Transmitindo o Amor de Cristo.

Para transmitir o amor de Cristo não basta a participação nas obras de apostolado. Requer-se, primeiro de tudo, o testemunho de uma vida coerente, o exemplo de uma caridade universal e a sinceridade em todas as nossas ações. O modo mais eficaz de comunicar Cristo se consegue pela autenticidade de nossa fé.

(trecho de meditação do Regnum Christi)

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Amor de mãe…

Minha mãe me levava às igrejas. Durante os passeios festivos, as tarefas adminstrativas da casa e recados semanais, ou simplesmente quando fazia as compras, cujos itens que levava anotados num papel muito pequeno. Caminhava muito depressa e recordo que me levava pelas mãos quase que voando.

Porém eu não protestava, era feliz com ela, indo de um lado ao outro, entrando em mercadinhos, lojas multicoloridas ou entidades financeiras. Precisamente de uma delas saimos uma vez com uma bicicleta. Era vermelha e dobrável. Foi coisa de um sorteio que ganhamos. Ainda que o melhor fosse quando comprava o pão recém assado e um pacote de azeitonas negras. Recordo o sabor e o amor de suas mãos partindo um pedaço de pão em plena rua.

Outras vezes – como algo extraordinário – me presenteava com uma vinagrete, com aqueles vestígios de pepinos, cebolinhas, couve-de-bruxelas em flor e cenouras… O caso é que durante essas caminhadas me dizia com frequência: “Vamos ver a Jesus“. E eu não renegava. Porque queria ao fim poder descansar um pouco de tanta andança. Estava “arrebentado“.   Me sentava e mirava com a boca aberta os santos dos retábulos (eles com dobras de sobrepelizes, sotainas e casulas, ou os elementos de tortura utilizados em seu martírio), e mirava extasiado a escuridão dos confessionários, e as velas… Em seguida, minha mãe me colocava de joelhos, ou se me via muito agoniado, me deixava estar de pé ao seu lado, enquanto ela levava sua cabeça às mãos durante um bom tempo.

Sempre – para minha vergonha (“mamãe não, mamãe não”) – se colocava no primeiro banco, o mais próximo possível da imagem da Virgem que havia. Assim foi como me enamorei da Mãe de Deus, quase sem querer. A única coisa que fazia era mirá-las. Era evidente que eram muito boas amigas. Meus olhos iam de minha mãe à Virgem e da Virgem à minha mãe (e ainda não perdi esse costume). Certamente algo se passava ali. Algo tramavam as duas. De esguelha mirava também uma pequenina chama vermelha que oscilava nervosa mais acima.   E essa chama me levava a…

Guillermo, vem saudar a Jesus“. E eu ia ou não ia dependendo das pessoas que houvesse. Se estávamos sozinhos na igreja era fenomenal. Me levantava e me aproximava das grades do altar e tocava o sacrário.

No sacrário está Deus, filho meu, diga-lhe algo“. Que iria eu lhe dizer? “Oi, Deus“. E voltava correndo para minha mãe. Se Ele estava bem ali… Nesta manhã retornei a uma dessas igrejas. E me vi ajoelhado no mesmo banco, o primeiro, diante da imagem da Virgem. E pensei que minha mãe me deu o melhor presente de minha vida, o conhecer a Jesus e a sua Mãe…

Fonte: http://es.catholic.net/escritoresactuales/812/2807/articulo.php?id=38691

Tradução: Renata Espíndola

O Namoro na Visão Cristã Católica.

Por Dom Adair José Guimarães

Creio que outros vão escrever mais diretamente sobre o “namoro cristão”; quero fazer uma rápida abordagem do tema no plano humano, decorrente de uma visão positiva da filosofia cristã, cujo centro da atenção é a pessoa humana e seu caminho para a felicidade.

Faz parte da lógica consumista do capitalismo moderno apresentar a vitrine fetichista do comércio formal e informal, de maneira mais ousada nos shopping’s centers, como espaço do descartável. Os produtos, embora bonitos e requintados, em grande parte são descartáveis. Fabricados para serem consumidos rapidamente, devem ser substituídos por novos exemplares que a cada momento são inseridos nas prateleiras reais e virtuais do mercado, obedecendo à lógica do muito consumir. A cada ano surge uma infinidade de modelos novos de celulares e outros bens na área da eletrônica que povoam o imaginário dos humanos consumistas.

Essa perversidade que engalfinha milhões de dólares a cada dia está impregnando cada vez mais o inconsciente coletivo da humanidade, sobretudo no Ocidente: berço esplendido do consumismo. Trata-se da lógica do descartável: usa-se enquanto lhe agrada e faz bem, depois joga-se fora e busca-se outra opção que lhe satisfaça melhor aos instintos.

Tal realidade se materializa em mentalidade, em pensamento. Isso passa a reger o mundo humano e interfere drástica e profundamente na concepção de pessoa, de Deus, da natureza e da sociedade. Lamentavelmente a pessoa humana também está sendo colocada na vitrine, como objeto de consumo.

A mentalidade de prevalência do prático, acredito, tem favorecido uma mentalidade utilitarista e hedonista das coisas e passado dessas para as pessoas. Estamos vendo saltar aos nossos olhos as conseqüências desta mentalidade. Da mesma maneira que as pessoas trocam de aparelho celular a cada modelo novo que chega às lojas, muitos(as) estão trocando de relacionamentos afetivos a cada impulso dos sentidos em direção às possibilidades de novas aventuras e novas expectativas de prazer.

Tanto no namoro quanto no casamento percebe-se tal desastre humano. A raiz do problema não está basicamente na perda dos valores morais. É mais profundo. É uma questão de mentalidade. A concepção de pessoa humana está se nivelando com a concepção que temos das coisas e do seu conseqüente uso.

O namoro que brota entre dois jovens de sexos opostos é sempre acompanhado da mentalidade que ambos trazem consigo. Quando estes possuem uma concepção humana frágil, inegavelmente o relacionamento será igualmente frágil e possibilitará o aprofundamento das negatividades de alguns aspectos já decadentes.

A fase do namoro, ideal e moralmente objetivo, é um período excepcional para o conhecimento de duas pessoas, geralmente jovens, de sexo oposto. O namoro é um período na vida dos namorados que lhes permite se conhecerem melhor. Isso é fundamental para o alicerce de uma nova família que se quer sólida.

A prática do namoro evoluiu muito nas últimas quatro décadas. Não foi uma evolução ruim. Afinal, não dá para pensar o namoro nos moldes das primeiras décadas do século passado. Com a abertura dos últimos tempos e a igualdade de direitos estabelecida entre o homem e a mulher, bem como a quebra do tabu que circundava a questão sexual, abriu-se as portas para uma nova prática do romance amoroso entre os namorados. O erro não está na abertura, mas no mau uso da liberdade, face à mentalidade do descartável que está tomando conta da sociedade.

O estilo do namoro antigo tem muito em comum com o namoro dos nossos tempos: a falta de conhecimento um do outro. O namoro antigo não permitia nenhuma espécie de contato físico; a conversa entre os dois não existia, o estar só era impossível, etc – não se conheciam. O namoro moderno e avançado permite tudo: o sexo livre, o aborto, a depravação, etc – também não se conhecem como pessoas.

O final do filme todos nós conhecemos: corações machucados, magoados e infernizados com a síndrome da dependência sexual e outros males. A sociedade ainda é machista; por isso o Pe. Zezinho tem razão quando compôs a música “Laranja Lima” e nos diz que no namoro errado é a mulher quem sofre mais. Deve ser muito triste a ressaca do pós-namoro pagão, quando a consciência advertir que a jovem foi usada ou que usou o outro simplesmente por prazer, tendo se acobertado, para tanto, na falsidade e na mentira.

Estamos vivendo um mundo carente de valores. Além da mentalidade do descartável que favorece o hedonismo utilitarista no namoro (para muitos o trivial “ficar”), temos a elaboração de um ambiente cultural de morte que se expressa na música mundana, no teatro e no cinema também mundanos que apregoam os contravalores como sendo determinantes para a felicidade. Aí está o engano, pois se trata de uma mentalidade distorcida da pessoa humana. É a crise antropológica (a pessoa humana não se interroga sobre o seu fim). É a evidente falta de consciência do que é a realidade da pessoa humana e o que é realmente a felicidade para a qual a pessoa humana foi criada.

O que fazer para viver o namoro coerente e de maneira cristã? Olhar para Jesus Cristo, o modelo antropológico perfeito. Olhar para o testemunho de tantos casais que vivem o namoro correto e santamente. Não tenho dúvidas, os casais de namorados que viveram santamente o seu namoro viverão santamente o seu casamento. Afinal, a conquista da felicidade não se dá sem sacrifício, renúncia e entrega consciente. Onde há o amor não há a dor. “Felizes os puros de coração porque verão a Deus” (Mt. 5, 8).

Prezados jovens cristãos, sejam vocês o alicerce da construção da “civilização do amor” (Paulo VI) e da concretização de uma vida feliz a partir da santidade e do respeito à pessoa do outro. Deus os abençoe.

Fonte: http://presentepravoce.wordpress.com/2008/06/12/o-namoro-na-visao-crista-catolica/

Família, a escola da fé

Por Juan Du Solier

Em minha casa a religião não se revestia de nenhuma solenidade. Era reduzida a rezar pela noite todos juntos. Minha irmã mais velha, Elena, era a que dirigia a oração. Para que nós os menores não nos aborrecessemos, Elena acelerava às vezes o ritmo, de modo que maltratava ou se comia algumas palavras. Então intervia meu pai, e lhe ordenava severamente: “Começa de novo“. Assim se aprendia que a Deus há que lhe falar com calma e com respeito.

Meu pai, ao rezar, se ajoellhava no chão; apoiava seus cotovelos numa cadeira, e cobria o rosto com as mãos. Não se movia, nem nos olhava, nem se impacientava.

Eu pensava: “Deve ser muito grande Deus se meu pai, quando lhe fala, se põe de joelhos. Deus deve ser também muito bom se meu pai lhe fala sem tirar sua roupa de trabalho“.

Pelas noites minha mãe rezava, porém não ajoelhada; estava demasiado cansada. Ela se sentava no meio de nós, tendo em seus braços o meu irmãozinho caçula. À hora de rezar, minha mãe se cobria com um avental negro, que a cobria até os pés; e deixava o cabelo solto sobres seus ombros.

Minha mãe rezava todas as orações sem perder sequer uma sílaba, porém sempre em voz baixa. Ao mesmo tempo não deixava de olhar sobretudo aos menores. Nos mirava, porém não nos dizia nada, nem sequer quando os menores a molestavam, ou quando lá fora havia uma tormenta, ou quando o gato cometia alguma travessura.

Eu pensava: “Deve ser muito simples Deus se minha mãe pode lhe falar coberta com esse avental, e tendo um menino nos braços“.

E também pensava: “Deus deve ser um personagem muito importante se minha mãe, quando lhe fala, já não faz caso nem do gato, nem da tormenta“.

Recordo que estávamos todos sentados ao redor da lareira, numa noite de inverno, depois de fazer as orações como fazíamos todos os dias. Meu pai se via realmente consolado e minha mãe muito segura, assim que rompendo o silêncio que dominava a sala perguntei:

“E… como se chama Deus, mamãe?”

