“Senhor Jesus, Limpai-me…”

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

SEXTA MEDITAÇÃO

46. “SENHOR JESUS, LIMPAI-ME…”

– A entrega de Cristo na Cruz, renovada na Eucaristia, purifica as nossas fraquezas.

– Jesus em pessoa vem curar-nos, consolar-nos, dar-nos forças.

– A Santíssima Humanidade de Cristo na Eucaristia.

I. PIE PELLICANE, IESU DOMINE, me immundum munda tuo sanguine… “Bom pelicano, Senhor Jesus! Limpai-me a mim, imundo, com o vosso Sangue, com esse Sangue do qual uma só gota pode salvar do pecado o mundo inteiro”1.

Conta uma antiga lenda que o pelicano restituía a vida aos seus filhos mortos ferindo-se a si mesmo e aspergindo-os com o seu sangue2. Esta imagem foi aplicada a Jesus Cristo pelos cristãos, desde tempos muitos remotos. Uma só gota do Sangue de Jesus, derramado no Calvário, teria bastado para reparar todos os crimes, ódios, impurezas, invejas… de todos os homens de todos os tempos, dos passados e dos que virão. Mas Cristo quis ir além: derramou até a última gota do seu Sangue não só pela humanidade como um todo, mas por cada homem, como se só um homem tivesse existido na terra:… Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos os homens para o perdão dos pecados, disse Jesus na Última Ceia. E no dia seguinte, no Calvário, um dos soldados atravessou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água3, a última gota de sangue que lhe restava. Os Padres da Igreja ensinam que os sacramentos e a própria vida da Igreja brotaram desse lado aberto de Cristo. “Ó morte que dá a vida aos mortos! – exclama Santo Agostinho –. Haverá coisa mais pura do que este sangue? Haverá ferida mais salutar do que esta?”4Por ela nós somos curados.

Comentando esta passagem do Evangelho, São Tomás de Aquino ressalta que São João diz de um modo significativo aperuit, non vulneravit, que o lado lhe foi aberto, não ferido, “porque por esse lado se abriu para nós a porta da vida eterna”5. Tudo isso aconteceu – afirma o Santo no mesmo lugar – para nos mostrar que, por meio da Paixão de Cristo, conseguimos a purificação dos nossos pecados e manchas.

Os judeus consideravam que a vida estava no sangue. Jesus derrama o seu Sangue por nós, entrega a sua vida pela nossa. Demonstrou o seu amor por nós ao lavar os nossos pecados com o seu próprio Sangue, ressuscitando-nos assim para uma vida nova6. São Paulo diz que Jesus foi exposto publicamente na Cruz por nossa causa: pendeu da Cruz como um anúncio para chamar a atenção de todos o que por ali passassem, para chamar a nossa atenção. Por isso dizemos-lhe hoje, na intimidade da nossa oração: Bom pelicano, Senhor Jesus! Limpai-me a mim, imundo, que me encontro cheio de fraquezas, limpai-me com o vosso Sangue.

II. O SENHOR ESTÁ NA EUCARISTIA como Médico para limpar e curar as feridas que tanto mal fazem à alma. Quando vamos visitá-lo, no Sacrário, o seu olhar purifica-nos. Mas, se quisermos, pode fazer muito mais: vir ao nosso coração e enchê-lo de graças.

Antes de comungar, o sacerdote apresenta-nos a Sagrada Forma e repete-nos umas palavras ditas por São João Batista a João e André, referindo-se a Jesus que passava: Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. E os fiéis respondem com aquelas outras do centurião de Cafarnaum, cheias de fé e de amor: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada….

Naquela ocasião, Jesus curou à distância o servo desse homem elogiado por Cristo pela sua grande fé. Mas na Comunhão, apesar de dizermos a Jesus que não somos dignos, que nunca teremos a alma suficientemente preparada, Ele deseja vir em pessoa, com o seu Corpo e a sua Alma, ao nosso coração manchado por tantas indelicadezas. Todos os dias repete as palavras que dirigiu aos seus discípulos ao começar a Última Ceia: Desiderio desideravi… Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco…7Meditar com freqüência no imenso desejo que Jesus tem de vir à nossa alma, apesar das nossas misérias, pode cumular o nosso coração de alegria e de amor.

Bem se pode pensar que “o milagre da transubstanciação se realizou exclusivamente para nós. Jesus veio e habitou na terra só para nós […]. Nenhum intermediário, nenhum agente secundário nos comunicará a influência de que a nossa alma necessita; virá Ele mesmo. Quanto o Senhor não nos deve amar para fazer isto! Como deve estar decidido a que não falte nada da sua parte, e não tenhamos nenhuma desculpa para rejeitar o que nos oferece, quando Ele mesmo o traz! E nós tão cegos, tão vacilantes, tão pouco interessados, tão pouco dispostos a dar-nos plenamente Àquele que se dá totalmente a nós!”8

