Alimento para os Fracos

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

QUINTA MEDITAÇÃO

45. ALIMENTO PARA OS FRACOS

– A Sagrada Eucaristia, memorial da Paixão.

– O Pão vivo.

– Sustento para o caminho. Grandes desejos de receber a Comunhão. Evitar qualquer rotina.

I. O MEMORIALE MORTIS Domini! Panis vivus… “Ó memorial da morte do Senhor! Ó Pão vivo que dais a vida ao homem! Que a minha alma sempre de Vós viva, que sempre lhe seja doce o vosso sabor”1.

Desde o início da Igreja, os cristãos conservaram como um tesouro as palavras que o Senhor pronunciou na Última Ceia e por meio das quais o pão e o vinho se converteram pela primeira vez no seu Corpo e no seu Sangue sacratíssimos. Uns anos depois daquela grande noite em que foi instituída a Sagrada Eucaristia, São Paulo recordava aos primeiros cristãos de Corinto o que já lhes tinha ensinado. Diz que recebeu essa doutrina do Senhor, quer dizer, de uma tradição zelosamente guardada e que remontava ao próprio Jesus: Porque eu recebi do Senhor o que também vos transmiti (é nisto que consiste a tradição da Igreja: em “receber” e “transmitir”): o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. E do mesmo modo, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim2. São substancialmente as mesmas palavras que cada sacerdote repete ao tornar Cristo presente sobre o altar.

Fazei isto em memória de mim. A Santa Missa, a renovação incruenta do sacrifício do Calvário, é um banquete em que o próprio Cristo se dá como alimento, e uma recordação – um memorial – que se torna realidade em cada altar onde se renova o mistério eucarístico3.

A palavra memória tem um sentido diferente do de mera evocação subjetiva de um fato. O Senhor não encarregou os Apóstolos e a Igreja de simplesmente recordarem o acontecimento que presenciaram, mas de o atualizarem. A palavra toma o seu sentido de um termo hebreu que se usava para designar a essência da festa da Páscoa, como recordação da saída do Egito e da aliança que Deus fizera com o seu Povo. Com o rito pascal, os israelitas não só recordavam um acontecimento passado, mas também tinham consciência de atualizá-lo e de revivê-lo, para participarem dele ao longo das gerações4. Na ceia pascal, atualizava-se o pacto que Deus tinha feito com o seu Povo no Sinai.

Quando Jesus disse aos seus: Fazei isto em memória de mim, não lhes indicava, pois, que simplesmente recordassem a ceia pascal daquela noite, mas que renovassem o seu próprio sacrifício pascal no Calvário, que já estava presente, antecipadamente, naquela Última Ceia. São Tomás ensina que “Cristo instituiu este sacramento como memorial perene da sua paixão, como cumprimento das antigas figuras e a mais maravilhosa das suas obras; e deixou-o aos seus como singular consolo nas tristezas da sua ausência”5.

A Santa Missa é o memorial da Morte do Senhor, em que tem realmente lugar o banquete pascal, “em que Cristo nos é comunicado como alimento, e o espírito se cumula de graça, e nos é dado o penhor da glória vindoura”6.

Meditando na Sagrada Eucaristia, unimo-nos à oração que a liturgia nos propõe: Senhor Jesus Cristo, que neste admirável Sacramento nos deixastes o memorial da vossa Paixão, dai-nos a graça de venerarmos com tão grande amor o mistério do vosso Corpo e do vosso Sangue que possamos colher continuamente os frutos da vossa Redenção.

II. DESTE-LHES O PÃO DO CÉU7, escreveu o Salmista, pensando naquela maravilha, branca como o orvalho, que um dia os israelitas encontraram no deserto quando as provisões escasseavam. Mas aquilo, como declarou Jesus na sinagoga de Cafarnaum, não era o verdadeiro Pão do Céu. Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é aquele que desceu do céu e dá a vida ao mundo. Disseram-lhe, pois, eles: Senhor, dá-nos sempre desse pão8.

A verdadeira realidade está no Céu; aqui na terra encontramos muitas coisas que consideramos definitivas e na realidade são cópias passageiras daquelas que nos aguardam. Quando, por exemplo, Jesus falava à Samaritana da água viva, não queria dizer água fresca ou água corrente, como a mulher supôs a princípio; queria indicar-nos que não saberemos o que realmente significa água enquanto não tivermos uma experiência direta daquela realidade da graça de que a água é apenas uma pálida imagem9.

O mesmo acontece com o pão, que durante muitos séculos foi o alimento básico, e muitas vezes quase único, de muitos povos. E o maná que os israelitas recolhiam diariamente no deserto, tal como o pão, era sinal e imagem esvaída para que pudéssemos entender o que a Eucaristia, Pão vivo que dá a vida ao homem, deve representar na nossa existência. Aqueles que ouviam Jesus sabiam que o maná que os seus antepassados recolhiam todas as manhãs10era símbolo dos bens messiânicos; por isso pediram a Jesus naquela ocasião um milagre semelhante. Mas não podiam suspeitar que o maná fosse figura do dom inefável da Eucaristia, o pão que desceu do Céu e dá a vida ao mundo11. “Aquele maná caía do céu, este está acima do Céu; aquele era corruptível, este não só é imune a qualquer corrupção como comunica a incorrupção a todos os que o comem com reverência […]. Aquele era a sombra, este é a realidade”12.

