual o Rei da Glória está assentado em um Céu estrelado, cercado de inumeráveis Anjos e Santos, e que todos vos estão vendo”5, conforme aquilo de São Paulo: “Spectaculum facti sumus mundo, et Angelis, et hominibus”6.

Neste particular aconselha São Bernardo o que ele devia fazer: “Veniens ad Ecclesiam, pone manum tuam super os tuum, et dic: Expectate hic cogitationes malae, et intentiones, et affectus cordis, appetitus carnis; tu autem, anima mea, intra in gaudium Domini tui, et videas voluntatem Domini, et visites templum ejus – Quando entrares na Igreja, ou te recolheres a orar, põe a mão sobre tua boca, e diz: Ficai aqui à porta, pensamentos e apetites maus; e tu, alma minha, entra no gozo de teu Senhor, para que vejas, e faças sua santa vontade”7.

Diz São João Climaco,8 que aquele que, fazendo oração, consideração deverás que está diante de Deus, está como uma firme e constante coluna, que se não move; e refere que, reparando ele uma vez em um religioso, o qual estava mais atento que os demais no cantar do Salmos, e vendo que, especialmente ao princípio dos Hinos, com a figura, e semblante, que mudava, parecia que falava com outro, lhe pediu depois, que lhe dissesse o que aquilo significava? Respondeu o Monge: Eu no princípio do Ofício Divino costumo recolher-me com grande cuidado o meu coração, e pensamentos, e chamando-os a mim, lhes digo: “Venite, adoremus, et procudamus, et ploremus ante Dominum, qui fecit nos; quia ipse est Dominus Deus noster, et nos populus pascuae ejus, et oves manus ejus – Vinde, adoremos e prostemos-nos diante do Senhor”9.

Todas estas considerações são muito boas, e muito proveitosas, para estarmos com atenção e reverencia na oração.

Outros dão como remedio estar diante do Santíssimo Sacramento, se estivermos onde se possa fazer, ou estar perto do mesmo Senhor sacramentado, com o coração no lugar onde ele estiver, e também pôr os olhos no Céu.

Também é muito bom remédio para cada um mais se avivar, quando tem distrações e seguidão na oração, usar de jaculatórias, e dizer algumas orações a este intento, falar covalmente com Deus, representando-lhe sua fraqueza, e pedindo-lhe remédio para ela: “Domine, vim patior, responde pro me: Senhor, respondei por mim, que padeço força” 10.

Aquele cego do Evangelho, ainda que Cristo nosso Redentor parece que dissimulava, e passava de largo, e ainda que a gente o mandava calar, ele não deixava de dar vozes, antes as levantava cada vez mais, clamando e dizendo: Jesus Filho de Deus, tende misericórdia de mim.

O mesmo devemos nós fazer, ainda que o Senhor dissimule, e nos pareça que passa de largo em nos visitar; ainda que a turba e multidão de pensamento, e tentações nos obriguem a calar, nem por isso havemos de deixar de dar vozes, antes então com maior instancia havemos de chamar pelo Senhor: “Jesu Fili David, miserere mei: Senhor, tende misericórdia de mim11. Confirma me, Domine, Deus meus; in hac hora: Senhor, fortalecei-me e confortai-me o coração nesta hora, para que possa imaginar em vós, e estar firme e constante na oração”. Dizia uma Santa: “Se não poderdes falar com Deus com o coração, não deixeis de falar com a boca muito a miudo; porque o que assim se diz freqüentemente, facilmente dá calor e fervor ao coração”12. De si confessa essa santa, que algumas vezes, por não fazer estas orações vocais, perdeu a oração mental, porque era, diz, perseguida e impedida da pregüiça e do sono. Por nós outros passa isto muitas vezes: repetidas vezes sucede deixar algum de falar na oração por pregüiça, frouxidão, ou por estar quasi dormindo, que se falara, despertara e se avivaria para a oração.

Diz Gerson13, que também é muito bom remedio para as distrações levar bem preparado o exercício, e determinados diversos pontos para a oração; porque com isto, quando qualquer de nós se distrair, em o advertindo, tem já o seu ponto certo e determinado, para lhe servir de refúgio; e se nele não acha entrada, passa logo a outro ponto dos que leva prevenida, e torna mais facilmente a introduzir-se na sua oração. Nós mesmos por experiência, quando nos examinamos, achamos que muitas vezes a causa de estarmos distraídos, e andarmos vagueando em coisas diversas, costuma ser, porque não levamos preparados e sabidos os pontos, sobre os quais havemos de ter oração, e por não termos coisa certa e determinadas, a que nos havemos de acolher.

Além disso este aviso e o seguinte são necessários para irmos preparados à oração: e nosso Padre nos encomenda isto com palavras encarecidas: “Magnopere juvabit, ante ingressum exercitii tractanda puncta comminisci, et numero certo praefinire: Ajudará, diz, grandemente antes de entrar na oração recapacitar os pontos, que se hão de meditar, e levar determinado o número deles”14. Do mesmo santo lemos, que assim o fazia, não somente nos seus princípios, mas também depois; e sendo já velho, lia e preparava o seu exercício alguma parte da noite, e se recolhia com este cuidado; para que ninguém imagine que isto só é importante aos Noviços, ou que é exercício para principiantes.

E ainda que quqlquer de nós saiba muito bem o exercício, e esteja nele muito destro, pelo haver meditado já outras vezes, com tudo é muito importante que se prepare como de novo, especialmente porque como aquelas palavras comumente são da Sagrada Escritura, ditadas pelo Espírito Santo, se devem ler com descanço e quietação, porque despertam uma nova atenção, para haver de meditar nelas, e para que mais aproveitem.

