A maternidade segundo o espírito

Excelente reflexão sobre a maternidade.

Suma Teológica - Summae Theologiae

Edith_Stein

Santa Teresa Benedita da Cruz – Edith Stein,

Deutsche Bundespost (1983)

Carta Apostólica Mulieris Dignitatem

Sumo Pontífice João Paulo II, 1988

[nº21]

A virgindade no sentido evangélico comporta a renúncia ao matrimônio e, por conseguinte, também à maternidade física. Todavia, a renúncia a este tipo de maternidade, que pode também comportar um grande sacrifício para o coração da mulher, abre para a experiência de uma maternidade de sentido diverso: a maternidade «segundo o espírito» (cf. Rm 8, 4). A virgindade, de fato, não priva a mulher das suas prerrogativas. A maternidade espiritual reveste-se de múltiplas formas. Na vida das mulheres consagradas que vivem, por exemplo, segundo o carisma e as regras dos diversos Institutos de caráter apostólico, ela poderá exprimir-se como solicitude pelos homens, especialmente pelos mais necessitados: os doentes, os deficientes físicos, os abandonados, os órfãos, os idosos, as crianças, a juventude, os encarcerados, e, em…

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Quartas feiras de São José

 

É costume entre os devotos de São José dedicar-lhe um dia na semana; e assim como se consagra a Nossa Senhora o sábado, assim os devotos de São José dedicam a nosso Santo as quartas-feiras.

Além da missa e comunhão, com que costumam honrar o Santo Patriarca, fazem-lhe também algumas orações e devoções particulares. É muito própria para esse dia a coroinha que escreveu e rezava o Revmo. Pe. Xifré, superior geral dos Missionários do Coração de Maria, que morreu em odor de santidade.

 

Coroa de São José, Esposo Castíssimo da Mãe de Deus

– Para implorar seu auxílio em qualquer necessidade

V. Louvemos de todo o coração o Senhor Deus nosso, honrando e recomendando-nos com muito fervor a São José, escolhido para a dignidade mais alta e excelente, depois da divina maternidade.
R. Por todos os séculos dos séculos.

Louvemos e demos graças à Trindade generosíssima, por ter adornado o glorioso Patriarca São José, mais que nenhum outro santo, com seus celestes dons divinos e carismas.
R. Por todos os séculos dos séculos.

Louvemos e demos graças à Trindade bondosíssima, por ter constituído o glorioso São José sobre sua família, e havê-lo instituído em nosso favor, fiel administrador de todos os seus bens.
R. Por todos os séculos dos séculos.

Louvado, exaltado e glorificado seja o Pai Eterno, por ter escolhido o excelso São José para que junto ao Filho de Deus, fizesse suas vezes na terra, e por lhe ter dado um coração amoroso e paternal para com o divino Filho, e supliquemos-lhe com grande fervor e profundíssima humildade, nos conceda benignamente o que tanto desejamos.
Amém.
Pai Nosso, Ave-Maria, Glória

Louvado, exaltado e glorificado seja o Filho Unigênito, por ter recebido o excelso São José por seu Pai adotivo, e infundido em seu coração um cuidado amoroso e diligente para zelar por sua vida, alimentá-lo, vesti-lo e defendê-lo; e supliquemos-lhe confiantemente nos conceda a graça de que tanto necessitamos.
Amém.
Pai Nosso, Ave-Maria, Glória

Louvado, exaltado e glorificado seja o Espírito Divino, que no egrégio São José deu à Virgem Imaculada um esposo castíssimo, muito semelhante à celeste Senhora, e fiel custódio da sua virgindade, enchendo ao mesmo tempo o coração do ilustre Patriarca de muito amor e grande estima do tesouro que lhe tinha confiado; e roguemos-lhe e até importunemo-lo humildemente e com afeto de filhos, para conseguir a graça de que tanto precisamos, que tanto desejamos, e pela qual tanto suspiramos.
Amém.
Pai Nosso, Ave-Maria, Glória


