Catequese Bíblica (IX): Tobias, Judite e Ester

Textos lidos na Paróquia Sâo Dimas, em Padre Miguel, Rio de Janeiro, antes das Missas dominicais.

Caríssimos Irmãos,

Dando continuidade ao nosso estudo bíblico, prosseguimos na análise dos livros históricos, examinando os livros de Tobias (Tb), Judite (Jt) e Ester (Est).

Os livros de Tobias, Judite e Ester pertencem a um gênero literário próprio: o midraxe – que propõe uma história realçando os aspectos edificantes e moralizantes da mesma, para formação espiritual dos leitores. Estes livros se referem a episódios concernentes apenas a uma parcela do povo, e não são situadas historicamente com precisão, o que inclusive trouxe dúvidas acerca de sua inspiração divina, posteriormente dirimidas.

O livro de Tobias conta a história de um certo homem da tribo de Neftali, Tobite, que foi exilado para Nínive, na Assíria, com sua família; dedicava-se à caridade para com seus compatriotas, tendo sido acometido por cegueira; a esposa, então, o menospreza. Na mesma época, em Ecbátana, na região Média, uma parente de Tobite, Sara, sofria opressão de um demônio, sendo caluniada de homicídio, mas orava a Deus de forma confiante.

Reduzido à pobreza, Tobite enviou seu filho Tobias à Média, a fim de cobrar uma dívida. Ao sair de casa, o jovem Tobias encontra o anjo Rafael, que se oferece para guiá-lo na estrada. Durante a viagem, o anjo persuadiu Tobias a guardar coração, fel e fígado de um peixe que o atacara; a seguir, passando por Ecbátana, promove o casamento de Tobias com Sara, que é libertada do demônio quando o esposo, na primeira noite, queima o fígado e o coração do peixe na câmara nupcial. Rafael foi buscar o dinheiro e reconduz o jovem casal à casa de Tobite. Tobias, então, mais uma vez por orientação de Rafael, curou com o fel do peixe os olhos do pai.

O livro pretende mostrar a Providência de Deus para com o homem fiel posto em aflição e apresentar aos leitores um modelo de observância da Lei de Deus, com numerosas exortações à piedade e à prática de boas obras. Além disso, destaca-se a figura do anjo Rafael, como guarda, curador (8,3; 12,15) e intercessor (3,16; 12,2).

Judite era uma viúva israelita que vivia na cidade de Betúlia, cidade ameaçada pelo exército de Nabucodonosor, chefiado pelo general Holofernes. O pagão Aquior tenta dissuadi-lo, pois sabia que o Deus de Israel defende o seu povo. Os judeus de Betúlia estavam prestes a render-se quando Judite resolveu intervir para defender seu povo. Após orar fervorosamente, revestiu-se dos seus mais preciosos ornamentos e entrou no acampamento inimigo, encantando todos os guardas por sua formosura. Holofernes então manda que ela resida perto de sua tenda. Quatro dias depois, o general assírio, apaixonado, deu um banquete e convidou Judite (12, 10-20). Embriagado, a sós com Judite em sua tenda, cai no sono. Ela então cortou-lhe a cabeça e com ela retornou a Betúlia, o que fez os assírios baterem em retirada e levou à conversão de Aquior.

A finalidade do livro era avivar a fé de Israel no seu Deus, que é capaz de libertar seu povo das calamidades, desde que este se mostre fiel à Aliança. Os meios que salvam Betúlia são espirituais; uma viúva munida somente das forças que a oração e o jejum lhe conferem. A viuvez como estado de consagração a Deus foi sendo estimada em Israel nas proximidades da era Cristã; atualmente a Igreja vê em Judite, mulher fortalecida pela graça de Deus, uma figura de Maria Santíssima.

Nabucodonosor, o “senhor de toda a terra” (Jt 2,5) encarna o adversário de Deus, que resta vencido, como um prenúncio da vitória do bem sobre o mal (16, 2-21). Também se verifica no livro a proposta universalista, através da conversão de Aquior.

O livro de Ester fala de outra judia que, por sua castidade e piedade, se tornou instrumento e libertação para o povo de Deus. O rei Assuero repudiou a rainha Vasti, que foi substituída por Ester, judia, prima órfã de um judeu chamado Mardoqueu, que residia em Susa (pérsia) e servia na corte do rei (2, 1-20).

Mardoqueu pediu a Ester que intercedesse junto a Deus e ao rei pela salvação do povo judeu, que havia sido condenado por um decreto do rei. Após ter jejuado e orado, ela e os judeus de Susa, por três dias, Ester convidou o rei e Amã para um jantar (5, 1-5), ao qual compareceu bem vestida e adornada. Ajudada pela Providência Divina, em um novo jantar consegue um outro decreto, concedendo aos judeus a faculdade de se defenderem de seus opressores no dia previsto para seu extermínio. Amã foi enforcado por ordem de Assuero (5,6-8, 14). Em consequência, os filhos de Israel causaram muitas baixas entre os persas. Para comemorar o acontecimento, Mardoqueu instituiu a festa anual de Purim (9, 20-32).

Note-se a presença de antíteses por todo o livro: Vasti (repudiada) x Ester (exaltada); Amã (exaltado, depois condenado) x Mardoqueu (desprezado, condenado e por fim, exaltado); dois decretos, um contra e outro a favor dos judeus; dois banquetes oferecidos por Ester, para Amã, significaram humilhação e morte, para Mardoqueu, a passagem da morte para a glória.

O livro a princípio foi escrito para levantar os ânimos dos judeus, que, após o exílio, viveram sempre sob domínio estrangeiro. Seu ensinamento perene é que a Providência rege os acontecimentos e cumpre seus desígnios, mesmo que tudo pareça indicar o contrário (Est 4, 13-17).

Durante o mês de agosto, suspenderemos nossa catequese bíblica, para, a pedido de nosso pároco, realizarmos um estudo sobre a família. O texto desta catequese será disponibilizado na internet, na Página da paróquia no Facebook, junto com os demais.

Fontes: Bíblia Sagrada Ed. Vozes; Bíblia de Jerusalém; Curso Bíblico – Escola Mater Ecclesiae – Pe. Estêvão Bettencourt OSB; Curso Bíblico Catequisar.com.br (Tobias, Judite e Ester).

Catequese Bíblica (VIII): 1 e 2 Crônicas, Esdras e Neemias

Textos lidos na Paróquia Sâo Dimas, em Padre Miguel, Rio de Janeiro, antes das Missas dominicais.

Caríssimos Irmãos,

Dando continuidade ao nosso estudo bíblico, prosseguimos na análise dos livros históricos, examinando os livros de Crônicas (1 e 2 Cr), Esdras (Esd) e Neemias (Ne).

