Dever de Diversão

Somos pessoas criadas à imagem e semelhança de Deus. É lógico que São Paulo diga: Sede, pois, imitadores de Deus (Ef 5, 1). Imitamos Deus quando trabalhamos. Diz Jesus: O meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho (Jo 5,17). Pois bem, o descanso necessário deve consistir também em imitar Deus, porque faz parte do trabalho bem feito.

Chega uma altura em que a pessoa que trabalha seriamente tem vontade de se divertir. Diz a Escritura que para tudo há um tempo debaixo dos céus: tempo para nascer e tempo para morrer;[…] tempo para chorar e tempo para rir; tempo para gemer e tempo para dançar (Ecl 3, 1-4). E, um pouco mais adiante: Jovem, rejubila-te na tua adolescência, e, enquanto ainda és jovem, entrega teu coração à alegria (Ecl 11, 9). Não é bem visto na Sagrada Escritura o chamado “caxias” que apenas vive para o estudo: Muito estudo se torna uma fadiga para o corpo (Ecl 12, 12). Também não se deve esquecer o conselho: lembra-te de teu Criador… (Ecl 12, 1).

Não seria um programa normal de vida cristã aquele que excluísse sistematicamente a diversão. Num dos tratados de teologia mais importantes de todos os tempos, a Suma Teológica, de São Tomás de Aquino, a diversão aparece como uma nota indispensável da vida do cristão: «Faltam por defeito à diversão – diz o Doutor Angélico – aqueles que não dizem sequer uma piada, e se aborrecem se os outros gracejam; porque não toleram a expansão moderada dos seus semelhantes. Esses são viciados e chamam-se rudes e ríspidos» (S. Th. II-II, q. 168, a. 4c). Ninguém imagine a vida cristã como um luto sem fim. Se Nosso Senhor Jesus Cristo tivesse sido um desmancha-prazeres tristonho – como alguns filmes parecem sugerir–, as crianças não se teriam aproximado dEle.

«TEMPO DE DANÇAR»

Na família cristã, deve haver muita serenidade, muita luz, muita alegria. Há um tempo para cada necessidade. Nem sempre é fácil, mas é uma questão de ordem. Há tempo para dançar. Sabemos que a dança pode converter-se no sepulcro do espírito, da honra da pessoa, da pureza da alma e do corpo. Mas daí não se pode depreender que se deva negar à dança um valor saudável. Basta que não exceda as normas do bom-senso. Entenda-se o que se pretende dizer: que não seja sensual (que não desperte paixões extemporâneas), que se guardem as devidas distâncias; que não incite a nenhuma desordem moral, pois, então, já não seria “diversão”, mas sim abandono e perda de qualidade humana e espírito cristão.

Os pais, primeiros educadores, devem velar para que esta faceta normal da vida, sobretudo quando se é muito jovem e se possui o quase irresistível instinto de dançar, se desenvolva com normalidade, ou seja, segundo as “normas” da nobreza, da honestidade e do decoro.

RECUPERAR AS FESTAS SAUDÁVEIS

Deveriam ser recuperadas aquelas festas que há alguns anos, apesar de muitos já as terem esquecido, eram celebradas em casa dos próprios pais ou de algum amigo ou amiga, sob luzes claras e o olhar atento, mas discreto, de uma pessoa adulta. Assim era fácil divertir-se nobremente. É claro que é sempre possível, se se quiser, ultrapassar os contornos vivificantes da moral (até numa igreja); mas quando se tomam as precauções necessárias, é mais difícil incorrer em algo que a vontade não queira.

Nas discotecas atuais, passa-se o contrário: talvez uma pessoa privilegiada, muito ingênua ou idiota, possa passar uma noite a dançar ou a beber sem ofender a Deus. Mas o mais fácil e provável é acontecer o contrário. As discotecas, onde se torna quase impossível falar, proporcionam uma expressão baseada unicamente no contacto físico, na vibração e nos instintos estimulados pelo som, pela penumbra — quando não pelo álcool ou pela droga. Isto já afeta o pudor, na medida em que favorece uma falsificação da intimidade. A pessoa tem de evitar riscos desnecessários para a sua saúde espiritual e o escândalo que possa causar com imprudências temerárias. É preciso chamar a atenção também para o fato de existirem ambientes que, se bem que não causem ofensas “atuais” a Deus, distorcem a formação de personalidades que poderiam chegar a ser ricas, profundas e maduras.