ORAÇÃO

Ó glorioso São José, a quem o Pai Eterno comunicou sua paternidade, o Filho divino honrou com esta mesma qualidade e o Espírito Santo escolheu para ser esposo de sua mesma Esposa; eu vos felicito e vos dou mil parabéns, porque fostes levantado a tão alta dignidade e adornado de tantas graças. Mas lembrai-vos ó glorioso Santo, que de alguma maneira também sois nosso pai, porque o sois de Jesus, nosso irmão maior. Não esqueçais ainda que sois verdadeiro esposo de nossa Mãe muita amada e por esse mesmo título também pai dos filhinhos daquele Coração Imaculado. Ora, cheios de confiança filial, erguemos hoje os olhos e os fitamos nesse vosso rosto bondosíssimo, e a Vós bradamos na presente necessidade, bem assim como os pintinhos constantemente bradam por suas mães, e ainda com muito mais razão, porque não há amor de mãe, por extremosa que seja, que iguale nem se possa comparar ao amor que Vós nos tendes. Lançai, pois, um olhar amoroso para os que assim vos contemplam, e para os que a Vós clamam do fundo de seus corações. Compadeçam-se essas entranhas, já de si tão ternas, das necessidades em que nos encontramos.
Ó Pai amado, que nossas obras digam com o nome que levais, que significa acréscimo; desempenhai dignamente o título de Padroeiro e Protetor universal, que vos dá a Igreja. Fazei conosco segundo a multidão de vossas misericórdias, e sejam as obras garantia de vossos ofícios: fazei, enfim, como quem sois. Olhai, Pai misericordiosíssimo, que não mudastes de condição, que o vosso poder estende-se a todas as nossas necessidades; eia, zelai por vossa honra. E se tudo isto não bastar, vo-lo pedimos pelo grande amor que tivestes a vossa amada Esposa e ao bom Jesus, de cuja divina presença desejamos gozar convosco, por toda a eternidade, na celeste Jerusalém.
Amém.

Fonte: MRP

São José Operário

1º DE MAIO

32. SÃO JOSÉ OPERÁRIO

Memória

– O trabalho, um dom de Deus.

– Sentido humano e sobrenatural do trabalho.

– Amar a nossa ocupação profissional.

A memória de São José Operário vem-se celebrando liturgicamente desde 1955. A Igreja recorda assim – seguindo o exemplo de São José e sob o seu patrocínio – o valor humano e sobrenatural do trabalho. Todo o trabalho humano é colaboração com a obra de Deus Criador, e por Jesus Cristo converte-se – na medida do amor a Deus e da caridade com os outros – em verdadeira oração e em apostolado.

I. VIVERÁS DO TRABALHO das tuas mãos…1

A Igreja, ao apresentar-nos hoje São José como modelo, não se limita a louvar uma forma de trabalho, mas a dignidade e o valor de todo o trabalho humano honrado. Na primeira Leitura da Missa2, lemos a narração do Gênesis em que o homem surge como participante da Criação. A Sagrada Escritura também nos diz que Deus colocou o homem no jardim do Éden paraque o cultivasse e guardasse3.

O trabalho foi desde o princípio um preceito para o homem, uma exigência da sua condição de criatura e expressão da sua dignidade. É a forma como colabora com a Providência divina sobre o mundo. Com o pecado original, a forma dessa colaboração, o como, sofreu uma alteração: A terra será maldita por tua causa – lemos também no Gênesis4 –;com fadiga te alimentarás dela todos os dias da tua vida… Comerás o pão com o suor do teu rosto…

O que deveria ser realizado de um modo sereno e aprazível, tornou-se depois da queda original trabalhoso, e muitas vezes esgotador. No entanto, permanece inalterada a realidade de que o trabalho em si está relacionado com o Criador e colabora com o plano de redenção dos homens. As condições que o rodeiam fizeram com que alguns o considerassem um castigo, ou que, pela malícia do coração do homem, se convertesse numa simples mercadoria ou num “instrumento de opressão”, a tal ponto que por vezes se torna impossível compreender a sua grandeza e dignidade. E há ainda os que pensam que é um meio de ganhar dinheiro, a serviço da vaidade, da auto-afirmação, do egoísmo… Em todas essas atitudes, esquece-se que o trabalho é de per si obra divina, porque é colaboração com Deus e oferenda que se lhe faz, meio por excelência de adquirir e desenvolver as virtudes humanas e sobrenaturais.

É freqüente observar que a sociedade materialista dos nossos dias aprecia os homens “pelo que ganham”, pela sua capacidade de obter um maior nível de bem-estar econômico. “É hora de que todos nós, cristãos, anunciemos bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz nenhum sentido dividir os homens em diferentes categorias, conforme os tipos de trabalho, considerando umas ocupações mais nobres do que outras. O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da personalidade; é vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para o sustento da família; meio de contribuir para o progresso da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade”5.

Tudo isto no-lo recorda a festa de hoje6, ao propor-nos São José como modelo e padroeiro: um homem que viveu do seu ofício, a quem devemos recorrer com freqüência para que não se degrade nem se distorça o trabalho que temos entre mãos, pois não raras vezes, quando se esquece Deus, “a matéria sai da oficina enobrecida, ao passo que os homens se envilecem”7. O nosso trabalho, com a ajuda de São José, deve sair das nossas mãos como uma oferenda gratíssima ao Senhor, convertido em oração.