As faltas e misérias cotidianas, de que ninguém está livre, não são obstáculo para recebermos a Comunhão. “Pelo fato de nos reconhecermos pecadores, não só não devemos abster-nos da Comunhão do Senhor, como devemos antes aproximar-nos dela cada vez com maior desejo: para remédio da alma e purificação do espírito, mas com tal humildade e fé que, julgando-nos indignos de receber tão grande favor, nos aproximemos para buscar remédio para as nossas feridas”9. Só os pecados graves impedem a digna recepção da Sagrada Eucaristia, se não se procura antes o perdão na Confissão sacramental. E no momento da Comunhão, a alma converte-se num segundo Céu, cheio de resplendor e de glória, que provoca surpresa e admiração nos próprios anjos: “Quando O receberes, diz-lhe: – Senhor, espero em Ti; adoro-te, amo-te, aumenta-me a fé. Sê o apoio da minha debilidade, Tu, que ficaste na Eucaristia, inerme, para remediar a fraqueza das criaturas”10.

III. ME IMMUNDUM, MUNDA TUO SANGUINE…, “limpai-me a mim, imundo, com o vosso Sangue…”

Devemos pedir ao Senhor um grande desejo de pureza no nosso coração. Deve ser um desejo tão intenso como o daquele leproso que um dia, em Cafarnaum, se prostrou diante de Jesus e lhe suplicou que o limpasse da sua doença. O mal devia ter-se alastrado por todo o seu corpo, pois o Evangelista diz que estava coberto de lepra11. E Jesus estendeu a mão, tocou na sua podridão e disse-lhe: Quero, sê limpo. E no mesmo instante desapareceu dele a lepra. E isso é o que Jesus fará conosco, pois não somente nos toca, mas vem habitar na nossa alma e nela derrama os seus dons e graças.

No momento da Comunhão, estamos realmente na posse da Vida. “Possuímos o Verbo encarnado todo inteiro, com tudo o que Ele é e faz, isto é, Jesus Deus e homem, todas as graças da sua Humanidade e todos os tesouros da sua Divindade, ou, para falar com São Paulo, a insondável riqueza de Cristo (Ef 3, 8)”12.

Em primeiro lugar, Jesus está em nós como homem. A Comunhão derrama em nós a vida atual, celestial e glorificada da sua Humanidade, do seu Coração e da sua Alma. Alguns santos tiveram a visão do Corpo glorificado de Cristo como Ele está no Céu, resplandecente de glória, e como está na alma no momento da Comunhão, enquanto permanecem em nós as sagradas espécies. Diz Santa Ângela de Foligno: “Era uma formosura que fazia a palavra humana morrer”, e durante muito tempo conservou desta visão “uma alegria imensa, uma luz sublime, um deleite indescritível e contínuo, um deleite deslumbrante que ultrapassa todo o deslumbramento”13. Este é o mesmo Jesus que nos visita diariamente no sacramento e que realiza as mesmas maravilhas.

O Senhor vem à nossa alma também como Deus. Especialmente nesses momentos em que o temos dentro de nós, estamos unidos à sua vida divina, à sua vida como Filho Unigênito do Pai. “Ele mesmo nos diz: Eu vivo pelo Pai (Jo 6, 58). Desde a eternidade, o Pai dá ao Filho a vida que tem no seu seio. E a dá totalmente, sem medida, e com tal generosidade de amor que, permanecendo distintos, não formam senão uma divindade com uma mesma vida, na plenitude do amor, da alegria e da paz. Esta é a vida que nós recebemos”14.

Diante de um mistério tão insondável, diante de tantos dons, como não havemos de desejar a Confissão, que nos prepara para receber melhor Jesus? Como não havemos de pedir-lhe, quando estiver na nossa alma em graça, que nos purifique tantas manchas, tantas fraquezas? Se o leproso ficou curado quando Jesus estendeu a mão sobre ele, como não purificará o nosso coração, se a nossa falta de fé e de amor não o impedir?

Dizemos hoje a Jesus na intimidade da oração: “Senhor, se quiseres – e Tu queres sempre –, podes curar-me. Tu conheces a minha debilidade; sinto estes sintomas e experimento estas outras fraquezas. E descobrimos com simplicidade as chagas; e o pus, se houver pus. Senhor, Tu, que curaste tantas almas, faz com que, ao ter-te no meu peito ou ao contemplar-te no Sacrário, te reconheça como Médico divino”15.

(1) Hino Adoro te devote; (2) cfr. Santo Isidoro de Sevilha, Etimologías, 12, 7, 26; (3) Jo 19, 34; (4) Santo Agostinho, Tratado sobre o Evangelho de São João, 120, 2; (5) São Tomás, Leitura sobre o Evangelho de São João, n. 2458; (6) cfr. Apoc 1, 5; (7) Lc 22, 15; (8) R. A. Knox, Sermones pastorales, págs. 516-517; (9) Cassiano, Colaciones, 23, 21; (10) Josemaría Escrivá, Forja, n. 832; (11) cfr. Lc 5, 12 e segs.; (12) P. M. Bernadot, De la Eucaristia a la Trinidad, 7ª ed., Palabra, Madrid, 1976, págs. 22-23; (13) cfr. ib.; (14) ib., pág. 24; (15) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 93.

Fonte: Falar com Deus

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