Perseveraram, com Maria, em oração…

 

«Maria exerce sua maternidade com respeito à comunidade de crentes… também educando os discípulos do Senhor na comunhão constante com Deus. Assim, se converte em educadora do povo cristão na oração e no encontro com Deus…»1

A oração é «em sentido próprio, toda elevação do coração ao Senhor, o diálogo pessoal com Deus, no qual se dá uma entrega amorosa do coração, cheia de reconhecimento, gratidão e louvor… é um meio excelente posto por Deus para que os homens percorram o caminho da plenitude e da amizade com Ele. Para encontrar-se, para ser autêntico, para amar, a oração é o caminho»2. Nada substitui a oração, de modo que aquele que não reza, reza pouco ou mal, é como quem pretende viver sem respirar e sem alimentar-se adequadamente. E assim como para alimentar-me há horas específicas ao longo do dia, assim também para a oração deve-se ter momentos fortes de encontro com o Senhor na oração mental ou “lectio”, na meditação bíblica, ou no diálogo íntimo com o Senhor no Santíssimo. Dedicar tempos fortes para a oração, «em intensidade e em duração»3, são também necessários para poder orar «em todo tempo»4.

Orar sempre

O Senhor Jesus inculcou em seus discípulos «que era preciso orar sempre sem esmorecer»5. Ele mesmo se oferece como modelo, pois Ele «aprendeu a orar conforme o seu coração de homem. E o fez de sua Mãe que conservava todas as “maravilhas” do Todo poderoso e as meditava em seu coração6»7. Do Senhor «podemos dizer perfeitamente que “orava todo o tempo sem esmorecer”. A oração era a vida de sua alma, e toda a sua vida era oração»8.

Com sua palavra e exemplo Cristo nos ensina em primeiro lugar que é necessário rezar sempre, quer dizer, é necessário não só elevar o coração a Deus nos intervalos, em diversos momentos da jornada, mas aprender a rezar de tal modo que nossa oração não se interrompa em nenhum momento. Esse é o ideal ao qual os discípulos de Cristo temos que aspirar: a oração contínua.

Mas, acaso isto é possível? Podemos por acaso rezar sem interrupção? Santo Agostinho, ao meditar sobre a indicação do Apóstolo do Senhor orar sem cessar9, se perguntava: «Acaso nos ajoelhamos, nos prostramos e levantamos as mãos sem interrupção, e por isso se disse: Orai sem cessar? Se dissermos que só podemos orar assim, creio que é impossível orar sem cessar». Por isso, explicava o santo de Hipona, há que se entender que «existe outra oração interior e contínua», uma oração que não se interrompe, ainda que abandonemos o lugar de nossa oração: «Você se cala se deixa de amar… o fogo da caridade é o clamor do coração. Se a caridade permanece sempre, você clama sempre»10. E em outro momento dizia também: «Não cante os louvores a Deus só com sua voz, faça com que suas obras concordem com sua voz. Quando você canta com a voz, cala de tempo em tempo. Cante com sua vida de forma que nunca cale… Quando Deus é louvado por sua boa obra, com sua boa obra você louva a Deus»11. Assim, pois, quando nutridos pelos momentos fortes de oração atuamos conforme o Plano de Deus, procurando fazer o que o Filho de Maria nos disse, nos inserimos vitalmente em uma «dinâmica oracional»12 que permite converter cada um de nossos atos, apostolado e a própria vida em uma oração contínua, em um “gesto litúrgico”13, chegando a ser nós mesmos uma «hóstia viva, santa, agradável a Deus»14.

…e sem esmorecer

O Senhor Jesus também adverte sobre a necessidade de rezar sem esmorecer, quer dizer, é necessária também a perseverança na oração. Isto porque somos tão inconstantes na oração! Não poucas vezes desculpas como: “não sinto nada”, “não tenho tempo para rezar”, “tenho coisas mais urgentes/importantes para fazer”, “não tenho vontade”, “estou cansado”, “depois rezo” (e esse “depois” nunca chega), “me dá vergonha aproximar-me do Senhor porque pequei”, “o Senhor não me escuta”, etc., nos levam a abandonar facilmente a vida de oração! Quantas vezes deixamos de acudir ao Senhor nas diversas, e às vezes difíceis, provas pelas quais tivemos que passar por causa do nosso desejo de seguir o Senhor Jesus!

Perante todas as dificuldades, provas e tentações que nos convidam a abandonar a vida de oração, o Senhor nos alenta a não esmorecer. Em qualquer circunstância, favorável ou adversa, aprendamos com o Senhor a permanecer obstinadamente perseverantes na oração! E mais, é da própria oração que obtemos a força necessária para ultrapassar as provas!