Estes livros constituem um conjunto chamado “obra do cronista” que percorre a história da humanidade desde Adão até a restauração do povo em sua terra após o exílio (sec. V a. C).

As Crônicas visam apresentar a grande história do povo de Israel, com destaque para as tribos de Judá (do Rei Davi), Levi (sacerdócio) e Benjamim (em cujo território se encontrava o templo). O enfoque do livro é mais teológico que histórico, o que explica diversas omissões, sobretudo quanto aos pecados de Davi e Salomão. Apresenta o reino ideal, sintetiza o passado, o presente e o futuro, projetando na época de Davi toda a organização cultual que conhece. A leitura das Crônicas nos mostra a situação e as preocupações da época pós-exílio.

Os livros podem ser divididos em quatro etapas: De Adão a Davi, Reinado de Davi (preparação da construção do templo), Reinado de Salomão e Reis de Judá. A sua teologia gira em torno do protagonismo da dinastia Davídica na história de Israel, dando relevo ao culto e ao templo.

O propósito central das Crônicas é ensinar que a fidelidade a Deus se manifesta no cumprimento da lei e na regularidade de um culto animado pela verdadeira piedade. Seu ensinamento sobre a primazia do espiritual e sobre o governo divino sobre todos os acontecimentos do mundo tem valor perene.

Os livros de Esdras e Neemias relatam os acontecimentos relativos ao retorno do povo exilado na Babilônia para a Terra Santa e à restauração da vida religiosa e civil deste povo (aprox. 538 a 430 a.C), procurando sempre datar os fatos, através de narrativas históricas.

No momento em que o edito de Ciro (538 a.C) autoriza os judeus a regressarem a Jerusalém para construir o templo, o retorno inicia imediatamente, mas o povo enfrenta problemas: A Terra de Judá estava ocupada por estrangeiros, que se opunham à reconstrução da cidade e do Templo de Jerusalém; os vizinhos, de Samaria, hostilizavam os recém-chegados; o contato com os estrangeiros, especialmente os casamentos mistos e as relações comerciais, punham em risco a fé dos judeus; além disso, havia escassez de bens materiais, o que levava muitos ao crime e ao desânimo. O povo foi superando, devagar, estes obstáculos, exortados pelos profetas Ageu, Zacarias e Malaquias, e chefiados por Esdras e Neemias.

O livro de Esdras divide-se em duas partes: Construção e dedicação do Templo (Es 1, 1-6,22; 5,1-6,22) e reforma moral do povo (Es 7, 1-10,44), em especial a separação dos casamentos mistos. O livro de Neemias também pode ser dividido em duas partes: Reconstrução das muralhas e da cidade de Jerusalém (1,1-7,22) e reforma religiosa e social do povo, com a renovação da aliança.

Neemias era copeiro de Artaxerxes e consegue do rei a missão de ir a Jerusalém para reconstruir as muralhas. Após a conclusão da obra, que sofreu diversos entreveros e oposições, é nomeado governador. Após ter voltado à Pérsia, retorna para uma segunda missão, a fim de reprimir algumas desordens que já tinham se introduzido na comunidade (Ne 13,4-31).

O destaque maior é a figura de Esdras, escriba encarregado dos negócios judaicos na corte da Pérsia, no tempo de Artaxerxes, que concedeu-lhe plenos poderes para realizar a reorganização de Judá a partir da Lei de Moisés, que impõe ao povo. Por ter compilado os escritos do Antigo Testamento e renovado a Aliança com Javé após a restauração de Jerusalém, é chamado o “pai do judaísmo”.

A palavra chave para a compreensão de Esdras e Neemias é restauração. Essa restauração teve capital importância na história do povo eleito: é o nascimento do Judaísmo propriamente dito, com uma noção transcendental de Deus e mais rigor quanto à observância da Lei Mosaica, em especial pelos fariseus.

Nestes livros se verifica também a noção de povo consagrado, eleito, separado dos outros povos, criado para guardar a Lei de seu Deus, bem como a presença da mística dos “pobres de Deus”, mansos e humildes, confiantes na providência divina, e de uma expectativa cada vez mais viva da chegada do Messias.

No próximo Domingo prosseguiremos no estudo dos livros históricos pelo exame dos livros de Tobias, Judite e Ester. O texto desta catequese será disponibilizado na internet, na Página da paróquia no Facebook, junto com os demais.

Fontes: Bíblia Sagrada Ed. Vozes; Bíblia de Jerusalém; Curso Bíblico – Escola Mater Ecclesiae – Pe. Estêvão Bettencourt OSB; Curso Bíblico Catequisar.com.br (Cronicas, Esdras e Neemias).

Catequese Bíblica (VII): 1 e 2 Reis

Textos lidos na Paróquia Sâo Dimas, em Padre Miguel, Rio de Janeiro, antes das Missas dominicais.

Caríssimos Irmãos,

Dando continuidade ao nosso estudo bíblico, prosseguimos na análise dos livros históricos, examinando os livros de Reis (1 e 2 Rs).

Estes livros, que a princípio constituem uma só obra, narram a história de Israel desde Salomão até o exílio babilônico (587-538 a.C). Contém os momentos mais significativos da história de Israel: o apogeu da monarquia sob Salomão, sua divisão em dois reinos rivais (o de Samaria e o de Judá), a queda de ambos, a destruição da cidade santa de Jerusalém e o exílio na Babilônia. Ademais, retrata a época dos grandes profetas (Elias, Eliseu, Amós, Oséias, Isaías, Jeremias, Ezequiel).

A história narrada nos livros de Reis divide-se em três partes: Reinado de Salomão, auge e decadência (1Rs, 1, 1-11,43); Separação e história dos dois reinos separados, o de Israel (Samaria ou Efraim) ao norte e o de Judá ao sul, até a queda de Samaria e a deportação dos habitantes desta (1Rs, 12 – 2Rs, 17,41); História do reino de Judá até a destruição de Jerusalém e o exílio babilônico (2Rs, 18, 1-25,30).

Importante lembrar que, tal como os livros de Josué, Juízes e Samuel, 1 e 2 Reis são fruto de uma visão histórico-teológica que entendia que os acontecimentos históricos são orientados por Deus, para cumprimento do seu plano de salvação. Os reveses sofridos pelo povo eleito são vistos como sinal da justiça divina: aconteceram porque a maior parte dos seus reis fez "o que era mau aos olhos do SENHOR". O pecado aí mencionado refere-se principalmente à tolerância e aceitação dos cultos prestados a deuses estrangeiros (1 Rs 11,1-10.33; 14,22-24); mas também caracteriza os atos de culto a Javé, realizados em santuários fora de Jerusalém (1 Rs 12,26-33). Este é o pecado de Jeroboão, frequentemente referido (1 Rs 13,34; 14,16; 15,30; etc.).