Também para este mesmo fim será muito conveniente que, logo em despertando, não dando entrada a outros pensamentos, imaginemos no exercício, que havemos de ter, preparando-nos para a oração com alguma consideração acomodada ao que havemos de mister.

Cassiano, São Boaventura e São João Clímaco15, tem este aviso por muito importante. Dizem que dele depende o governo de todo o dia; e adverte São João Clímaco, que, como o demônio sabe que este exercício é de tanta importância, anda muito solícito, cuidadoso e vigilante, esperando que despertemos, para ocupar logo o lugar e recolher as primícias de todo o dia.

Diz mais este Santo, que há entre os espíritos maus, um a quem chamam precursor, o qual tem por ofício assaltar-nos, tanto que despertamos o sono, e ainda antes que acabemos de despertar, quando qualquer de nós ainda de todo não está em si, para nos por diante dos olhos do intendimento coisas feias e torpes, ou ao menos coisas impertinentes, para tomar posse de todo o dia; porque todo ele lhe parece será de quem primeiro ocupar o coração.

Por esta causa é necessário que cada um de nós esteja também muito vigilante para lhe não dar entrada; mas antes, tanto que despertarmos, e apenas abrirmos os olhos, logo no mesmo momento esteja plantada a memória do Senhor no nosso coração, antes que outro qualquer pensamento ocupe a morada. Este aviso nos dá também nosso Santo Padre, e acrescenta, que o mesmo se há de observar a seu modo, quando tivermos oração a outra hora, recolhendo-nos por algum breve espaço antes a imaginar: Para onde vou eu? Diante de quem hei de aparecer na oração? E recapacitando brevemente o exercício em que hei de meditar, como quem afina uma viola para tocar.

Geralmente dizia nosso Santo Padre, que da observância destes e de outros semelhantes avisos, a que ele chama adições, dependia em muita parte termos boa oração, e tirarmos dela copioso fruto, como nós muito de ordinário experimentamos, porque, quando vamos bem preparados, e guardamos pontualmente estes avisos, a que ele chama adições, dependia em muita parte termos boa oração, e tirarmos dela copioso fruto, como nós muito de ordinário experimentamos, porque, quando vamos bem preparados, e guardamos pontualmente estes avisos, nos sucede bem na oração, e pelo contrário quando nos esquecemos deles.

Pela boca do sábio diz o Espírito Santo: “Ante orationem praepara animam tuam, et noli esse quasi homo, qui tentat Deum:16 Antes de entrares na oração, prepara-te bem para ela, e não sejas como o homem, que tenta a Deus”17. Sobre estas palavras notam São Tomás de Aquino e São Boaventura, que ir à oração sem preceder preparação, é como tentar a Deus; por que tentar a Deus, dizem os Teólogos e os Santos, é querer alcançar alguma coisa sem aplicar os meios ordinários, e necessários para esse fim; como se alguém dissesse: "Não quero comer, porque Deus bem me pode sustentar sem que eu coma, ele me sustentará", seria tentar a Deus, e pedir um milagre sem necessidade. Assim disse Cristo nosso Redentor ao demônio, quando o levou ao pináculo do Templo e o persuadia a que se precipitasse dele abaixo, porque Deus mandaria os seus Anjos que o sustentasse, e tivessem nas palmas18: Non tentabis Dominum Deum tuum: Não tentarás a teu Deus e Senhor. Eu bem posso descer pela escada, porque o mais é tentar a Deus, e pedir que faça um milagre sem necessidade. Adverti pois, e ficai de aviso, que é remédio tão principal, e tão necessário para a oração, o prepararmo-nos para ela, que diz o Sábio, que querer ter oração sem esta preparação é como tentar a Deus, e é querer que faça em vós um milagre. É certo que nosso Senhor quer que tenhamos boa oração, e com muita atenção e reverência; porém há de ser pelos meios ordinários, dispondo-nos e preparando-nos para ela do modo que ficou dito. Amém.

01- Basil. In Regul. Brev. 201 et 206 et in Const ad Monac. Solitar.
02- Theodor. in histor. Sanc. Patr. Cap. 21. aug.sup Psalm 85.
03- S.Ignat. Lib.Exerc.Spiritual.
04- Ps. 18,15
05- Chrysost. sup.illud Psalm. 4. Miserere mei, et exaudi orationem meam. Tom. I.
06- I Ad Cor. 4,9
07- Bernard.
08- Climaco. in Scala Spirit. Grad.4.et 18.
09- Psalm 94,6
10- Is 38,14.
11- Mc 10,47; Lc 18,38
12- Judith 15,9
13- Gerson
14- S.Ignatius lib. Exercitior, Spiritualium notabil. 3.4 hebdom.
15- Bonav. in Informat. Novitior. part.1 c.4. Cum evigilas, statim omnes cogitationes tuas abjice de corde tuo et offer Deo primitias cogitationum tuarum. Climac. cap.21. S.Ignat. lib. Exerc.Spirit.addit.2. prioris hebdomad. et addit. 2 secundae hebdom.et in. 1. orand.mod.
16- Ecl 18,32.
17- S.Thom. 2.2. q.97.art.3.ad 2.Bonav.in.Opusc.cuj.tit.est Regul.Novitior.cap.2.
18- Mt 4,7

Fonte: Voltaparacasa

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