Todavia recordo seu olhar carinhoso, o sinal que me fez para que corresse para sentar ao seu lado e como acaricando-me o cabelo me disse em voz suave:

“Se chama Jesus, Miguelito”.

Eu continuei com minha perguntas, as que qualquer menino de uns 7 ou 8 anos faria sobre o tema:

“E como é? Por que sabemos que nos quer tanto?”

Minha mãe respondeu:

“É como teu papai…” – olhando-o me disse ao ouvido – “… te quer mais que ninguém no mundo, sempre está ali onde o necessitas, nunca te abandona, sempre firme junto a ti, querendo te consolar, com os braços abertos para te abraçar” – concluiu olhando agora ao crucifixo que estava sobre a lareira.

“Que faz na cruz? Parece lhe doer” – perguntei.

“Lhe dói muito, filho, porém está ali para recordar a todos os homens que lhes ama, é uma prova de seu infinito amor…”

As mãos de meu pai e os lábios de minha mãe me ensinaram muito mais que o melhor livro de catecismo.

Eu agora estou formando minha família, tenho três filhos, uma grande esposa e muito adiante, somente espero que ainda que eu seja humano e tenha erros, não falhe em levar meus filhos ao conhecimento de Cristo, pois é na família onde realmente se deve ensinar.

Fonte: http://www.ef.catholic.net/CatequesisEF/Articulos/Articulos%20Cuentos6.htm

11 Conselhos para ensinar os filhos a pensar

Por Luis Olivera

Aprende a pensar aquele que pergunta sempre, que sai da jaula das modas, que se atreve a inventar problemas e a pensar sobre si mesmo, sobre a vida, sobre tudo.

1. Em primeiro lugar, é preciso agir conforme a verdade das coisas: ensinar os filhos a não se enganarem, a serem sinceros, a agirem com coerência. “Podemos conhecer a química cerebral que explica o movimento de um dedo, mas isso não explica por que esse movimento é usado para tocar piano e não para apertar um gatilho” (Marcus Jacobson). E também “não podemos baratear a verdade” (F. Suárez), rebaixando o seu valor, como se fosse uma liquidação.

2. Um segundo ponto é que “o treinamento é um privilégio da inteligência humana” (José Antonio Marina). É preciso enriquecer a linguagem, é preciso estimular o diálogo, o exercício mental de raciocinar, de defender uma causa, de ter argumentos para as próprias decisões, e não somente fazer o que fazem os outros, como os bois no pasto. Aprender a pensar é descobrir como é grande o poder da moda sobre o mundo inteiro, e saber sair da jaula em que a moda pode encerrar-nos. O pensador livre – ou seja: o pensador – não deve sacrificar a sua liberdade no altar da moda. Sacrificar a verdade no altar da moda é uma das perversões mais nocivas para um pensador… E no entanto é excessiva a freqüência com que a razão fica presa na jaula da moda. Treinamento e cultivo, porque “a terra que não é lavrada, trará abrolhos e espinhos, ainda que seja fértil. Assim sucede com o entendimento do homem” (Santa Teresa de Ávila).

3. Já que é impossível não se equivocar nunca, pelo menos por utilidade e por dever temos de aprender com os nossos enganos: se quisermos aprender a pensar, deveremos descobrir o mundo tão humano do erro. “Errar é humano“, diziam já os antigos. O erro é o preço que o animal racional tem que pagar.

4. Seremos mais inteligentes e mais livres quando conheçamos melhor a realidade, quando saibamos avaliá-la melhor e quando sejamos capazes de abrir mais caminhos novos. Seria um erro pensar – observa Leonardo Polo – que o homem inventou a flecha porque tinha necessidade de comer pássaros. Também o gato tem essa necessidade, e o ilustre felino nunca inventou nada. O homem inventou a flecha porque a sua inteligência descobriu a oportunidade escondida no graveto.

5. Manter aberta a nossa capacidade de dirigir a própria conduta mediante valores pensados. É preciso passar do regime do impulso irracional para o regime da inteligência. Mais do que ensinar a pensar, a função dos pais há de ser a de motivar os filhos para que queiram pensar por sua própria conta. Com atitudes positivas, as crianças topam qualquer parada; com atitudes negativas, pensar parece lhes uma coisa cansativa e agir parece lhes uma coisa medíocre.

6. Ensinar a tomar decisões. A inteligência é a capacidade de resolver problemas vitais. Não é muito inteligente quem não seja capaz de decidir, mesmo que dentro do seu refúgio isolado consiga resolver facilmente problemas de trigonometria. Se admitirmos que educar é essencialmente ajudar a crescer na liberdade e na responsabilidade, então aprender a decidir bem acaba sendo um dos aspectos chave nessa tarefa: quanto maior a capacidade de decisão, mais liberdade.

7. Devemos recuperar – e estimular – nas crianças a sadia estratégia de perguntar continuamente. As três perguntas fundamentais são: “O que é?”, “Por que isso é assim?” e “Como é que você sabe?” Aristóteles definia a ciência como “o conhecimento certo pelas causas“: portanto, é preciso habituar-se a perguntar os porquês. Os pais devem estimular, comentar e favorecer (criando o clima adequado) os hábitos intelectuais dos filhos.

8. A inteligência tem de saber aprender, mas sobretudo tem de desfrutar aprendendo. Trata-se de formular perguntas que levem à reflexão, a perguntar-se sobre o próprio pensamento: “Por que o homem pensa?”, “Você já pensou porque é que lembramos das coisas?” “Pensamos quando estamos dormindo?” “O que é que mais faz você pensar?” “Você pode pensar duas coisas diferentes ao mesmo tempo?” Leonardo Polo define o homem como um ser que não somente resolve problemas, mas que também os formula. Com efeito, o ser humano progride propondo a si mesmo novos problemas e tentando resolvê-los.

9. A inteligência deve ser eficazmente lingüística. Graças à linguagem, não somente nos comunicamos com os outros, mas também conosco próprios. A inteligência não se parece a uma coleção de fotografias, mas a um rio. Rio e inteligência “discorrem“. A nossa língua original – a língua materna – é um rio em que deságuam milhares de afluentes. “A pluma e a palavra são as armas do pensador” (J.A. Jauregui): aprender a pensar é aprender a tocar os instrumentos do pensamento: a pluma e a palavra.

10. Fomentar a leitura e controlar o uso da televisão. Já que estamos falando do vôo da inteligência, trata-se de “ser mais inteligentes que a televisão” (Jiménez). Os livros “tem de ser obras que alimentem a inteligência sem deixar o coração seco“, ou seja, devem “iluminar a mente com a verdade e não mergulhá-la nas névoas da dúvida ou na escuridão do erro” (F. Suárez).

11. Urge encontrar momentos para refletir, para pensar, coisa aliás muito menos trabalhosa do que muitas das necessidades que inventamos. Pensar sobre o sentido da vida, das coisas, do homem, de Deus. Quando Unamuno disse que costumava sair para passear com os pastores de ovelhas para aprender a pensar, para desprender-se dos preconceitos e dos dogmas de escola, muitos rasgaram as vestes. Unamuno, porém, estava sendo sincero. Um pastor de ovelhas tem tempo para pensar, para dar rédea solta à sua imaginação e para descobrir horizontes filosóficos que jamais foram vistos por nenhum outro pensador. Fernando Corominas diz que é preciso “instalar” na mente e no coração dos filhos as coisas boas antes que cheguem as nocivas. Esse “chegar antes” é educar pensando no futuro. Sempre que nos abandonamos, retornamos à selva. Essa selva de que falo metaforicamente é sempre uma claudicação da inteligência.

Fonte: http://www.quadrante.com.br/Pages/servicos02.asp?id=221&categoria=Familia

A Maturidade Afetiva

Por Rafael Llano Cifuentes


No nosso mundo altamente técnico e cheio de avanços científicos, pouco se tem progredido no conhecimento das profundezas do coração. “Vivemos hoje o drama de um desnível gritante entre o fabuloso progresso técnico e científico e a imaturidade quase infantil no que diz respeito aos sentimentos humanos

A afetividade não está por assim dizer encerrada no coração, nos sentimentos, mas permeia toda a personalidade.

Estamos continuamente sentindo aquilo que pensamos e fazemos. Por isso, qualquer distúrbio da vida afetiva acaba por impedir ou pelo menos entravar o amadurecimento da personalidade como um todo.

Observamos isto claramente no fenômeno de “fixação na adolescência” ou na “adolescência retardada“. Como já anotamos, o adolescente caracteriza-se por uma afetividade egocêntrica e instável; essa característica, quando não superada na natural evolução da personalidade, pode sofrer uma “fixação“, permanecendo no adulto: este é um dos sintomas da imaturidade afetiva.

É significativo verificar como essa imaturidade parece ser uma característica da atual geração. No nosso mundo altamente técnico e cheio de avanços científicos, pouco se tem progredido no conhecimento das profundezas do coração, e daí resulta aquilo que Alexis Carrel, prêmio Nobel de Medicina, apontava no seu célebre trabalho O homem, esse desconhecido: vivemos hoje o drama de um desnível gritante entre o fabuloso progresso técnico e científico e a imaturidade quase infantil no que diz respeito aos sentimentos humanos.

Mesmo em pessoas de alto nível intelectual, ocorre um autêntico analfabetismo afetivo: são indivíduos truncados, incompletos, mal-formados, imaturos; estão preparados para trabalhar de forma eficiente, mas são absolutamente incapazes de amar. Esta desproporção tem conseqüências devastadoras: basta reparar na facilidade com que as pessoas se casam e se “descasam“, se “juntam” e se separam. Dão a impressão de reparar apenas na camada epidérmica do amor e de não aprofundar nos valores do coração humano e nas leis do verdadeiro amor.

Quais são, então, os valores do verdadeiro amor? Que significado tem essa palavra?

O amor, na realidade, tem um significado polivalente, tão dificil de definir que já houve quem dissesse que o amor é aquilo que se sente quando se ama, e, se perguntássemos o que se sente quando se ama, só seria possível responder simplesmente: “Amor“. Este círculo vicioso deve-se ao que o insigne médico e pensador Gregório Marañon descrevia com precisão: “O amor é algo muito complexo e variado; chama-se amor a muitas coisas que são muito diferentes, mesmo que a sua raiz seja a mesma“.

A MATURIDADE NO AMOR

Hoje, considera-se a satisfação sexual autocentrada como a expressão mais importante do amor. Não o entendia assim o pensamento clássico, que considerava o amor da mãe pelos filhos como o paradigma de todos os tipos de amor: o amor que prefere o bem da pessoa amada ao próprio. Este conceito, perpassando os séculos, permitiu que até um pensador como Hegel, que tem pouco de cristão, afirmasse que “a verdadeira essência do amor consiste em esquecer-se no outro“.

Bem diferente é o conceito de amor que se cultua na nossa época. Parece que se retrocedeu a uma espécie de adolescência da humanidade, onde o que mais conta é o prazer. Este fenômeno tem inúmeras manifestações. Referir-nos-emos apenas a algumas delas:

– Edifica-se a vida sentimental sobre uma base pouco sólida: confunde-se amor com namoricos, atração sexual com enamoramento profundo. Todos conhecemos algum “don Juan“: um mestre na arte de conquistar e um fracassado à hora da abnegação que todo o amor exige. Incapazes de um amor maduro, essas pessoas nunca chegam a assimilar aquilo que afirmava Montesquieu: “É mais fácil conquistar do que manter a conquista“.