Os pais que possam devem animar-se a organizar festas para os seus filhos, com os seus amigos e amigas. “Urge recristianizar as festas e os costumes populares. – Urge evitar que os espetáculos públicos se vejam nesta disjuntiva: ou piegas ou pagãos. Pede ao Senhor que haja quem trabalhe nessa tarefa urgente, a que podemos chamar «apostolado da diversão»” (São Josemaría, Caminho, n. 975).

O QUE SIGNIFICA “DIVERSÃO”

Detenhamo-nos um momento no significado da palavra “diversão”. “Di-versão”, divertir-se, soa a verter-se ou voltar-se, sair de certa forma de si mesmo. Se alguém sai e se perde, está perdido; mas se sai bem apetrechado, com domínio de si e da situação, consegue um reencontro mais aprazível consigo mesmo.

Quantas vezes, porém, a diversão deixa um travo de amargura. Aquilino Polaino, conhecido catedrático em Psicopatologia, numa conferência sobre a famosa “depressão” (dois milhões e meio de espanhóis têm problemas depressivos), contava o que sucede no fim do verão:

“Em Setembro, deparamos nas consultas com a chegada dos veranistas cansados, o que é um paradoxo. Foram para descansar e voltaram cansados. O que sucedeu?…

“Acontece que há gente que não sabe descansar e que pretende fazê-lo em ambientes ruidosos e massificados, onde o relaxamento se torna difícil. É óbvio que a montanha é relaxante e, portanto, um fator que previne a depressão, ao passo que muitos ambientes na praia contêm um fator de pressão. Apesar de, em alguns momentos, servirem de paliativo para a ansiedade, é possível que ao fim de poucos dias a depressão surja novamente, mais profunda”.

O desafio das leis morais leva consigo uma deterioração da integridade da pessoa, do equilíbrio psíquico e, não raras vezes, do físico. Mas como nem sempre se vê o mal imediatamente, costuma-se se pensar que se não mato ou não roubo, não faço mal a ninguém… Mas sem dúvida que não matar ou não roubar é compatível com causar um dano profundo, mais ou menos grave, a menos que não se seja sensível, a si próprio e aos outros. Nada do que acontece na nossa intimidade pessoal deixa de repercutir de algum modo no ambiente familiar e social que nos rodeia.

As normas morais são o ingrediente principal da diversão – embora em muitos pratos não sejam notadas, como o sal. Sem elas, não encontramos a felicidade que tanto procuramos. É lamentável que se ignore ou se esqueça tanto esta verdade: as normas morais ensinadas por Deus não têm outra finalidade senão mostrar como pode uma pessoa chegar a ser feliz. Deus criou-nos e revelou-nos uns “mandamentos” que não são mais do que indicadores para o caminho até à felicidade temporal e eterna. Digamos isso com palavras de Cervantes: “As nossas almas estão em contínuo movimento, e não podem parar nem sossegar senão no seu verdadeiro centro, que é Deus, para quem foram criadas”. Não existe experiência mais universal do que esta. O que distancia de Deus não é bom; ou, dito de forma diferente, causa-nos um mal, sobretudo à alma.

SAIR, MAS SEM SE PERDER

Divertir-se – o mesmo com relação às férias – é sair um pouco do habitual, do esforço ao qual estamos acostumados. De certa maneira, é retirarmo-nos de nós próprios. Mas a alegria, o sossego, a paz, a recuperação de energias, não se conseguem fugindo do verdadeiro centro da nossa existência, que é como que o nosso centro de gravidade espiritual. Sair de Deus é violentar o mais profundo do núcleo pessoal e isto não pode proporcionar um verdadeiro descanso. Quando o Senhor diz vinde a mim vós que estais cansados (Mt 5, 5), entre outras coisas, adverte-nos que for a dEle não existe verdadeiro descanso.

