Ainda que caminhe por um vale escuro…

 

2003-12-07- Advento na Casa Pontifícia

Um dia, Francisco de Assis exclamou: «Carlo imperador, Orlando e Olivero, todos os grandes guerreiros que foram valentes nos combates, perseguindo os infiéis com muito suor e fadiga até à morte, conseguiram sobre eles uma glória e memorável vitória, e por último estes santos mártires caíram em batalha pela fé de Cristo. Mas há muitos que, somente narrando suas gestas, querem receber honra e glória dos homens» (1).

Em uma de suas Admonições, o santo explicou o que havia querido dizer com aquelas palavras: «É uma vergonha para nós, servos do Senhor, o fato de que os santos atuaram com os fatos e nós, relatando e pregando as coisas que eles fizeram, queremos receber honra e glória» (2). Estas palavras me vêm à memória como um austero sinal no momento em que me disponho a oferecer a segunda meditação sobre a santidade de Madre Teresa de Calcutá.

1. Na escuridão da noite
O que ocorreu depois que Madre Teresa disse seu «sim» à inspiração divina que a chamava a deixar tudo para colocar-se a serviço dos mais pobres entre os pobres? O mundo conheceu bem o que sucedeu em torno a ela -a chegada das primeiras companheiras, a aprovação eclesiástica, o vertiginoso desenvolvimento de suas atividades caritativas–, mas até sua more, ninguém soube o sucedido dentro dela.

Revelam isso os diários pessoais e as cartas a seu diretor espiritual, divulgadas por ocasião de sua beatificação: «Com o início de sua nova vida a serviço dos pobres, uma opressiva escuridão veio sobre ela» (3). Bastam alguns breves fragmentos para dar uma idéia da densidade das trevas em que entrou.

«Há tanta contradição em minha alma, um profundo anseio de Deus, tão profundo que faz dano, um sofrimento contínuo -e com isso o sentimento de não ser querida por Deus, rejeitada, vazia, sem fé, sem amor, sem entusiasmo… O céu não significa nada para mim, me parece um lugar vazio» (4).

Não foi difícil reconhecer imediatamente nesta experiência de Madre Teresa um caso clássico do que os estudiosos da mística, detrás de São João da Cruz, chamam a noite escura do espírito. Taulero faz uma descrição impressionante desta etapa da vida espiritual:

«Então somos abandonados de tal forma que já não temos conhecimento de Deus e caímos em tal angústia que não sabemos se estivemos no caminho justo, nem sabemos já se Deus existe ou não, ou se nós mesmos estamos vivos ou mortos. De sorte que sobre nós cai uma dor tão estranha que nos parece que todo o mundo em sua extensão nos oprime. Já não temos nenhuma experiência nem conhecimento de Deus, e inclusive todo o demais nos parece repugnante, de forma que nos parece estar prisioneiros entre dois muros» (5).

Tudo permite pensar que esta escuridão acompanhou Madre Teresa até a morte (6), com um breve parêntese em 1958, durante o qual pôde escrever alegre: «Hoje minha alma está cheia de amor, de alegria indizível e de uma ininterrupta união de amor» (7). Se a partir de certo momento já não fala quase disso, não é porque a noite terminou, mas porque ela se adaptou a viver nesta. Não só a aceitou, mas reconhece a graça extraordinária que estabelece para ela.

«Comecei a amar minha escuridão, porque creio que esta é uma parte, uma pequenina parte, da escuridão e do sofrimento em que Jesus viveu na terra» (8).

A flor mais perfumada da noite de Madre Teresa é seu silêncio sobre isso. Tinha medo, ao falar disso, de fazer-se notar. As pessoas mais próximas a ela não suspeitavam de nada, até o final, deste tormento interior da Madre. Por ordem sua, o diretor espiritual teve de destruir todas as suas cartas e se algumas foram salvas é porque ele, com permissão dela, fez uma cópia para o arcebispo e futuro cardeal T. Picachy, as quais foram encontradas após a morte dela. O arcebispo, felizmente, rejeitou a petição que lhe fez também Madre Teresa de destruí-las.

