Um Deus Escondido

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

PRIMEIRA MEDITAÇÃO

41. UM DEUS ESCONDIDO

– Jesus oculta-se para que a nossa fé e o nosso amor o descubram.

– A Sagrada Eucaristia transforma-nos.

– Cristo entrega-se a cada um de nós, pessoalmente.

I. ADORO TE DEVOTE, latens Deitas… “Adoro-Vos com devoção, Deus escondido, que sob estas aparências estais presente. A Vós se submete meu coração por inteiro, e ao contemplar-Vos se rende totalmente”1. Assim começa o hino que São Tomás escreveu para a festa do Corpus Christi, e que tem servido a tantos fiéis para meditarem e expressarem a sua fé e o seu amor à Sagrada Eucaristia.

“Adoro-Vos com devoção, Deus escondido”…

Tu, verdadeiramente, és um Deus escondido2, tinha proclamado o profeta Isaías. O Criador do universo começou por deixar-nos apenas vestígios da sua obra; foi como se tivesse querido permanecer num segundo plano. Mas chegou um momento na história da humanidade em que decidiu revelar-nos o seu ser mais íntimo. Mais do que isso: na sua bondade, quis habitar entre nós, estabelecer a sua morada no meio dos homens, e encarnou-se no seio puríssimo de Maria.

Veio à terra e permaneceu oculto aos olhos da maioria das pessoas, que por sua vez estavam preocupadas com outras coisas. Conheceram-no alguns que tinham o coração simples e o olhar vigilante para as coisas divinas: Maria, José, os pastores, os Magos, Ana, Simeão… Este, particularmente, tinha esperado durante toda a vida pela chegada do Messias anunciado, e pôde exclamar diante de Jesus Menino: Agora, Senhor, já podes deixar ir em paz o teu servo segundo a tua palavra; porque os meus olhos viram a tua salvação…3Se pudéssemos dizer o mesmo sempre que nos aproximamos do Sacrário!

E depois, na vida pública, apesar dos milagres por meio dos quais Jesus manifestava o seu poder divino, muitos não souberam descobri-lo. Por vezes, era o próprio Senhor quem se escondia e mandava aos que curava que nada divulgassem. Em Getsêmani e na Paixão, a divindade parecia completamente oculta aos olhos dos homens. Na Cruz, a Virgem sabia com certeza que aquele que morria era Jesus, Deus feito homem, mas, aos olhos de muitos, morria como um malfeitor.

Na Sagrada Eucaristia, sob as aparências do pão e do vinho, Jesus torna a ocultar-se para que a nossa fé e o nosso amor o descubram. Dizemos-lhe na nossa oração: “Senhor, a Ti, que nos fazes participar do milagre da Eucaristia, nós te pedimos que não te escondas”, que o teu rosto esteja sempre cheio de luz aos nossos olhos; “que vivas conosco”, porque sem Ti a nossa vida não tem sentido; “que te vejamos”, com os olhos purificados no sacramento da Penitência; “que te toquemos”, como aquela mulher que se atreveu a tocar a orla do teu manto e ficou curada; “que te sintamos”, sem querermos acostumar-nos nunca ao milagre; “que queiramos estar sempre junto de Ti”, pois em nenhum outro lugar seremos plenamente felizes; “que sejas o Rei das nossas vidas e dos nossos trabalhos”4, por te havermos entregado o nosso ser e todas as nossas coisas.

II. O AMOR NECESSITA DA PRESENÇA, e o Mestre, que tinha deixado aos seus discípulos o supremo mandamento do amor, não podia subtrair-se a esta característica da verdadeira amizade: o desejo de estar conosco. Para realizá-lo, permaneceu nos nossos Sacrários e assim tornou possíveis aquelas vivas recomendações que fizera antes da sua partida: Permanecei em mim como eu em vós. Já não vos chamo servos […], mas chamei-vos amigos… Permanecei no meu amor5.

Por meio de tantas Comunhões, em que Cristo nos visitou, e em tantas ocasiões em que fomos visitá-lo no Sacrário, foi crescendo em nós uma profunda amizade por Cristo. Assim, oculto aos sentidos, mas tão claro à nossa fé, Ele nos esperava; aos seus pés, fomos fortalecendo os nossos melhores ideais, e nEle fomos abandonando as nossas preocupações, tudo o que podia angustiar-nos… O Amigo compreende bem o amigo. Ali, na fonte, fomos beber o modo de praticar as virtudes. E procuramos que a sua fortaleza fosse a nossa fortaleza, e a sua visão do mundo e das pessoas, a nossa… Se um dia pudéssemos chegar a dizer, como São Paulo: Já não vivo eu, mas é Cristo que vive em Mim!6

São Tomás afirma que a virtude do sacramento da Eucaristia é levar a cabo uma certa transformação do homem em Cristo pelo amor7. Todos sabemos por experiência que, em boa medida, cada um vive segundo aquilo que ama. Os homens apaixonados pelo estudo, pelo esporte, pela sua profissão, dizem que essas atividades são a sua vida. De maneira semelhante, se amarmos a Cristo e nos unirmos a Ele, viveremos por Ele e para Ele, tanto mais profundamente quanto mais profundo e verdadeiro for o amor. Mais ainda: a graça configura-nos por dentro e endeusa-nos. “Amas a terra? – exclama Santo Agostinho –. Serás terra. Amas a Deus? Que te direi? Que serás Deus? Não me atrevo a dizê-lo, mas é a Escritura que te diz: Eu disse: sereis deuses, e todos filhos do Altíssimo (Sl 81, 6)”8.