– Diviniza-se o amor: “A pessoa imatura – escreve Enrique Rojas – idealiza a vida afetiva e exalta o amor conjugal como algo extraordinário e maravilhoso. Isto constitui um erro, porque não aprofunda na análise. O amor é uma tarefa esforçada de melhora pessoal durante a qual se burilam os defeitos próprios e os que afetam o outro cônjuge <…>. A pessoa imatura converte o outro num absoluto. Isto costuma pagar-se caro. É natural que ao longo do namoro exista um deslumbramento que impede de reparar na realidade, fenômeno que Ortega y Gasset designou por “doença da atenção”, mas também é verdade que o difícil convívio diário coloca cada qual no seu lugar; a verdade aflora sem máscaras, e, à medida que se desenvolve a vida ordinária, vai aparecendo a imagem real“.(E. Rojas)

– No imaturo, o amor fica “cristalizado“, como diz Stendhal, nessa fase de deslumbramento, e não aprofunda na “versão real” que o convívio conjugal vai desvendando. Quando o amor é profundo, as divergências que se descobrem acabam por superar-se; quando é superficial, por ser imaturo, provocam conflitos e freqüentemente rupturas.

– A pessoa afetivamente imatura desconhece que os sentimentos não são estáticos, mas dinâmicos. São suscetíveis de melhora e devem ser cultivados no viver quotidiano. São como plantas delicadas que precisam ser regadas diariamente. “O amor inteligente exige o cuidado dos detalhes pequenos e uma alta porcentagem de artesanato psicológico“.(E.Rojas)

A pessoa consciente, madura, sabe que o amor se constrói dia após dia, lutando por corrigir defeitos, contornar dificuldades, evitar atritos e manifestar sempre afeição e carinho.

– Os imaturos querem antes receber do que dar. Quem é imaturo quer que todos sejam como uma peça integrante da máquina da sua felicidade. Ama somente para que os outros o realizem. Amar para ele é uma forma de satisfazer uma necessidade afetiva, sexual, ou uma forma de auto-afirmação. O amor acaba por tornar-se uma espécie de “grude” que prende os outros ao próprio “eu” para completá-lo ou engrandecê-lo.

Mas esse amor, que não deixa de ser uma forma transferida de egoísmo, desemboca na frustração. Procura cada vez mais atrair os outros para si e os outros vão progressivamente afastando-se dele. Acaba abandonado por todos, porque ninguém quer submeter-se ao seu pegajoso egocentrismo; ninguém quer ser apenas um instrumento da felicidade alheia.

Os sentimentos são caminho de ida e volta; deve haver reciprocidade. A pessoa imatura acaba sempre queixando-se da solidão que ela mesma provocou por falta de espírito de renúncia. A nossa sociedade esqueceu quase tudo sobre o que é o amor. Como diz Enrique Rojas: “Não há felicidade se não há amor e não há amor sem renúncia. Um segmento essencial da afetividade está tecido de sacrifício. Algo que não está na moda, que não é popular, mas que acaba por ser fundamental“.

Há pouco, um amigo, professor de uma Faculdade de Jornalismo, referiu-me um episódio relacionado com um seu primo – extremamente egoísta – que se tinha casado e separado três vezes. No cartão de Natal, após desejar-lhe boas festas, esse professor perguntava-lhe em que situação afetiva se encontrava. Recebeu uma resposta chocante: “Assino eu e a minha gata. Como ela não sabe assinar, o faz estampando a sua pata no cartão: são as suas marcas digitais. Este animalzinho é o único que quer permanecer ao meu lado. É o único que me ama“.

O imaturo pretende introduzir o outro no seu projeto pessoal de vida, em vez de tentar contribuir com o outro num projeto construído em comum. A felicidade do cônjuge, da família e dos filhos: esse é o projeto comum do verdadeiro amor. As pessoas imaturas não compreendem que a dedicação aos filhos constitui um fator importante para a estabilidade afetiva dos pais. Também não assimilaram a idéia de que, para se realizarem a si mesmos, têm de se empenhar na realização do cônjuge. Quem não é solidário termina solitário. Ou juntando-se a uma “gatinha“, seja de que espécie for.

EDUCAR A AFETIVIDADE

Mais do que nunca, é preciso prestar atenção hoje à educação da afetividade dos filhos e à reeducação da afetividade dos adultos. Uma educação e uma reeducação que devem ter como base esse conceito mais nobre do amor que acabamos de formular: aquele que vai superando o estágio do amor de apetência – que apetece e dá prazer – para passar ao amor de complacência – que compraz afetivamente – e abrir-se ao amor oblativo de benevolência – que sabe renunciar e entregar-se para conseguir o bem do outro.

O amor maduro exige domínio próprio: ir ascendendo do mundo elementar – imaturo – do mero prazer, até o mundo racional e espiritual em que o homem encontra a sua plena dignidade. Reclama que se canalizem as inclinações naturais sensitivas para pô-las ao serviço da totalidade da pessoa humana, com as suas exigências racionais e espirituais. Requer que se conceda à vontade o seu papel reitor, livre e responsável. Pede que, por cima dos gostos e sentimentos pessoais, se valorizem os compromissos sérios reciprocamente assumidos… Aaron Beek, no seu livro Só o amor não basta, insiste repetidamente em que é necessária a determinação da vontade para dar consistência aos movimentos intermitentes do coração: o mero sentimento não basta.

O “amor como dom de si comporta – diz o Catecismo da Igreja Católica – uma aprendizagem do domínio de si <…>. As alternativas são claras: ou o homem comanda e domina as suas paixões e obtém a paz, ou se deixa subjugar por elas e se torna infeliz. Esse domínio de si mesmo é um trabalho a longo prazo. Nunca deve ser considerado definitivamente adquirido. Supõe um esforço a ser retomado em todas as idades da vida“.

Isto significa cultivar o amor. O maior de todos os amores desmoronar-se-á se não for aperfeiçoado diariamente. Empenho este que, na vida diária, se traduz no esforço por esmerar-se na realização das pequenas coisas, à semelhança do trabalho do ourives, feito com filigranas delicadamente entrelaçadas cada dia, na tarefa de aprimorar o trato mútuo, evitando os pormenores que prejudicam a convivência.

A convivência é uma arte preciosa. Exige uma série de diligências: prestar atenção habitual às necessidades do outro; corrigir os defeitos; superar os pequenos conflitos para que não gerem os grandes; aprender a escutar mais do que a falar; vencer o cansaço provocado pela rotina; retribuir com gratidão os esforços feitos pelo outro… e, especialmente, renovar, no pequeno e no grande, o compromisso de uma mútua fidelidade que exige perseverança nas menores exigências do amor…, uma perseverança que não goza dos favores de uma sociedade hedonista e permissivista, inclinada sempre ao mais gostoso e prazeroso.

O coração não foi feito para amoricos, dizíamos, mas para amores fortes. O sentimentalismo é para o amor o que a caricatura é para o rosto. Alguns parecem ter o coração de chiclete: apegam-se a tudo. Uns olhos bonitos, uma voz meiga, um caminhar charmoso, podem fazer-lhes tremer os fundamentos da fidelidade. Outros parecem inveterados novelistas: sentem sempre a necessidade de estar envolvidos em algum romance, real ou imaginário, sendo eles os eternos protagonistas: dão a impressão de que a televisão mental lhes absorve todos os pensamentos.

Precisamos educar o nosso coração para a fidelidade. Amores maduros são sempre amores fiéis. Não podemos ter um coração de bailarina. A guarda dos sentidos – especialmente da vista – e da imaginação há de proteger-nos da inconstância sentimental, do comportamento volátil de um “beija-flor“…

Tudo isto faz parte do que denominávamos a educação afetiva dos jovens e a reeducação afetiva dos adultos. João Paulo II a chama “a educação para o amor como dom de si: diante de uma cultura que «banaliza» em grande parte a sexualidade humana, porque a interpreta e vive de maneira limitada e empobrecida, ligando-a exclusivamente ao corpo e ao prazer egoístico, a tarefa educativa deve dirigir-se com firmeza para uma cultura sexual verdadeira e plenamente pessoal. A sexualidade, de fato, é uma riqueza da pessoa toda – corpo, sentimento e alma -, e manifesta o seu significado íntimo ao levar a pessoa ao dom de si no amor“.

Fonte: http://www.quadrante.com.br/Pages/servicos02.asp?id=205&categoria=Espiritualidade

Homem não prático, precisa-se.

Por Gilbert Keith Chesterton

(Trecho do livro Disparates do Mundo do genial, e esquecido, escritor inglês Chesterton)

Há uma anedota filosófica popular que caracteriza as infindáveis e inúteis discussões dos filósofos; refiro-me à questão sobre qual apareceu primeiro, a galinha ou o ovo. Não tenho bem a certeza de que a questão seja tão fútil como isso, se bem a compreendermos. Não tenho aqui que tratar dessas profundas questões teológicas e metafísicas, das quais o problema da galinha e do ovo é frívolo mas feliz exemplo.

O materialismo evolucionista está representado apropriadamente na visão de todas as coisas surgindo de um ovo, vago e monstruoso germe oval, auto-posto por acidente. A outra escola de pensamento, sobrenatural (à qual pessoalmente adiro), não será muito mal representada pela idéia de que este nosso mundo arredondado não passa de um ovo chocado por uma ave sagrada e não gerada – a pomba mística de que falam os profetas.

É contudo para função muito mais humilde que eu aqui invoco a tremenda potência de tal distinção. Esteja ou não o pássaro vivo no início da nossa cadeia mental, é absolutamente necessário que o esteja no final da dita cadeia. A ave é o nosso alvo – não para espingardas, mas para ser tocada com a varinha de condão criadora da vida. O essencial para pensarmos acertadamente é lembrarmo-nos de que o ovo e o pássaro não devem ser considerados como ocorrências cósmicas de igual importância, sucedendo-se uma à outra por toda a eternidade.

Não as convertamos em mero padrão ovo-pássaro como o modelo “ovo-e-flecha“. Um é meio; outro, fim; situam-se em mundos mentais diferentes. Pondo de lado as complicações da mesa do pequeno almoço, em princípio o ovo existe unicamente para produzir o pinto. Mas o pinto não existe apenas para vir a produzir outro ovo. Pode existir também para se divertir, para louvar a Deus, ou até para sugerir idéias a um dramaturgo francês (1).

Sendo uma vida consciente, tem ou pode ter um valor pessoal. Pois bem, a nossa política moderna está cheia de ruidoso esquecimento; esquece-se de que a produção daquela vida feliz e consciente é, apesar de tudo, a finalidade de todas as complexidades e compromissos. Falamos apenas de homens úteis e instituições que funcionam, isto é, estamos a pensar em galinhas que ponham mais ovos. Em vez de procurar alimentar a nossa ave ideal, a águia de Zeus, o cisne de Avon, ou seja o que for, falamos integralmente em termos processuais e embriogenéticos. O processo em si, separado do seu objectivo divino, torna-se duvidoso e até mórbido; o veneno entra no embrião de tudo; as nossas políticas são ovos podres.