Por outras palavras: para “divertir-se” é preciso “converter-se”, isto é, devemos voltar-nos para o nosso verdadeiro centro que é Deus e, a partir daí, ocupar-nos nas atividades que relaxam, distendem, sossegam, reparam as forças «para que depois sejamos capazes de maiores esforços» (que é, segundo São Tomás, «o fim do descanso»).

Quando se planejam as coisas de forma inversa e se tem a diversão como um fim em si mesmo, espera-se da diversão algo que ela não possui e, portanto, algo que não pode dar. Por isso, é freqüente a tristeza e a depressão às segundas-feiras, ou no período que se segue às férias. Quando se toma a diversão como um fim, começa o desencanto, o desgosto da alma. Suspira-se, então, por novas diversões, novos descansos, que se os continuarmos a tomar como razão de ser da existência, nunca nos conseguirão fazer felizes.

O AMBIENTE DAS FÉRIAS

As férias virão e voltarão, como as andorinhas. E muitos esqueceram o sabor amargo das férias passadas em ambientes teoricamente ótimos para um descanso merecido, mas péssimos para o sossego daquilo que nos é mais caro: a alma.

O ambiente, as relações sociais de muitos lugares de veraneio repercutem negativamente na vida espiritual dos jovens e dos adultos. Mesmo o fato de terem sido muitos aqueles que se submeteram a essa lamentável tortura moral (ou a esse vacilo lamentável, dependendo dos casos), não muda as coisas nem imuniza contra o mal; pelo contrário, o mal, quando é de muitos, apresenta características de epidemia, o que exige o uso de medidas de resistência extraordinárias.

Apesar de tudo, muitas vezes reincide-se, tropeça-se na mesma pedra. Se ainda há tempo para planejar as férias, vale a pena ponderar o assunto com seriedade e profundidade. Há algum louco que vá descansar na frente de batalha? Há algum insensato que empregue o seu tempo de férias para arriscar a vida colocando-se no meio de um furacão, ou que fique fascinado por respirar o ar de uma lixeira? E se uma mulher, um homem cristão, sabe que a sua fé vale tanto que é preferível morrer a pecar, e que, de outra forma, dificilmente poderá conservar a graça de Deus num determinado ambiente – porque teria de lutar como um cossaco para vencer tentações contínuas contra a caridade, a castidade ou a justiça, e mesmo assim, cairia mais de uma vez –, esse homem, essa mulher, seria tão louco ou insensato que fosse passar ali as suas férias e, o que seria pior, com o cônjuge e com os filhos?

A FOSSA DO MUNDO

Uma vez, ouvi uma mãe dizer a um filho que estava, decidido a comportar-se com coerência cristã: “Você diz que quer santificar o mundo e não vai a essas praias, não vai a esses cinemas… Como se pode entender uma coisa dessas?” O rapaz respondeu: “Mas, mãe, não vê que “essas” praias, “esses” cinemas, “essas” discotecas, não são «o mundo», mas, a fossa do mundo?”

Aquela mãe gostou da resposta. E nós, cristãos, não temos culpa de que aumente a dimensão dos esgotos do planeta. O absurdo seria se montássemos a nossa tenda à sua beira, só porque alguns dos nossos colegas, amigos, parentes ou conhecidos também o fazem. Para estes, o lema é: “Não se prive disso: seiscentos bilhões de moscas não podem estar enganados”.

O que podemos fazer é criar ambientes de águas claras e ar limpo (se não os houver). Há ambientes que não são santos, mas que podem ser santificados, porque se podem corrigir os seus defeitos e conservar as suas coisas positivas. Mas há ambientes tão desagregados que não há forma de os endireitar, tal como não existe a possibilidade de resolver a quadratura do círculo. Uma casa de prostituição é de santificação impossível, por muitas voltas que lhe dermos. A única solução é demoli-la e construir outra coisa. O mesmo acontece com muitos lugares junto à costa e de diversão. Onde não se pode amar Deus, onde não se pode viver, por exemplo, a castidade sem eufemismos, onde uma pessoa não pode estar sem se envergonhar, aí não deve estar um cristão calado e condescendente. Se optar por essa postura, converte-se ele próprio num cooperador do mal, em pedra de escândalo e em responsável pelas ofensas feitas a Deus.

