Penhor de Vida Eterna

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

SÉTIMA MEDITAÇÃO

47. PENHOR DE VIDA ETERNA

– Uma antecipação do Céu.

– Participação na vida que nunca acaba.

– Maria e a Eucaristia.

I. IESU, QUEM VELATUM nunc aspicio… “Jesus, a quem contemplo escondido, rogo-Vos se cumpra o que tanto desejo: que, ao contemplar-Vos face a face, seja eu feliz vendo a vossa glória. Amém”1.

Um dia, pela misericórdia divina, veremos Jesus cara a cara, sem véu algum, tal como está no Céu, com o seu Corpo glorificado, com os sinais dos cravos, com o seu olhar amável, com o seu rosto acolhedor de sempre. Distingui-lo-emos imediatamente, e Ele nos reconhecerá e virá ao nosso encontro, depois de tanta espera.

Mas encontramo-lo já agora, escondido, oculto aos sentidos, nas mil situações da vida diária: no trabalho profissional, nos pequenos serviços que prestamos aos que estão junto de nós, em todos os que compartilham conosco a mesma fadiga e as mesmas alegrias… Encontramo-lo sobretudo na Sagrada Eucaristia, onde nos espera e se entrega inteiramente a cada um de nós, numa antecipação da glória do Céu, quando comungamos. Adoramo-lo dentro do nosso peito, e então tomamos parte na liturgia que se celebra na Jerusalém celestial, para a qual nos dirigimos como peregrinos e onde Cristo está sentado à direita de Deus Pai; e unimo-nos ao coro dos anjos que o louvam eternamente no Céu, pois o sacramento da Eucaristia “conjuga o tempo e a eternidade”2.

A Sagrada Eucaristia é uma garantia do amor que nos aguarda; nela “recebemos um penhor da glória futura”3. Dá-nos forças e consolo, mantém viva a recordação de Jesus, é o viático, o “farnel” necessário para percorrermos o caminho, que por vezes pode tornar-se íngreme. “A Igreja, ao anunciar na celebração eucarística a morte do Senhor, proclama também a sua vinda. É um anúncio dirigido ao mundo e aos seus próprios filhos, quer dizer, a si mesma”4. Os nossos corpos, pela recepção deste sacramento, “deixam de ser corruptíveis e passam a possuir a esperança da ressurreição para sempre”5. O Senhor revelou-o claramente na sinagoga de Cafarnaum: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu o ressuscitarei no último dia6.

Jesus, a quem agora contemplamos escondido – Iesu quem velatum nunc aspicio… –, não quis esperar pelo encontro definitivo, que acontecerá depois da jornada de trabalhos aqui na terra, para se unir intimamente conosco. Agora, no Santíssimo Sacramento, permite-nos entrever o que será a bem-aventurança no Céu. “Está no Sacrário como por trás de um muro, e dali nos olha como através de estreitas grades (Cant 2, 9). Ainda que se oculte aos nossos olhos, está realmente presente para ficar ao nosso alcance; oculta-se para se fazer desejar. E enquanto não chegarmos à pátria celestial, quer dar-se por inteiro e viver completamente unido a nós”7.

II. COM FREQÜÊNCIA, O SENHOR ensina-nos no Evangelho que muitas das coisas que consideramos reais e definitivas são simples imagens ou cópias das que nos aguardam no Céu. Cristo é a verdadeira realidade, e o Céu é a Vida autêntica e definitiva, a felicidade eterna, aquela que realmente tem conteúdo, comparada com a qual a felicidade desta vida não é senão um mau sonho. Quando o Senhor nos diz: Quem comer deste pão viverá eternamente8, refere-se a um Alimento por excelência e a uma Vida que nunca acaba e que é a plenitude do existir.

Para agradecermos de todo o coração a imensa dádiva que é a presença de Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia, pensemos que Ele se entrega a cada um de nós como Vida definitiva, como antecipação daquela que teremos um dia para sempre na eternidade. Perante esta consideração, “toda a agitação e estrépito das ruas, todas as grandes fábricas que dominam as nossas paisagens – escreve R. Knox –, não passam de ecos e sombras, se nelas pensarmos por um momento à luz da eternidade; a realidade está aqui, sobre o altar, nessa parte dele que os nossos olhos não podem ver nem os nossos sentidos distinguir. O epitáfio colocado sobre o túmulo do Cardeal Newman deveria ser o de todo o católico: Ex umbris et imaginibus in veritatem, das sombras e aparências até à verdade. Quando a morte nos levar deste mundo, o efeito não será o de uma pessoa que dorme e tem sonhos, mas o de alguém que desperta de um sonho para a plena luz do dia. Neste mundo, estamos tão cercados pelas coisas sensíveis, que as tomamos como realidades absolutas. Mas de vez em quando temos um clarão de luz que corrige essa perspectiva errônea. E, sobretudo, quando vemos o Santíssimo Sacramento entronizado, devemos olhar para esse disco branco que brilha no ostensório como se fosse uma janela através da qual, por um momento, chega até aqui a luz do outro mundo”9, Aquele que contém toda a plenitude.