II. O EVANGELHO DA MISSA8 mostra-nos, uma vez mais, como Jesus é conhecido em Nazaré pelo seu trabalho. Quando voltou à sua terra, os seus conterrâneos comentavam: Não é este o filho do carpinteiro? A sua mãe não é Maria?… Em outro lugar, a Escritura diz que, como acontece em tantas ocasiões, Jesus continuou o ofício daquele que na terra fez junto dEle as vezes de pai: Não é este o carpinteiro, filho de Maria?…9

Ao ser assumido pelo Filho de Deus, o trabalho ficou santificado e, desde então, pode converter-se numa tarefa redentora se o unirmos a Cristo, Redentor do mundo. A fadiga, o esforço, as dificuldades, que são conseqüências do pecado original, convertem-se com Cristo em algo de imenso valor sobrenatural. Sabemos que o homem foi associado à obra redentora de Jesus Cristo, “o qual conferiu uma dignidade eminente ao trabalho quando trabalhou em Nazaré com as suas próprias mãos”10.

Qualquer trabalho nobre pode chegar a ser uma tarefa que aperfeiçoa aquele que o realiza bem como toda a sociedade, e pode converter-se em meio de ajudar os outros através da comunhão que existe entre todos os membros do Corpo Místico de Cristo que é a Igreja. Mas, para isso, é necessário não esquecer o fim sobrenatural que devem ter todos os atos da vida, mesmo os que se apresentam como muito duros ou difíceis: “O condenado às galés bem sabe que rema a fim de mover um barco, mas, para reconhecer que isso dá sentido à sua existência, terá que aprofundar no significado que a dor e o castigo têm para um cristão; quer dizer, terá que encarar a sua situação como uma possibilidade de identificar-se com Cristo. Pois bem, se por ignorância ou por desprezo não o consegue, chegará a odiar o seu “trabalho”. Um efeito similar pode dar-se quando o fruto ou o resultado do trabalho (não a sua retribuição econômica, mas aquilo que se “trabalhou”, “elaborou” ou “fez”) se perde numa lonjura de que quase não se tem notícia”11. Quantas pessoas, infelizmente, se dirigem todas as manhãs ao seu “trabalho” como se fossem para as galés! Vão remar um barco que não sabem para onde se dirige, e aliás sem se importarem com isso. Só esperam o fim de semana e o ordenado. Esse trabalho, evidentemente, não dignifica, não santifica; dificilmente servirá para desenvolver a personalidade.

Pensemos hoje, junto de São José, no valor que damos às nossas ocupações, no esforço que pomos em acabá-las com perfeição, na pontualidade, na competência profissional, na serenidade – não contraposta à urgência – com que as realizamos… Se o nosso trabalho for sempre humanamente bem feito, poderemos dizer com a liturgia da Missa de hoje: Ó Deus, fonte de todos os benefícios, olhai as oferendas que vos apresentamos na festa de São José, e fazei que estes dons se transformem em fonte de graça para aqueles que vos invocam12.

III. OBRA BEM FEITA é aquela que se executa com amor. Ter apreço pelo trabalho profissional, pelo ofício que se exerce, é talvez o primeiro passo para dignificá-lo e para elevá-lo ao plano sobrenatural. Devemos pôr o coração nas tarefas que temos entre mãos, e não fazê-lo “porque não há outro remédio”. “Meu filho, aquele homem que veio ver-me esta manhã – aquele de blusão cor de terra – não é um homem honesto […]. Exerce a profissão de caricaturista num jornal ilustrado. Isso lhe dá de que viver, ocupa-lhe as horas do dia. E, no entanto, sempre fala com repugnância do seu ofício e diz: «Se eu pudesse ser pintor! Mas é indispensável que desenhe essas bobagens para poder comer. Não olhe para os bonecos, homem, não os veja! Comércio puro…» Quer dizer que trabalha unicamente pelo lucro. E deixou que o seu espírito se ausentasse daquilo em que ocupa as mãos. Porque tem o seu trabalho na conta de coisa muito vil. Mas eu te digo, filho, que se o trabalho do meu amigo é tão vil, se os seus desenhos podem ser chamados bobagens, a razão está justamente em que ele não pôs neles o seu espírito. Não há tarefa que não se torne nobre e santa quando o espírito nela reside. É nobre e santa a tarefa do caricaturista, como a do carpinteiro e a do lixeiro […]. Há uma maneira de fazer caricaturas, de trabalhar a madeira […], que revela que se pôs amor nessa atividade, cuidados de perfeição e harmonia, e uma pequena chispa de fogo pessoal: isso que os artistas chamam estilo próprio, e que não há obra nem obrinha humana em que não possa florescer. Essa é a boa maneira de trabalhar. A outra, a de menosprezar o ofício, tendo-o por vil, ao invés de redimi-lo e secretamente transformá-lo, é má e imoral. O visitante de blusão cor de terra é, pois, um homem imoral, porque não ama o seu ofício”13.

