A Dignidade do Corpo Humano

 

– A ressurreição dos corpos declarada por Jesus.

– Os corpos devem dar glória a Deus junto com a alma.

– A nossa filiação divina, iniciada na alma pela graça, será consumada pela glorificação do corpo.

I. A LITURGIA DA MISSA deste domingo propõe à nossa consideração uma das verdades de fé enunciadas no Credo e que repetimos muitas vezes: a ressurreição dos corpos e a existência de uma vida eterna para a qual fomos criados. A primeira Leitura1 fala-nos dos sete irmãos Macabeus que, junto com a mãe, preferiram a morte a transgredir a Lei do Senhor. Enquanto eram torturados, confessaram com firmeza a sua fé numa vida além da morte: É melhor morrer às mãos dos homens quando se espera que o próprio Deus nos ressuscitará.

Outras passagens do Antigo Testamento também expressam esta verdade fundamental revelada por Deus. No tempo de Jesus, tratava-se de uma crença universalmente admitida, a não ser pelo partido dos saduceus, que também não acreditavam na imortalidade da alma, na existência dos anjos e na ação da Providência divina2. No Evangelho da Missa3, lemos que alguns deles se aproximaram de Jesus dispostos a colocá-lo numa situação embaraçosa. Segundo a lei do levirato4, se um homem morria sem ter tido filhos, o irmão estava obrigado a casar-se com a viúva para deixar descendência. O caso – dizem a Jesus – aconteceu com sete irmãos sucessivamente: Quando chegar a ressurreição, de qual deles será a mulher, pois que o foi de todos os sete? Parecia-lhes que essa lei levava a uma situação ridícula se se sustentava a ressurreição dos corpos.

Jesus resolve a dificuldade reafirmando a ressurreição e ensinando as propriedades dos corpos ressuscitados. A vida eterna não será igual à vida presente: Nem os homens desposarão mulheres, nem as mulheres homens […], porquanto assemelham-se aos anjos e são filhos de Deus, visto serem filhos da ressurreição. E, citando a Sagrada Escritura5, ressalta o grave erro dos saduceus e argumenta: Moisés chamou ao Senhor Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó, que tinham morrido há muito tempo. Ora, Deus não é Deus de mortos mas de vivos, porque, para Ele, todos vivem. Portanto, ainda que os justos tenham morrido quanto ao corpo, vivem com verdadeira vida em Deus, porque as suas almas são imortais e esperam a ressurreição dos corpos6. Os saduceus, dali em diante, já não se atreviam a interrogá-lo.

Nós, cristãos, professamos no Credo a nossa esperança na ressurreição do corpo e na vida eterna. Este artigo da fé “expressa o termo e o fim do desígnio de Deus” sobre o homem. “Se não existe ressurreição, todo o edifício da fé desaba, como afirma vigorosissimamente São Paulo (cfr. 1 Cor 15). Se o cristão não está certo do conteúdo das palavras vida eterna, as promessas do Evangelho, o sentido da Criação e da Redenção desaparecem, e a própria vida terrena fica despojada de toda a esperança (cfr. Hebr 11, 1)”7.

Diante da atração das coisas da terra, que por vezes podem parecer as únicas que contam, temos de considerar freqüentemente que a nossa alma é imortal, e que se unirá ao nosso corpo no fim dos tempos; ambos – o homem inteiro: alma e corpo – estão destinados a uma eternidade sem fim. Tudo o que levamos a cabo neste mundo deve ser feito com o olhar posto nessa vida que nos espera, pois “pertencemos totalmente a Deus, de alma e corpo, com a carne e com os ossos, com os sentidos e com as potências”8.

II. A MORTE, como ensina a Sagrada Escritura, não foi feita por Deus; é a pena merecida pelo pecado de Adão9. Cristo mostrou com a sua ressurreição o poder sobre a morte: Mortem nostram moriendo destruxit et vita resurgendo reparavit; morrendo, destruiu a morte, e, ressuscitando, deu-nos a vida, canta a Igreja no Prefácio pascal. Com a ressurreição de Cristo, a morte perdeu o seu aguilhão, a sua maldade, para se tornar redentora em união com a Morte de Cristo. E nEle e por Ele, os nossos corpos ressuscitarão no fim dos tempos para se unirem à alma, a qual estará dando glória a Deus desde o instante da morte, se tiver sido fiel e nada tiver a purificar.

Ressuscitar significa que volta a levantar-se aquele que caiu10, que retorna à vida aquele que morreu, que se levanta vivo aquele que sucumbiu no pó. Desde o princípio, a Igreja pregou a ressurreição de Cristo – fundamento de toda a nossa fé – e a ressurreição dos nossos corpos, da nossa carne, “desta em que vivemos, nos movemos e somos”11. A alma voltará a unir-se ao corpo para o qual foi criada e do qual se separou com dor. E o Magistério da Igreja precisa: os homens “ressuscitarão com os corpos que agora possuem”12.

