Espiritualidade, oração, contemplação: elevar a alma a Deus

 

"A força da alma consiste em orar sem cessar; isto reveste a mente do poder que emana da visão de Deus. Devemos ler a Escritura até que a mente se tenha aquietado de pensamentos errantes; então, quando se percebe que a mente retornou ao seu próprio lugar, dentro de si mesma, liberta das distracções exteriores, imediatamente deve-se colocar de lado o livro e retornar à oração. Desta maneira, a leitura da Escritura tem o propósito de levar à oração… Noutras palavras, deixe a mente fazer tudo o que for preciso para que ela se torne digna de falar a Deus na oração."
(Philoxeno)

"Creio sinceramente que aqueles que atingem a perfeição não pedem ao Senhor para livrá-los das provações, tentações, perseguições e conflitos – e este é outro sinal seguro de que estes favores e esta contemplação que Sua Majestade lhes concede, provêm do Espírito do Senhor e não são ilusões. Pois, como disse antes, as almas perfeitas não se deixam vencer pelas provações, mas antes, as desejam."
(Santa Teresa de Ávila)

"… são muitos os que permanecem ao pé da montanha podendo subir ao topo … Eu repito e peço-lhe que tenha sempre pensamentos corajosos. Como resultado deles, o Senhor dar-lhe-á a graça para feitos corajosos."
(Santa Teresa de Ávila)

"Quando estamos quietos, não apenas por alguns poucos minutos mas por uma ou várias horas, podemos tornarmo-nos desajeitadamente conscientes da Presença dentro de nós, de um Estranho, perturbador, o ‘Self’ que é tanto "Eu" quanto algum outro. O “Eu" que não é inteiramente bem-vindo dentro da sua própria casa, porque é tão diferente do personagem quotidiano que construímos de nós mesmos,. Há um ‘Eu’ silencioso dentro de nós, cuja presença é perturbadora precisamente porque é tão silenciosa."
(Thomas Merton)

Eis o que deve fazer: eleve o seu coração a Deus, num suave impulso de amor, desejando-O por Si mesmo… Centre toda a sua atenção e desejo nEle e deixe que isto seja a única ocupação da sua mente e coração. Faça todo o possível para esquecer tudo o resto, mantenha os seus pensamentos e desejos livres de qualquer envolvimento com todas as criaturas de Deus e/ou com os seus negócios… Talvez isto lhe pareça uma atitude irresponsável, mas eu digo-lhe, deixe tudo isso de lado, não dê atenção a tais coisas.
O que estou a descrever agora é a acção contemplativa do espírito. Isto é o que dá a Deus a maior alegria… Os seus irmãos e irmãs são enriquecidos maravilhosamente por esse ato seu, mesmo que lhe seja difícil compreender isto completamente; e, naturalmente, o seu próprio espírito é purificado e fortalecido por esse trabalho contemplativo, mais do que por todos os outros exercícios espirituais juntos. Por tudo isso, quando a graça de Deus o eleva com entusiasmo, isto se torna extremamente leve e fácil de ser feito. Sem a Sua graça contudo, é muito difícil – diria mesmo impossível – de se realizar.
(A Nuvem do Não-Saber)

Silencie-se diante deste Deus grandioso, pois… a linguagem que Ele mais ouve é a do amor silencioso.
(Santa Teresa de Ávila)

Então… esforce-se e persevere até que encontre nisto alegria. No início, terá certamente a sensação de nada saber, nada sentir, excepto essa intenção surda dirigida a Deus das profundezas do seu ser. Esforce-se tanto quanto possa mas essa escuridão e essa nuvem permanecerão entre o seu espírito e Deus. Sentir-se-á frustrado pois a sua mente não será capaz de O compreender e o seu coração não poderá saborear as delícias do Seu amor.
Porém, aprenda a estar à vontade nesta escuridão. Retorne a ela sempre que puder, deixe que o seu espírito chore por Deus, a quem ama… Se se esforçar Por fixar n’Ele o seu amor, esquecendo tudo o resto, que é o exercício da contemplação que lhe pedi para começar, tenho certeza de que Deus na Sua bondade lhe concederá uma profunda experiência de Si mesmo.
(Nuvem do Não-Saber, cap. 3)