O perigo mais insidioso para a alma na noite escura do espírito é o de… perceber que se trata, precisamente, da noite escura, daquilo que os grandes místicos viveram antes dela e, portanto, formar parte de um círculo de almas eleitas. Com a graça de Deus, Madre Teresa evitou este risco escondendo a todos seu tormento sob um eterno sorriso.

«Todo o tempo sorrindo, dizem de mim as irmãs e as pessoas. Pensam que meu interior está cheio de fé, confiança e amor… Se só souberem como minha aparência alegre não é senão um manto com o qual cubro vazio e miséria!» (9).

Os Padres do deserto dizem: «Por grandes que sejam tuas penas, tua vitória sobre elas está no silêncio» (10). Madre Teresa o pôs em prática de forma heróica.

2. Madre Teresa de Calcutá e Padre Pio de Pietrelcina
Por ocasião da canonização de Padre Pio de Pietrelcina, os observadores leigos expressaram o parecer de que a santidade do místico Padre Pio era uma santidade arcaica, diferentemente da de Madre Teresa, a santa da caridade, que seria uma santidade moderna. Agora descobrimos que também Madre Teresa era uma mística (que Padre Pio era também um santo da caridade basta para demonstrá-lo a obra que ele realizou no «alívio do sofrimento»).

O erro é contrapor estas duas marcas da santidade cristã, que vemos, ao contrário, com freqüência unidas admiravelmente, isto é, altíssima contemplação e intensíssima ação. Santa Catarina de Gênova, considerada uma das maiores da mística, foi desde Pio XII proclamada patrona dos hospitais na Itália por sua obra e a de seus discípulos a favor dos enfermos e dos incuráveis, que recorda de perto a obra de Madre Teresa em nossos dias.

Em um belo artigo, escrito com ocasião da beatificação, um autor indiano define Madre Teresa como «uma irmã para Gandhi» (11). Certamente muitas marcas reúnem as duas grandes almas, os dois Mahatma, da Índia moderna, mas é ainda mais justo, creio, ver em Madre Teresa «uma irmã para Padre Pio». Lhes une não só a mesma veneração da Igreja, mas também um mesmo ciclo de glória de parte da opinião pública mundial. Uma se distinguiu sobretudo nas obras de misericórdia corporais, o outro nas obras de misericórdia espirituais. Mas foi precisamente Madre Teresa a que recordou ao mundo de hoje que a pobreza pior não é a dos pobres de coisas, mas a dos pobres de Deus, de humanidade e de amor, a pobreza, em suma, do pecado.

A marca que mais aproxima estes dois santos é, talvez, precisamente a longa noite escura na qual viveram toda a vida. Sempre recordarei a impressão que tive ao ler o relato com que Padre Pio descrevia a seu pai espiritual o fato dos estigmas. Ele terminava fazendo suas as palavras do salmo que diz: «Senhor, não me corrijas em teu enojo, em teu furor não me castigue» (Sal 38, 2). Estava convencido e esta convicção lhe acompanhou toda a vida, de que os estigmas não eram um sinal de predileção e de aceitação de parte de Deus, mas, ao contrário, de sua rejeição e do justo castigo divino por seus pecados. Foi aquilo o que me abriu os olhos sobre a estatura mística deste irmão meu do qual, até então, me havia interessado pouco.

Para irradiar luz, estas duas almas tiveram que passar a vida na escuridão, convencidas, além disso, de «enganar as pessoas». São Gregório Magno diz que a característica dos homens superiores é que «na dor da própria tribulação, não descuidam da convivência dos demais; e enquanto suportam com paciência as adversidades que os golpeiam, pensam em ensinar aos demais o necessário, semelhantes nisso a certos grandes médicos que, afetados estes mesmos, esquecem suas feridas para atender os demais» (12). Este sinal resplandece em grau eminente na vida de Madre Teresa e de Padre Pio.

3. Não só purificação
Por que este estranho fenômeno de uma noite do espírito que dura praticamente toda a vida? Aqui há algo novo a respeito dos que viveram e explicaram os mestres do passado, incluindo São João da Cruz. Esta noite escura não se explica com a única idéia tradicional da purificação passiva, a chamada via purgativa, que prepara à via iluminada. Madre Teresa estava convencida de que se tratava precisamente disto em seu caso; pensava que seu «eu» era particularmente duro de vencer, se Deus se via obrigado a tê-la durante tão longo tempo nesse estado.