O idealismo consiste apenas em considerar tudo na sua realidade essencial. Idealismo significa tão somente que devemos considerar um atiçador, no que diz respeito a avivar as brasas e a fazer borralho, antes de considerar a sua adequação ao espancamento das esposas. Quanto ao ovo, devemos considerá-lo, primeiro, para a criação prática de galinhas; só depois decidiremos se é suficientemente mau para servir na política. Bem sei que a busca primária da teoria (ou seja a procura de uma finalidade) nos expõe à banal acusação de tocar lira enquanto Roma arde.

Certa escola, representada por Lord Rosebery, procurou substituir os ideais morais ou sociais, que até então constituíram a base de toda a política, por uma conferência geral organizando completamente o sistema social, o que lhe mereceu a alcunha de “eficiência“. Não estou muito seguro da doutrina secreta desta seita na matéria em causa mas, tanto quanto consegui apurar, “eficiência” significa que temos de descobrir tudo acerca de uma máquina exceto aquilo para que ela serve.

Daqui surgiu uma das mais singulares fantasias do nosso tempo: a de que, quando as coisas vão mal, é preciso um homem prático. Estaríamos bem mais perto da verdade se disséssemos que quando as coisas vão muito mal precisamos de um homem não-prático. Pelo menos, com certeza que precisamos de um teórico. Homem prático quer dizer o habituado à simples prática do dia-a-dia, à maneira como as coisas funcionam vulgarmente. Quando as coisas não andam, do que se precisa é de um pensador, o homem que tem uma doutrina pela qual as coisas correrão. É disparate tocar lira quando Roma arde, mas há toda a razão para que se estude hidráulica durante o incêndio.

É, portanto, necessário deitar fora o agnosticismo pessoal quotidiano e tentar rerum cognoscere causas. Se o seu avião está ligeiramente indisposto, um homem habilidoso pode repará-lo, mas se está gravemente doente o mais natural é que seja necessário desencantar de uma universidade ou de um laboratório um velho professor distraído, cabeça de matagal encanecido, para analisar o mal. Quanto pior for o estrago, mais cabelos brancos e mais distração do teórico serão necessários para solucionar o problema. Nalguns casos extremos, ninguém, a não ser o homem (provavelmente louco) que inventou a aeronave, poderá talvez dizer de que avaria se tratava.

Eficiência“, evidentemente, é palavra fútil, pela mesma razão que são fúteis expressões como “homem forte“, “força de vontade” e “super-homem“; quer dizer: é fútil porque apenas concerne a ações depois de praticadas. Não tem filosofia para incidentes antes deles acontecerem. Não dá, pois, liberdade de escolher. Qualquer ato só é bem ou mal sucedido depois de realizado; ao iniciá-lo, o que tem de ser, em abstrato, é ou bom ou mau. É impossível apostar no vencedor, pois enquanto apostamos ainda o não é. Também não há combate ao lado do vencedor; combatemos para determinar de que lado ficará a vitória.

Se tal operação foi bem sucedida foi por ser eficiente. Se um homem é assassinado, o assassino é eficiente. O sol dos trópicos é eficiente na produção de povos indolentes, da mesma forma que é eficiente o tirânico contra-mestre do Lancashire na formação de homens enérgicos. Maeterlinck é tão eficaz no encher de um homem com estranhos frêmitos espirituais, como os senhores Crosse & Blackwell em o empanturrar com doces de frutas. Lord Rosebery, como cético moderno que é, prefere provavelmente os frêmitos espirituais. Eu, como cristão ortodoxo, prefiro as compotas, mas qualquer das operações só é eficaz depois de efetuada e ineficiente antes de o ser. O homem que pensa muito em sucesso tem de ser o mais dorminhoco dos sentimentais por ter sempre de olhar para trás. Se apenas quer vitórias, terá de chegar sempre atrasado à batalha. Para o homem de ação, só o idealismo serve.

Precisar esse ideal é, de longe, assunto mais prático e urgente do que quaisquer planos ou propostas imediatas, na perturbação da Inglaterra atual. O caos existente é devido, precisamente, a uma espécie de esquecimento geral de tudo a que originalmente aspiravam os homens. Ninguém pede o que deseja; todos pedem o que fantasiam poder obter. Cedo o mundo esquecerá o que o homem pretendia primeiramente e o próprio homem depois de uma vida política bem sucedida e vigorosa, também o esquecerá. O conjunto é um motim extravagante de ótimos secundários, pandemônio de pis aller (2).

Ora esta espécie de condescendência não só impede qualquer consistência heróica, como também impede qualquer entendimento realmente prático. É impossível determinar-se o ponto médio entre dois pontos que não estão fixos. Podemos fazer um acordo entre dois litigantes que não conseguem ambos tudo o que pretendem; mas não se eles não nos disserem o que querem. O gerente dum restaurante ficaria muito mais satisfeito se cada freguês fizesse os seus pedidos delicadamente, quer se tratasse de íbis guisado ou de cozido de elefante, em vez de se sentar, de cabeça entre as mãos, mergulhado em cálculos aritméticos sobre a quantidade de comida que o edifício possa conter.

Alguns de nós temos sofrido com certa espécie de senhoras que, pela sua perversa falta de egoísmo, dão muito mais trabalho do que as egoístas, quase reclamadoras do prato impopular e ansiosas pelo lugar pior da casa. Outros conheceram reuniões ou grupos de passeio cheios de ferventes abnegações alardeadas. Por muito mais ínfimas razões do que as de tais admiráveis mulheres, mantêm os nossos práticos da política a mesma confusão devido a idênticas dúvidas sobre as suas exigências reais.

Nada é mais impeditivo de um acordo do que um rosário de pequenas capitulações. Por todos os lados nos desnorteiam políticos campeões da educação laica – que, no entanto, julgam inútil trabalhar para a conseguir; desejam a proibição total, mas sabem que a não pedirão; lamentam a obrigatoriedade do ensino, mas mantêm-na resignadamente; querem a propriedade para os rurais, mas votam por qualquer outra coisa.

É este ofuscante e viscoso oportunismo que entrava tudo. Se os nossos estadistas fossem visionários, poder-se-ia fazer qualquer coisa de prático. Se pedíssemos qualquer coisa abstrata, talvez algo se obtivesse de concreto. Tal como as coisas estão, não só é impossível obter-se o desejado, como impossível é obter-se qualquer parte dele, porque ninguém o pode assinalar chãmente como se faz nos mapas.

Aquela clareza e até rigorosa qualidade do velho regatear extinguiu-se totalmente. Esquecemo-nos de que a palavra “compromisso” contém, entre outros elementos, a rígida e sonora palavra “promessa“. Moderação não significa vacuidade; é termo tão preciso como perfeição. O ponto médio é tão fixo como os extremos.

Se um pirata me obrigasse a passear na prancha, seria inútil propor-lhe, como solução de compromisso, que me deixasse andar apenas uma distância razoável sobre a dita tábua. É precisamente sobre qual fosse essa distância razoável que o pirata e eu não poderíamos pôr-nos de acordo. Há um requintado ponto de inflexão matemático depois do qual a prancha verga.

O meu bom senso acaba justamente aí. Mas o ponto em si é tão rigoroso como um diagrama geométrico, tão abstrato como qualquer dogma teológico.

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(1) Edmond Rostand, na peça Chantecler (1910) cujo protagonista é um galo (N. do T.).

(2) Em francês no original: «o pior possível», (N. do T.).

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Fonte: http://www.quadrante.com.br/Pages/servicos02.asp?id=372&categoria=Filosofia&pg=principal

A Ética Católica do Trabalho

Por Scott Hahn

Esse trabalho – humilde, monótono, pequeno – é oração plasmada em obras que te preparam para receber a graça do outro trabalho – grande, vasto e profundo – com que estás sonhando. (Caminho, n. 825)

Às vezes, a propaganda dá-nos agudas – e dolorosas – percepções da religiosidade popular. Certa vez, vi em uma revista um anúncio que proclamava: “Se o pecado original tivesse sido de preguiça, ainda estaríamos no paraíso“.O publicitário pretendia fazer uma piada, é claro. Mas sabia que roçava um tema poderoso: a noção comum de que a vida ideal consistiria em um ininterrupto tempo de ociosidade e de que o trabalho está para as férias como a vida está para o céu. Nas palavras da canção popular, “todo o mundo trabalha pelo fim de semana“.

O reverso dessa noção é bem mais insidioso e ilude muita gente: a crença de que o trabalho é uma punição pelo pecado. Os que sustentam essa teoria costumam invocar a condenação divina de Adão depois do seu pecado: “Maldita seja a terra por tua causa! Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra da qual foste tirado” (Gên 3, 17-19).

Esta passagem parece traçar um triste prognóstico de longo prazo para as condições do trabalho humano. E efetivamente retrata a fadiga do trabalho como uma punição pelo pecado. A punição, porém, não está no trabalho em si, mas nas duras condições que o tornam tedioso, frustrante e árduo.

O trabalho em si era uma das bênçãos originais de Deus. São Josemaria gostava de ressaltar que, “desde o começo da sua criação, o homem teve que trabalhar […], antes de que o pecado e, como conseqüência dessa ofensa, a morte e as penalidades e misérias entrassem na humanidade (cfr. Rom 5, 12). Deus formou Adão com o barro da terra e criou para ele e para a sua descendência este mundo tão belo, ut operaretur et custodiret illum (Gên 2, 15), para que o trabalhasse e guardasse” (1).

Deus fez Adão porque não havia homem que cultivasse a terra (cfr. Gên 2, 5). Ou seja, havia uma vaga de emprego, uma descrição do cargo e uma tarefa a ser executada. O próprio Deus criou o candidato perfeito para esse posto. E devemos lembrar-nos de que tudo isso aconteceu quando o mundo ainda não conhecia o pecado nem a infelicidade. Deus fez o homem e a mulher para o trabalho; em conseqüência, eles não poderiam – e nós não podemos – encontrar a realização fora do trabalho.

Porém, mais ainda do que fazer o homem e a mulher por causa do trabalho, fez o trabalho por causa do homem e da mulher – porque era só através do trabalho que eles poderiam tornar-se verdadeiramente semelhantes a Deus. Isto não significa que eles possam merecer a graça da divinização por força do seu trabalho. A graça é um dom e, por isso, não pode ser merecida (2). Antes, é o próprio trabalho que é um dom e torna os homens e as mulheres cada vez mais parecidos com Deus.

Com efeito, o Gênesis representa o próprio Deus entregue ao trabalho ao criar o mundo: Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho (Gên 2, 2). Portanto, o trabalho é em si mesmo algo divino, algo em que o próprio Deus se ocupa; é assim uma atividade divinizante para aqueles que foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Quando os seres humanos trabalham, imitam o seu Criador; compartilham a sua vida. Ele fez a terra do nada, mas quis que a criatura a trabalhasse e guardasse. Quis que os seus filhos terrenos conservassem os campos da família e se multiplicassem para assim viverem de modo mais perfeito à imagem do Pai celestial. Quis que o próprio trabalho pudesse tornar-se um ato de cooperação no ato criador, uma co-criação, feita por ambos, o Pai e os seus herdeiros.