Ao considerarmos que também os nossos corpos darão glória a Deus, compreendemos melhor a dignidade de cada homem e as suas características essenciais e inconfundíveis, diferentes das de qualquer outro ser da Criação. O homem não somente possui uma alma livre, “belíssima entre as obras de Deus, feita à imagem e semelhança do Criador, e imortal porque assim Deus o quis”13, mas também um corpo que ressuscitará e que, se estiver em graça, é templo do Espírito Santo. São Paulo recordava freqüentemente esta verdade gozosa aos primeiros cristãos: Não sabeis que os vossos membros são templo do Espírito Santo, que habita em vós?14

Os nossos corpos não são uma espécie de prisão que a alma abandona quando parte deste mundo, não “são um lastro que nos vemos obrigados a arrastar, mas as primícias de eternidade confiadas aos nossos cuidados”15. A alma e o corpo pertencem-se mutuamente de maneira natural, e Deus criou-os um para o outro. “Respeita-o – exortava São Cirilo de Jerusalém –, já que tem a grande sorte de ser templo do Espírito Santo. Não manches a tua carne […], e, se te atreveste a fazê-lo, purifica-a agora com a penitência. Limpa-a enquanto tens tempo”16.

III. A ALTÍSSIMA DIGNIDADE do homem já se encontra presente na sua criação, mas chega à sua plena manifestação com a Encarnação do Verbo, na qual se dá como que um desposório entre o Verbo e a carne humana17. “Todo o homem vem ao mundo concebido no seio materno e nasce da sua mãe, e […] em virtude do mistério da Redenção é confiado à solicitude da Igreja. Esta solicitude afeta o homem todo, inteiro, e está centrada sobre ele de modo absolutamente particular. O objeto destes cuidados da Igreja é o homem na sua única e singular realidade humana, na qual permanece intacta a imagem e semelhança com o próprio Deus”18.

Ensina São Tomás que a nossa filiação divina, iniciada pela ação da graça na alma, “será consumada pela glorificação do corpo […], de forma que, assim como a nossa alma foi redimida do pecado, assim o nosso corpo será redimido da corrupção da morte”19. E a seguir cita as palavras de São Paulo aos Filipenses: Nós somos cidadãos dos céus, donde também esperamos o Salvador, nosso senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de miséria e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de submeter a si todas as coisas20. O Senhor transformará o nosso corpo débil e sujeito à doença, à morte e à corrupção, num corpo glorioso. Não temos o direito de desprezá-lo, como também não temos o direito de exaltá-lo como se fosse a única realidade no homem. Devemos dominá-lo mediante a mortificação porque, em conseqüência da desordem produzida pelo pecado original, tende sempre a atraiçoar-nos21.

É novamente São Paulo quem nos exorta: Fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, e trazei a Deus no vosso corpo22. E comenta a este respeito o Papa João Paulo II: “A pureza como virtude, quer dizer, como capacidade de manter o corpo em santidade e respeito (cfr. 1 Tess 4, 4), aliada ao dom da piedade, como fruto da inabitação do Espírito Santo no templo do corpo, realiza nele uma plenitude de dignidade tão grande nas relações interpessoais, que o próprio Deus é glorificado nele. A pureza é glória do corpo humano diante de Deus. É a glória de Deus no corpo humano”23.

A nossa Mãe Santa Maria, que subiu ao Céu em corpo e alma, recordar-nos-á a cada momento que o nosso corpo também foi feito para dar glória a Deus, aqui na terra e no Céu por toda a eternidade.

(1) 2 Mac 7, 1-2; 9-14; (2) cfr. J. Dheilly, Diccionario biblico, verbete Saduceus, pág. 921; (3) Lc 20, 27-38; (4) cfr. Deut 25, 5; (5) Êx 3, 2; 6; (6) cfr. Sagrada Bíblia, Santos Evangelhos, nota a Lc 20, 27-40; (7) Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Carta sobre algumas questões referentes à escatologia, 17.05.79; (8) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 177; (9) cfr. Rom 5, 12; (10) cfr. São João Damasceno, Sobre a fé ortodoxa, 27; (11) cfr. J. Ibañez-F. Mendoza, La fe divina y católica de la Iglesia, Magisterio Español, Madrid, 1978, ns. 7, 216 e 779; (12) ibid.; (13) São Cirilo de Jerusalém, Catequese, IV, 18; (14) 1 Cor 6, 19; (15) cfr. Ronald A. Knox, El torrente oculto, Rialp, Madrid, 1956, pág. 346; (16) São Cirilo de Jerusalém, Catequese, 25; (17) Tertuliano, Sobre a ressurreição, 63; (18) João Paulo II, Carta Encíclica Redemptor hominis, 4.03.79, 13; (19) São Tomás de Aquino, Comentário à Epístola aos Romanos, 8, 5; (20) Fil 3, 21; (21) cfr. Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho, n. 196; (22) 1 Cor 6, 20; (23) João Paulo II, Audiência geral, 18.03.81.

Fonte: Falar com Deus

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