Mas isto não era certo. A interminável noite de alguns santos modernos é o meio de proteção inventado por Deus para os santos de hoje que vivem e trabalham constantemente sob os focos da mídia. É o traje de amianto para quem deve ir entre as chamas; é o isolamento que impede a corrente elétrica de sair provocando curtos-circuitos…

São Paulo dizia: «Para não me envaidecer com a sublimidade dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne» (2 Cor 12, 7). O espinho na carne, que era o silêncio de Deus, se revelou eficaz para Madre Teresa: a preservou de todo entusiasmo em medo a tudo o que o mundo dizia dela, também no momento de receber o prêmio Nobel da paz. «A dor interior que sente –dizia– é tão grande que não me afeta nada toda a publicidade e o falar das pessoas».

Também isto une Madre Teresa e Padre Pio. Um dia, Padre Pio, olhando pela janela a multidão reunida na praça, perguntou maravilhado ao irmão que tinha ao lado: «Por que vieram todos estes?», e a resposta: «Por você, Padre», retirou-se rapidamente suspirando: «Se só soubessem…».

Mas existe uma razão ainda mais profunda que explica estas noites que se prolongam durante toda uma vida: a imitação de Cristo, a participação na noite escura do espírito que envolveu Jesus no Getsemani e na qual morreu no Calvário, gritando: «Deus meu, Deus meu, por que me abandonou?». Na carta apostólica Novo millennio ineunte, a propósito do «rosto doente» de Cristo, o Papa escreve:

«Ante este mistério, além de investigação teológica, podemos encontrar uma ajuda eficaz naquele patrimônio que é a «teologia vivida» dos Santos. Estes nos oferecem algumas indicações preciosas que permitem acolher mais facilmente a intuição da fé, e isto graças às luzes particulares que alguns deles receberam do Espírito Santo, ou inclusive através da experiência que eles mesmos tiveram dos terríveis estados de prova que a tradição mística descreve como «noite escura». Muitas vezes os Santos viveram algo semelhante à experiência de Jesus na cruz na paradoxal confluência de felicidade e dor» (13).

A carta cita a experiência de Santa Catarina de Siena e de Teresa do Menino Jesus. Agora sabemos que poderia citar também o exemplo de Madre Teresa. Ela chegou a ver cada vez mais claramente sua prova como uma resposta a seu desejo de compartilhar o «Lugar» de Jesus na cruz.

«Se a pena e o sofrimento, minha escuridão e separação te dá uma gota de consolação, Jesus meu, faz de mim o que quiseres… Imprime em minha alma e vida o sofrimento de teu coração. Quero saciar tua sede com cada gota de sangue que possa encontrar em mim. Não te preocupes de voltar logo; estou disposto a esperar-te toda a eternidade» (14).

Seria um grande erro pensar que a vida destas pessoas seja toda sombrio sofrimento. A carta Novo Millennio ineunte, ouvimos, fala de uma «paradoxal confluência de felicidade e dor». No fundo da alma, estas pessoas gozam de uma paz e alegria desconhecidas para o resto dos homens derivados da certeza, mais forte que a dúvida, de estar na vontade de Deus. Santa Catarina de Gênova compara o sofrimento das almas neste estado ao do Purgatório, e diz que este «é tão grande que somente é comparável ao do inferno», mas que existe nelas uma «grandessíssima alegria» que somente se pode comparar a dos santos no Paraíso (15).

A alegria e a serenidade que emanavam do rosto de Madre Teresa não eram uma máscara, mas o reflexo da união profunda com Deus, em que vivia sua alma. Era ela que se «enganava» sobre si mesma, não as pessoas.