TERMOS E CONDIÇÕES

Deus deu o trabalho à humanidade quando deu a vida a Adão, no tempo da inocência primitiva. O Gênesis conta-nos a história com o máximo laconismo, dando peso a cada palavra. Convém que nos detenhamos um pouco a examinar em que termos Deus nos confiou o trabalho.

O preceito de Deus a Adão de cultivar [o jardim] e guardá-lo exprime-se por meio de dois verbos hebraicos: ‘abodah‘ e ‘shamar‘. Ambos são ricos e passíveis de um duplo sentido. Aparecem juntos em outros lugares da Bíblia – e sempre que isso acontece, é para descrever os deveres ministeriais dos levitas, antiga tribo sacerdotal de Israel (cfr. Núm 3, 7-8; 8, 26; 18, 5-6). O verbo ‘abodah‘, freqüentemente traduzido por “servir“, tem no hebraico um duplo significado: pode designar “trabalho manual” ou “ministério sacerdotal” (enquanto “serviço ao culto“), ou pode sugerir os dois ao mesmo tempo. Já o verbo ‘shamar‘ significa “conservar” ou “guardar“, e descreve a proteção que os levitas deviam dispensar ao lugar sagrado, ao tabernáculo, que por eles era guardado e preservado da contaminação.

Muitos estudiosos das Escrituras acreditam que o autor do livro do Gênesis pretendeu sugerir tudo isso na história da criação de Adão. Deus fez Adão para que trabalhasse, e Deus o fez para que fosse um sacerdote do templo cósmico. Não eram atividades separadas. No começo, Adão desfrutava de unidade de vida: o seu trabalho estava ordenado para a adoração a Deus e era em si mesmo um ato de adoração. Até a divisão do tempo refletiu esse princípio de ordenação: Deus trabalhou seis dias e no sétimo descansou, santificando-o. Deus plasmou o ritmo sabático na própria estrutura da criação.

Nós trabalhamos para podermos adorar de modo mais perfeito. Adoramos enquanto trabalhamos. Quando os primeiros cristãos andaram à busca de uma palavra para descrever a sua adoração, escolheram leitourgía, uma palavra que, como a hebraica ‘abodah‘, podia indicar “adoração ritual“, mas também “serviço público“, como o trabalho dos varredores de rua ou dos homens que em outros tempos acendiam os lampiões de rua à noite. O significado é evidente para aqueles que conhecem as línguas bíblicas, estejam ou não familiarizados com a tradição litúrgica católica. O estudioso bíblico protestante inglês C.F.D. Moule explica bem a questão:

A maneira surpreendente com que palavras «seculares» como leitourgein («prestar um serviço público») são aplicadas também ao «serviço divino» recorda-nos de modo muito salutar que, para uma pessoa verdadeiramente religiosa, adorar a Deus constitui toda a razão e finalidade do trabalho; e que, se distinguimos entre adoração e trabalho, é apenas por causa da fragilidade da natureza humana, que não pode fazer mais do que uma coisa de cada vez. A necessária alternância entre erguer mãos santas em oração e brandir com mãos fortes e dedicadas um machado para a glória de Deus é o sucedâneo humano para aquela vida divina una e simultânea em que o trabalho é adoração e a adoração é a atividade mais elevada possível. E a única palavra «liturgia» do Novo Testamento, tal como a ‘abodah – «trabalho» e «serviço» – do Antigo Testamento, cobre os dois significados” (3).

Vemos uma vez mais que o trabalho é uma imagem terrena da atividade de Deus e, portanto, o trabalhador é uma imagem (e semelhança) de Deus. Como Deus é eterno, a sua atividade é simples e una. Nós, como vivemos no tempo, temos uma atividade diferenciada – e, com excessiva freqüência, dispersa. Porém, por compartilharmos a vida de Deus, as nossas próprias vidas começam a adquirir uma simplicidade, uma unidade entre trabalho e adoração.

No entanto, essa simplicidade muitas vezes confunde os cristãos de hoje, que tendem a pôr o trabalho e a oração em compartimentos separados e estanques. São Josemaria preveniu com freqüência sobre “a tentação […] de levar uma vida dupla: a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas“. Teve palavras fortes para essa atitude: “Não, meus filhos! Não pode haver uma vida dupla […]. Há uma única vida, feita de carne e espírito, e essa é que tem de ser – na alma e no corpo – santa e plena de Deus, desse Deus invisível que nós encontraremos nas coisas mais visíveis e materiais“.

E prosseguiu falando dessa vida unificada: “Por isso, posso afirmar que a nossa época precisa de devolver à matéria e às situações aparentemente mais vulgares o seu nobre e original sentido: pondo-as ao serviço do Reino de Deus” (4).

A PALAVRA EM AÇÃO

Nessa tarefa de restauração, Jesus Cristo foi, é claro, o primeiro. Muito simplesmente, Ele trabalhou. Os seus contemporâneos conheceram-no como um trabalhador bem capacitado, em grego um ‘tekton’, um artesão. A tradição diz-nos que o seu ofício foi o de carpinteiro. Os seus vizinhos maravilharam-se de que um trabalhador comum pudesse ter estudado as Escrituras, que tivesse adquirido sabedoria e ensinasse com a autoridade com que o fazia. “Não é ele o artesão?“, perguntavam (Mc 6, 3). E, em outro lugar, acrescentaram que era “o filho do carpinteiro” (Mt 13, 55).

Mas foi em uma referência ao seu Pai celestial que Cristo disse: “Meu Pai não cessa de trabalhar, e eu também trabalho” (Jo 5, 17). Jesus estava sempre trabalhando e o seu trabalho era uma só coisa com a sua vida divina e com a sua divina adoração. Estava continuamente criando, redimindo e santificando o mundo, e sempre unido ao seu Pai no amor do Espírito Santo. Cada uma das ações da sua vida terrena era uma manifestação terrena dessa atividade celestial una, simples e eterna, ao mesmo tempo serena e dinâmica. Portanto, todas as coisas que fez foram redentoras – não apenas o seu sofrimento e morte na cruz. As horas que gastou na carpintaria tiveram um valor redentor, uma eficácia reparadora. Ofereceu o seu trabalho a Deus, e todos esses seus atos trabalharam para salvar o mundo.

Como carpinteiro e cabeça de família, Jesus viveu o sacerdócio que Deus concebera para Adão – e para todos nós, na terra. Nisto, como em todas as coisas, Ele é o nosso modelo. Mas é mais que isso. Pelo Batismo e pela Sagrada Comunhão, está unido a nós. Por isso, não o imitamos apenas, mas participamos da sua vida. Trabalha em nós e nós trabalhamos n’Ele. Oferecemos o nosso trabalho como uma oferenda sacerdotal, um sacrifício redentor, em benefício dos nossos familiares, vizinhos, colegas de trabalho e amigos. E com Cristo recriamos o mundo por meio dos nossos trabalhos e orações.

Não se trata apenas de uma ‘pie in the sky’ [de um “castelo nas nuvens“]. Trata-se também da ‘pie on the table’ [da “torta na mesa“], para a mãe que a preparou e ofereceu esse trabalho a Deus; da ‘pie chart’ [do “diagrama de pizza“], nos slides que o corretor prepara para uma apresentação; do pi na equação (5), para a professora de geometria que prepara os seus planos de aula.

Tudo isso, se bem feito e oferecido a Deus, faz avançar a causa da criação divina e alcança a redenção do mundo. E realmente funciona!

NA TERRA COMO NO CÉU

É razoável perguntar: – Se Jesus restaurou o projeto original para o trabalho, por que o nosso trabalho atual ainda traz as marcas do pecado de Adão? Por que o nosso trabalho tem de ser feito à força de suor, de frustrações, de tédio e de malogros? Por que as minhas costas têm de doer no fim de cada dia de trabalho, quando soa o apito da fábrica?

Devemos notar que Jesus não esteve livre do sofrimento na sua própria vida terrena de trabalho. Os seus esforços foram custosos, como os nossos. Além de que Ele sofreu incompreensões, falsas acusações, a inveja de outros mestres e – no Calvário – uma aparente derrota.

É correto dizer, como os evangélicos protestantes, que Jesus pagou uma dívida que Ele não tinha porque nós tínhamos uma dívida que não podíamos pagar. Mas Cristo não foi meramente o nosso substituto. Se o tivesse sido, poderíamos perguntar, e com razão, por que ainda temos de carregar com o peso da punição pelo pecado de Adão: por que o nosso trabalho ainda tem de ser custoso? Como nosso substituto, Cristo deveria ter eliminado a necessidade do nosso sofrimento, certo?

Errado. Cristo não foi o nosso substituto, mas o nosso representante, e, como a sua paixão salvadora foi em nossa representação, não nos exime do sofrimento, mas confere ao nosso sofrimento uma força divina e um valor redentor. São Paulo disse: Eu, agora, alegro-me nos meus sofrimentos por vós e completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja (Col 1, 24). Que pode faltar ao sofrimento perfeito de Cristo? Somente aquilo que Ele quis que faltasse, porque desejava que fôssemos seus co-redentores, seus co-trabalhadores.

Jesus não erradicou o sofrimento, mas tornou-nos capazes de sofrer como Ele sofreu. Dotou o nosso sofrimento de poder divino e de valor redentor. E foi por isso que São Paulo pôde alegrar-se nos seus padecimentos por Cristo! Esta é a profunda fonte bíblica do gozoso espírito de mortificação que São Josemaria pregava, e que suscitou tantas incompreensões: “Abençoada seja a dor – escreveu -. Amada seja a dor. Santificada seja a dor… Glorificada seja a dor!” (6) Não dizia nenhuma tolice inane, como o faria se dissesse que “a dor é boa“; o que dizia é que, através da dor, podemos alcançar um grande bem nas nossas vidas, e, mais ainda, que Deus pode proporcionar-nos uma grande santidade por meio dela. Através da dor, podemos assemelhar-nos mais a Jesus Cristo nos seus sofrimentos.

Assim, o nosso trabalho é custoso, mas na realidade o seu custo não sobrepuja os seus benefícios, porque estes são concedidos por Deus todo-poderoso. E são benefícios que podemos aplicar não apenas em favor dos nossos familiares, mas de todas as pessoas das nossas relações e do mundo inteiro, pelos vivos e pelos mortos, pelo eterno descanso dos nossos antepassados e pela perseverança dos nossos descendentes na fé cristã. E podemos viver na alegre esperança de que todas essas pessoas virão igualmente a rezar e oferecer o seu trabalho por nós. O Credo chama a isto “comunhão dos santos“.

ABENÇOADO PELO SUCESSO?

Quando eu era ministro presbiteriano, orgulhava-me daquilo que os cientistas sociais designaram por “ética protestante do trabalho“. O sociólogo Max Weber cunhou essa frase para descrever uma determinada atitude que observou nos calvinistas. Eles trabalhavam arduamente e procuravam dar sempre o melhor de si no campo profissional. Não é que pensassem que com isso ganhavam um bilhete para o céu. Pelo contrário, acreditavam que todos na terra estavam predestinados ou para o céu ou para o inferno, mas achavam que o sucesso terreno era um sinal providencial do favor divino, de terem sido escolhidos, de estarem destinados ao céu. Weber estava certo, ao menos parcialmente, quando apontava essa ética como a força que movia o dínamo do capitalismo.