Por isso, como sempre aconteceu, muitos cristãos decidem mudar o lugar de férias em defesa da sua vida espiritual e da sua família. E, assim, comprovam que se passa muito melhor esse tempo e se descansa muito mais. Porque Deus se faz presente no meio deles, dá-lhes “cem por um”. Ele é a alegria. E quem não é capaz de fazer uma coisa assim, deixar certos ambientes por amor a Deus e aos seus, não merece chamar-se cristão. Não é uma opinião, é Palavra de Deus: Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim não é digno de Mim (Mt 10,37). Pior seria amar mais um determinado ambiente, algumas amizades, um lugar, algumas coisas, alguma situações frívolas, do que a Ele.

E se for necessário “zangar-se” um pouco com alguém? O Senhor responde: Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a espada. Vim colocar o filho contra o pai, a filha contra a mãe e a nora contra a sogra. E os inimigos do homem serão os da sua própria casa (Mt 10, 34-36). Não nos espantemos quando aparecem protestos em casa quando defendemos determinados princípios morais. Se são de Deus, não se deve ceder. Também não se trata de fazer “brilhar espadas na noite”, ou de disparar “tiros verbais” que incendeiam os relacionamentos. Há que defender a verdade com força e carinho e, se possível, com bom humor. As duas coisas são indispensáveis e compatíveis. Então, ninguém precisa partir para as vias de fato, antes pelo contrário, a família fica mais unida, mais robusta, mais sã e mais cristã. É evidente que, em época de férias, toda a atividade da família deve subordinar-se a uma melhor formação e atenção aos filhos, para o que não se devem poupar esforços, mesmo econômicos.

COMO DEVEM SER AS FÉRIAS

Para ser bem passadas, as férias devem ser um tempo de intensa vida familiar. Devem-se programar várias atividades que ajudem a aproveitar o tempo, que sejam atraentes para os filhos e que façam crescer o desejo de estar com os pais e os irmãos. Ter presente que a atração está no ambiente (é o que se “come”), mais do que na atividade em si mesma. Os pais têm de criar entusiasmo por essas atividades, e afã de superação; têm de saber cativar adeptos. Os jogos mais caros não são necessariamente os mais divertidos. Há que se resguardaras das escolhas da manipulação comercial que a publicidade faz com freqüência.

TRABALHOS MANUAIS

O verão é um tempo propício para a realização de alguns trabalhos manuais, que educam a destreza no uso das ferramentas: artesanato, murais, etc. Servem para conferir responsabilidade no cuidado das coisas da casa: pequenos consertos, regar alguns vasos; ensinam a viver aspectos da pobreza cristã.

TRABALHOS CULTURAIS

Por exemplo: colecionar minerais, insetos, moluscos, plantas; recolher ditados populares, vocabulário da região onde se está. Plantar em alguns vasos sementes comuns, para estudar o desenvolvimento dessas plantas. Interessa ajudar os filhos a refletir, a pensar, a meditar: que tenham momentos a sós, sabendo que estão na presença de Deus. Pode-se convidá-los a fazê-lo com o pai ou com a mãe, com carinho, sem imposição, mostrando-lhes o valor que tem o cultivo do espírito. Além do mais, pode ser oportuno fazerem juntos uns momentos de meditação, mediante a leitura de alguns pontos, especialmente escolhidos para os filhos, de algum livro de espiritualidade.

Antonio Orozco – Licenciado em Filosofia e Letras e Doutor em Filosofia Escolástica. É sacerdote e autor de diversos artigos sobre temas teológicos, além dos livros: Resurección, de espiritualidade, e La libertad en el pensamiento, ensaio filosófico.

Fonte: Arvo.net
Tradução: Alexandre Gonçalves

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