4. Ao lado dos ateus
Em lugar de santos «arcaicos», os místicos são os mais modernos entre os santos. O mundo de hoje conhece uma nova categoria de pessoas: os ateus de boa fé, aqueles que vivem dolorosamente a situação do silêncio de Deus, que não crêem em Deus mas não se vangloriam disso; experimentam mais a angústia existencial e a falta de sentido de tudo; vivem também eles, a seu modo, em uma noite escura do espírito. Albert Camus lhes chamava «os santos sem Deus». Os místicos existem sobretudo para eles; são seus companheiros de viagem e de mesa. Como Jesus, eles «estão sentados à mesa dos pecadores e comeram com eles» (Cf. Lc 15, 2).

Isto explica a paixão com a qual certos ateus, uma vez convertidos, lançaram-se sobre os escritos dos místicos: Claudel, Bernanos, os dois Maritain, L. Bloy, o escritor J. -K. Huysmans e muitos outros sobre os escritos de Angela de Foligno; T. S. Eliot sobre os de Giuliana de Norwich. Ali encontravam a mesma paisagem que haviam deixado mas desta vez iluminada pelo sol. Este ano se celebra o 50º aniversário da primeira representação de «Esperando Godot», o drama mais representativo do teatro do absurdo, mas poucos sabem que seu autor, Samuel Beckett, em seu tempo livre lia São João da Cruz.

A palavra «ateu» pode ter um sentido ativo e um sentido passivo. Pode indicar aquele que rejeita Deus, mas também aquele que –pelo menos assim lhes parece– é rejeitado por Deus. No primeiro caso, trata-se de um ateísmo de culpa (quando não é de boa fé), no segundo de um ateísmo de pena, ou de expiação. Neste último sentido podemos dizer que os místicos, na noite do espírito, são os a-teus, os sem Deus. Madre Teresa tem palavras que ninguém havia suspeitado nela:

«Dizem que a pena eterna que sofrem as almas no inferno é a perda de Deus… Em minha alma eu experimento precisamente esta terrível pena da perda, de Deus que não me quer, de Deus que não é Deus, de Deus que na realidade não existe. Jesus, te rogo, perdoa minha blasfêmia» (16).

Mas se dá conta da natureza distinta, de solidariedade e de expiação, deste «ateísmo» seu:

«Quero viver neste mundo tão longe de Deus e que deu as costas à luz de Jesus, para ajudar as pessoas, carregando com algo de seu sofrimento» (17).

Os místicos chegaram a um passo do mundo onde vivem os sem Deus; experimentaram a vertigem de precipitar-se para baixo. Escreve Madre Teresa a seu pai espiritual:

«Estive a ponto de dizer “não”… Sinto-me como se algo, um dia ou outro, tivesse de romper em mim». «Rogue por mim, para que eu não rejeite Deus nesta hora. Não quero fazê-lo, mas temo que possa fazê-lo» (18).

Por isto os místicos são os evangelizadores ideais no mundo pós-moderno, onde se vive «etsi Deus non daretur», como se Deus não existisse. Recordam aos ateus honestos que não estão «longe do reino de Deus»; que lhes bastaria dar um salto para encontrar-se ao lado dos místicos, passando do nada ao tudo. Tinha razão Karl Rahner ao dizer: «O cristianismo do futuro, ou é místico ou não será». Padre Pio e Madre Teresa são a resposta a este sinal dos tempos. Não devemos «desperdiçar» os santos reduzindo-os a dispensadores de graças ou de bons exemplos.

5. Nossa pequena noite
Os místicos têm contudo algo a dizer aos crentes, e não só aos ateus. Não são uma exceção, ou uma categoria à parte de cristãos. Mostram mais, como de forma ampliada, o que deveria ser a plena expansão da vida de graça. Uma coisa aprendemos especialmente da noite escura dos místicos, e em particular da de Madre Teresa; como comportar-nos em tempo de aridez, quando a oração se converte em luta, fatiga, um golpe da cabeça contra um «muro de lamentação».

Não é necessário insistir na oração de Madre Teresa em todos aqueles anos passados na escuridão; a imagem dela em oração é a que todos temos ainda ante os olhos. Uma série de belíssimas orações se encontra entre a herança mais preciosa que ela deixou a suas filhas e à Igreja. De Jesus, o evangelista Lucas diz que, «sumido em agonia, insistia mais em sua oração», factus in agonia prolixius orabat (Lc 22, 44). É o que se observa também na vida destas almas.