A ética protestante do trabalho não é um dogma cristão, mas apenas um fenômeno sociológico (embora, efetivamente, poderoso). Já o que vimos no livro do Gênesis é muito mais profundo do que qualquer tendência cultural e não é uma ética do trabalho, e sim algo mais completo e sólido. É uma verdadeira “teologia do trabalho“, uma metafísica do trabalho. Não é apenas a resposta coletiva de alguns fiéis ao Credo, e sim uma verdade inserida no próprio tecido da Criação.

Além disso, não depende do sucesso terreno. Como a Bem-aventurada Madre Teresa dizia com freqüência, Deus não nos pede que sejamos bem-sucedidos, mas apenas fiéis.

Fidelidade significa que tentaremos sempre fazer o melhor que pudermos. Mas isso não garante que venhamos a receber um aumento, ou a ser promovidos, ou a ganhar as eleições: poderemos até ter o salário diminuído, ser despedidos ou sofrer um acidente de trabalho. Mesmo assim, a teologia do trabalho é uma motivação mais poderosa que qualquer mera ética do trabalho: reivindica audaciosamente que o trabalho que realizamos nos pode levar para o céu – e também redimir muitas outras almas -, não por se tratar do nosso trabalho, mas por ser trabalho de Deus, opus Dei. Se o mundo nos considera um sucesso ou um fracasso, é coisa secundária; desejamos o sucesso unicamente para glorificar a Deus. O que é primordial é que trabalhemos com as mãos de Deus, com a mente de Cristo (cfr. 1 Cor 2, 16).

Santa Teresa de Ávila falou da assombrosa dignidade que Cristo nos conferiu ao fazer-nos seus colaboradores no trabalho:

“Cristo agora não tem outro corpo senão o vosso,

não tem outras mãos nem outros pés na terra senão os vossos.

Vossos são os olhos com que Ele olha

compassivamente para este mundo.

Vossos são os pés com que Ele caminha para fazer o bem.

Vossas são as mãos com que Ele abençoa o mundo inteiro” (7).

Jesus foi fiel até ao fim, e foi precisamente isso que constituiu o seu sucesso. Cumpriu a vontade de seu Pai e salvou o mundo com o sangue que marcou a sua “derrota“. E continua a operar as maravilhas da redenção através dos seus irmãos e irmãs, dos nossos êxitos e dos nossos malogros, de todo o trabalho que oferecemos com Ele a Deus nosso Pai.

Não é preciso dizer que deveríamos sempre trabalhar o melhor que pudermos, porque nada que esteja abaixo disso merece ser colocado no altar de Deus. Leiamos os profetas do Antigo Testamento e meditemos no que aconteceu quando os sacerdotes do Templo se tornaram preguiçosos ou gananciosos e começaram a oferecer a Deus animais defeituosos e com manchas, pois queriam guardar o melhor para si próprios. Nós corremos o risco de fazer o mesmo com o nosso tempo, com a nossa atenção e os nossos esforços. Semelhante egoísmo deu péssimos resultados para Israel e pode dar péssimos resultados também para nós. Se o nosso trabalho é culto a Deus, deve ser perfeito!

Uma última palavra: Jesus ensinou-nos, pela palavra e pelo exemplo, a trabalhar muito, mas não a idolatrar o trabalho ou o dinheiro que possamos ganhar trabalhando muito. Quando Deus fez o mundo, dividiu o tempo de tal modo que não pudéssemos esquecer a razão pela qual trabalhamos. Ele trabalhou seis dias para santificar o sétimo. Nós também devemos santificar o dia do Senhor. Os nossos seis dias de trabalho estão ordenados para um sétimo dia dedicado a uma adoração mais pura.

Deus fez-nos para esse descanso sabático, e os nossos corpos e o nosso trabalho deixam transparecer esse inteligente desígnio divino. É humano esperar ansiosamente pelo descanso sabático. É humano necessitar do Sabbath.

O exército dos Estados Unidos descobriu isso há muito tempo, na década de 1940, e pelo caminho árduo. Visando atingir quotas ambiciosas, o governo pediu às fábricas de munição que estendessem a semana de trabalho a sete dias de vinte e quatro horas. A maior parte das fábricas seguiu essa diretriz, mas algumas não. Curiosamente, as únicas fábricas que cumpriram as suas quotas foram aquelas que fecharam aos domingos. Os seus operários estavam mais descansados e por isso eram mais eficientes e sofriam menos acidentes de trabalho. Como Jesus sublinhou, o sábado foi feito para o homem (Mc 2, 27). Cumpre uma necessidade do corpo, da mente e do espírito. E também nesse sentido o homem foi feito para o sábado.

Uns anos depois de me ter feito católico, e uns anos depois de ter entrado no Opus Dei, pude assistir um dia à missa em memória do recém-declarado Beato Josemaria Escrivá. Vibrei ao ouvir a primeira leitura que a Igreja escolheu para essa Missa. Era do livro do Gênesis: “O Senhor tomou o homem e o pôs no jardim do Éden para que o cultivasse e guardasse” (Gên 2, 15).

NOTAS:

(1) São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 2001, n. 57.

(2) A primeira graça, para o pecador, não pode ser merecida; no cristão em estado de graça, porém, os atos bons animados pelo amor (caridade) e feitos com a graça merecem o aumento da graça santificante e o prêmio da vida eterna (N. do T.).

(3) C.F.D. Moule, The Birth of the New Testament, Harper & Row, San Francisco, 1981, pág. 43.

(4) Questões atuais do cristianismo, n. 114.

(5) O número pi, em inglês, pronuncia-se como pie (N. do T.).

(6) Caminho, n. 208.

(7) “Oração de Santa Teresa”, adaptação musical de John Michael Talbot. In The John Michael Talbot Collection, Sparrow, 1995.

Fonte: http://www.quadrante.com.br/Pages/servicos02.asp?id=360&categoria=Espiritualidade

Personalidade e afetividade: independência e dependência

Por Michel Esparza 

É freqüente confundir a independência com a frieza do arrogante. Mas é errado. A verdadeira independência procede da liberdade interior e da capacidade de amar de modo desprendido, não da frieza. 

Regra geral, a idade e as experiências da vida ajudam-nos a vencer o medo do “que vão dizer de nós?” Percebemos pouco a pouco que os respeitos humanos reduzem a nossa liberdade e são sintomas de imaturidade. Além disso, por vezes as decepções fazem-nos ver que não vale a pena depender da opinião alheia: que temos de saber por nós mesmos o que valemos. Mas, como vimos, há pessoas que, para adquirirem essa maturidade, viram as costas aos outros porque pensam que só conseguem vencer essas dependências à força de desamor. No fundo, não se tornam verdadeiramente independentes, mas indiferentes.

É freqüente confundir a independência com a frieza do arrogante. Mas é errado. A verdadeira independência procede da liberdade interior e da capacidade de amar de modo desprendido, não da frieza. Não se trata de virar as costas aos outros, mas de aprender a não depender da estima alheia. Vejamos agora como o homem ideal desenvolve ao mesmo tempo uma grande personalidade, que o faz ser independente, e uma grande capacidade afetiva, que o faz ser dependente.

 

As energias do coração

O motor que nos impele a amar, a dar-nos, é o coração. Não devemos deixar-nos levar somente por ele – porque não somos apenas coração, mas também razão e vontade -; no entanto, convém que nos sirvamos de todos os seus recursos. “Estai atentos” – observa Antonio Machado -: “um coração solitário não é um coração1.

Se o coração transborda de afeto, desejamos ardentemente a felicidade dos que amamos e estamos dispostos a qualquer sacrifício para consegui-la. E se a conseguimos, a felicidade que lhes proporcionamos recompensa de longe o nosso sacrifício, já que, quanto maior é o afeto, maior é a felicidade de fazer feliz.

No homem virtuoso, coração e vontade apóiam-se mutuamente. Por um lado, sem carinho, os sacrifícios realizados para fazer o outro feliz tornam-se muito árduos; quando há carinho, a entrega à pessoa amada caminha às mil maravilhas. Por outro, o amante ideal é capaz de sacrificar-se com gosto, embora não tenha desejo de fazê-lo: ainda que o seu coração esteja fisiologicamente frio, a sua vontade inflama-lhe o coração.

Com efeito, “a perfeição moral consiste em que o homem não seja movido para o bem unicamente pela sua vontade, mas também pelo seu «coração»2. No homem virtuoso, com a passagem do tempo, a bondade impregna a inteligência, a vontade e o coração. Como afirma um filósofo, “uma boa formação do caráter é aquela que consiste em que chegue a dar-me prazer o que é bom e a desagradar-me o que é mau. Porque então será sinal de que a minha liberdade se vai sedimentando no meu corpo, de que a sensibilidade reta se vai entranhando na massa do meu sangue. Consigo assim superar a esquizofrenia, tão típica dos dias de hoje, entre o frio racionalismo que domina de segunda a sexta-feira, e a febre de dispersão que campeia no fim de semana. Vou conseguindo uma vida unitária, embora não unívoca nem monocórdica. Integro progressivamente na minha vida os bens que se encontram na base da minha personalidade. A poesia do coração vai penetrando na prosa da inteligência3.

O homem virtuoso consegue, pois, entrelaçar todos os seus recursos – inteligência, vontade e afetividade – a serviço do amor. A sua inteligência inspira-lhe boas intenções e a sua vontade, sustida pelo coração, põe-nas em prática.

É impressionante a bondade que um homem virtuoso é capaz de irradiar. Dir-se-ia que o afeto dá asas à vontade. “Tudo o que eu fiz na minha vida, em todos os terrenos, fi-lo movido pelo carinho“, dizia um renomado professor de medicina, admirado tanto pela sua ciência como pela santidade de sua vida 4.

Em muitas mães, podemos admirar essa mesma bondade inesgotável, nascida aliás da mesma fonte: “Admirável energia a do amor materno, santo reflexo do amor divino que para tudo encontra forças e nunca se cansa dos sacrifícios e fadigas mais insuportáveis!5, diz-se num romance. A capacidade de abnegação da mulher que se apóia nos seus recursos afetivos é admirável, e geralmente supera a do homem. Talvez sucumba superficialmente às pequenas contrariedades, mas perante uma grande dor costuma mostrar-se mais valorosa que o homem.

O coração é ao mesmo tempo forte e fraco. À primeira vista, a pessoa insensível parece mais forte, mas, com o andar do tempo, mostra-se menos perseverante na adversidade. Em contrapartida, o problema da pessoa sensível consiste em ser mais vulnerável no imediato; tem mais necessidade de ser querida, e isso expõe-na a maiores decepções. Se essa pessoa não conta com outros recursos, a sua fortaleza depende da medida em que se sinta querida.

Se, para completarmos o quadro, acrescentarmos a isso a irracionalidade que a sensibilidade pode trazer consigo quando exacerbada, entendemos melhor os problemas das pessoas sensíveis. Costumam dar mais importância a sentir-se queridas do que a saber-se queridas. Precisam de que o amor, o afeto, lhes entre pelos olhos. Por isso, às vezes, sofrem desnecessariamente: deixam-se levar pela imaginação, o que faz com que as suas decepções amorosas não tenham uma base real.

