Oração vocal: Todos podemos rezar

 

Frei Patrício Sciadini, OCD

Se maravilhosa é a criatividade do ser humano em descobrir as mais belas formas de comunicação: escrita, rádio, TV, imagens, sinais, ainda mais impressionante é a ação criadora de Deus em ter-nos dotado da capacidade de falar. Nada de mais bonito que contemplar duas pessoas que sabem traduzir o que sentem, o que está escondido no coração, através de palavras ou, como é o caso dos nossos irmãos surdos, de sinais.
A fala é uma propriedade exclusiva do ser humano. Somente os homens e as mulheres escrevem e deixam atrás de si sinais do próprio pensamento.
O próprio Jesus, no Evangelho, recorre a tantas imagens que traduzem em palavras o que se passava no seu coração em relação a nós e ao Pai. Sem palavras não teríamos o Pai-nosso, o Evangelho nem a Bíblia.

A oração vocal
Nunca é demais dizer que a oração é o nosso diálogo amoroso com Deus. É um estar diante dele manifestando-lhe os nossos sentimentos, que podemos expressar com o silêncio ou com as palavras. Quando revelamos a Deus ou aos santos o que se passa dentro de nós através de palavras, esta se chama oração vocal.
O povo simples ou as crianças – e se “não nos tornarmos como crianças não entraremos no reino dos céus” – gostam muito de falar. Por isso a oração vocal faz parte do primeiro passo dos orantes. Falar é uma necessidade que está dentro de nós. É verdade que um dia Jesus nos convidou a ser de poucas palavras nas nossas orações, a ir diretamente ao essencial sem nos perder em tantas aparências, mas sobre isso falaremos em outro momento. Aqui, queremos nos deter na oração vocal, a oração com o uso da voz, que aprendemos nos primeiros momentos de nossa fé. Pronunciar as palavras que queremos dirigir a Deus nos ajuda a perceber mais viva a presença divina e a ter a certeza de que as palavras pronunciadas são escutadas por alguém.
Deus fala ao ser humano de muitas maneiras: por inspirações silenciosas dentro do coração, por sonhos ou visões, mas normalmente Ele fala através da palavra que nos é dirigida pelos seus profetas. E, na plenitude dos tempos, nos fala pela sua palavra que se faz carne: Jesus.
“É por palavras mentais e vocais que a nossa oração cresce” (Cat, 2700). Como seriam as palavras mentais? O que pronunciamos, antes de ser pronunciado é pensado por nós e conhecido por Deus. O salmista nos diz: “A palavra não chegou à minha garganta e vós, Senhor, a conheceis toda”. É sempre muito importante, antes de falar, pensar, e muito. Não podemos dizer tudo o que se passa dentro de nós. É erro crer que por amor à verdade se deve dizer tudo. A virtude da prudência nos faz saber silenciar o que pode ser ofensivo, mal entendido ou agressivo, mesmo que seja verdade. É bom, portanto, mesmo na nossa oração, escolher palavras que possam ser agradáveis ao Senhor. Teresa, mestra da oração, diz que devemos pensar sempre a quem nos dirigimos e o que dizemos. Essas palavras mentais ou orais formam a nossa oração.

Rezar com atenção e amor
As palavras pronunciadas “distraidamente, sem amor, sem atenção, jogadas de qualquer maneira”, dirigindo uma palavra a Deus e dez aos que estão perto de nós, olhando à direita e à esquerda, observando quem entra ou sai da igreja, ou a roupa que os outros vestem, diante de Deus não valem nada. Por isso Jesus nos recorda que não devemos ser “grupos de oração dos faladores”, pois “não são os que dizem Senhor, Senhor, que entrarão no reino do céu, mas os que fazem a vontade do meu Pai que está no céus”.
Portanto, nas nossas orações “vocais”, que cada palavra seja verdadeiramente a força do amor que está em nosso coração, quer seja louvor, súplica, grito, intercessão…Tudo deve nascer no coração. “A nossa oração é ouvida não pela quantidade de palavras, mas pelo fervor da nossa alma”, dizia São João Crisóstomo. Não raramente rezamos muito, mas rezamos mal, exatamente porque não estamos “atentos ao que estamos fazendo e como o fazemos”.