A aridez na oração, quando não é fruto de dissipação ou de pactos com a carne, mas permissão de Deus, é a forma atenuada e comum que a noite escura advém na maioria das pessoas que tendem à santidade. Nesta situação é importante não se render e começar a omitir a oração para entregar-se ao trabalho, visto que se consegue bem pouco estando em oração. Quando Deus não está, é importante ao menos que seu lugar permaneça vazio e que não seja ocupado por algum ídolo, especialmente o que chamamos ativismo.

Para impedir que isto ocorra é bom interromper cada momento o trabalho para elevar ao menos um pensamento a Deus, ou para sacrificar-lhe simplesmente um pouco de tempo. Em tempo de aridez há que descobrir um tipo de oração especial que a beata Angela de Foligno definia como a oração forçada e que diz ter praticado ela mesma:

«É bom e muito agradável a Deus que tu ores com o fervor da graça divina, que veles e te fatigues ao realizar toda ação boa; mas é mais agradável e aceitável ao Senhor se, faltando a graça, não diminuas tuas orações, tuas vigílias, tuas boas obras. Atue sem a graça da mesma maneira como o fazias quando a possuías… tu fazes tua parte, filho meu, e Deus fará a sua. A oração forçada, violenta, é muito agradável a Deus» (19).

Esta é uma oração que se pode fazer mais com o corpo que com a mente. Existe uma secreta aliança entre a vontade e o corpo e há de usá-la: a razão. Com freqüência, quando nossa vontade não pode ordenar à mente que tenha ou não certos pensamentos, pode ordenar ao corpo: os joelhos que se dobram, as mãos que se juntam, os lábios que se abrem e pronunciam algumas palavras, por exemplo, «Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo».

Um místico oriental, Isaac o Sírio, dizia: «Quanto teu coração está morto e já não temos a mínima oração nem súplica alguma, quando Ele vier, que nos encontre prostrados com o rosto em terra perpetuamente». Madre Teresa conheceu também esta oração «forçada».

«Não posso dizer-lhe o mal que senti outro dia; houve um momento no qual por pouco rejeitei aceitar. Então tomei decididamente o Rosário e o rezei lentamente e com calma, sem meditar nem pensar em nada» (20).

Simplesmente permanecer com o corpo na igreja, ou no lugar eleito para a oração, simplesmente estar em oração, é então o único modo que fica para continuar sendo perseverantes na oração. Deus sabe que poderíamos ir e fazer centenas de coisas mais úteis e que nos agradariam mais, mas permanecemos ali, consumimos em branco o tempo a Ele destinado por nosso horário ou por nosso propósito.

A um discípulo que se lamentava continuamente de não poder orar por causa das distrações, um ancião monje, ao que se havia dirigido, lhe respondeu; «que teu pensamento vá onde queira, mas que teu corpo não saia da cela!» (21). É um conselho que também nos serve, quando nos encontramos em situação de distrações crônicas que já não estão em nossas mãos poder controlar: que nosso pensamento vá aonde queira, mas que nosso corpo permaneça em oração!

Em tempo de aridez, devemos recordar a dulcíssima palavra do Apóstolo: «O Espírito vem em ajuda de nossa fraqueza…» (Rm 8, 26 s). Ele, sem que o notemos, enche nossas palavras e nossos gemidos de desejo de Deus, de humildade, de amor. O Paráclito se converte, então, na força de nossa oração «Fraca», na luz de nossa oração apagada; em uma palavra, na alma de nossa oração. Verdadeiramente, como diz a Sequência, Ele «rega o que é árido», rigat quod est aridum.