Originam-se assim não poucos mal-entendidos entre esposos. É mais fácil que uma mulher se convença do amor do seu marido se o vê chorar por ela, do que se o marido lhe desse explicações racionais. A causa deste receio de ser repelida pode estar, às vezes, em que a própria mulher duvida da sua capacidade de fazer-se amar, e é lógico que essa insegurança a leve a não confiar no amor do marido. Já o dizia Cícero: “Há pessoas que tornam mortificantes as amizades por pensarem que são desprezadas, coisa que raramente sucede senão aos que se têm a si mesmos por desprezíveis6.

Penso que se evitariam não poucos problemas matrimoniais se cada cônjuge aprendesse a pôr-se na pele do outro e, mais concretamente, se as esposas especialmente sensíveis aprendessem a dar mais importância ao saber que ao sentir, e os maridos especialmente viris aprendessem a ter um pouco mais de “mão esquerda“…

 

Afeto e desprendimento

Não há nada que nos faça tão dependentes, no melhor e no pior dos sentidos, como o amor. O carinho autêntico é desprendido, ao passo que o carinho barato é possessivo.

No fundo, o afã possessivo é uma forma de egoísmo. Vai desde o açambarcamento espiritual próprio do soberbo e do autoritário, que impõe à pessoa amada os seus gostos e caprichos, até o açambarcamento sexual próprio de quem a converte em mero objeto de prazer, passando pelo açambarcamento afetivo de quem necessita receber constantes elogios.

As atitudes afetivamente possessivas são próprias de pessoas centradas em si mesmas, absorventes e ciumentas. “Ele ama-me muito, tanto que às vezes me sufoca“, diz-se num romance 7. O amante possessivo pensa que tem direitos exclusivos sobre a pessoa amada: mais ou menos conscientemente, pretende açambarcá-la para si mesmo, coagi-la com a desculpa de um grande afeto. Muitas vezes, especialmente se se trata de uma pessoa sensível ou sentimental, não impõe a sua vontade pela arrogância – por exemplo por meio de cenas de ciúmes -, mas de censuras que parecem bem-intencionadas. Diz, por exemplo: “Como é que me fazes isto a mim, que te amo tanto?

Respeitar a liberdade alheia, não avassalar os outros, é uma arte. No casal ideal – costuma-se dizer -, ninguém manda: os dois obedecem. Este é um dos aspectos mais difíceis de conseguir. Sirva de ilustração esta passagem em que um escritor evoca a relação com a sua defunta esposa: “A nossa obra era uma empresa de dois sócios: um produzia e o outro administrava. Normal, não é verdade? Ela nunca se sentiu postergada por isso; pelo contrário, sempre teve habilidade de sobra para erigir-se em cabeça sem golpes de estado prévios. Declinava da aparência de autoridade, mas sabia exercê-la. Eu podia às vezes dar uma ordem em voz mais alta, mas, em última instância, ela era quem resolvia em cada caso o que convinha fazer ou deixar de fazer. Em todos os casais, existe um elemento ativo e outro passivo, um que executa e outro que se dobra. Eu, embora parecesse outra coisa, dobrava-me ao seu bom critério, aceitava a sua autoridade8.

O risco de que o amor se torne possessivo aumenta em função da sua intensidade. Daí a alta freqüência com que esse desvio se dá entre namorados ou entre mãe e filhos. Tudo o que se possa dizer sobre as virtudes das mães é pouco, mas, se não purificam o seu afeto, tendem a proteger os filhos com a ferocidade exclusivista de uma galinha choca. Em outros casos, esse egoísmo do coração dá lugar ao favoritismo; e não me refiro aqui a essa virtude das boas mães que sabem tratar desigualmente os filhos desiguais, mas à discriminação de alguns pais que beneficiam injustamente um filho preferido. Tanto em um caso como no outro, é um amor imperfeito que denota “uma espécie de auto-confirmação egocêntrica9.

De algum modo, esse afã possessivo do coração é compreensível. Lewis fala a este respeito da “terrível necessidade de ser necessário” que a afeição experimenta10. Esse amor desvirtuado procede do intenso desejo de a pessoa se sentir útil, de ser apreciada para assim ver confirmado o seu valor: se o seu afeto for desdenhado, duvidará de si mesma. Quem pede carinho não procura somente o que este tem de agradável, mas muito mais que se reconheça a sua dignidade como pessoa.

Para distinguir entre o que há de bom e de mau no coração, convém distinguir entre o coração ferido e o orgulho ferido. Quando uma pessoa muito querida me rejeita, pode acontecer que não me fira somente o coração, mas também o orgulho. Se só ferisse o meu coração, o meu desgosto seria legítimo; não geraria mágoas e, quando muito, far-me-ia chorar em silêncio. Mas o amor-próprio gera ofensa.

Há quem não se atreva a mostrar o seu afeto por medo de ser considerado kitsch, mas são mais freqüentes as pessoas que não se atrevem a manifestá-lo por pelo medo de serem repelidas. Preferem a segurança. Talvez sejam pessoas muito corretas e equilibradas, mas não querem aceitar que “amar sempre é ser vulnerável. Ame qualquer coisa, e o seu coração certamente doerá e talvez se parta. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, não deve entregá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. […] Evite qualquer envolvimento, guarde-o em segurança no esquife do seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sombrio, sem movimento, sem ar -, ele vai mudar. Não se partirá; tornar-se-á indestrutível, impenetrável, irredimível11.

Não há dúvida de que o afeto dificulta o desprendimento, mas sem o calor do carinho a vida torna-se desumana. No mundo do trabalho, por exemplo, a frieza de coração leva a descurar o fator humano, a dar mais importância às coisas – aos planos, às regras, ao rendimento -, do que às pessoas. Essa falta de humanidade também rouba autenticidade às relações familiares e sociais: sem afeto, a urbanidade degenera em formalismo. A cortesia e as boas maneiras só despertam agradecimento na medida em que são uma expressão sincera de afeto.

A paixão afetiva, enquanto tal, não é boa nem má. O coração é uma grande ajuda, mas, para que não nos atraiçoe, precisa de um corretivo espiritual. Em vez de reduzir o coração para evitar possíveis inconvenientes, é preciso purificá-lo, tirando-lhe a tendência para o afã possessivo. O lema poderia ser este: “sempre com o coração, mas nunca só com o coração!”

Trata-se, pois, de amar com um afeto ao mesmo tempo intenso e desprendido. Por um lado, o afeto dá asas à vontade e a leva ao sacrifício generoso; por outro, a consciência da própria dignidade liberta o coração do seu afã possessivo.

 

Sensíveis e fortes

O homem ideal é ao mesmo tempo terno e desprendido. Não é fácil conjugar esses dois aspectos. Na prática, a maioria das pessoas tem uma dessas qualidades à custa da outra. O mundo está cheio de pessoas afetuosas, mas excessivamente dependentes, ou independentes, mas pouco afetuosas.

Uma vez mais, só os santos conseguem conciliar os dois elementos. Só eles conseguem aumentar a sua capacidade afetiva e ao mesmo tempo dobrar o apegamento egoísmo egoísta e possessivo que envenena a afetividade. Só os que se parecem com Jesus Cristo conseguem conjugar o afeto mais intenso com o mais delicado respeito pela liberdade alheia. “Num homem cujo centro de resposta aos valores e ao amor superou vitoriosamente o orgulho e a concupiscência, a afetividade nunca será excessiva. Quanto maior e mais profunda for a capacidade afetiva, melhor12

Não sabendo como desenvolver um afeto intenso, mas isento de afã possessivo, uns são desprendidos, mas silenciam o coração; outros têm um grande coração, mas desrespeitam a liberdade alheia. Os primeiros tornam-se insensíveis e mostram-se indiferentes, ao passo que os segundos se tornam possessivos e se mostram susceptíveis. Os primeiros, por medo, atrofiam o coração; os segundos, pelo medo de perder a auto-estima, servem-se da chantagem afetiva para açambarcar aqueles que amam.

À vista do afã possessivo e da dependência que o afeto gera, não é de estranhar que alguns desconfiem sistematicamente do coração. Essas pessoas asfixiam-se por causa de necessidades afetivas insatisfeitas ou do afã possessivo alheio, e preferem resguardar-se. Como não conhecem uma solução, optam por reduzir o coração.

Mas a solução não consiste em abafar a afetividade. Se o coração se atrofia, perde-se uma grande fonte de energia. Na ausência de afeto, força-se a vontade, como se a perfeição moral estivesse reservada apenas aos que são capazes de realizar titânicos esforços de vontade. Aqui está um dos fatores que levam ao voluntarismo. O voluntarista põe tal acento na vontade que tende a menosprezar qualquer outro gênero de recursos, como são o coração, a inteligência e a graça. E, além disso, debate-se com um problema de falta de retidão de intenção: com freqüência, como a inspiração – e a fonte de energia – do voluntarista não mergulha as suas raízes no amor, acaba por fazê-lo no amor-próprio.

É evidente que, sem esforço, é impossível a luta cristã pela santidade. Mas trata-se de um heroísmo prazeroso. Todos os santos viveram as virtudes em grau heróico, mas sabem que a santidade, como perfeição de amor, não é o mesmo que a heroicidade. Todos os santos são heróicos, mas nem todos os heróis são santos. Tanto o santo como o herói realizam proezas, mas a motivação do herói não está isenta de certa vaidade.

O santo, porém, cônscio da sua dignidade de filho de Deus, purifica o amor-próprio e faz-se assim capaz de sacrificar-se desinteressadamente por Deus e pelos outros. Sabe que “Jesus não olha tanto para a grandeza das obras, nem mesmo para o seu grau de dificuldade, como para o amor com que se fazem13. Não precisa fazer obras boas para estar em paz consigo mesmo, já que o amor que recebe de Deus o reconcilia consigo mesmo. Como veremos mais adiante, intui que Jesus precisa de Cireneus – co-redentores que aliviem os seus padecimentos redentores – e, por isso, qualquer sacrifício, mesmo heróico, lhe parece pequeno, contanto que proporcione alegrias ao seu Senhor.

 

Conjugar dependência e independência

O coração é, pois, o motor; mas, como afirma Edith Stein, “o amor, para alcançar a sua perfeição, exige o dom recíproco das pessoas14 que é obra da vontade. Sem essa entrega mútua, tudo fica a meio do caminho. A união de amor pressupõe que ambas as pessoas sejam capazes de dar e de receber: a arte de amar não consiste somente na generosidade à hora de dar, mas também na humildade à hora de receber. Se alguém sabe dar, mas não sabe receber, o outro não pode dar.

Por outro lado, dar pode ser uma manifestação de auto-suficiência, e neste caso bloqueia a relação de amor. Com efeito, há pessoas que são serviçais, mas são-no por uma turva vontade de sentir-se superiores. Enquanto podem dar, vêem-se a si mesmas sob uma perspectiva lisonjeira. Têm necessidade de fazer favores para sentir-se importantes. Esse “egoísmo da doação” faz pensar no que dizia ironicamente Chateaubriand do seu amigo Joubert: “É um perfeito egoísta, porque só se ocupa dos outros…15.