A oração que tem valor para Deus consiste nisto: que uma pessoa…
1) Retire totalmente a sua atenção do mundo e não permita que a sua mente se prenda a nada;
2) Coloque a sua mente inteiramente à disposição de Deus;
3) Se esqueça, durante o tempo da oração, de tudo o que é material, incluindo-se a si própria e ao lugar onde se encontra;
4) Se revista de Deus durante o tempo da oração, tanto externamente como internamente, abrasada de ardente amor por Ele, inteiramente unida a Ele; os seus pensamentos envoltos na maravilhosa quietude de Deus, enquanto a alma sai em busca d’Aquele a quem ama, como David disse: A minha alma saiu em busca de Vós (Salmo 63:9).
(Piloxeno)

Um dos Pais do Deserto disse: "Do mesmo modo como lhe é impossível ver o seu rosto em águas turbulentas, assim também a alma, a menos que esteja livre de pensamentos vãos, não é capaz de orar a Deus na contemplação."
"A oração mais poderosa e mais aceite é a que deixa os melhores efeitos… Eu descreveria os melhores efeitos como aqueles que são seguidos de acções… se a minha oração vem com fortes tentações, aridez e tribulações, e isto me deixa mais humilde, então eu a considero uma boa oração… pode-se pensar que uma pessoa que está a sofrer (aridez) não está a rezar. Pelo contrário, ela está a oferecer o seu sofrimento e muitas vezes está a rezar muito mais do que um que força o seu caminho, bate com a cabeça e depois de ter derramado algumas lágrimas, pensa que isso é oração."
(Santa Teresa de Ávila)

Tentei tanto quanto possível… manter Jesus Cristo, nosso Deus e nosso Senhor, presente dentro de mim. Esta é a minha forma de rezar.
(Santa Teresa de Ávila)

Tente compreender este ponto. Criaturas racionais tais como homens e anjos possuem duas faculdades principais: o poder de saber e o poder de amar. Ninguém pode compreender verdadeiramente o Deus incriado sem este saber; mas cada um, a seu modo, pode compreendê-Lo através do amor. Este é verdadeiramente o milagre sem fim do amor: uma pessoa desejosa pode, através do amor, abraçar a Deus, cujo Ser preenche e transcende toda a criação. E este maravilhoso exercício de amor prosseguirá eternamente, pois Aquele a quem amamos é eterno.
Aquele que com a ajuda da graça de Deus se torna consciente dos movimentos constantes da Vontade e aprende a direccioná-los a Deus, ainda nesta vida e certamente na próxima, irá saboreá-Lo plenamente.
Não negligencie o exercício contemplativo. Tente apreciar também os seus efeitos maravilhosos no seu próprio espírito. Quando verdadeiro, ele nada mais é Do que um súbito impulso que surge repentinamente em direcção a Deus, como a faísca do fogo. É surpreendente quantos desses impulsos apaixonados brotam do espírito de uma pessoa que está acostumada a este exercício. Ainda assim, talvez apenas um desses (impulsos amorosos) esteja completamente livre do desapego de alguma coisa criada. Novamente, mal um homem se volta para Deus com amor, por causa da fragilidade humana, ele se encontra uma vez mais distraído pela lembrança de alguma coisa criada ou preocupação terrena. Mas não importa. Não há mal nisso; pois tal pessoa prontamente retorna à sua profunda quietude.
"Quando fomos baptizados, pela graça de Deus, recebemos o Espírito Santo das águas baptismais. Porém, nós O recebemos não para que Ele permanecesse connosco algumas vezes e outras vezes nos deixasse, mas para que sejamos os templos d’Ele, e que Ele habite continuamente dentro de nós. Como S. Paulo disse: "Vós sois templos de Deus e o Espírito de Deus habita em vós."
(Piloxeno)

"A graça de Deus irá agir nele através daquele amor contemplativo que o Espírito desperta nele. A sua aparência e conversação serão ricas de sabedoria espiritual, fogo e os frutos do amor, pois ele falará com uma segurança calma, desprovida de falsidade e da adulação fingida dos hipócritas."
(Nuvem do Não-Saber, cap. 54)
"É no deserto da solidão e do vazio, que a necessidade por auto-afirmação se evidencia como pura ilusão.
Então, no coração da angústia descobre-se os dons da paz e compreensão.
O Contemplativo deve assumir a angústia universal e a condição inescapável dos mortais.
O Solitário, longe de se refugiar em si mesmo, torna-se Cada Um. Aquele Um que habita na solidão, na pobreza, na indigência de Cada Um."
(Thomas Merton)

