Imaculado Coração de Maria

SÁBADO DA SEGUNDA SEMANA DEPOIS DE PENTECOSTES

50. IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

Memória

– O Coração de Maria.

– Um Coração materno.

– Cor Mariae dulcissimum, iter para tutum.

Depois da consagração do mundo ao dulcíssimo e maternal Coração de Maria, feita em 1942, chegaram ao Romano Pontífice numerosos pedidos para que estendesse a toda a Igreja esse culto que já existia em alguns lugares. Pio XII acedeu em 1945, “na certeza de encontrarmos no seu amantíssimo Coração […] o porto seguro no meio das tempestades que por toda a parte nos oprimem”. Por meio do símbolo do coração, veneramos em Maria o seu amor puríssimo e perfeito por Deus e o seu amor maternal por cada homem. Nele encontramos refúgio no meio de todas as dificuldades e tentações da vida e o caminho seguro – iter para tutum– para chegarmos rapidamente ao seu Filho.

I. EM MIM ESTÁ TODA A GRAÇA do caminho e da verdade, em mim toda a esperança de vida e de virtude, lemos na Antífona de entrada da Missa1.

Como considerávamos na festa de ontem, o coração expressa e simboliza a intimidade da pessoa. A primeira vez que se menciona o Coração de Maria no Evangelho é para revelar toda a riqueza da vida interior da Virgem: Maria – escreve São Lucas – guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração2.

O Prefácio da Missa proclama que o Coração de Maria é sábio, porque entendeu como nenhuma outra criatura o sentido das Escrituras e conservou a recordação das palavras e das coisas relacionadas com o mistério da salvação; imaculado, quer dizer, imune de toda a mancha de pecado; dócil, porque se submeteu fidelissimamente ao querer de Deus em todos os seus desejos; novo, conforme a profecia de Ezequiel – Eu vos darei um coração novo e um espírito novo3 –, porque está revestido da novidade da graça merecida por Cristo; humilde, pois imitou o de Cristo, que disse: Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração4; simples, livre de toda a duplicidade e cheio do Espírito de verdade; limpo, capaz de ver a Deus, conforme a bem-aventurança do Senhor5; firme na aceitação da vontade divina quando Simeão lhe anunciou que uma espada de dor atravessaria o seu coração6, quando se desencadeou a perseguição contra o seu Filho7, ou quando chegou o momento da sua Morte; preparado, já que, enquanto Cristo dormia no sepulcro, Maria – à semelhança da esposa do Cântico dos Cânticos8 – permaneceu em vigília à espera da ressurreição de Cristo.

O Coração Imaculado de Maria é chamado sobretudo santuário do Espírito Santo9, em virtude da sua Maternidade divina e da inabitação contínua e plena do Espírito divino na sua alma. É uma maternidade excelsa, que coloca Maria acima de todas as criaturas, e que teve lugar no seu Coração Imaculado antes de se ter realizado nas suas entranhas puríssimas. O Verbo que Maria deu à luz segundo a carne foi antes concebido segundo a fé no seu coração, afirmam os Santos Padres10. Foi em vista do seu Coração Imaculado, cheio de fé e de amor humilde, que Maria mereceu trazer o Filho de Deus no seu seio virginal. Como não havemos de recorrer continuamente a esse Coração dulcíssimo?

“Sancta Maria, Stella maris – Santa Maria, Estrela do mar, conduz-nos Tu!

“Clama assim com energia, porque não há tempestade que possa fazer naufragar o Coração Dulcíssimo da Virgem. Quando vires chegar a tempestade, se te abrigares nesse Refúgio firme que é Maria, não haverá perigo algum de que venhas a soçobrar ou a afundar-te”11. Nele encontraremos um porto seguro que tornará impossível naufragar.

II. MARIA CONSERVAVA todas estas coisas, meditando-as no seu coração12.

O Coração de Maria conservava como um tesouro o anúncio do Anjo sobre a sua Maternidade divina. Guardou também para sempre todas as coisas que aconteceram na noite de Belém: o revoar dos anjos, o que os pastores disseram diante do presépio, a chegada dos Magos com os seus dons…; depois, a profecia de Simeão e as dificuldades da viagem ao Egito… Mais tarde, afligiu-se profundamente com a perda do Menino-Deus no Templo e impressionaram-na as palavras que Ela e José lhe ouviram quando, por fim, angustiados, o encontraram13.

Maria jamais esqueceu, nos anos em que viveu na terra, os acontecimentos que envolveram a morte do seu Filho na Cruz, bem como as palavras que o Senhor lhe dirigiu naquele instante supremo: Mulher, eis aí o teu filho14. Desde aquele momento, amou-nos no seu Coração com um amor de mãe, com o mesmo amor com que amou Jesus. Reconheceu o seu Filho não só em João, mas em cada um de nós, conforme Ele mesmo tinha dito: Todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes15.