Tudo isto sucede por fé. Basta que eu diga: «Padre, tu me presenteaste o Espírito de Jesus; formando, por isso, “um só Espírito” com Ele, eu rezo este salmo, celebro esta Santa Missa, ou estou simplesmente em silêncio, aqui, em tua presença. Quero dar-te a glória e a alegria que te daria Jesus, se fosse Ele quem te orasse ainda desde a terra». Com esta certeza, concluímos nossa reflexão orando:

«Espírito Santo, Tu que intercedes no coração dos crentes com gemidos inefáveis, chama o coração de tantos de nossos contemporâneos que vivem sem Deus e sem esperança neste mundo. Ilumina a mente daqueles que neste momento estão delineando a fisionomia de nosso continente; faz-lhes compreender que Cristo não é uma ameaça para ninguém, mas irmão de todos. Que aos pobres, aos pequenos, aos perseguidos e aos excluídos da Europa de amanhã não lhes seja tirado, com culpado silêncio, a garantia que até agora mais lhes defendeu do arbítrio dos grandes e da dureza da vida; o nome do primeiro deles, Jesus de Nazaré!».

(1) Leyenda Perusina, 72 (Fontes Franciscanas, n. 1626)
(2) Admonições, VI (FF, n. 155).
(3) Pe. Joseph Neuner, S.J., On Mother Teresa’s Charism, “Review for Religious”, Set-Out 2001, vol. 60, vol. 60, n. 5 (Adiante abreviado: JN) (Os documentos citados nesta pregação colocou amavelmente à disposição a Postulação geral da Causa de Madre Teresa).
(4) “There is so much contradiction in my soul, such deep longing for God, so deep that it is painful, a suffering continual – yet not wanted by God, repulsed, empty, no faith, no love, no zeal… Heaven means nothing to me, it looks an empty Place” (JN)
(5) Juan Taulero, Homilia 40 (ed. G. Hofman, Johannes Tauler, Predigten, Friburgo em Br. 1961, p. 305).
(6) Cf. Pe. A. Huart, S.J., Mother Teresa: Joy in the Night, “Review for Religious”, Set-Out 2001. Vol. 60, n. 5 (Adiante abreviado AH).
(7) “Today my soul is filled with love, with joy untold, with an unbroken union of love” (JN)
(8) “I have begun to love my darkness for I believe now that it is a part, a very small part, of Jesus’ darkness and pain on earth” (JN).
(9) “The whole time smiling – Sisters and people pass such remarks – they think my faith, trust, and love are filling my very being… Could they but know – and how my cheerfulness is the cloak by which I cover the emptiness and misery” (AH).
(10) Apophtegmata Patrum, Poemen 37 (PG 65, 332).
(11) G. Varangalakudy, A sister for Gandhi, “The Tablett”, 11 outubro 2003, p. 12
(12) S. Gregorio Magno, Maralia in Job I,3,40 (PL 75, 619).
(13) NMI, 27
(14) “If my pain and suffering, my darkness and separation give you a drop of consolation, my own Jesus, do with me as you wish…Imprint on my soul and life the suffering of your heart… I want to satiate your thirst every single drop of blood that you can find in me… Please do not take the trouble to return soon. I am ready do wait for you for all eternity” (JN).
(15) Cf. S. Caterina da Genova, Trattato del Purgatorio, 4 (ed. Cassiano Carpaneto da Langasco, Sommersa nella fontana dell’amore. Santa Catarina Fieschi Adorno, vol. 2, Le opere, p. 96; cf. também vol. 1. La vita, pp. 49 s.
(16)”They say people in hell suffer eternal pain because of the loss of God… In my soul I feel just this terrible pain of loss, of God not wanting me, of God not being God, of God not reallly existing. Jesus, please forgive the blasphemy” (JN).
(17)”I wish to live in this world which is so far from God, which has turned so much from the light of Jesus, to help them – to take upon myself something of their suffering” (JN).
(18)”I have been on the verge of saying – No… I feel as if something will break in me one day”. “Pray for me that I may not refuse God in this hour – I don’t want to do it, but I am afraid I may do it” (AH).).
(19) Il libro della Beata Angela da Foligno, ed. Quaracchi, Grottaferrata, 1985, p. 576 s.
(20)”The other day I can’t tell you how bad I felt – there was a moment when I nearly refused to accept – deliberately I took the Rosary and very slowly without even meditating – I said it slowly and calmly” (AH).
(21) Apophtegmi dei padri, del manuscrito Coislin 126, n. 205 (ed. F. Nau, en “Revue de l’Orient Chrétien” 13, 1908, p. 279.
(Tradução realizada por Zenit)

Fonte: Padre Raniero Cantalamessa

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