Fitamos Jesus oculto no Sacrário, e anulam-se as distâncias, e até o tempo perde os seus limites perante essa Presença que é vida eterna, semente de ressurreição e antecipação da bem-aventurança celestial. É por meio da Eucaristia que a vida do cristão irradia a vida de Jesus; no meio do trabalho, no sorriso habitual, no modo como enfrenta as contrariedades e as dores, o cristão reflete a vida de Cristo. O Senhor, que permanece no Sacrário, manifesta-se e torna-se presente aos homens através da vida corrente dos cristãos.

Sacrários de prata e ouro, / que abrigais a onipresença / de Jesus, nosso tesouro, / nossa vida, nossa ciência. / Eu vos bendigo e vos adoro / com profunda reverência…9Há dois mil anos que o Filho de Deus habita no meio dos homens. “Ele, em quem o Pai encontra delícias inefáveis, em quem os bem-aventurados bebem uma eternidade de venturas! O Verbo encarnado está aí, na Hóstia, como no tempo dos Apóstolos e das multidões da Palestina, com a infinita plenitude de uma graça capital, que não quer outra coisa senão derramar-se sobre os homens para transformá-los nEle. Teríamos que aproximar-nos deste Verbo salvador com a fé dos humildes do Evangelho, que se precipitavam sobre Cristo para tocar a franja do seu manto e voltavam curados”10.

III. A VÓS SE SUBMETE MEU CORAÇÃO por inteiro, e ao contemplar-Vos se rende totalmente.

As aparências sensíveis não devem confundir-nos. Nem todo o real, nem sequer todas as realidades criadas deste mundo são captadas pelos sentidos, que são fonte de conhecimento, mas ao mesmo tempo limitação da nossa inteligência. A Igreja, na sua peregrinação para o Pai, possui na Sagrada Eucaristia a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade – que os sentidos não percebem –, a qual assumiu a Humanidade Santíssima de Cristo. O Verbo se fez carne11 para habitar entre nós e fazer-nos participar da sua divindade.

Ele veio para o mundo inteiro, mas ter-se-ia encarnado mesmo pelo menor e mais indigno dos homens. São Paulo saboreava esta realidade e dizia: o Filho de Deus amou-me e entregou-se por mim12. Jesus teria vindo ao mundo e padecido somente por mim. Esta é a grande realidade que impregna a minha vida. No plano da Redenção, a Eucaristia foi o meio providencial escolhido por Deus para permanecer pessoalmente, de modo único e irrepetível, em cada um de nós. E é com alegria que cantamos na intimidade do nosso coração: Pange, lingua, gloriosi Corporis mysterium… “Canta, ó língua, o mistério do Corpo glorioso e do Sangue precioso, que o Rei das nações, Filho de Mãe fecunda, derramou para resgatar o mundo”13.

Jesus não está oculto. Vemo-lo todos os dias, recebemo-lo, amamo-lo… Que clara e diáfana é a sua Presença quando o contemplamos com o olhar limpo, cheio de fé!

Pensemos nas disposições com que vamos comungar, talvez dentro de poucos minutos ou de algumas horas, e peçamos a Deus Pai, nosso Pai, que aumente a fé e o amor do nosso coração. Talvez nos possa servir para isso aquela oração de São Tomás com que provavelmente já nos tenhamos preparado para receber Jesus em outras ocasiões: “Ó Deus eterno e todo-poderoso, eis que me aproximo do sacramento do vosso Filho único, Nosso Senhor Jesus Cristo. Enfermo, abeiro-me do médico que me dará a vida; impuro, venho à fonte de misericórdia; cego, à luz do eterno resplendor; pobre e indigente, ao Senhor do céu e da terra. Imploro, pois, a abundância da vossa liberalidade, para que vos digneis curar a minha fraqueza, lavar as minhas manchas, iluminar a minha cegueira, enriquecer a minha pobreza, vestir a minha nudez. Ó Deus de mansidão, fazei-me acolher com tais disposições o Corpo que o vosso Filho único, Nosso Senhor Jesus Cristo, recebeu da Virgem Maria, que seja incorporado ao seu Corpo Místico e contado entre os seus membros”.

(1) Hino Adoro te devote; (2) Is 45, 15; (3) Lc 2, 29-30; (4) cfr. Josemaría Escrivá, Forja, n. 542; (5) Jo 15, 4.9.15; (6) Gal 2, 20; (7) cfr. São Tomás de Aquino, Comentários aos IV Livros das Sentenças, dist. 12, q. 2, a. 2 ad 1; (8) Santo Agostinho, Comentário à Carta de São João aos Partos, 2, 14; (9) Sor Cristina de Arteaga, Sembrad, XCIX; (10) M. M. Philipon, Os sacramentos da vida cristã, Palabra, Madrid, 1980, pág. 132; (11) Jo 1, 14; (12) Gal 2, 20; (13) Hino Pange lingua.

Fonte: Falar com Deus

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