Como o Ladrão Arrependido

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

TERCEIRA MEDITAÇÃO

43. COMO O LADRÃO ARREPENDIDO

– Os Sacrários no nosso caminho habitual.

– Imitar o bom ladrão.

– Purificação das nossas faltas.

I. IN CRUCE LATEBAT sola Deitas… “Na Cruz estava oculta a divindade, mas aqui se esconde também a humanidade; creio, porém, e confesso ambas as coisas, e peço o que pediu o ladrão arrependido”.

O Bom Ladrão soube ver em Jesus moribundo o Messias, o Filho de Deus. A sua fé, por uma graça extraordinária de Deus, venceu a dificuldade representada por aquelas aparências, que só falavam de um justiçado. A divindade ocultara-se aos olhos de todos, mas aquele homem podia ao menos contemplar a Santíssima Humanidade do Salvador: o seu olhar amabilíssimo, o perdão derramado abundantemente sobre os que o insultavam, o seu silêncio comovedor diante das ofensas. Jesus, mesmo na Cruz, no meio de tanto sofrimento, esbanja amor.

Nós olhamos para a Hóstia santa e os nossos olhos nada percebem: nem o olhar amável de Jesus, nem a sua compaixão… Mas com a firmeza da fé, proclamamo-lo nosso Deus e Senhor. Muitas vezes, exprimindo a certeza da nossa alma e o nosso amor, ter-lhe-emos dito: Creio firmemente que estás aqui, que me vês, que me ouves… O teu olhar é tão amável como aquele que o Bom Ladrão contemplou e a tua compaixão continua a ser infinita. Sei que estás atento à menor das minhas súplicas, das minhas penas e das minhas alegrias.

Ainda que de modo distinto, Jesus está presente tanto no Céu como na Hóstia consagrada. “Não há dois Cristos, mas um só. Nós possuímos na Hóstia o Cristo de todos os mistérios da Redenção: o Cristo de Madalena, do filho pródigo e da samaritana, o Cristo do Tabor e do Getsêmani, o Cristo ressuscitado dos mortos, sentado à direita do Pai […]. Esta maravilhosa presença de Cristo no meio de nós deveria revolucionar a nossa vida […]; está aqui conosco: em cada cidade, em cada aldeia”1.

Com muita freqüência, ao irmos de um lado para outro da cidade, passamos com certeza a poucos metros do lugar onde o Senhor se encontra. Quantos atos de fé fazemos – da rua ou entrando por uns instantes na igreja –, a essas horas da manhã ou da tarde, perto ou diante desse Sacrário? Quantos atos de amor?… Que pena se passamos ao largo! Jesus não é indiferente à nossa fé e ao nosso amor. “Não sejas tão cego ou tão estouvado que deixes de meter-te dentro de cada Sacrário quando divisares os muros ou as torres das casas do Senhor. – Ele te espera”2. Quanto bem nos faz este conselho cheio de sabedoria e de piedade!

No meio de tantos insultos, Jesus escutou emocionado aquela voz que o reconhecia como Deus. Era a voz de um ladrão que, diante de um Deus tão escondido, soube vê-lo e confessá-lo em voz alta. O amor repele a cegueira, o estouvamento, a tibieza. Esse amor vivo – muitas vezes traduzido numa jaculatória ardente – deve atear-se ainda mais quando estamos a poucos instantes de receber Jesus na Sagrada Comunhão ou quando passamos por uma igreja a caminho do trabalho ou de casa. E a nossa alma encher-se-á de alegria. “Não te alegras quando descobres, no teu caminho habitual pelas ruas da cidade, outro Sacrário!?”3É a alegria de todo o encontro desejado! Se o coração nos bate mais depressa quando divisamos ao longe uma pessoa amada, podemos passar indiferentes por um Sacrário?

II. “PEÇO O QUE PEDIU o ladrão arrependido”…Senhor, lembra-te de mim quando estiveres no teu Reino4.

Com esta breve súplica – tão grande foi a sua fé – o Bom Ladrão mereceu purificar toda a sua vida. Dirigiu-se humildemente a Jesus, como nós o temos feito tantas vezes, chamando-o pelo seu nome. E Ele “sempre dá mais do que aquilo que lhe pedem. O Bom Ladrão pedia ao Senhor que se lembrasse dele quando estivesse no seu Reino, e o Senhor respondeu-lhe:  Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso”5. Temos de imitar este homem que reconheceu as suas faltas6e soube merecer o perdão das suas culpas e a sua completa purificação.

“Tenho repetido muitas vezes aquele verso do hino eucarístico: Peto quod petivit latro poenitens. E sempre me comovo: pedir como o ladrão arrependido! – Reconheceu que ele, sim, é que merecia aquele castigo atroz… E com uma palavra roubou o coração a Cristo e abriu para si as portas do Céu”7. Quanto proveito tiraríamos se, diante do próprio Jesus, conseguíssemos detestar todo o pecado venial deliberado e purificar esse fundo da alma onde há tantas coisas que obscurecem a sua imagem: egoísmos, preguiça, sensualidade, apegamentos desordenados…! “Jesus no Sacramento é essa fonte aberta a todos, onde sempre que queiramos podemos lavar as nossas almas de todas as manchas dos pecados que cometemos todos os dias”8.