"Digo-lhe que se se fixar nalguma coisa durante o exercício da contemplação, essa coisa tornar-se-á um obstáculo à união com Deus. Pois se a sua mente está ocupada com qualquer coisa, não há nela lugar para Ele."
(A Nuvem do não saber)

"É louvável reflectir sobre a bondade de Deus, louvá-Lo e glorificá-Lo por isso; é melhor ainda deixar a sua mente repousar na Sua Presença, na Sua pura existência e…. amá-Lo e louvá-Lo por Ele mesmo."
(A Nuvem do Não-Saber – cap. 5)

"Deus é Silêncio, e no silêncio Ele é louvado e glorificado… Não estou a falar do silêncio da língua, pois se alguém apenas mantém a sua língua silenciosa, sem saber como cantar e louvar na mente e no espírito, então esse alguém está somente ocioso no silêncio – a língua do seu ‘eu oculto’ ainda não aprendeu a alongar-se, nem a balbuciar. A língua interior da mente deve fugir de todo o discurso e de todo o pensamento … simplesmente fique ali, pronta a aprender os primeiros balbucios do diálogo espiritual.
"Assim, há um silêncio da língua, do corpo todo, da alma, da mente, e há também o silêncio do espírito.
O silêncio do corpo dá-se quando estamos como mortos, desocupados de tudo, em quietude, livres de preocupações.
O silêncio da mente dá-se quando ela se acha purificada das engenhosidades, inventividades e astúcias próprias.
O silêncio da alma dá-se quando os pensamentos não mais a perturbam, já não podendo impedir o seu recolhimento.
O silêncio do espírito dá-se quando todos os seus movimentos são animados exclusivamente pelo Ser; Essa situação significa…. estar consciente de que esse silêncio é, por si só, calado".
(Abraão de Nathpar)

"A maior parte da minha oração é totalmente inarticulada. Limito-me a deixar que todos os pensamentos passem, para que toda a minha alma se entregue ao amor."
(Thomas Merton)

"Não dê atenção, quando sentir vontade de interromper a sua oração, mas louve ao Senhor pelo desejo que tem de rezar… Quando se sentir oprimido assim, tente algumas vezes ir a um lugar onde possa contemplar o céu, caminhar; fazer isso não interfere com a sua oração… É imprescindível que a alma seja conduzida com delicadeza."
(Santa Teresa de Ávila)

"Esse exercício (da contemplação) exige grande serenidade… Não se force a si mesmo, desnecessariamente, na tentativa desse exercício."
(Nuvem do Não-Saber)

"É inevitável que pensamentos surjam na sua mente e tentem distraí-lo de mil maneiras. Certamente perguntar-lhe-ão: "o que procura, o que deseja?"
A tudo isso responda firmemente: "Eu procuro e desejo a Deus somente, somente a Ele."
Sempre que se sentir movido pela graça a este exercício de contemplação e estiver determinado a isso, simplesmente dirija o seu coração a Deus com um humilde impulso de amor e direccione-o Àquele que o criou e o resgatou, e que na Sua graça o chamou a este exercício. Não permita que pensamento algum sobre Deus entre na sua mente. Pois uma simples intenção dirigida a Deus, basta.
Se quiser reunir todo o seu desejo numa só palavra que seja capaz de guardar facilmente, é melhor que seja uma pequena palavra, de uma sílaba ou duas, tal como "Deus", "Amor", "Paz, "Jesus", "Abba", etc… Escolha uma pequena palavra, que o toque particularmente. Em seguida, prenda esta palavra ao seu coração, de modo que ela não desapareça da sua mente. Esta palavra há de ser o seu escudo e a sua espada, quer esteja em paz ou em luta interior. Com essa palavra, será capaz de açoitar essa nuvem da escuridão acima de si e colocará todas as distracções sob a nuvem do esquecimento abaixo de si; se algum pensamento exercer pressão sobre a sua mente, perguntando-lhe o que está a fazer, responda só com esta palavra e nada mais. Se a sua mente intelectualizar sobre o significado e as conotações dessa palavrinha, lembre-se a si mesmo que o seu valor está na sua simplicidade. Faça isto e garanto-lhe que esses pensamentos desaparecerão.
Por que? Porque se recusou a deixar-se levar por pensamentos e divagações inúteis para o momento.
(A Nuvem do Não-Saber – Cap. 7)