São José ensina-nos a realizar bem o ofício que nos ocupa tantas horas: as tarefas domésticas, o laboratório, o arado ou o computador, o trabalho de carregar pacotes ou de cuidar da portaria de um edifício… A categoria de um trabalho reside na sua capacidade de nos aperfeiçoar humana e sobrenaturalmente, nas possibilidades que nos oferece de levar adiante a família e de colaborar nas obras em favor dos homens, na ajuda que através dele prestamos à sociedade…

São José, enquanto trabalhava, tinha Jesus diante de si. Pedia-lhe que segurasse uma madeira enquanto ele a serrava, ensinava-lhe a manejar o formão e a plaina… Quando se sentia cansado, olhava para o seu filho, que era o Filho de Deus, e aquela tarefa adquiria aos seus olhos um novo vigor, porque sabia que com o seu trabalho colaborava com os planos misteriosos, mas reais, da salvação. Peçamos-lhe hoje que nos ensine a ter essa presença de Deus que ele teve enquanto exercia o seu ofício. E não nos esqueçamos de Santa Maria, a quem vamos dedicar com muito amor este mês de Maio que hoje começa. Não nos esqueçamos de oferecer em sua honra todos estes dias, alguma hora de trabalho ou de estudo, mais intensa, mais bem acabada.

(1) Sl 127, 1-2; cfr. Antífona de entrada da Missa de 1º de maio; (2) Gen 1, 26; 2, 3; (3) Gen 2, 15; (4) Gen 3, 17-19; (5) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 47; (6) João Paulo II, Exort. Apost. Redemptoris custos, 15-VIII-1989, 22; (7) Pio XI, Enc.Quadragesimo anno, 15-V-1931; (8) Mt 13, 54-58; (9) Mc 6, 3; (10) Conc. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 67; (11) P. Berglar, Opus Dei, Rialp, Madrid, 1987, pág. 309; (12) Oração sobre as oferendas da Missa de 1º de maio; (13) E. D’Ors,Aprendizaje y heroísmo: grandeza y servidumbre de la inteligencia, EUNSA, Pamplona, 1973, págs. 19-20.

 

Fonte: Falar com Deus

Como posso rezar com a Sagrada Escritura?

 

Não é raro encontrar-se com uma pessoa que pensa que a fé cristã é uma “religião do Livro”. Possivelmente por isso o Catecismo da Igreja Católica nos recorda que não é assim, e que o cristianismo é, bem dizendo, «a religião da “Palavra” de Deus»[1]. É uma distinção muito importante e sobre a qual vale a pena refletir um pouco. Deus quis dar-se a conhecer ao ser humano, para nos revelar quem Ele é, quem somos nós e o caminho de nossa salvação. Esse processo de revelação alcança seu cume no Senhor Jesus, a Palavra Eterna que se faz homem e nos fala em palavras humanas. A Sagrada Escritura é o testemunho inspirado pelo Espírito deste longo caminho de revelação que culmina com Jesus, o Senhor. Por isso dizemos que a Bíblia «contém a Palavra de Deus e, por ser inspirada, é realmente Palavra de Deus»[2]. A Escritura é, pois, não só fonte de ensinamento e sabedoria, como também nela nos encontramos com a Palavra de Deus. Disto decorre uma realidade que queremos ressaltar nesta reflexão: uma vez que a Sagrada Escritura é um lugar de encontro com Deus que nos fala, devemos aprender a rezar com a Bíblia. Deus se revela em palavras humanas e por isso, por meio destas palavras humanas, podemos nos encontrar com Ele, dialogar com Ele, aprender com Ele. Surge, pois, uma pergunta muito importante: Como posso rezar com a Sagrada Escritura?

Leitura da Escritura em espírito de oração

A Igreja «exorta com veemência e de modo peculiar a todos os fiéis… a que, pela frequente leitura das divinas Escrituras aprendam ‘a eminente ciência de Jesus Cristo’ (Flp 3, 8)»[3]. Esta é uma primeira forma de rezar com a Bíblia. Trata-se de ler a Escritura não como qualquer outro livro, e sim com a consciência de que é Palavra de Deus. É importante esta primeira tomada de consciência, pois nos predispõe de maneira adequada, preparando nosso coração e abrindo nossas mentes. Devemos, também, procurar um lugar tranqüilo e um tempo adequado para fazê-lo. O silêncio interior e exterior sempre são fundamentais para a oração, e o são também para uma leitura meditada da Bíblia.

Junto com isso, é necessário recordar que a Bíblia não é um livro qualquer. Ao ser inspirado pelo Espírito Santo tem que ser lido e interpretado como foi lido pela tradição da Igreja. Daí a necessidade de recorrer a comentários da tradição e do Magistério da Igreja que nos possam iluminar o sentido dos textos bíblicos.