Se o homem auto-suficiente sabe dar, não sabe dar-se. Parece ignorar que “o modo mais radical de dar é dar-se a si mesmo: possuir-se para dar-se à pessoa que nos o ama16. Porque o amor é entrega recíproca e livre do mais íntimo entre um eu e um tu. Uma das melhores definições que encontrei do amor verdadeiro exprime-o claramente: “Amar significa dar e receber o que não se pode comprar nem vender, mas apenas oferecer livre e reciprocamente17.

Portanto, o amor ideal dá-se entre pessoas independentes dispostas a fazer-se dependentes. Por exemplo, os esposos poderiam dizer um ao outro: “Num certo sentido, prescindo do que você pense de mim; mas, em outro sentido, morro de vontade de fazer você feliz“. À hora de amar, a pessoa ideal é dona de si mesma; não se deixa subjugar, mas ao mesmo tempo é capaz de entregar a sua liberdade, é capaz de contrair vínculos amorosos com plena liberdade interior. Amar é “não se pertencer, estar submetido venturosa e livremente, com a alma e o coração, a uma vontade alheia… e ao mesmo tempo própria18. Se aquele que ama não é soberano e senhor de si mesmo – quer dizer, se não tem liberdade interior -, entrega-se de modo servil, o que, afinal, não o satisfaz nem satisfaz a pessoa amada.

À medida que nos aperfeiçoamos, adquirimos essa liberdade interior que nos permite conjugar um grande sentido de independência com uma grande dependência das pessoas que amamos. Na personalidade ideal, conjugam-se elementos que à primeira vista parecem contraditórios: a pessoa tem a bondade de dizer que sim, embora tenha suficiente personalidade para dizer que não; consegue ser simultaneamente sensível e forte, dependente por causa dos laços criados pelo amor e independente graças ao orgulho santo de quem se sabe filho de Deus.

Instintivamente, essas pessoas realmente maduras atraem-nos. Causam-nos admiração justamente por serem ao mesmo tempo sensíveis e fortes. Num romance, uma personagem feminina afirma que, para amar um homem, tem necessidade de “vê-lo simultaneamente mais forte e mais fraco do que eu19. Com efeito, quando alguém assume a sua fraqueza, reconhece que precisa ser amado – mostra-se fraco -, e a fortaleza que recebe do outro proporciona-lhe uma segurança que o torna forte. Mas, se não a assume, por mais forte que seja, não se deixa amar, e assim acaba por se fazer fraco.

Bem se vê que não é fácil adquirir a personalidade ideal. É necessário evitar tanto as falsas dependências à custa da legítima independência, como as falsas independências à custa da legítima dependência. Uma falsa dependência denota servilismo: vemo-lo nessas pessoas inseguras que se mostram incapazes de dizer que não por medo de desagradar aos outros. E a falsa independência está aparentada com a auto-suficiência: vemo-lo nessas pessoas arrogantes que prescindem dos outros. A dependência servil adoece de falta de liberdade interior e o desejo de preservar a autonomia própria denota uma idéia errada de liberdade.

Na prática, é difícil evitar tanto a auto-suficiência como a vaidade. Só os santos o conseguem; experimentam o que diz São Paulo: Sendo livre de todos, fiz-me servo de todos (1 Cor 9, 19). Quanto a nós, mesmo que não consigamos atingir plenamente essa atitude, devemos no entanto mantê-la sempre diante dos olhos, como um norte para os nossos esforços. Por isso, examinemos agora como a verdadeira independência traz consigo liberdade interior e esta, por sua vez, mergulha as suas raízes na humilde consciência da própria dignidade.

 

Liberdade interior e humildade

Falamos atrás de liberdade interior, da importância de sermos donos de nós mesmos e capazes de entregar a nossa liberdade por amor. No fundo, a liberdade não é tanto um âmbito como uma capacidade de autodeterminação. Não sou livre apenas porque ninguém me obriga, mas sobretudo porque sou capaz de fazer as coisas porque quero: não é somente ausência de coação externa, mas também de uma certa coação interna pelo medo ou pela insegurança.

Uns, por falta de bondade, não sabem dizer que “sim“, ao passo que outros, por falta de personalidade, não sabem dizer que “não“. A pessoa ideal, porque sabe ser sempre ela mesma, é capaz de dizer tanto “sim” quanto “não“, conforme lhe pareça mais correto: sente-se livre por dentro mesmo quando as pessoas ou as circunstâncias a coagem por fora. Não é que faça sempre o que quer espontaneamente, mas faz o bem porque quer.

Liberdade é a capacidade de autodeterminação para ao bem, não por uma obrigação imperiosa, mas por amor. A pessoa verdadeiramente livre não se guia por um obsessivo sentido do dever – entendido erradamente como uma espécie de coação auto-imposta (“preciso fazer isto“, “tenho de fazer aquilo“) -, mas pela interiorização da virtude. Ao obedecer, por exemplo, não se submete apenas externamente, mas também de coração, porque o seu amor a leva a identificar a sua vontade com o mandato; a sua obediência, longe de ser servil, denota autodomínio.

Liberdade e necessidade nem sempre são realidades opostas: “É bem possível que a necessidade não seja o contrário da liberdade” – diz Lewis -, “e talvez o homem seja mais livre quando, em vez de ao invés de produzir motivos para a sua decisão, só é capaz de dizer: «Sou o que faço»20.

Esta liberdade interior é objeto de uma árdua conquista espiritual. Só pessoas generosas e verdadeiramente maduras contraem vínculos amorosos com plena liberdade interior. Para isso, não bastam as boas intenções; é necessária, além de bondade, uma boa dose de humilde consciência da própria dignidade. A liberdade interior pressupõe a maturidade característica de quem tem uma boa relação consigo mesmo. Somos capazes de entregar-nos livremente aos outros na medida em que somos donos de nós mesmos. Portanto, uma baixa auto-estima põe em perigo a qualidade do nosso amor.

Como veremos, só consegue a plena liberdade interior e maturidade espiritual e, em conseqüência, a liberdade interior quem se vê a si mesmo através dos olhos de Deus. Só quem se abandona nas mãos de Deus é que se sente realmente livre em face dos outros: permite-lhes julgá-lo como quiserem. Quem aprende a julgar-se a si mesmo como Deus o julga não tem necessidade de depender da opinião alheia: não perde a confiança em si mesmo, não tem medo de não atingir a “pontuação necessária” nem está ansioso por avaliar-se a cada instante.

 

(1) Antonio Machado, Canciones, n. LXVI, em José Pedro Manglano, Orar con poetas, 3ª. ed., Desclée de Brouwer, Bilbao, 2004, pág. 48.

(2) Catecismo da Igreja Católica, n. 1775.

(3) Alejandro Llano, La vida lograda, pág. 79.

(4) Eduardo Ortiz de Landázuri, professor catedrático de medicina, faleceu em 1985. Chamava a atenção pela sua humilde caridade para com os seus inúmeros pacientes e conhecidos. Em dezembro de 1998, teve início o seu processo de beatificação. Cfr. Esteban López-Escobar e Pedro Lozano, Eduardo Ortiz de Landázuri, Rialp, Madrid, 1994.

(5) Enrique Gil y Carrasco, El Señor de Bembibre, Rialp, Madrid, 1999, pág. 103.

(6) Cícero, De amicitia, XX.

(7) Carmen Martín Gaite, Lo raro es vivir, Anagrama, Barcelona, 1996, pág. 89.

(8) Miguel Delibes, Señora de rojo sobre fondo gris, Destino, Barcelona, 1991, págs. 41-42.

(9) Dietrich von Hildebrand, El corazón, Palabra, Madrid, 1997, pág. 129.

(10) C.S. Lewis, Os quatro amores, trad. de Paulo Salles, Martins Fontes, São Paulo, 2005, pág. 73. A expressão original é “Affection’s need to be needed”.

(11) C.S. Lewis, Os quatro amores, pág. 168.

(12) Dietrich von Hildebrand, El corazón, pág. 111.

(13) Santa Teresa de Lisieux, em José Pedro Manglano, Orar con Teresa de Lisieux, pág. 67.

(14) Edith Stein, Las más bellas páginas de Edith Stein, Monte Carmelo, Burgos, 1998, pág. 32.

(15) Citado em Carlos Pujol, Siete escritores conversos, Palabra, Madrid, 1994, pág. 31.

(16) Ricardo Yepes Stork e Javier Aranguren Echevarria, Fundamentos de Antropologia: um ideal de excelência humana, Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, São Paulo, 2005, pág. 200.

(17) João Paulo II, Carta às famílias, 02.02.1994, n. 11.

(18) São Josemaria Escrivá, Sulco, 2ª. ed., Quadrante, São Paulo, 2005, n. 797.

(19) André Maurois, El instinto de la felicidad, Planeta, Barcelona, 2001, pág. 93.

(20) C.S. Lewis, Surprised by joy, 28 ed., Harper Collins, 1977, pág.179.

 

Fonte: http://www.quadrante.com.br/Pages/servicos02.asp?id=362&categoria=Espiritualidade

20 Formas de Amar…

O amor deve manifestar-se a nosso próximo, a todos e cada um dos que em algum momento de nosso dia se encontram conosco.

Por Rodolfo Ruvalcaba
É muito fácil amar ao que nos ama. Quem não pode amar a seus pais, a seus filhos, a sua esposa, a seu esposo? É algo natural, um pedido que sai de nosso interior, uma necessidade.

Porém como disse Jesus: “Se amamos somente aos que nos aman; que mérito temos? Não fazem o mesmo os pagãos?” (Lc 6, 32). Por isso, o amor deve manifestar-se a nosso próximo, a todos e cada um dos que em algum momento de nosso dia se encontram conosco.

Aqui estão algumas idéias que podem concretizar este amor até aqueles que nos acompanham na viagem por este mundo:

1. Aprender os nomes das pessoas e tratar-lhes logo por seus nomes;

2. Encontrar os gostos dos outros e tentar aceitá-los;

3. Pensar bem de todo o mundo. “Crer em todo o bem que se ouve e somente no mal que se vê”;

4. Ter o hábito de fazer o bem, sobretudo aos que resulte ser mais difícil;

5. Sorrir em todas as horas;

6. Multiplicar o cumprimentar, inclusive aos desconhecidos;

7. Visitar aos enfermos, sobretudo se são crônicos;

8. Fazer favores. E concedê-los antes de que os tenham que pedir-te;

9. Esquecer as ofensas e sorrir especialmente aos ofensores;

10. Responder todas as cartas;

11. Entreter as crianças pequenas. Não pensar que com elas perdes o tempo;

12. Animar as pessoas idosas. Não tratá-las como crianças, senão sublinhar tudo o que for positivo que encontres nelas;

13. Recordar as datas dos santos e os aniversários dos conhecidos e amigos;

14. Dar pequenos presentes, que demonstrem carinho porém que não criem a obrigação de serem recompensados com outros presentes;

15. Acodir pontualmente as chamadas, ainda que tenhas que esperá-las;

16. Contar às pessoas as coisas boas que alguém disse delas;

17. Dar boas notícias;

18. Não contradizer por hábito a todos os que falam conosco;

 

Fonte: Boletín Misíon, 02.07.08.
http://www.regnumchristi.org/espanol/articulos/articulo.phtml?se=362&ca=967&te=707&id=20567&csearch=967