Os reis são apresentados e julgados com base na sua atitude frente à Lei do Senhor. Os reis da Samaria (reino do norte) são condenados em bloco por terem seguido o modelo de Jeroboão, que proclamou a separação. Os reis de Judá são avaliados tendo como modelo Davi, o “rei segundo o coração de Deus”, e classificados como bons ou maus.

A tese teológica central do livro está em 2Rs 17, 7: “Isso aconteceu porque os israelitas pecaram contra Iahweh seu Deus, que os fizera subir da terra do Egito, liberando-os da opressão do Faraó, rei do Egito”.

Salomão era filho do rei Davi, e foi designado para sucedê-lo, tendo sido o último rei a governar Israel como uma só nação. A narrativa de Reis exalta a grandeza do seu reinado, a sua sabedoria e riquezas. No entanto, não deixa de apontar seus insucessos como castigo para os seus pecados, especialmente a admissão de cultos pagãos por condescendência com mulheres estrangeiras (1Rs 11, 1-43).

Na história religiosa do antigo Israel, os profetas tiveram grande relevância, com seus ensinamentos e sua pregação. Entre eles, surge a figura de Elias, cujo nome significa “o Senhor é meu Deus”. De fato, toda a sua vida foi consagrada inteiramente a provocar no povo o reconhecimento do Senhor como único Deus. De Elias o Eclesiástico diz: ‘O profeta Elias surgiu como o fogo, e sua palavra queimava como tocha’ (Eclo 48,1)”.Teve um encontro com Deus no Monte Horeb, tal como Moisés (1Rs 19, 9-18). Relacionados pela Teofania (manifestação de Deus) no Horeb, Moisés e Elias estarão presentes na Teofania do Novo Testamento, a Transfiguração (Mt 17, 1-9p). Em um episódio extraordinário, Elias desafiou os profetas de Baal para defender a causa do único Deus (1Rs 18) e levar o povo à conversão.

Eliseu, discípulo de Elias, foi profeta popular e autor de milagres (1Rs 19, 19-21; 2Rs 2, 1-25; 3,9-9,13).

O que os livros dos Reis têm a ensinar ao homem de hoje? Eles nos relembram “a prioridade do primeiro mandamento: adorar somente a Deus. Onde Deus desaparece, o homem cai na escravidão de idolatrias, como mostraram, em nossa época, os regimes totalitários[…]”.[1]

Hoje em dia a vida de muitos gira em torno da busca de bem-estar e prosperidade, o que leva o homem a distorcer a sua relação com Deus, imaginando-o unicamente como provedor de bens materiais e realizador de desejos. É a inversão do cristianismo, a atualização da mentalidade pagã que coloca a divindade a serviço dos seus próprios interesses.

Devemos ouvir e acolher os ensinamentos da Igreja de Cristo, a fim de que nosso coração se converta e se volte para Deus com o verdadeiro espírito adorador: “seja feita a Vossa vontade”!

No próximo Domingo prosseguiremos no estudo dos livros históricos pelo exame dos livros de 1 e 2 Crônicas, Esdras e Neemias. O texto desta catequese será disponibilizado na internet, na Página da paróquia no Facebook, junto com os demais.

Fontes: Bíblia Sagrada Ed. Vozes; Bíblia de Jerusalém; Curso Bíblico – Escola Mater Ecclesiae – Pe. Estêvão Bettencourt OSB; Curso Bíblico Catequisar.com.br (Reis). Notas: [1] Catequese do Papa: A Oração de Elias e o Fogo de Deus (SS Bento XVI)

Catequese Bíblica (VI): 1 e 2 Samuel

Textos lidos na Paróquia Sâo Dimas, em Padre Miguel, Rio de Janeiro, antes das Missas dominicais.

Caríssimos Irmãos,

Dando continuidade ao nosso estudo bíblico, prosseguimos na análise dos livros históricos, examinando os livros de Samuel (1 e 2 Sm).

Estes livros fazem parte de um projeto histórico-teológico maior, que tem quatro etapas: conquista da terra (Josué), confederação tribal (Juízes), instituição da monarquia (Samuel), desenvolvimento e final dramático da monarquia (Reis). Na realidade, a presença de Samuel limita-se à primeira parte do primeiro livro, sendo Saul e Davi os protagonistas do resto da obra.

Os dois livros de Samuel continuam a história narrada por Juízes, a partir da figura de Eli, sacerdote e juiz, até o final do reinado de Davi, passando por Samuel e Saul, ou seja, desde 1.050 até 970 a.C. Os inimigos ameaçavam as tribos, faltava um chefe único que mobilizasse todo Israel e garantisse tanto a unidade nacional como a fidelidade religiosa das tribos.

O povo pede a Samuel um rei (1Sm 8, 5), e apesar de alertados por Deus – por meio de Samuel – dos inconvenientes da realeza (como os tributos e o custo de manter uma corte, por exemplo), o povo ainda assim deseja um monarca, no que Deus então assente (1Sm 8, 22). Os modelos monárquicos existentes em redor de Israel implicavam certa divinização do rei, e adotá-los supunha um risco de afastamento de Javé, o único e verdadeiro Senhor. O equívoco desfaz-se, no entanto, porque o próprio Senhor dá a sua aprovação. Tanto Saul como David (e, mais tarde, Salomão) são "ungidos" de Deus (ou seja, eram assistidos pelo Espírito Santo) e "obrigados" a manter-se submissos à sua vontade, pois Deus é o verdadeiro rei do povo.

A monarquia israelita só foi consolidada no reinado de Davi, que conseguiu estabelecer a paz por tempo suficiente para organizar administrativamente o reino e estabelecer a capital, Jerusalém, que passa a ser um dos sinais de identidade mais importantes do judaísmo. Estes aspectos são intencionalmente destacados em diversas passagens (2 Sm 5; 6; 24,18-25).

O profeta aparece como elemento limitador do poder do Rei; é a memória constante do senhorio de Deus. Face à tendência institucional (2 Sm 7), significa o elemento carismático; e, perante a pretensão absolutista do poder, assegura a consciência crítica (2 Sm 12). Samuel e Natã encarnam, de maneira especial, essas funções.

Samuel, o último dos juízes, foi um filho dado por Deus a uma mulher estéril, Ana (1Sm 1). Na Bíblia, os filhos de promessas sempre têm uma missão particular (ex. Isaac, Sansão, João Batista). Samuel tem uma função decisiva na história da instituição da realeza (1 Sm 8-12) e ungiu o primeiro rei de Israel.