Trata-se, então, de fazer, em espírito de oração, uma leitura que nos permita nutrir-nos continuamente dos ensinamentos e critérios divinos. Santo Agostinho «compara a meditação sobre os mistérios de Deus com a assimilação do alimento, e usa um verbo que se repete em toda a tradição cristã: «ruminar»; isto é, os mistérios de Deus devem ressoar continuamente em nós mesmos, para que se tornem familiares, orientem a nossa vida e nos nutram, como acontece com o alimento necessário para nos sustentarmos. E são Boaventura, referindo-se às palavras da Sagrada Escritura, diz que “devem ser sempre ruminadas para poderem ser fixadas com aplicação ardente do espírito”»[4].

Podemos “ruminar” a Palavra «de vários modos, lendo por exemplo um breve trecho da Sagrada Escritura, sobretudo os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as Cartas dos Apóstolos … ler e meditar sobre o que lemos, “ruminando” sobre isto, procurando compreendê-lo, entender o que me comunica, o que me diz hoje, abrir a nossa alma àquilo que o Senhor nos quer dizer e ensinar»[5]. Esta leitura assídua da Escritura é fundamental sobretudo para conhecer e amar cada vez mais a Jesus Cristo, já que como dizia São Jerônimo “desconhecer a Escritura é desconhecer Cristo”.

A lectio: um Dom e um método

Junto a esta leitura meditada da Sagrada Escritura existe também um método de oração com a Bíblia que os filhos da Igreja utilizaram ao longo de vários séculos. É também uma leitura meditada, mas se caracteriza por ter uma série de “passos” a seguir que nos ajudam a aprofundar em uma determinada passagem bíblica. Como todo método, devemos recordar que é uma ajuda, uma maneira concreta com a qual procuramos cooperar com a graça que o Senhor derrama abundantemente sobre nós, mais ainda quando procuramos nos encontrar com Ele. Na oração é o Senhor que sai ao nosso encontro e nós que respondemos. Toda experiência de oração se inicia sempre a partir de um Dom. Como diz São Paulo, é o Espírito Santo quem nos move a clamar desde nossos corações «Abba, Pai»[6]. Nós procuramos aplicar nossa inteligência e vontade para realizar da melhor maneira possível aquilo a que somos convidados.

Esta segunda maneira de rezar com a Bíblia é a que chamamos lectio. Lectio é uma palavra latina que se traduz por “leitura”. Faz referência à Lectio divina, quer dizer, à leitura meditada da divina Escritura. Desde suas origens este método de oração conheceu diversas formas e aplicações, e é recomendado pela Igreja como uma maneira de aprofundar no sentido autêntico da Sagrada Escritura e extrair os ensinamentos que ela tem para a própria vida. É muito provável que conheçamos este método para rezar, ou conheçamos alguém que nos possa ensinar isso. Às vezes é difícil no início, mas pouco a pouco se vai aprendendo e acaba sendo uma ocasião privilegiada para aprofundar na Sagrada Escritura e nos encontrarmos com Deus.

A lectio, enquanto método de oração, é ocasião para o encontro e diálogo com Deus em apoio à meditação, aprofundamento e aplicação pessoal da Palavra divina contida na Sagrada Escritura. É importante recordar que em sua estrutura se faz distinção claramente entre o “em si” — onde procuramos compreender o que diz o texto da Escritura, para o qual é fundamental o recurso à leitura que a Igreja tem feito dessa passagem bíblica — e o “em si-em mim” — onde aplicamos a nossa própria vida o que diz o texto bíblico —.

Mediante este método procuramos fazer silêncio no coração, escutar com reverência a Palavra divina, acolhê-la na mente mediante o estudo, a reflexão e aprofundamento e acolhê-la no coração como a terra fértil acolhe a semente para fazer com que produza frutos de conversão para a vida cotidiana. Por isso um passo muito importante da lectio é nos propormos resoluções práticas e concretas que nos ajudem a pôr em prática os ensinamentos divinos, a “fazer o que Ele nos diz”[7].

O objetivo da lectio ou deste método de “ruminar” da Palavra não é sentir algo intenso, mas a própria conversão. Trata-se de avançar no processo de configuração com Cristo, nos assemelharmos cada dia mais a Ele no amor e caridade. Portanto, uma boa oração não deve ser medida pela intensidade do sentimento que possamos experimentar, mas sim pelo tanto que nos ajuda a nos aproximarmos mais de Jesus, a mudar uma conduta pecaminosa por uma conduta virtuosa. A oração é um momento privilegiado para nos renovar e dar um novo impulso no processo de “nos despojarmos e revestir-nos” de que fala São Paulo[8], graças ao encontro com o Senhor e a abertura a sua Palavra transformante.

