Eucaristia: Presença Substancial de Cristo

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

SEGUNDA MEDITAÇÃO

42. A EUCARISTIA, PRESENÇA SUBSTANCIAL DE CRISTO

A transubstanciação.

– O Sacrário: presença real de Cristo.

– Confiança e respeito diante de Jesus Sacramentado.

I. VISUS, TACTUS, GUSTUS in te fallitur… “A vista, o tato, o gosto enganam-se sobre Vós, mas basta o ouvido para crer com firmeza. Creio em tudo o que disse o Filho de Deus; nada mais verdadeiro que esta palavra de verdade”1.

Quando a vista, o gosto e o tato se põem a avaliar a presença – verdadeira, real, substancial – de Cristo na Eucaristia, falham totalmente: vêem as aparências externas, os acidentes; percebem a cor do pão ou do vinho, o odor, a forma, a quantidade, mas nada podem concluir sobre a realidade ali presente porque lhes falta o dado da fé, que chega exclusivamente pelas palavras com que a divina revelação nos foi transmitida: “basta o ouvido para crer com firmeza”. Por isso, quando contemplamos com os olhos da alma este mistério inefável, devemos fazê-lo “com humilde reverência, sem nos deixarmos guiar por razões humanas, que devem então calar-se, mas aderindo firmemente à Revelação divina”2, que dá a conhecer a verdadeira e misteriosa realidade.

Ensina a Igreja que Cristo se torna realmente presente na Sagrada Eucaristia “pela conversão de toda a substância do pão no seu Corpo e de toda a substância do vinho no seu Sangue, permanecendo íntegras somente as propriedades do pão e do vinho, que percebemos com os nossos sentidos. Esta conversão misteriosa é chamada pela Igreja «conveniente e propriamente» transubstanciação”3. E a própria Igreja nos adverte que qualquer explicação que se dê para uma maior compreensão deste mistério inefável “deve sempre ressalvar que, pela própria natureza das coisas, independentemente do nosso espírito, o pão e o vinho, uma vez realizada a consagração, deixaram de existir, de modo que o adorável Corpo e Sangue de Cristo, depois dela, estão verdadeiramente presentes diante de nós, sob as espécies sacramentais do pão e do vinho”4.

“Pela própria natureza das coisas”, “independentemente do nosso espírito”… Depois da Consagração, no Altar ou no Sacrário onde se reservam as Formas consagradas, Jesus está presente, ainda que eu, por cegueira, não faça o menor ato de fé ou, por dureza de coração, não tenha nenhuma manifestação de amor. Não é o “meu fervor” que o torna presente; Ele está ali.

Quando, no século IV, São Cirilo de Jerusalém quis explicar esta extraordinária verdade aos cristãos recém-convertidos, serviu-se como exemplo do milagre que o Senhor realizou em Caná da Galiléia, onde converteu a água em vinho5. Se Cristo, comenta São Cirilo, fez tal maravilha ao converter a água em vinho…, “como podemos pensar que é pouco digno de crer o fato de que convertesse o vinho no seu Sangue? Se fez numas bodas este milagre estupendo, não devemos pensar com maior razão que deu aos filhos do tálamo nupcial o seu Corpo e o seu Sangue para os alimentar? […] Por isso, não olhes para o pão e para o vinho como simples elementos comuns… e, ainda que os sentidos possam sugerir-te o contrário, a fé deve dar-te a certeza daquilo que é na realidade”6: esta realidade é o próprio Cristo que se nos entrega inerme. Os sentidos enganam-se completamente, mas a fé dá-nos a maior das certezas.

II. NO MILAGRE DE CANÁ, a cor da água foi alterada e adquiriu a do vinho; o sabor da água mudou igualmente e transformou-se para adquirir o sabor de vinho; as propriedades naturais da água mudaram… Tudo mudou naquela água que os servos levaram a Jesus. Não somente as aparências, os acidentes, mas o próprio ser da água, a sua substância: a água foi convertida em vinho pelas palavras do Senhor. Todos provaram daquele vinho excelente que poucos momentos antes era água comum.

Na Sagrada Eucaristia, Jesus, por meio das palavras do sacerdote, não muda, como em Caná, os acidentes do pão e do vinho (a cor, o sabor, a forma, a quantidade), mas somente a substância, o próprio ser do pão e do vinho, que deixam de sê-lo para se converterem de modo admirável e sobrenatural no Corpo e no Sangue de Cristo. Permanece a aparência de pão, mas ali já não há pão; mantêm-se as aparências do vinho, mas ali nada mais resta do vinho. Mudou a substância, aquilo que faz uma coisa ser o que é aos olhos do Criador, aquilo que ela era antes em si. Deus, que pode criar e aniquilar, pode também transformar uma coisa em outra; na Sagrada Eucaristia, quis que esta milagrosa transformação do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo pudesse ser percebida somente por meio da fé.