Jesus rezou vocalmente
Os apóstolos, certamente, não tinham o dom do conhecimento dos pensamentos, portanto, não poderiam nos transmitir as orações de Jesus se Ele mesmo não as tivesse pronunciado em voz alta. Como é o caso do Pai-nosso ou da belíssima oração que sempre me enche de alegria e de medo; de alegria porque me diz que, na medida em que for pobre, simples, serei discípulo do Reino, e de medo porque o orgulho não tem cidadania no Evangelho: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).
A oração vocal é indispensável na vida cristã. Não se pode ser somente “contemplativos mudos”, sem participar da oração das comunidades. Não somos espectadores, mas protagonistas das celebrações litúrgicas… Por isso é importantíssimo responder durante as celebrações, cantar, participar, viver os vários momentos da liturgia. Como é maravilhoso fazer parte viva da comunidade orante, ser voz que se une às outras vozes, cantar unido aos outros que cantam e, mesmo quando silenciamos, que o nosso silêncio seja “palavra viva de amor”!
“Aos discípulos, atraídos pela oração silenciosa do Mestre, este ensina uma oração vocal: o “Pai-nosso”. Jesus não só rezou as orações litúrgicas da sinagoga; os Evangelhos o mostram elevando a voz para exprimir sua oração pessoal, da bênção exultante do Pai até a angústia do Getsêmani” (Cat, 2701).

É bom usar livros de “orações dos outros”?
Considero os livros de orações – tanto a Bíblia, quanto os livros escritos pelos santos ou pelos simples mortais, como cada um de nós – muito importantes. Aliás, é sempre bom colocar no papel o que se passa no coração e depois, de vez em quando, voltar a ler para reviver com saudade os momentos de oração ou sofrimento, em que Cristo caminhou conosco.
As orações dos outros são como “pronto-socorro” a que recorremos nos momentos difíceis ou de “aridez” em que não saberíamos dizer nada porque as palavras não vêm.
Todos nós, quando queremos fazer uma novena, ou uma celebração, recorremos a livros já preparados para esta finalidade.
Eu mesmo escrevi muitos livros de oração e que têm ajudado a mim e a outras pessoas também. Santa Teresa “recheou” de orações os seus livros. São João da Cruz, mais austero, quase reservado e ciumento dos seus sentimentos, também se revela com a bonita “Oração da alma enamorada”: “Senhor Deus, Amado meu! Se ainda te recordas dos meus pecados, para não fazeres o que ando pedindo, faze neles, Deus meu, a tua vontade, pois é o que eu mais quero: exerce neles a tua bondade e misericórdia, e serás neles conhecido… Não me tirarás, Deus meu, o que uma vez me deste em teu único Filho Jesus Cristo, em quem me deste tudo quanto quero; por isso folgarei, pois não tardarás, se eu confiar. Por que tardas em esperar, ó minha alma, se desde já podes amar a Deus em teu coração? O céu é meu e minha a terra, meus são os homens, os justos são meus e meus os pecadores. Os anjos são meus, e a Mãe de Deus e todas as coisas são minhas. O próprio Deus é meu e para mim, porque Cristo é meu e todo para mim. Que pedes, pois, e buscas, ó minha alma? Tudo isto é teu e tudo para ti. Não te rebaixes nem atentes nas migalhas caídas da mesa de teu Pai.”

“Sendo exterior e tão plenamente humana, a oração vocal é por excelência a oração das multidões. Mas também a oração mais interior não pode menosprezar a oração vocal. A oração se torna interior na medida em que tomamos consciência daquele “com quem falamos”. Então a oração vocal é uma primeira forma da oração contemplativa” (Cat, 2704).

Alguns conselhos para rezar melhor:
1. Preparar o coração para a oração, reavivar a nossa fé;
2. Rezar devagar, pronunciando todas as palavras, entendendo o que dizemos e a quem nos dirigimos: a Deus;
3. Assumir as orações, mesmo compostas por outros, como se fossem nossas.
4. Examinar se o que pedimos ao Senhor ou pela intercessão do santos é verdadeiramente necessário;
5. Fazer esforço para não nos distrair com coisas inúteis durante as orações;
6. Depois de ter rezado passar alguns minutos em “silêncio”, agradecendo ao Senhor com as nossas palavras.

Fonte: Comunidade Shalom

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