A Escritura e nossa configuração com Jesus

Aprender a rezar com a Bíblia dá um impulso decidido ao nosso crescimento espiritual. O encontro com a Palavra de Deus nos convida a configurar nossa vida com sua Palavra. Frei Luis de Granada chamava as Sagradas Escrituras «espelho e regra de nossa vida»[9]. Nela vemos refletida nossa imagem, quer dizer, quando nos confrontamos com ela, sobretudo se o fazemos em espírito de oração, vemos se nos assemelhamos ou não à Imagem do homem perfeito, Jesus Cristo, nosso Senhor. Ao “nos olharmos” nela podemos ver com clareza tudo aquilo de que temos que nos despojar, e ao mesmo tempo descobrimos as virtudes de que temos que nos revestir para nos assemelharmos cada vez mais ao Modelo de plena humanidade.

Enquanto “regra de vida” a Escritura é fonte de critérios objetivos, divinos, evangélicos, necessários para o reto discernimento, para o rechaço das tentações[10] e para saber praticar o bem. Mas recordemos que não se trata só de aprender a viver melhor. Rezando com a Bíblia aprendemos a acolher a Palavra de Deus. Quer dizer, aprendemos a acolher Deus em nossa vida, encontrando-nos e dialogando com Ele. Isso ajudará para que todo o nosso ser se vá configurando com a Palavra de Deus, avançando assim de maneira decidida pelo caminho da santidade.

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

1.   Sou consciente de que na Sagrada Escritura está contida, de modo escrito, a Palavra que Deus quis me fazer chegar para que eu alcance a vida eterna,em Jesus Cristo?

2.   Isto se reflete no espaço que lhe dou em minha vida diária? Como?

3.   Procuro cada dia escutar a Palavra de Deus, meditá-la, “ruminá-la”, guardá-la no coração e pô-la em prática, como fazia Maria?

4.   Conheço bem nosso método de oração ou lectio? Entendo bem a distinção entre o “em-si”, e o “em-si – em-mim”?

CITAÇÕES PARA A ORAÇÃO

  • A Escritura é inspirada Por Deus: 2Tim 3,14;
  • A palavra pregada pelos apóstolos é acolhida comopalavra de Deus: 1Tes 2, 13;
  • A palavra de Deus é viva e eficaz: Heb 4,12; exerce sua ação nos crentes: 1Tes 2, 13;
  • A Escritura é útil para aprender e ensinar; por ela nos preparamos para toda obra boa: 2Tim 3,15-17.
  • Não basta ler ou ouvir a palavra de Deus, é necessário pô-la em prática: Tg 1, 22-25; Mt 7, 24ss; é feliz quem põe em prática a Palavra de Deus: Tg 1, 24-25;Lc 11, 28; a própria Palavra de Deus é causa de felicidade e alegria: Jer 15,16;
  • Jesus usa“critérios divinos” para desmascarar e rechaçar as tentações: Mt 4, 4.7.10;
  • A Palavra divina é alimento para nós: Jer 15,16; Mt 4, 4; Maria guardava e “ruminava” a Palavra divina: Lc 2, 19. 51; o justo sussurra a Lei de Deus “dia e noite”: Sal 1, 1-2;

INTERIORIZANDO

O Catecismo ensina: «a fé cristã não é uma “religião do Livro”. O cristianismo é a religião da “Palavra” de Deus, “não de um verbo escrito e mudo, mas do Verbo encarnado e vivo”. Para que as Escrituras não permaneçam letra morta, é preciso que Cristo, Palavra eterna de Deus vivo, pelo Espírito Santo, “abra-nos o espírito à compreensão das Escrituras»[11].

1.   O que significa a fé cristã não ser uma “religião do Livro”?

2.   Posso interpretar a Escritura “livremente”, sem ter em conta a Tradição e o Magistério da Igreja?

3.   Quais são os princípios fundamentais para uma reta interpretação da Sagrada Escritura? Ver Catecismo da Igreja Católica, 112-114.

Dizia o profeta Jeremias: «quando se apresentavam palavras tuas, eu as devorava; tuas palavras eram para mim contentamento e alegria de meu coração» (Jer15,16).

1.   “Devoro” eu com a mesma avidez as Palavras divinas que se apresentam diante de mim? Como me aproximo da Sagrada Escritura, especialmente, dos ensinamentos do Senhor Jesus no Evangelho? Com interesse? Com fome? Como quem busca saciar sua sede em uma fonte de Água viva?