Saul, o primeiro Rei de Israel, escolhido por Deus, precisou enfrentar invasões de inimigos estrangeiros durante quase todo o seu reinado. Por sua desobediência (1Sm 13, 8-15,15,10-23), foi rejeitado por Deus e passou a perseguir Davi, jovem da tribo de Judá e amigo de seu filho Jônatas, que tinha sido escolhido por Deus para sucedê-lo (1Sm 16). Saul parece ter sofrido de doença psíquica, que lhe tirava a paz.

Davi, por sua vez, “[…] é um personagem complexo, que atravessou as mais diversas experiências fundamentais da vida. Jovem pastor do rebanho paterno, passando por alternadas e às vezes dramáticas experiências, ele se converte em rei de Israel, pastor do povo de Deus. Homem de paz, combateu muitas guerras; incansável e tenaz buscador de Deus, traiu o amor e isso é uma característica sua: sempre foi um buscador de Deus, ainda que tenha pecado gravemente muitas vezes; humilde e penitente, acolheu o perdão divino, também o castigo divino, e aceitou um destino marcado pela dor.” [1]

Davi era um “orante apaixonado” (2Sm 12,20; 15,25s), que sabia suplicar e louvar, sendo-lhe atribuída a autoria de muitos dos Salmos, verdadeiras obras primas de poesia religiosa. A este “homem conforme o coração de Deus” (1 Sm 16,13), é feita a promessa, por meio do profeta Natã (2Sm 7, 1-17), a partir da qual se fundou a esperança messiânica: “Teu trono será firme para sempre” (2Sm 7,16). O Novo Testamento se refere a estas promessas feitas à Casa de Davi por três vezes: At 2,30; 2Cor 6,18; Hb 1,5. É possível enxergar em Davi uma antecipação do mistério de Cristo, eleito para a salvação de todos, rei do povo espiritual de Deus.

No próximo Domingo prosseguiremos no estudo dos livros históricos pelo exame dos livros de 1 e 2 Reis. O texto desta catequese será disponibilizado na internet, na Página da paróquia no Facebook, junto com os demais.

Fontes: Bíblia Sagrada Ed. Vozes; Bíblia de Jerusalém; Curso Bíblico – Escola Mater Ecclesiae – Pe. Estêvão Bettencourt OSB; Curso Bíblico Catequisar.com.br (Samuel). Notas: [1] S.S. Bento XVI, Catequese do dia 22-VI-2011 (ZENIT)

Catequese Bíblica (V): Juízes e Rute

Textos lidos na Paróquia Sâo Dimas, em Padre Miguel, Rio de Janeiro, antes das Missas dominicais.

Caríssimos Irmãos,

Dando continuidade ao nosso estudo bíblico, prosseguimos na análise dos livros históricos, examinando o livro de Juízes (Jz) e Rute (Rt).

Para compreender o livro dos Juízes (Jz), precisamos entender o contexto histórico, político e social de Israel na época a que se refere. Josué havia morrido sem deixar sucessor. Após a conquista de Canaã, os israelitas trocaram a vida nômade pela vida agrícola e sedentária. As tribos de Israel tinham se estabelecido em seus territórios, mas não havia governo central, ou seja, o único vínculo que as unia era a religião. Cada tribo em seu território tinha seus próprios interesses e problemas – o que dava lugar ao individualismo e criava um clima favorável às invasões dos povos estrangeiros.

A convivência com os pagãos levou a um sincretismo religioso; os israelitas passaram a prestar culto e homenagem aos deuses cananeus – Baal, Aserá e Astarte – que, assim acreditavam, garantiam a fertilidade das colheitas e a fecundidade dos rebanhos. Mesmo quando cultuavam ao Senhor, os israelitas passaram a fazê-lo nos bosques, nas colinas, junto às fontes (Jz 6,25.31; 8,33; 9,4), assim como faziam os cananeus com suas divindades.

Deus então suscitou juízes em Israel, chefes de tribo, dotados por Deus com especial força e carisma, para libertarem suas tribos de ataques estrangeiros e julgar as causas e litígios da população. São apresentados no livro doze juízes, um para cada tribo; destes, seis são tidos como “maiores”, pois suas histórias são contadas com mais detalhes, e seis são chamados “menores”, pois pouco se sabe a respeito deles.

As histórias dos juízes maiores são narradas segundo uma fórmula proposta em Jz 2, 11-19, que consiste em: os israelitas são infiéis ao Senhor, que os entrega na mão de invasores; os israelitas se arrependem e invocam o Senhor, que então suscita um juiz ou Salvador, que liberta o povo do domínio estrangeiro, garantindo um período de paz. O autor sagrado assim ensina que a opressão é castigo da impiedade e que a vitória é consequência do retorno a Deus, princípio que deriva da ausência de uma noção de vida após a morte. A Carta aos Hebreus apresenta os êxitos dos Juízes como a recompensa de sua fé, propondo-os como exemplos para o cristão, que deve rejeitar o pecado e suportar com valentia a provação a que é submetido (Hb 11,32-34; 12,1).

Os principais Juízes são Gedeão (Jz 6-8), Jefté (Jz 11-12) e Sansão (Jz 13-16).O livro cobre um período de quase duzentos anos, que vai aproximadamente de 1200 a 1050 aC, ou seja, da morte de Josué até o primeiro rei de Israel, Saul.

Sansão (Jz 13-16) tinha feito votos de consagração total a Javé (nazireato, Jz 13, 3-5), o que incluía a obediência a uma série de preceitos, incluindo a proibição de cortar os cabelos (Nm 6, 1-21). Enquanto ele permaneceu fiel a esta consagração, mantendo a longa cabeleira, o Senhor lhe dava força para vencer qualquer inimigo; quando entregou o segredo a Dalila, mulher estrangeira, traiu seus votos e ela cortou-lhe os cabelos, sinal de infidelidade interior de Sansão. Em consequência, o Senhor já não deu o herói a força necessária para o combate, vindo ele a perecer nas mãos dos filisteus.

O livro de Rute (Rt) traz a história, que se passa no tempo dos Juízes, da moabita que havia sido desposada por Maalon, filho de Elimelec, nascido em Belém (de Judá) e emigrado para Moab, em razão de uma fome que assolava sua cidade natal. Falecendo o marido e o sogro, acompanhou Noemi, sua sogra, de volta a Belém, onde, para sobrevivência, pôs-se a catar espigas no campo de Booz, vindo a descobrir que este era parente de Elimelec. Rute abraçou a fé isrealita e terminou por desposar Booz, que estava obrigado a tomar, por mulher, a viúva de seu parente mais próximo sem filhos (levirato). De Booz e Rute nasceu Obed, pai de Jessé, pai do Rei Davi.