Mas Nossa Senhora exerceu a sua maternidade mesmo antes de se ter consumado a redenção no Calvário, pois passou a ser nossa Mãe desde o momento em que, com o seu faça-se, prestou a sua colaboração para a salvação de todos os homens. No relato da bodas de Caná, São João revela-nos um traço verdadeiramente maternal do Coração de Maria: a sua delicada solicitude para com os outros. Um coração maternal é sempre um coração atento, vigilante: nada do que diz respeito ao filho passa inadvertido à mãe. Em Caná, o Coração maternal de Maria estendeu a sua vigilante solicitude a uns parentes ou amigos, para solucionar uma situação certamente embaraçosa, mas sem conseqüências graves. Por inspiração divina, o Evangelista quis mostrar-nos que nada de humano lhe é indiferente, que ninguém é excluído da sua zelosa ternura. As nossas pequenas carências, tanto como as nossas culpas, são objeto dos seus desvelos. Debruça-se sobre os nossos lapsos e preocupações passageiras, como se debruça sobre as grandes angústias que às vezes podem sufocar-nos a alma. Não têm vinho16, diz ao seu Filho. Todos estavam distraídos; ninguém o tinha percebido. E ainda que não parecesse ter chegado a hora dos milagres, Ela soube adiantá-la. Maria conhece bem o Coração do seu Filho e sabe como chegar até Ele.

Agora, no Céu, a sua atitude não mudou; pela sua intercessão, as nossas súplicas chegam “antes, mais e melhor” à presença do Senhor. Por isso, podemos dirigir-lhe hoje uma antiga oração da Igreja: Recordare, Virgo Mater Dei, dum steteris in conspectu Domini, ut loquaris pro nobis bona, lembra-te, ó Virgem Mãe de Deus, Tu que estás continuamente na presença do Senhor, de falar bem de nós17. Como necessitamos disso!

Ao meditarmos no Coração Imaculado de Maria, reparemos que não se trata de acrescentar mais uma devoção às que já temos, mas de aprender a tratar a Virgem com mais confiança, com a simplicidade das crianças que recorrem às suas mães a cada momento: não se dirigem a elas apenas quando estão numa grande aflição, mas também nos pequenos percalços com que tropeçam a cada instante. As mães ajudam-nas com alegria a resolver os menores problemas. Elas – as mães – aprenderam da nossa Mãe do Céu.

III. AO CONSIDERARMOS o esplendor e a santidade do Coração Imaculado de Maria, podemos examinar hoje a nossa própria intimidade: se estamos abertos e somos dóceis às graças e às inspirações do Espírito Santo, se guardamos zelosamente o coração de tudo aquilo que possa separá-lo de Deus, se arrancamos pela raiz os pequenos rancores, as invejas… que tendem a aninhar-se nele. Sabemos que da riqueza ou pobreza do nosso coração falam as palavras e as obras, pois o homem bom, do bom tesouro do seu coração tira coisas boas18.

Do coração de Nossa Senhora brotam torrentes de graças de perdão, de misericórdia, de ajuda nas situações difíceis… Por isso queremos pedir-lhe hoje que nos dê um coração puro, humano, compreensivo com os defeitos dos que convivem conosco, amável com todos, capaz de suportar a dor em qualquer situação em que a encontremos, sempre disposto a ajudar os que precisam. “Mater Pulchrae dilectionis, Mãe do Amor Formoso, roga por nós! Ensina-nos a amar a Deus e aos nossos irmãos como tu os amaste: faz com que o nosso amor pelos outros seja sempre paciente, benigno, respeitoso […]; faz com que a nossa alegria seja sempre autêntica e plena, para podermos comunicá-la a todos”19.

Recordamos hoje como a Igreja e os seus filhos, quando as necessidades se tornaram mais prementes, sempre recorreram ao Coração Dulcíssimo de Maria, para consagrar-lhe o mundo, as nações ou as famílias20. Sempre tivemos a intuição de que somente nesse Doce Coração estamos seguros. Hoje voltamos a entregar-lhe, uma vez mais, tudo o que somos e temos. Deixamos no seu regaço os dias bons e os que parecem maus, as doenças e as fraquezas, o trabalho, o cansaço e o repouso, os ideais nobres que o Senhor despertou na nossa alma; pomos especialmente nas suas mãos o nosso caminhar para Cristo, a fim de que Ela o preserve de todos os perigos e o guarde com ternura e fortaleza, como fazem as mães. Cor Mariae dulcissimum, iter para tutum, “Coração dulcíssimo de Maria, prepara-me…, prepara-nos um caminho seguro”21.

Terminamos a nossa oração pedindo ao Senhor, com a liturgia da Missa: Ó Deus, que preparastes no Imaculado Coração de Maria uma digna morada para o vosso Filho e um santuário para o Espírito Santo, concedei-nos um coração limpo e dócil, para que, sempre submissos aos vossos preceitos, Vos amemos sobre todas as coisas e ajudemos os nossos irmãos em todas as suas necessidades”22.

(1) Antífona de entrada da Missa do Imaculado Coração de Maria; (2) Lc 2, 19; (3) cfr. Ez 36, 26; (4) Mt 11, 29; (5) cfr. Mt 5, 8; (6) cfr. Lc 2, 35; (7) cfr. Mt 2, 13; (8) cfr. Cant 5, 2; (9) cfr. Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 53; (10) cfr. Santo Agostinho, Tratado sobre a virgindade, 3; (11) Josemaría Escrivá, Forja, n. 1055; (12) Lc 2, 19; Antífona de comunhão, ib.; (13) Lc 2, 51; (14) Jo 19, 26; (15) Mt 25, 40; (16) cfr. Jo 2, 3; (17) Missal de São Pio V, Oração sobre as oferendas da Missa de Santa Maria, medianeira de todas as graças, cfr. Jer 18, 20; (18) Mt 12, 35; (19) João Paulo II, Homilia, 31-V-1979; (20) cfr. Pio XII, Alocução Benedicite Deum, 31-X-1942; João Paulo II, Homilia em Fátima, 13-V-1982; (21) cfr. Hino Ave Maris Stella; (22) Oração coleta, ib.

Fonte: Falar com Deus

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