No milagre da multiplicação dos pães e dos peixes7, a substância e os acidentes não sofreram alteração alguma; havia a princípio pães e peixes, e esses mesmos pães e peixes foram o alimento que aqueles cinco mil homens comeram, ficando saciados. Em Caná, o Senhor transformou uma quantidade de água em outra igual de vinho sem a multiplicar: nesse outro lugar afastado aonde o tinha seguido aquela multidão, Jesus aumentou a quantidade sem transformá-la. No Santíssimo Sacramento, por meio do sacerdote, Jesus transforma a própria substância, deixando intactos os acidentes, as aparências. Cristo não vem ao Altar por um movimento local, como quando alguém se muda de um lugar para outro. Torna-se presente mediante a admirável conversão do pão e do vinho no seu Corpo e no seu Sangue. Quod non capis / quod non vides / animosa firmat fides… “O que não compreendes e não vês, uma fé viva o atesta, fora de toda a ordem da natureza…”8

Cristo está presente na Sagrada Eucaristia com o seu Corpo, o seu Sangue, a sua Alma e a sua Divindade. É o mesmo Cristo que nasceu em Belém, que teve de fugir para o Egito nos braços de José e de Maria, que cresceu e trabalhou duramente em Nazaré, que morreu e ressuscitou ao terceiro dia, e que agora, glorioso, está à direita de Deus Pai. O mesmo! Mas é lógico que não possa estar do mesmo modo, ainda que a sua presença seja a mesma. “Naquilo que se refere a Cristo – escreve São Tomás de Aquino –, o seu ser natural não é a mesma coisa que o seu ser sacramental”9. Mas a realidade da sua presença não é menor no Sacrário do que no Céu: “Cristo, todo inteiro, está presente na sua realidade física, mesmo corporalmente, ainda que não do mesmo modo como os corpos estão no seu lugar”10. Pouco mais podemos dizer desta admirável presença.

Quando vamos ver o Senhor no Sacrário, podemos dizer no sentido estrito das palavras: “Estou diante de Jesus, estou diante de Deus”, tal como podiam dizê-lo aquelas pessoas cheias de fé que se cruzavam com Ele pelos caminhos da Palestina. Podemos dizer: “Senhor, olho para o Sacrário e a vista falha, como falham o tato e o gosto…, mas a minha fé transpõe o véu que recobre esse pequeno Sacrário e aí te descubro, realmente presente, esperando de mim um ato de fé, de amor, de agradecimento…, como o esperavas daqueles sobre os quais derramavas o teu poder e a tua misericórdia. Senhor, creio, espero, amo”.

III. A EUCARISTIA não esgota os modos de presença de Jesus entre nós. O Senhor anunciou-nos: Eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos11. E está de muitas maneiras. A Igreja recorda-nos que Ele está presente nos mais necessitados da família e dos que não conhecemos; está presente quando nos reunimos em seu nome12; de uma maneira especial, está na Palavra divina…13Todos estes modos de presença são reais, mas atingem o grau máximo de excelência na Sagrada Eucaristia, visto que neste sacramento Cristo está presente na sua própria Pessoa, de uma maneira verdadeira, real e substancial. É uma presença – ensinava Paulo VI – “que se chama real não por exclusão, como se as outras não fossem reais, mas por antonomásia, já que é substancial, já que por ela certamente se faz presente Cristo, Deus e Homem, inteiro ou íntegro”14.

Pensemos hoje como devemos comportar-nos diante do Sacrário, com que confiança e respeito. Vejamos se a nossa fé se torna mais penetrante nesses momentos, ou se prevalece a obtusidade dos sentidos. Quantas vezes teremos dito a Jesus: “Meu Senhor e meu Deus, creio firmemente que estás aqui, que me vês, que me ouves; adoro-te com profunda reverência…”! Com que fé o fazemos?

Os milagres das bodas de Caná e da multiplicação dos pães e dos peixes, que considerávamos atrás, podem também ajudar-nos a compreender melhor este prodígio do amor divino. Nesses dois milagres, Jesus pediu a colaboração de outras pessoas. Os discípulos distribuíram o alimento pela multidão e todos se saciaram. Em Caná, o Senhor dirá aos servidores: Enchei de água as talhas; e eles encheram-nas até à borda, até que não coubesse uma gota mais. Se tivessem sido remissos e posto menos água, a quantidade de vinho também teria sido menor. Coisa parecida acontece na Sagrada Comunhão. Ainda que a graça seja sempre imensa e a honra imerecida, Jesus pede também a nossa colaboração; convida-nos a corresponder, com a nossa devoção, à graça que recebemos; recompensa-nos na proporção das boas disposições que encontra na nossa alma.

O desejo cada vez mais ardente, traduzido em freqüentes comunhões espirituais, a pureza interior, a consciência da presença eucarística no Sacrário ao longo do dia e de modo particular ao passarmos por uma igreja…, haverão de capacitar-nos para receber mais graça e para crescer no amor, quando Jesus vier ao nosso coração.

(1) Hino Adoro te devote, 2; (2) Paulo VI, Enc. Mysterium fidei, 3-IX-1965; (3) idem, Credo do Povo de Deus, 30-VI-1968, 25; (4) ib.; (5) cfr. São Cirilo de Jerusalém, Catequeses Mistagógicas, 4, 2; (6) ib., 4, 2 e 5; (7) cfr. Jo 6, 1 e segs.; (8) Seqüência Lauda, Sion, Salvatorem; (9) São Tomás, Suma Teológica, III, q. 76, a. 6; (10) Paulo VI, Enc. Mysterium fidei; (11) Mt 28, 20; (12) cfr. Mt 18, 20; (13) cfr. Conc. Vat. II, Const. Sacrossanctum Concilium, 7; (14) Paulo VI, Enc. Mysterium fidei.

Fonte: Falar com Deus

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