Rute é citada como modelo de conduta filial e de fidelidade, em especial a sua fala a Noemi, sua sogra: “Aonde fores, eu irei; aonde habitares, eu habitarei. O teu povo é o meu povo, e o teu Deus, meu Deus.” (Rt 1,16).

O objetivo principal do livro é mostrar como a confiança posta em Deus é recompensada, e como a sua misericórdia se estendeu até mesmo sobre uma estrangeira. O ensinamento perene da narrativa é a fé na providência e a universalidade da salvação – o que é reforçado pela inclusão de Rute na genealogia de Cristo (Mt 1,5).

No próximo Domingo prosseguiremos no estudo dos livros históricos pelo exame dos livros de Samuel. O texto desta catequese será disponibilizado na internet, na Página da paróquia no Facebook, junto com os demais.

Fontes: Bíblia Sagrada Ed. Vozes; Bíblia de Jerusalém; Curso Bíblico – Escola Mater Ecclesiae – Pe. Estêvão Bettencourt OSB.

Catequese Bíblica (IV): Josué

Textos lidos na Paróquia Sâo Dimas, em Padre Miguel, Rio de Janeiro, antes das Missas dominicais.

 

Caríssimos Irmãos,

Dando continuidade ao nosso estudo bíblico, iniciamos hoje o estudo dos livros históricos, examinando o livro de Josué (Js), cujo nome quer dizer “Javé é Salvação” (Js 1,9).

Quando Moisés, perto de morrer, pediu ao Senhor que indicasse o seu sucessor, Deus designou Josué, para a árdua tarefa de governar o povo, o que compreendia zelar pela observância da Lei, introduzir o povo na Terra Prometida e distribuí-la entre as tribos. Josué já havia sido apresentado no Pentateuco: era filho de Nun, da tribo de Efraim, foi escolhido por Moisés como seu servidor quando ainda era jovem (Ex 24,13; 33,11; Nm 11,28;13,8); acompanhou Moisés ao Monte Sinai (Ex 24,13; 32,17); conduziu os homens do povo em batalhas, tendo se destacado na vitória contra os amalecitas (Ex 17, 8-16) e tomou parte na expedição de reconhecimento de Canaã (Nm 14,38). Um líder enérgico, tenaz e prudente, é citado várias vezes como exemplo de fé íntegra, motivo pelo qual foi um dos únicos homens que, tendo saído do Egito, entrou na Terra Prometida (Nm 14,30.38; 26,65; 32,12).

Pode-se dizer, no entanto, que o foco principal do livro de Josué é a Terra Prometida, figura da Graça: dada por Deus, mas conquistada pela espada pelas tribos, já que Deus concede o dom, mas não suprime a liberdade nem prescinde da iniciativa do homem. A graça não é um dom paternalista de Deus para um homem passivo: é fruto do dom e da atitude livre e responsável do homem em relação ao mesmo dom: a aceitação, posse e correspondência.

Em Josué, como no Êxodo, há preocupação com o contexto histórico, mas o propósito não é documentar a história, mas sim interpretar os fatos de forma a reafirmar a fidelidade de Deus às promessas e a necessidade de o povo observar a Aliança (Js 1, 6-9; 23s). Para mostrar que Deus intervém diretamente na história do povo, são narradas episódios, como a tomada de Jericó após o cerco (Js 6) e a batalha de Gabaon, em que choveu granizo e Josué “deteve o sol” (Js 10, 10-15). Importante ter em mente que nesta época não havia ainda surgido a crença na ressurreição dos mortos, portanto os israelitas acreditavam que Deus dava a retribuição ainda nesta vida segundo a fidelidade de cada um: aos justos, bênçãos, aos ímpios, a maldição.

Logo após uma introdução (1, 1-18), o livro prossegue narrando a ocupação de Canaã – detalhando a entrada (2, 1-5,12) e tomada do território (5, 13 – 12,24), um processo nem sempre pacífico, e a distribuição da terra entre as tribos de Israel (13, 1-22, 34), bem como a renovação da Aliança com Deus (23, 1- 24, 33).

As descrições das batalhas podem chocar o homem moderno pela sua brutalidade. Há que se considerar que, no estágio pouco evoluído em que se encontrava a cultura da época, cada povo julgava que, na guerra, a honra dos seus deuses estava em jogo; uma derrota militar representava vergonha e escárnio para os deuses da nação vencida, assim como a vitória significava triunfo da divindade. No caso do povo hebreu, guardião da verdade da fé, havia o perigo de sofrer influência dos costumes pagãos, o que causaria prejuízo à fé de Israel. Os inimigos de Israel eram tidos como inimigos de Javé (Nm 10,35; Ex 17,16). O povo judeu achava que o próprio Deus exigia o hérem (Js 10,40), um ato de extermínio total dos homens, as famílias, as cidades e dos bens do povo vencido, prática considerada normal pelos antigos. Esta mentalidade foi respeitada a princípio por Deus em suas relações com Israel, a fim de que o povo não rejeitasse a Revelação, e corrigida, aos poucos, até Jesus Cristo revolucioná-la totalmente, ao ensinar o amor pelos inimigos, com vista a uma recompensa nos céus (Mt 5,44; sermão da montanha).

Importante destacar a figura de Raab, prostituta habitante em Jericó, que esconde em sua casa os espiões de Josué, ao mesmo tempo em que pede por sua vida e pela de todos de sua casa (Js 2, 1-24; 6, 22-25). Raab faz uma profissão de fé, revelando uma resposta exemplar à fidelidade de Deus. Poupada com sua família pelos israelitas, passa a viver em seu meio e posteriormente vem a ser a mãe de Boaz, bisavô do Rei Davi, sendo uma das quatro mulheres pagãs que Mateus inclui na genealogia de Jesus (Mt 1), simbolizando a universalidade da salvação.

Mais uma vez, é possível enxergar aqui o mistério da graça: a fé nos é dada por Deus, mas não dispensa uma resposta da humanidade.[1] Ela é salva pela fé (Hb 11,31), justificada pelas obras (Tg 2,25), integrada ao povo de Deus. Mais tarde, Orígenes e São Cipriano de Cartago enxergariam em Raab a imagem da Igreja, fora da qual ninguém pode perseverar.

No próximo Domingo prosseguiremos no estudo dos livros históricos pelo exame dos livros de Juízes e Rute. O texto desta catequese será disponibilizado na internet, na Página da paróquia no Facebook, junto com os demais.