A Comunhão freqüente, realizada com as devidas disposições, há de levar-nos a desejar uma Confissão também freqüente e contrita. E esta maior pureza de coração cria, por sua vez, desejos muito vivos de receber o Senhor Sacramentado9. O próprio sacramento eucarístico, recebido com fé e amor, purifica a alma das suas faltas, debilita-lhe a inclinação para o mal, diviniza-a e prepara-a para os grandes ideais que o Espírito Santo inspira ao cristão.

Peçamos ao Senhor um grande desejo de nos purificarmos nesta vida para que possamos livrar-nos do Purgatório e estar quanto antes na companhia de Jesus e de Maria. “Oxalá, meu Jesus, fosse verdade que eu nunca vos tivesse ofendido! Mas já que o mal está feito, peço-vos que vos esqueçais dos desgostos que vos causei e, pela morte amarga que por mim padecestes, levai-me ao vosso reino depois da morte; e enquanto a vida me durar fazei que o vosso amor reine sempre na minha alma”10. Ajudai-me, Senhor, a detestar todo o pecado venial deliberado; dai-me um grande amor à Confissão freqüente.

III. O SANTO CURA D’ARS alude num dos seus sermões à piedosa lenda de Santo Aleixo, e tira dela algumas conseqüências a propósito da Eucaristia. Conta-se deste Santo que um dia, em obediência a uma chamada particular do Senhor, saiu de casa e foi viver longe como um humilde mendigo. Passados muitos anos, retornou à sua cidade natal, fraco e desfigurado pelas penitências, e foi acolhido no próprio palácio de seus pais sem no entanto se dar a conhecer. Viveu dezessete anos no desvão de uma escada. No momento em que foi amortalhado, a mãe reconheceu-o e exclamou cheia de dor: “Ó meu filho, que tarde te conheci…!”

O Cura d’Ars comentava que a alma, ao sair desta vida, verá finalmente Aquele que possuía todos os dias na Sagrada Eucaristia, com quem falava, com quem desabafava as suas mágoas quando já não agüentava mais. Oxalá sejamos almas verdadeiramente apaixonadas, de fé sólida e crescente, para que um dia, diante da visão de Jesus glorioso, não tenhamos que exclamar: Ó Jesus, que pena ter-te conhecido tão tarde…, tendo estado tão perto de Ti!

Jesus revelou-nos que os puros de coração verão a Deus11. Quando o coração se enche de sujidade, a figura de Cristo obnubila-se e perde os seus contornos, e a capacidade de amar encolhe. “Esse Cristo que tu vês não é Jesus. – Será, quando muito, a triste imagem que podem formar teus olhos turvos… – Purifica-te. Clarifica o teu olhar com a humildade e a penitência. Depois… não te hão de faltar as luzes límpidas do Amor. E terás uma visão perfeita. A tua imagem será realmente a sua: Ele!”12Poderemos então reconhecê-lo em qualquer circunstância, como o Bom Ladrão.

Que alegria podermos ter Cristo tão perto!…, e vê-lo…, e amá-lo…, e servi-lo. Ele nos escuta quando lhe dizemos na intimidade do nosso coração: “Senhor, Tu que estás realmente presente no Céu e nesse Sacrário, lembra-te de mim”. Para isso devemos purificar nesta vida as seqüelas deixadas pelos pecados e cultivar um espírito de penitência mais ardente e um amor mais vivo pelo sacramento do perdão; e aceitar também as dores e contrariedades da vida com espírito de reparação, e procurar muitas ocasiões de nos negarmos a nós mesmos por meio dessas pequenas mortificações que vencem o nosso egoísmo, que ajudam os outros, que permitem uma maior perfeição na tarefa profissional.

Se formos fiéis a essas graças que nos convidam a uma purificação mais enérgica, ouviremos Jesus dizer-nos no último dia da nossa existência aqui na terra: Hoje estarás comigo no Paraíso. E chegaremos a vê-lo e a amá-lo com uma felicidade sem fim.

Ao terminarmos a nossa oração, dizemos a Jesus Sacramentado: Ave verum Corpus natum ex Maria Virgine… “Ave, verdadeiro Corpo, nascido da Virgem Maria… Faz que te tenhamos ao nosso lado no transe da morte”. Pedimos ao Anjo da Guarda que nos recorde a proximidade de Cristo, para que jamais passemos ao largo. E a nossa Mãe Santa Maria, se recorrermos a Ela, aumentará a nossa fé e nos ensinará a tratar o seu Filho com mais delicadeza, com mais amor.

(1) M. M. Philipon, Los sacramentos de la vida cristiana, pág. 116; (2) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 269; (3) ib., n. 270; (4) Lc 23, 42; (5) Santo Ambrósio, Tratado sobre o Evangelho de São Lucas; (6) cfr. Lc 23, 41; (7) Josemaría Escrivá, Via-Sacra, Quadrante, São Paulo, 1984, XII, n. 4; (8) Santo Afonso Maria de Ligório, Visitas ao Santíssimo Sacramento, 20; (9) cfr. João Paulo II, Alocução à Adoração Noturna, Madrid, 31-X-1982; (10) Santo Afonso Maria de Ligório, Meditações sobre a Paixão, Med. XII para a Quarta-Feira Santa, I; (11) cfr. Mt 5, 8; (12) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 212.

Fonte: Falar com Deus

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s