Perseveravam em oração com Maria

Maria, como ensina o Papa, é «educadora do povo cristão na oração e no encontro com Deus»15, pois também Ela «orava todo o tempo sem esmorecer», também para Ela «a oração era a vida de sua alma, e toda a sua vida era oração»16. No Cenáculo, exercendo sua função maternal, vemo-la reunindo em torno de si os apóstolos e discípulos de seu Filho, perseverando com eles na oração unânime, ensinando-lhes a dispor seus corações —como Ela soube fazê-lo ao longo de toda a sua vida— para acolher o Dom prometido pelo Senhor: «virá sobre vós o Espírito Santo». Assim Maria, «Mestra de oração e Paradigma de proximidade com o Altíssimo, vai educando evangelicamente os discípulos na prece confiada»17: ora a Mãe implorando o Dom do Espírito que há de acender neles o ardor por anunciar o Evangelho do Senhor, ora em união com seus filhos, que aprendem a levar uma vida espiritual intensa de seu testemunho vivo de oração.

E o que os discípulos de Cristo aprendemos também hoje daquela que é escola e «Mãe da Oração»18? Aprendemos de sua atitude de silêncio e recolhimento interior, disposições essenciais para acolher e meditar no mais profundo do coração as grandezas de Deus, assim como para escutar, acolher e meditar continuamente a Palavra divina, aderindo-nos cordialmente a ela para pô-la em prática. Maria, mulher de oração e ação, nos ensina com seu exemplo a reservar para Deus momentos fortes de oração assim como a andar continuamente na Presença de Deus, a buscar que tudo o que façamos seja feito com a intenção de servir a Deus e seus desígnios19, desdobrando-nos assim em uma vida que dá glória a Deus com todo o nosso ser e atuar. Maria nos ensina a ter uma visão de eternidade que nos permite ver e valorizar tudo desde uma perspectiva divina. Contemplemos, pois, à Mãe, e unidos a Ela aprendamos a perseverar na oração, e em uma oração que busca ser contínua!

Citações para a oração

  • O Senhor Jesus, Ele mesmo homem de oração, é mestre e modelo de oração contínua e perseverante: Lc 3,21-22; Lc 5,16; Lc 6,12-13; Lc 9,18; Lc 9,28-29; Lc 11,1; Lc 21,37-38; Lc 22,39-46.
  • O Senhor nos ensina que é necessário perseverar na oração: Lc 1,18; para não cair em tentação: Lc 22,46; Mt 26,41; para ter força no momento da prova:Lc 21,36.
  • Também Paulo convida a ser perseverantes na oração: Rm 12,12; Cl 4,2; a orar em todas as ocasiões: Ef 6,17-18; Fl 4,6; a orar constantemente: 1Ts5,17.
  • Maria, mulher de oração, nos ensina a guardar e meditar constantemente as obras e palavras de Deus em nosso coração: Lc 2,19.51; A viver a dinâmica da oração contínua atuando em amorosa obediência aos desígnios divinos: Lc 1,38; Jo 2,5; Lc 11,27-28.
  • Os apóstolos e discípulos perseveravam na oração com Maria: At 1,14.

Notas

  • 1 S.S. João Paulo II, Catequesis do 6/9/95, n.5.
  • 2 Luis Fernando Figari, Huellas de um Peregrinar, Fondo Editorial, Lima, 1991, 2ª edição, p. 35. Esta é a mais recente.
  • 3 Catecismo da Igreja Católica, 2697.
  • 4 Lc 21,36.
  • 5 Lc 18,1.
  • 6 Ver Lc 1,49; 2,19.51.
  • 7 Catecismo da Igreja Católica, 2599.
  • 8 S.S. João Paulo II, La oração do Hijo ao Padre, 22/7/1987, 1. (Deve ter em português) ? pedir o dado na comunidade para conferirme em L’Osservatore
  • 9 1Ts 5, 17.
  • 10 Santo Agostinho, Narrações sobre os Salmos, 37. ? em portugués, acho que se traduz como “enarrações” e também como “comentários” sobre os salmos: melhor conferir
  • 11 Santo Agostinho, Narrações sobre os Salmos, 146,2. ? idem. Se precisar dos textos em portugués, acho que o Joathas os têm.
  • 12 Ver Luis Fernando Figari, Características de uma espiritualidade para nosso tempo desde a América Latina, Loyola, São Paulo 1990, p. 38.
  • 13 Ver Puebla, 213.
  • 14 Rm 12,1; ver Lumen gentium, 10.
  • 15 S.S. João Paulo II, Catequesis do 6/9/95, n.5.
  • 16 S.S. João Paulo II, A oração do Filho ao Pai, 22/7/1987, 1.
  • 17 Luis Fernando Figari, Maria paradigma de unidade.
  • 18 Luis Fernando Figari, Com María em Oração, p.28. Trata-se da oração de Santa María de Pentecostes.
  • 19 Ver Lc 1,38.

Fonte: MVC

Anúncios