A leitura meditada – Precisamos de livros para rezar

 

Frei Patrício Sciadini, OCD

O caminho mais fácil para entrar em comunhão com Deus é, sem dúvida, recorrer a um livro. Os livros são os melhores amigos que temos, silenciosos e sempre disponíveis, ao nosso alcance.

É verdade que o único mestre é o Senhor, Ele sabe conduzir as almas pelos seus caminhos e, na sua liberdade, educa para a experiência do seu amor. Mas, se o nosso coração se encontra árido, indisposto e incapaz de formular algum pensamento de amor ou se nos encontramos envolvidos na espessa noite, os livros podem vir em nosso socorro.

Quais livros devemos ler e meditar e em que consiste a leitura meditativa? Sem dúvida, o livro por excelência é a Palavra de Deus, que deve nos acompanhar em cada momento de nossa caminhada.

Todos os santos tiveram um amor especial para com a Palavra de Deus. Santa Teresa de Ávila dá um conselho precioso às pessoas que não conseguem refletir com a inteligência nem, às vezes, reter as palavras que escutam: "Por mais curta que seja, a leitura tem utilidade para essas pessoas e é até necessária para que se recolham…Se o mestre que ensina insistir que a oração seja sem leitura (sendo a leitura uma grande ajuda para que essas pessoas se recolham), pessoas assim não conseguem perseverar muito tempo na oração. E, se lutarem, elas sentirão um enfraquecimento, porque o combate é muito penoso." (V 4,8). É pelo livro que podemos assimilar e fazer nossas as reflexões que o próprio autor desenvolve.

É claro que a simples leitura não pode ser considerada "leitura meditativa"; é preciso um grande amor e atenção ao sentido de todas as palavras e saber delas "extrair", como abelhas que vão de flor em flor, o néctar gostoso da contemplação.

A leitura meditativa é o primeiro passo que os iniciantes no caminho da oração devem dar. Santa Teresa recorda que passou mais de 14 anos na mais completa aridez e só sentia força e coragem através da ajuda de um livro. "Passei mais de 14 anos sem conseguir nem mesmo a meditação, a não ser recorrendo a alguma leitura." (C 17,3). E depois: "Agora acho que a Providência Divina quis que eu não encontrasse quem me ensinasse. Eu não teria conseguido perseverar na oração nos dezoito anos em que me acometeram tamanhos sofrimentos e aridez, visto não poder fazer oração discursiva, sem as leituras. Por todo esse tempo, eu não me atrevia a começar a orar sem livro, exceto quando acabava de comungar; minha alma temia tanto orar sem livro que era como se tivesse de enfrentar um exército… a aridez não costumava vir quando eu tinha um livro; os pensamentos se recolhiam carinhosamente, e o espírito se concentrava." (V 4,9).

Conta a tradição que São João da Cruz sabia a Bíblia toda de cor; embora seja um piedoso exagero, não há dúvida que muitas passagens ele conhecia de memória, como o Cântico dos Cânticos e o capítulo 17 de São João, que eram suas passagens preferidas. Ao longo de seus escritos há quase duas mil citações bíblicas. Além dos livros sagrados, ele recorria aos autores espirituais para alimentar sua própria espiritualidade. "Procurai lendo, encontrareis meditando", este é um dos mais bonitos aforismos de São João da Cruz…

Santa Teresinha tinha um amor apaixonado pela Palavra de Deus. Gostava de ler, mas ao final de sua caminhada percebeu que o único livro que nunca a cansava e onde ela encontrava a sua delícia era o Evangelho. "Quando abro um livro composto por um autor espiritual (até o mais bonito, o mais emocionante), sinto logo meu coração apertar-se e leio-o sem, por assim dizer, compreender ou, se compreendo, meu espírito pára sem poder meditar… Nesses momentos, a Sagrada Escritura e a Imitação de Cristo vêm socorrer-me; nelas encontro um alimento sólido e totalmente puro. Mas é sobretudo o Evangelho que me sustenta nas minha orações; nele encontro tudo o que é necessário para minha pobre alminha. Sempre descubro novas luzes, sentidos ocultos e misteriosos…" (MA 83v).

Não podemos esquecer o exemplo da Beata Elisabeth da Trindade, tão familiarizada à Palavra de Deus, tinha especial intimidade com o apóstolo Paulo, a quem muitas vezes chamava de "meu Paulo".

A Regra do Carmelo, que foi escrita por Santo Alberto no início do século 13, diz que "devemos meditar dia e noite na lei do Senhor", e a Regra não é outra coisa senão uma colcha maravilhosa de retalhos bíblicos, de amor à Palavra do Senhor.

Como ler a Palavra de Deus?

A Palavra de Deus, fonte de toda a nossa espiritualidade, deve antes de tudo ser assumida com fé, amor e perseverança. Jesus recorda que é preciso "escutar e praticar" a Palavra; não podemos, portanto, ter uma leitura corrida, desatenta e sem prestar o devido amor ao Senhor que nos fala ao nosso coração. Três são as atitudes fundamentais que devem estar dentro de nós quando nos aproximamos do santuário da Palavra de Deus; ela dever ser lida: lenta, atenta e amorosamente.

– Lentamente: não somos acostumados a ler lentamente. Hoje temos quase uma "voracidade compulsiva" em ler muito. Há, poderíamos dizer, um "engordamento artificial" de idéias que não conseguimos digerir. É muito importante na oração evitar essa fome de palavra, ter mais cuidado na escolha do que lemos e ler mais lentamente, quase saboreando palavra por palavra, repartindo as palavras como se fossem uma fruta que queremos saborear e não apenas engolir.

– Atentamente: prestar atenção ao que se diz ou se lê. Para Santa Teresa, este é o segredo da verdadeira meditação. É preciso, diz ela, saber o que diz e para quem diz, para que seja verdadeira oração. A mesma pedagogia devemos usar quando queremos compreender o que estamos lendo para poder penetrar no seu sentido. Três perguntas podem ser úteis aqui: "O que diz a Palavra? Para quem é dirigida? O que diz para mim hoje?". Essa releitura da Palavra é fundamental para, diante dela, não nos portar como espectadores ou visitantes de um museu, mas atualizá-la para a nossa vida.

– Amorosamente: ler com amor, como se a Palavra ou texto fosse dirigido tão somente a nós. Essa personalização da Palavra é fundamental para que possamos ser "tocados" pelo espírito do autor que, quando escreveu, tinha uma finalidade: sermos gerados pela Palavra ouvida e meditada. Quando lemos algo com amor, isso produz mais fruto dentro de nós.

A leitura meditativa é um caminho fácil que todos podemos percorrer, e podemos sentir que o Senhor nos alimenta em um banquete "festivo". "Todos vós que tendes fome e sede, vinde à nascente", recorda o profeta Isaías (55,2). O que importa é comer; que a comida seja preparada por nós ou por outro, pouco importa. Mas quando a comida é preparada pelo próprio Deus, aí não podemos recusá-la.

Fonte: Comunidade Shalom

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