“Frequentemente, por muitos anos, estive mais vezes ansiosa para que terminasse a hora estipulada para a oração, do que pela oração em si; e mais ansiosa ainda para ouvir o badalar do relógio do que para apreciar qualquer outra coisa. E confesso honestamente que aceitaria qualquer penitência que viesse à minha mente para não ter que recolher-me em oração. Era tão insuportável a força usada pelo demónio, ou até mesmo vinda dos meus hábitos nocivos, que me fazia fugir da oração e tão intolerável a tristeza que eu sentia ao entrar no Oratório, que eu tinha que juntar toda a minha coragem (e dizem, eu tenho muita…) para forçar-me; e no final, o Senhor socorria-me.”
(Santa Teresa de Ávila)

“A minha mente ficava tão dispersa e distraída que eu não podia evitar e começava a invejar aqueles que viviam nos desertos, e a pensar que, como eles não vêem nem ouvem nada, estão livres dessa mente divagadora. Então ouvi:
‘enganas-te, filha; …. Sê paciente pois, enquanto viveres, não poderás evitar uma mente divagadora .’”
Algumas vezes eu dizia na minha aflição: ‘Meu Senhor, como é que o Senhor pode ordenar coisas que parecem impossíveis?’
(Santa Teresa de Ávila)

"Assim, deve rejeitar todas as conceitualizações óbvias que fatalmente surgirão, enquanto estiver nesse cego exercício do amor contemplativo. Se não for capaz de as vencer, elas certamente o vencerão. Pois, quando mais desejar estar a sós com Deus, elas escorregarão para dentro da sua mente tão rapidamente que, somente por uma constante vigilância, as perceberá. Tenha por seguro que, se se ocupar com algo menor que Deus, nesse preciso momento, Estará a colocar essa coisa acima de si e cria uma barreira, um obstáculo à união com Deus. Por isso, rejeite firmemente todas as imagens ou ideias, não importa quão piedosas ou encantadoras sejam. Digo-lhe: um só impulso amoroso direccionado apenas a Deus…. é mais valioso em si mesmo, mais agradável ao Senhor e aos Santos, mais benéfico para o seu próprio crescimento e mais útil para o seus amigos, tanto vivos como mortos, do que qualquer outra coisa que possa fazer. E, Naturalmente, será mais abençoado ao experimentar o afecto íntimo desse amor, dentro da escuridão da nuvem do não-saber , do que ao contemplar os Anjos e Santos do céu, e/ou ao ouvir o regozijo e a melodia da sua festa celestial.
Naturalmente, é impossível nesta vida ver e possuir a Deus completamente, mas, pela Sua graça e no Seu próprio tempo, é possível experimentar algo d’Ele, como Ele é em Si Mesmo. E assim, com grande desejo por Ele, por possuí-Lo já nesta vida, entrar nessa nuvem. Ou melhor dizendo, permita que Deus o desperte e o atraia para essa nuvem; enquanto isso, esforce-se, com os auxílios da graça divina, por esquecer tudo o resto.
Certamente …. se procura a Deus somente, nunca se satisfará com algo menor que Deus.
(Nuvem do Não-Saber, cap.9)

“É muito importante que ninguém se aflija ou se deixe perturbar por aridez ou pensamentos de inquietude e distracção. Se uma pessoa deseja ser livre no espírito e não ser sempre perturbada, tem de começar por não se deixar amedrontar pela Cruz, e ela verá como o Senhor também a auxilia a carregá-la, e assim, ficará satisfeita e se beneficiará de tudo.”
(Santa Teresa de Ávila)

"Sempre que se sentir atraído pela graça ao exercício contemplativo, e estiver determinado a fazê-lo, simplesmente eleve o seu coração a Deus num gentil impulso de amor…. uma intenção despojada que caminha em direcção a Deus.
Qualquer pessoa que realmente deseje ser um contemplativo experimentará a dor de um trabalho árduo, uma luta implacável para banir os incontáveis e irrequietos pensamentos que perturbam a sua mente e a mantê-los abaixo da Nuvem do Esquecimento.
(a nuvem do não saber)

“O intelecto pára de trabalhar quando Deus o suspende… Desejar por si mesmo interromper e suspender o pensamento é o que creio não deve ser feito; nem devemos deixar de trabalhar com o intelecto, porque de contrário seríamos pessoas simplórias."
“Em primeiro lugar, devemos compreender que se uma pessoa procura a Deus, o seu Bem-Amado procurou-a primeiro, procura-a com maior intensidade… e que o desejo por ter Deus nas nossas almas é a preparação para a união com Ele.”
(Santa Teresa de Ávila)

Fonte: Tradição Católica

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