Quando contemplamos a Sagrada Hóstia no altar ou no ostensório, vemos o próprio Cristo que nos anima a viver na terra com os olhos postos no Céu, Aquele que um dia veremos glorioso, rodeado pelos anjos e pelos santos. Aqui na terra, é Cristo em pessoa quem acolhe o homem, maltratado pelas asperezas do caminho, e o conforta com o calor da sua compreensão e do seu amor. Na Eucaristia, encontram a sua plena realização aquelas dulcíssimas palavras: Vinde a mim todos os que estais fatigados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei10. Este alívio pessoal e profundo, que é o único remédio verdadeiro para todas as nossas fadigas pelos caminhos do mundo, podemos encontrá-lo – ao menos como participação e antecipação – nesse Pão divino que Cristo nos oferece na mesa eucarística11. Não deixemos de recebê-lo como merece, pensando no Céu.

III. JUNTO DE JESUS encontramos sempre Nossa Senhora: no Céu e aqui na terra, na Sagrada Eucaristia. Os Atos dos Apóstolos referem que, depois da Ascensão de Jesus ao Céu, Maria se encontrava junto dos Apóstolos, unida a eles – exercendo já o seu ofício de Mãe da Igreja – na oração e na fração do pão12, isto é, “comungando no meio dos fiéis com o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do seu próprio Filho […]. Maria reconhecia no Cristo da Missa e das suas comunhões eucarísticas o Cristo de todos os mistérios da Redenção. Que olhar humano ousaria medir as profundezas da intimidade em que a alma da Mãe e a do Filho voltavam a encontrar-se na Eucaristia?”13Como seriam as comunhões de Nossa Senhora enquanto permaneceu aqui na terra?

Depois da sua Assunção aos Céus, Maria contempla novamente Jesus glorioso, cara a cara; está intimamente unida a Ele, e nEle conhece todo o plano redentor, no centro do qual se encontram a Encarnação e a sua Maternidade divina. Em torno dEle, no Céu e na terra, os anjos e os santos louvam-no sem cessar. Maria, mais do que todos juntos, ama e adora o seu Filho realmente presente no Céu e na Eucaristia, e ensina-nos a cultivar os mesmos sentimentos que Ela teve em Nazaré, em Belém, no Calvário, no Cenáculo; anima-nos a tratá-lo com o amor com que Ela o adora no Céu e no Sacramento do Altar14.

Olhando para esta imensa piedade de Nossa Senhora, podemos repetir: Eu quisera, Senhor, receber-Vos, com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu a vossa Santíssima Mãe… A Santíssima Virgem, sempre perto do seu Filho, anima-nos a recebê-lo, a visitá-lo, a tê-lo como centro do nosso dia, a dirigir-lhe freqüentemente os nossos pensamentos, a procurá-lo nas nossas necessidades.

E não nos esqueçamos também de que, no Céu, muito perto de Jesus, veremos não somente Maria, mas, muito junto dEla, São José, nosso Pai e Senhor. A glória do Céu será, de certo modo, a continuação do trato que tivermos mantido aqui na terra com Jesus, Maria e José.

“Muitas vezes os autores medievais compararam Maria à Nau bíblica que traz o Pão de longe. Realmente, assim é. Maria é quem nos traz o Pão eucarístico; é a Medianeira; é a Mãe da vida divina que Ele dá às almas. Alegra-nos considerar sobretudo, à luz da sua Maternidade espiritual, as relações que há entre Ela e a Eucaristia; como Mãe, Maria diz a todos nós: Vinde, comei o pão que vos preparei; comei bastante, que ele vos dará a verdadeira vida”15.

É o convite maternal que Nossa Senhora nos envia nestes dias em que ainda temos presente a festa do Corpus et Sanguis Christi. E sempre.

(1) Hino Adoro te devote; (2) Paulo VI, Breve apost. ao Cardeal Lercaro, 16-VII-1968; (3) Conc. Vat. II, Const. Sacrossanctum Concilium, 47; (4) M. Schmaus, Teologia dogmática, vol. VI; (5) Santo Irineu, Contra as heresias, I, 4, 18; (6) Jo 6, 54; (7) Santo Afonso Maria de Ligório, Prática do amor a Jesus Cristo, 2; (8) Jo 6, 58; (9) R. A. Knox, Sermones pastorales, pág. 435; (10) Mt 11, 28; (11) cfr. João Paulo II, Homilia, 9-VII-1980; (12) At 2, 42; (13) M. M. Philipon, Los sacramentos en la vida cristiana, págs. 139-140; (14) cfr. R. M. Spiazzi, María en el misterio cristiano, pág. 202; (15) ib., pág. 203-204.

Fonte: Falar com Deus

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