2.   Tenho a mesma atitude da Virgem, que “ruminava” os ensinamentos divinos para, a seguir, pô-los em prática?

3.   Leio a Escritura com reverência, em espírito de oração?

O beato Papa João Paulo II dizia que «a Igreja na América « deve dar clara prioridade à reflexão piedosa da Sagrada Escritura, por parte de todos os fiéis ». Esta leitura da Bíblia, acompanhada pela oração, é conhecida na tradição da Igreja com o nome de Lectio divina, prática que deve ser estimulada entre todos os cristãos»[12]. Em outro lugar dizia também que «é necessário… que a escuta da Palavra se torne um encontro vital, segundo a antiga e sempre válida tradição da lectio divina: esta permite ler o texto bíblico como palavra viva que interpela, orienta, plasma a existência»[13].

1.   Faço habitualmente uma leitura bíblica, em espírito de oração?

2.   Como posso fazer para ser mais fiel e perseverante na leitura bíblica e na lectio?

3.   Procuro incorporar os “critérios divinos” — memorizando-os, por exemplo — para fazer deles um escudo contra as tentações, tal como Cristo me ensina (ver Mt 4,1ss)? Examino-me com freqüência à luz da Palavra divina?

4.   Faço da escuta e meditação da Palavra divina um “encontro vital” com ela, de tal modo que me transforme, e se converta para mim em critério de conduta? Permito que a Palavra divina me interpele, me oriente e modele minha existência?

O Papa João Paulo II ensinava: «Quando é autêntica, a familiaridade com o Senhor leva necessariamente a pensar, escolher e agir como Cristo pensou, escolheu e agiu, colocando-vos à sua disposição para continuar a obra salvífica»[14].

1.   Na oração, procuro acima de tudo “sentir algo”? Deixo de rezar, de meditar a Palavra, “porque não sinto nada”?

2.   Procuro fazer com que minha lectio me ajude a pensar, sentir e atuar cada vez mais como Jesus?

Notas


[1] Catecismo da Igreja Católica n. 108

[2] Catecismo da Igreja Católica n. 135

[3] Catecismo da Igreja Católica n. 133

[4] S.S. Bento XVI, Audiência geral, 17/08/2011.

[5] Ali mesmo

[6] Rom, 8,15

[7] Ver Jo 2,5.

[8] Ver Ef 4, 21-24.

[9] Guia de Pecadores, 1567, II,II,XX.

[10] Ver Mt 4,1ss.

[11] Catecismo da Igreja Católica n. 108

[12] S.S. João Paulo II, Ecclesia in America, 31.

[13] S.S. João Paulo II, Novo millenio ineunte, 39.

[14] Mensagem por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, 1998, n. 8.

 

Fonte: Movimento de Vida Cristã

Como se deve evitar o juízo temerário

 

1. Relanceia sobre ti o olhar e guarda-te de julgar as ações alheias. Quem julga os demais perde o trabalho, quase sempre se engana e facilmente peca; mas, examinando-se e julgando-se a si mesmo, trabalha sempre com proveito. De ordinário, julgamos as coisas segundo a inclinação do nosso coração, pois o amor-próprio facilmente nos altera a retidão do juízo. Se Deus fora sempre o único objetivo dos nossos desejos, não nos perturbaria tão facilmente qualquer oposição ao nosso parecer.

2. Muitas vezes existe, dentro ou fora de nós, alguma coisa que nos atrai e em nós influi. Muitos buscam secretamente a si mesmos em suas ações, e não o percebem. Parecem até gozar de boa paz, enquanto as coisas correm à medida de seus desejos; mas, se de outra sorte sucede, logo se inquietam e entristecem. Da discrepância de pareceres e opiniões freqüentemente nascem discórdias entre amigos e vizinhos, entre religiosos e pessoas piedosas.

3. É custoso perder um costume inveterado, e ninguém renuncia, de boa mente, a seu modo de ver. Se mais confias em tua razão e talento que na graça de Jesus Cristo, só raras vezes e tarde serás iluminado; pois Deus quer que nos sujeitemos perfeitamente a ele e que nos elevemos acima de toda razão humana, inflamados do seu amor.

Fonte: Imitação de Cristo (Tomás de Kempis)

Fazer o Bem e Resistir ao Mal

 

Leiam a meditação abaixo tendo em mente as circunstâncias atuais no Brasil, em especial quanto ao aborto e à família. Lembremos: Importa obedecer antes a Deus do que aos homens !

– Resistência dos Apóstolos em cumprir ordens injustas. Firmeza na fé.

– Todas as realidades, cada uma na sua ordem, devem ser orientadas para Deus. Unidade de vida. Exemplaridade.

– Não se pode prescindir da fé à hora de avaliar as realidades terrenas. Resistência ao mal.

I. APESAR DA SEVERA PROIBIÇÃO do Sumo Sacerdote e do Sinédrio de que não voltassem a pregar e a ensinar em nome de Jesus1, os Apóstolos pregavam cada vez com mais liberdade e firmeza a doutrina da fé. E eram muitos os que se convertiam. Então – narra-nos a primeira leitura da Missa – levaram-nos de novo ao Sinédrio e o Sumo Sacerdote os interrogou dizendo: Não vos ordenamos expressamente que não ensinásseis nesse nome? Mas vós enchestes Jerusalém com a vossa doutrina! […] Pedro e os Apóstolos replicaram: Importa obedecer antes a Deus do que aos homens2. E continuaram a anunciar a Boa Nova.