Fontes: Bíblia Sagrada Ed. Vozes; Bíblia de Jerusalém; Curso Bíblico – Escola Mater Ecclesiae – Pe. Estêvão Bettencourt OSB; “O extermínio de inocentes na Bíblia” – Prof. Felipe Aquino. Notas: [1] S.S. Bento XVI, Hom 17-XII-2009.

Catequese Bíblica (III): Levítico, Números e Deuteronômio

Textos lidos na Paróquia Sâo Dimas, em Padre Miguel, Rio de Janeiro, antes das Missas dominicais.

Caríssimos Irmãos,

Finalizaremos hoje o estudo do Pentateuco, com a análise dos livros do Levítico, Números e Deuteronômio. Renovamos o convite para que todos tragam suas Bíblias, a fim de acompanhar as remissões.

O Levítico (Lv), terceiro livro do Pentateuco, apresenta as leis para o culto (Lv 1,1-10,20), a serem seguidas pelos sacerdotes, e também procura ensinar ao povo o caminho da santidade de vida, como meio de levá-lo a uma comunhão com o Deus vivo. Sendo Deus santo, Israel, que Ele escolheu como o seu povo, deve também ser santo (Lv 19,2).

Ao lermos este livro, devemos levar em conta que o conceito de santidade dos israelitas é, neste ponto, ainda imperfeito, baseado em atitudes exteriores, mediante a observação de diversas prescrições. O contexto histórico é importante para que possamos compreender algumas das leis estabelecidas, como por exemplo, a “lei de talião – dente por dente, olho por olho” (Lv 24,17-20) que era, na realidade, um progresso em relação ao costume da época, que era de vingar um mal sofrido causando-se um mal sete vezes maior.

No Novo Testamento, em passagens da apresentação do Menino Jesus no Templo e da cura do leproso, em que Jesus ordena que se apresente ao sacerdote (Lv 14, 2-32), é possível observar que as prescrições do Levítico ainda estavam em pleno vigor. Entretanto, os sacerdotes e os “doutores da lei” haviam transformado o relacionamento com Deus em um ritualismo vazio, o que foi, de fato, alvo das críticas de Nosso Senhor.

O sacrifício único de Cristo tornou desnecessário o cerimonial do antigo templo (Hb 10, 1-10), mas é importante ver no Levítico, antes de tudo, a proposta de um povo que se sente eleito por Deus, e impressiona-se com Sua grandeza e perfeição, procurando, então, honrá-Lo com o culto mais perfeito possível (pureza ritual) e servi-lo com a máxima fidelidade (pureza moral).

Números (Nm) tem este nome pois narra dois recenseamentos do povo de Israel realizados no deserto. Está intimamente ligado ao livro do Êxodo.

Ao longo do percurso pelo deserto, Israel deixa de ser um bando desorganizado de nômades libertado do Egito e vai ganhando uma consciência nacional e religiosa, e, ao mesmo tempo, vai fazendo também uma caminhada espiritual. O livro mostra que a essência de Israel é ser um Povo reunido à volta de Deus e da Aliança. O deserto é o lugar em que Deus habita e caminha com seu povo, mas é também o lugar do pecado, da ingratidão, da revolta contra Deus, quando o povo não consegue perceber Sua presença e duvida de Seu amor.

Deus demonstra sempre a sua misericórdia para com o povo, mesmo quando lhe é infiel, como se verifica do episódio da “serpente de bronze” (Nm 21), no qual o quarto evangelho enxergou uma prefiguração do sacrifício de Cristo (Jo 3,14).

O Deuteronômio (Dt) (deuteron=segundo; nomos=lei) consta de cinco sermões atribuídos a Moisés que recapitulam a lei (1,1-4,43; 4,44-11,32; 12,1-28,68; 28,69-30, 20; 31,1-29) e da narração do fim da vida de Moisés (31, 30-34,12). Tais sermões consistem, basicamente, em exortações dirigidas ao povo a fim de reconhecer a ação divina na história humana, celebrá-la na liturgia e a corresponder ao amor de Deus, acatando suas exigências de ordem moral e social.

O Deuteronômio continua a desenvolver a teologia da eleição, já presente nos livros anteriores: Deus fez, gratuitamente, a sua aliança com o povo de Israel (Dt 4, 37; 7,7s; 10,14s), entregando-lhe, como dom, o Decálogo (CIC §2077), cuja perenidade é atestada por Jesus (Mt 19, 16-17). Contudo, enquanto o Êxodo evidencia a distância existente entre Deus e o homem (Ex 33,20), o Deuteronômio mostra um Deus próximo de seu povo (Dt 12,5 – Ez 48,35). O Deuteronômio traz a oração do shemá (“Escuta, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 4-5)

O amor a Deus sobre todas as coisas é apresentado como o “maior e primeiro mandamento” (Mt 22, 35-39). “Jesus uniu — fazendo deles um único preceito — o mandamento do amor a Deus com o do amor ao próximo, contido no Livro do Levítico: « Amarás o teu próximo como a ti mesmo » (Lv 19, 18; cf. Mc 12, 29-31). Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um «mandamento», mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro.”[1]

No próximo Domingo iniciaremos o estudo dos livros históricos pelo exame do livro de Josué. Lembramos que os textos destas catequeses estão sendo disponibilizados na internet, na Página da paróquia no Facebook.

Fontes: Bíblia Sagrada Ed. Vozes; Bíblia de Jerusalém; Curso Bíblico – Escola Mater Ecclesiae – Pe. Estêvão Bettencourt OSB; Dehonianos.org (Roteiro Homilético para a Festa da Exaltação da Santa Cruz – Ano A). Notas: [1] Carta Encíclica Deus Caritas Est, nº1

Catequese Bíblica (II): Êxodo

Textos lidos na Paróquia Sâo Dimas, em Padre Miguel, Rio de Janeiro, antes das Missas dominicais.

 

Caríssimos Irmãos,

Hoje daremos continuidade ao nosso estudo catequético da Sagrada Escritura. Mais uma vez, renovamos o convite para que todos tragam suas Bíblias, a fim de acompanhar as citações.

O segundo livro do Pentateuco chama-se Êxodo (Ex), nome que em grego significa “saída”. A mensagem essencial contida no livro pode ser resumida como segue: Deus elegeu seu povo e fez-lhe uma promessa. Tal eleição e promessa são garantidas pela aliança. Comprometendo-se pelas promessas que faz, Deus exige, como única contrapartida, a fidelidade de seu povo. As condições desta fidelidade, estabelecidas pelo próprio Deus, estão na lei que Deus revelou ao seu povo na montanha sagrada, escrevendo-as com o “seu Dedo” (Ex 31,18), e que regula a conduta do povo eleito conforme a Sua vontade. Este, porém, mesmo após ter sido liberto e conduzido por Deus, é-lhe infiel, fazendo para si ídolos e murmurando, a cada dificuldade: “O Senhor está, ou não está, no meio de nós?” (Ex 17,7).