Este sacramento admirável é sem dúvida a ação mais amorosa de Jesus, que se entrega não só a toda a humanidade, mas a cada homem em particular. A Comunhão é sempre única e irrepetível; cada uma é um prodígio de amor; a de hoje será sempre diferente da de ontem; a delicadeza de Jesus para conosco nunca se repete do mesmo modo, como também não deve repetir-se o amor incessantemente renovado com que nos aproximamos do banquete eucarístico.

Ecce panis angelorum…“Eis o pão dos anjos, feito alimento dos caminhantes; é verdadeiramente o Pão dos filhos, que não deve ser lançado aos cães”13, canta a liturgia. Dia após dia, ano após ano, esse é o nosso alimento indispensável. O profeta Elias andou pelo deserto durante quarenta dias com a energia proporcionada por uma única refeição que lhe foi enviada por meio de um anjo do Senhor14. Aos cristãos que vivem em lugares onde lhes é impossível comungar, o Senhor haverá de conceder-lhes as graças necessárias. Mas é a Sagrada Eucaristia que normalmente restabelece o nosso vigor em cada dia de caminhada por esta terra em que nos encontramos como peregrinos.

III. “Ó PÃO VIVO que dais a vida ao homem! Que a minha alma sempre de Vós viva, que sempre lhe seja doce o vosso sabor”.

Jesus Cristo, que se entrega na Eucaristia, é o nosso alimento absolutamente imprescindível. Sem Ele, facilmente caímos numa extrema debilidade. “A comida material converte-se naquele que a come e, em conseqüência, restaura as suas perdas e aumenta as suas forças vitais. A comida espiritual, porém, converte em si aquele que a come, e assim o efeito próprio deste sacramento é a conversão do homem em Cristo, para que não viva ele, mas Cristo nele; e, por conseguinte, tem o duplo efeito de reparar as perdas espirituais causadas pelos pecados e deficiências, e de aumentar as forças das virtudes”15.

Deus, no final da nossa vida, tem de encontrar-nos na posse da plenitude do amor. Mas o “alimento para a caminhada destina-se precisamente à caminhada, e devemos estirar bem os músculos se queremos beneficiar dele. Não há nada tão insípido como o farnel preparado para uma excursão que, por causa do mau tempo, tivemos de comer em casa. Estejam cingidos os vossos rins, diz Nosso Senhor; temos de ser peregrinos bona fide, se queremos encontrar o alimento adequado na Sagrada Eucaristia”16.

O nosso desejo de melhorar cada dia – de estar em cada dia de marcha um pouco mais perto do Senhor – é a melhor preparação para a Comunhão. A “fome de Deus”, os desejos de santidade impelem-nos a tratar Jesus com esmero, a desejar vivamente que chegue o momento de recebê-lo. Contaremos então as horas… e os minutos que faltam para tê-lo no nosso coração. Recorreremos ao Anjo da Guarda para que nos ajude a preparar-nos bem, a dar graças. Ficaremos com pena pela brevidade desses momentos em que Jesus Sacramentado permanece na alma depois de se ter comungado. E, durante o dia, lembrar-nos-emos com saudade desses momentos em que tivemos Jesus tão dentro de nós que nos identificamos com Ele; e esperaremos, impacientes, que chegue a nova oportunidade de recebê-lo. Não permitamos jamais que se introduzam a rotina, o desleixo ou a precipitação nesses instantes que são os maiores da vida de um homem!

É de bem-nascidos ser agradecidos, diz o ditado, e nós devemos agradecer a Jesus “o fato maravilhoso de que Ele próprio se entrega a nós. Que o Verbo encarnado venha ao nosso peito!… Que se encerre na nossa pequenez Aquele que criou os céus e a terra!… A Virgem Maria foi concebida imaculada para albergar Cristo no seu seio. Se a ação de graças deve ser proporcional à diferença entre o dom e os méritos, não deveríamos converter todo o nosso dia numa Eucaristia contínua? Não vos afasteis do templo mal tenhais recebido o Santo Sacramento. É tão importante o que vos espera lá fora, que não podeis dedicar dez minutos a dar-lhe graças? Não sejamos mesquinhos. Amor com amor se paga”17. Que jamais andemos com pressas ao darmos graças a Jesus depois da Comunhão! Nada pode ser mais importante do que saborear esses minutos com Ele!

(1) Hino Adoro te devote, 5; (2) 1 Cor 11, 23-25; (3) cfr. Conc. Vat. II, Const. Sacrossanctum Concilium, 47; (4) cfr. Sagrada Bíblia, Epístolas de San Pablo a los Corintios, nota a 1 Cor 11, 24; cfr. L. Bouyer, Diccionario de Teología, verbete Memorial, pág. 441; (5) São Tomás de Aquino, Sermão para a festa do Corpus Christi; (6) Conc. Vat. II, op. cit.; (7) Sl 77, 24; 104, 40; (8) Jo 6, 32-34; (9) cfr. R. A. Knox, Sermones pastorales, Rialp, Madrid, 1963, pág. 432 e segs.; (10) cfr. Ex 15, 13 e segs.; (11) cfr. Jo 6, 33; (12) Santo Ambrósio, Tratado sobre os mistérios, 48; (13) Seqüência Lauda, Sion, Salvatorem; (14) cfr. 3 Rs 19, 6; (15) São Tomás de Aquino, Comentários aos IV Livros das Sentenças, d. 12, q. 2, a. 11; (16) R. A. Knox, op. cit., pág. 469; (17) Josemaría Escrivá, Amar a Igreja, págs. 81.

Fonte: Falar com Deus

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