O Gênesis termina com a ida de Jacó com seus filhos para o Egito, onde José era administrador. Com a morte de José (Gn 50) e a subida ao trono de um novo Faraó, que, preocupado com o crescimento da população hebreia (Ex 1,7), passou a oprimi-la com trabalhos forçados e controle de natalidade, o povo clama a Deus, que intervém, levantando, do meio do povo, Moisés, o libertador.

O Êxodo se inicia com a opressão dos israelitas no Egito (Ex 1), narra o nascimento e vocação de Moisés (Ex 2-4), a saída do Egito mediante as dez pragas e a celebração da Páscoa (Ex 7, 8-29,11;13, 17-21), apresenta a aliança e a doação da lei (Ex 19, 1-40,38) e segue até a construção do santuário junto ao monte Sinai, ou seja, até o primeiro dia do segundo ano após a saída do Egito (Ex 40, 2.17).

Ao contrário do Gênesis, que se utiliza de uma linguagem predominantemente simbólica, a narrativa do Êxodo se preocupa em mencionar fatos históricos, que, confrontados com o estudo de documentos arqueológicos, permite aos historiadores situar a saída do povo de Israel do Egito, com grande probabilidade, no período de 1.290 – 1.224 aC, inserido no reinado do faraó Ramsés II, ou no reinado imediatamente posterior. Entretanto, devido à importância do fato para o povo, e a sua incorporação na tradição oral, algumas partes do relato têm um colorido heroico-mítico, como se vê na famosa passagem do Mar Vermelho.

No Êxodo podemos encontrar temas importantes e recorrentes na mensagem bíblica: A lei mantém a aliança e prepara o cumprimento das promessas, numa pedagogia que conduz a Cristo, em quem estas promessas se realizam. O Êxodo é o esboço de nossa redenção.

A figura humana de destaque no livro do Êxodo é Moisés, libertador, portador dos mandamentos e mediador entre Deus e o povo, conduzindo-o rumo à liberdade da Terra Prometida, enquanto ensina os israelitas a viverem na obediência e na confiança em Deus, durante a sua longa permanência no deserto.

Ademais, Moisés é um intercessor capaz de um amor que chega até ao dom total de si mesmo. Reza pelo Faraó quando Deus, com as pragas, procurava converter o coração dos Egípcios (cf. Êx 8–10); intercede pelo povo quando este é infiel (Ex 32, 7-14), e principalmente, vê Deus e fala com Ele «face a face, como alguém que fala com o próprio amigo» (cf. Êx 24, 9-17; 33, 7-23; 34, 1-10.28-35). Quando roga pelo povo, depois da destruição do bezerro de ouro, é possível enxergar nele a prefiguração de Cristo,: «Rogo-te que lhes perdoes agora este pecado! Senão, apaga-me do livro que escreveste» (v. 32), pois toma sobre si os pecados do povo e oferece a si próprio: “apaga-me”.[1]

Por fim, outros pontos de relevo são: a instituição da Páscoa judaica, que prepara a Páscoa cristã e que, a princípio, era uma festa anual de pastores nômades, de origem pré-israelita, para o bem dos rebanhos, em que as primícias eram apresentadas à divindade, e que, posteriormente, tornou-se memorial da saída do Egito (12,11b-14.42), ganhando uma significação inteiramente nova, exprimindo a salvação trazida ao povo por Deus; e o maná, alimento que Deus providencia para o seu povo no deserto (Ex 16,15) e que mais tarde é reconhecido como a figura da Eucaristia, alimento espiritual da Igreja durante o seu êxodo terrestre (Jo 6,26-58).

No próximo Domingo finalizaremos o estudo do Pentateuco, com o exame do Levítico, Números e Deuteronômio. Os textos das catequeses serão publicados na internet pela Pastoral da Comunicação (Página da paróquia no Facebook).

Fontes: Bíblia Sagrada Ed. Vozes; Bíblia de Jerusalém; Curso Bíblico – Escola Mater Ecclesiae – Pe. Estêvão Bettencourt OSB.

Notas: [1] SS. Bento XVI, Audiência Geral, 1-VI-2011.

Catequese Bíblica (I): Gênesis

Textos escritos e lidos na Paróquia São Dimas – Padre Miguel, no Rio de Janeiro/RJ.

Caríssimos Irmãos,

Por solicitação e sob a orientação de nosso pároco, iniciamos hoje uma série de catequeses sobre temas essenciais à nossa fé, a serem ministradas sempre ao início de cada missa dominical. O primeiro tema a ser abordado é a Sagrada Escritura. Por isso, convidamos a todos a trazerem as suas Bíblias, a fim de melhor acompanhar a explanação.

A escolha do tema se justifica pelo fato de ser a Escritura o meio pelo qual Deus se revela ao homem por palavras humanas, e porque é nela que “a Igreja encontra incessantemente seu alimento e sua força, pois nela não acolhe somente uma palavra humana, mas o que ela é realmente: a Palavra de Deus.” (CIC §104). Nas palavras de São Jerônimo, ignorar as Escrituras é ignorar Cristo.

O cânon bíblico (lista dos livros inspirados) compõe-se de 46 livros para o Antigo Testamento, abreviado como AT, e de 27 para o Novo Testamento, abreviado NT.

O Novo Testamento nos apresenta Jesus Cristo, seus atos, ensinamentos, paixão e glorificação, assim como os inícios de Sua Igreja sob a ação do Espírito Santo (CIC §124).

Os livros do AT dão testemunho de toda a divina pedagogia do amor salvífico de Deus (CIC §122). Toda a narrativa está ordenada para preparar e aponta para a vinda de Cristo, iniciando com a história da criação (“No princípio”, Gn, 1, 1). Ao proceder à leitura, no entanto, deve-se ter em mente que a Sagrada Escritura não tem a pretensão de fazer um relato científico, exato, mas transmitir uma mensagem de Deus aos homens através de linguagem simbólica.

O AT inicia-se com o Pentateuco (penta = cinco; teuchos = rolo, livro), que são os cinco primeiros livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.

A mensagem contida no Gênesis (Gn) – que quer dizer origem – é, basicamente, a seguinte: “o Criador fez o mundo e o homem muito bons, mas o pecado estragou a obra de Deus (Caim, Dilúvio, torre de Babel); por isso Deus separa um homem e sua descendência para serem os depositários (guardiões) da esperança de um Messias Salvador.

O livro do Gênesis compreende duas partes: Gn 1-11 e 12-50. A primeira é chamada “pré-história” bíblica, pois são acontecimentos anteriores à história do povo de Deus, que começa no capítulo 12 com Abraão. Tudo o que precede Gn 12 pretende contextualizar a Aliança, ou seja, explicar porque Deus quis chamar Abraão e fazer-lhe promessas, de forma gratuita e unilateral.

Gn 1-11 relata a criação do universo e do homem, a queda original e suas consequências, e a perversidade crescente, castigada pelo dilúvio. A partir de Noé, a terra se repovoa, e a segunda parte do Gênesis conta a história dos antepassados, mediante os quais Deus vai realizando a preparação do Messias: Abraão, Isaque, Jacó e seus doze filhos, que deram origem às doze tribos de Israel, a história de José.

Abraão é o homem da fé, cuja obediência (em oposição à desobediência dos primeiros pais, Adão e Eva) é recompensada por Deus com uma numerosa descendência, a quem prometeu a Terra Santa (Gn 12,1-25,18).

Jacó é o homem da astúcia, que foi preferido por Deus desde antes de seu nascimento a seu irmão Esaú, de quem roubou a bênção de seu pai Isaque. Deus renova com Jacó, a quem dá o nome de Israel, as promessas da aliança concedida a Abraão (Gn 25,19-36,43).

José é o homem sábio cuja fé e virtude é recompensada pela Providência Divina.

O livro do Gênesis é o princípio da mensagem revelada, apresentando os temas da eleição, da promessa e da aliança, que estarão presentes durante todo o AT. Da leitura aprendemos que Deus escolheu o seu povo, fez-lhe promessas gratuitamente e recompensa aqueles que nEle confiam.

Domingo que vem daremos continuidade a este estudo, abordando o livro do Êxodo. Renovamos o convite para que todos tragam suas Bíblias, a fim de criarmos familiaridade com o seu manuseio. Aqueles que desejarem tomar notas, sintam-se à vontade para fazê-lo.

Os textos das catequeses serão também publicados na internet pela Pastoral da Comunicação (Página da paróquia no Facebook).

Fontes: Catecismo da Igreja Católica; Bíblia de Jerusalém; Curso Bíblico – Escola Mater Ecclesiae – Pe. Estêvão Bettencourt OSB.

10 sugestões aos católicos sobre a leitura da Bíblia.

 

Permalink: http://www.zenit.org/article-22202?l=portuguese

Para ler a Bíblia, deveríamos começar com uma oração para abrir nosso coração e nossa mente à Palavra de Deus e terminar “com uma oração para que esta Palavra dê fruto em nossa vida, ajudando-nos a ser pessoas mais santas e mais fiéis”.

Começar e terminar de ler a Bíblia orando é uma das 10 sugestões para tornar frutífera a leitura da Bíblia para os católicos, oferecidas por Mary Elizabeth Sperry, diretora associada para o uso da New American Bible na Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB).

As sugestões de Sperry, disponíveis no site http://www.usccb.org/mr/mediatalk/bible_catholics_sp.shtml, incluem saber o que é a Bíblia e o que ela não é.

As 10 sugestões de Sperry são:

1.Ler a Bíblia é para os católicos, sim. A Igreja estimula os católicos para que façam da leitura da Bíblia parte de sua vida diária de oração. Ao ler estas palavras inspiradas, as pessoas aprofundam em sua relação com Deus e chegam a entender seu lugar na comunidade daqueles que Deus chamou para si.

2.Orar no começo e no final. Ler a Bíblia não é como ler um romance ou um livro de história. Deveríamos começar com uma oração pedindo ao Espírito Santo que abra nosso coração e nossa mente à Palavra de Deus. A leitura da Sagrada Escritura deveria terminar com uma oração para que esta Palavra dê fruto em nossa vida, ajudando-nos a ser pessoas mais santas e mais fiéis.

3.Fique por dentro de toda a história! Ao escolher uma Bíblia, procure uma edição católica. A edição católica inclui a lista completa dos livros que a Igreja considera sagrados, assim como introduções e notas para compreender o texto. Toda edição católica inclui uma nota de imprimatur no verso da página de título; ele indica que o livro está livre de erros doutrinais segundo o ensinamento católico.

4. A Bíblia não é um livro, é uma biblioteca. Ela é uma coleção de 73 livros escritos ao longo de muitos séculos. Tais livros incluem a história dos reis, profecias, poesias, cartas que desafiam as novas comunidades de crentes em dificuldade e relatos da pregação e da paixão de Jesus, transmitidos por parte dos crentes. O conhecimento do gênero literário do livro que se está lendo o ajudará a entender as ferramentas literárias que o autor utiliza e o significado que este procura transmitir.

5.Saiba o que é a Bíblia – e também o que ela não é. A Bíblia é o relato da relação de Deus com o povo que Ele escolheu para si. Não está escrita para ser lida como um livro de história, nem de ciência, nem como um manifesto político. Na Bíblia, Deus nos ensina aquelas verdades de que precisamos para o bem da nossa salvação.

6.O todo é maior que as partes. Leia a Bíblia em seu contexto. O que acontece antes e depois – inclusive em outros livros – nos ajuda a entender o verdadeiro significado do texto.

7.O antigo tem relação com o novo. O Antigo e o Novo Testamentos se iluminam mutuamente. Ainda que leiamos o Antigo Testamento à luz da morte e ressurreição de Cristo, este tem também seu valor próprio. Juntos, os testamentos nos ajudam a entender o plano de Deus para a humanidade.

8.Você não está lendo sozinho. Ao ler e refletir sobre a Sagrada Escritura, os católicos se unem àqueles homens e mulheres fiéis que levaram a sério a Palavra de Deus e a puseram em prática em sua vida. Lemos a Bíblia na tradição da Igreja para beneficiar-nos da santidade e sabedoria de todos os fiéis.

9.O que Deus está me dizendo? A Bíblia não se dirige somente às pessoas que morreram há muito tempo em um lugar distante. Também se dirige a cada um de nós em suas próprias circunstâncias. Quando lemos, devemos entender o que o texto diz e como os fiéis entenderam seu significado no passado. À luz desse entendimento, então nos perguntamos: “O que Deus está me dizendo”.

10.Ler não é suficiente. Se a Sagrada Escritura ficar somente em palavras em uma página, nossa tarefa não terminou. Precisamos meditar sobre a mensagem e colocá-la em prática em nossa vida. Somente então a Palavra pode ser “viva e eficaz” (Hb 4, 12).