A resistência dos Apóstolos em obedecer às ordens do Sinédrio não era orgulho nem desconhecimento dos seus deveres sociais para com a autoridade legítima. Opõem-se porque se pretende impor-lhes uma ordem injusta, que atenta contra a lei de Deus. Lembram aos seus juízes, com valentia e simplicidade, que a obediência a Deus é a primeira das obrigações. Estão convencidos de que “não há perigo para os que temem a Deus, mas para os que não o temem”3, e que é pior cometer uma injustiça do que ser vítima dela.

Também nos nossos dias o Senhor pede aos que são seus a fortaleza e a convicção daqueles primeiros, quando, em alguns ambientes, se respira um clima de indiferença ou de ataques frontais aos verdadeiros valores humanos e cristãos. Uma consciência bem formada incitará o cristão a cumprir as leis como o melhor dos cidadãos, e urgi-lo-á também a tomar posição sempre que se pretenda promulgar normas contrárias à lei natural. O Estado não é juridicamente onipotente; não é a fonte do bem e do mal.

“É obrigação dos católicos presentes nas instituições públicas – ensinam os bispos espanhóis – exercer uma ação crítica dentro das suas próprias instituições para que os seus programas e atuações correspondam cada vez melhor às aspirações e critérios da moral cristã. Em alguns casos, pode até ser obrigatória a objeção de consciência em face de atuações e decisões que contrariem diretamente alguns preceitos da moral cristã”4.

A proteção efetiva dos bens fundamentais da pessoa, o direito à vida desde o momento da concepção, a proteção ao casamento e à família, a igualdade de oportunidades na educação e no trabalho, a liberdade de ensino e de expressão, a liberdade religiosa, a segurança pública, a contribuição para a paz mundial etc., fazem parte do bem comum pelo qual os cristãos devem lutar5.

A passividade em face de assuntos tão importantes seria na realidade uma lamentável claudicação e uma omissão, por vezes grave, do dever de contribuir para o bem comum. Seria um desses pecados de omissão dos quais – além dos que cometemos por pensamentos, palavras e atos – pedimos perdão todos os dias no começo da Santa Missa. “Muitas realidades materiais, técnicas, econômicas, sociais, políticas, culturais…, abandonadas a si mesmas, ou em mãos dos que não possuem a luz da nossa fé, convertem-se em obstáculos formidáveis para a vida sobrenatural: formam como que um campo fechado e hostil à Igreja. – Tu, por seres cristão – pesquisador, literato, cientista, político, trabalhador… –, tens o dever de santificar essas realidades. Lembra-te de que o universo inteiro – assim o escreve o Apóstolo – está gemendo como que com dores de parto, à espera da libertação dos filhos de Deus”6.

II. MOVE-SE À NOSSA VOLTA um contínuo fluxo e refluxo de correntes de opinião, de doutrinas, de ideologias, de teorias muito diferentes sobre o homem e a vida. E isso não somente através de publicações especializadas, mas de romances que estão na moda, de revistas gráficas, de programas de televisão ao alcance de adultos e crianças… E no meio dessa confusão doutrinal, é necessária uma norma de discernimento, um critério claro, firme e profundo, que nos permita encarar tudo com a unidade e coerência de uma visão cristã da vida, que sabe que tudo procede de Deus e se ordena para Deus.

A fé nos dá critérios estáveis, bem como a firmeza dos Apóstolos para levá-los à prática. Dá-nos uma visão clara do mundo, do valor das coisas e das pessoas, dos verdadeiros e falsos bens… Sem Deus e sem o conhecimento do fim último do homem, o mundo torna-se incompreensível ou passa a ser visto sob um prisma parcial e deformado. Precisamente “o aspecto mais sinistramente típico da época moderna consiste na absurda tentação de construir uma ordem temporal sólida e fecunda sem Deus, único fundamento em que pode sustentar-se”7.

O cristão não deve prescindir da sua fé em nenhuma circunstância. “Aconfessionalismo. Neutralidade. Velhos mitos que tentam sempre remoçar. – Tens-te dado ao trabalho de meditar no absurdo que é deixar de ser católico ao entrar na Universidade, ou na Associação profissional, ou na sábia Academia, ou no Parlamento, como quem deixa o chapéu à porta?”8 Esta atitude equivale a dizer, tanto na política como nos negócios, no modo de descansar e distrair-me, quando estou com os amigos ou quando escolho o colégio para os meus filhos: aqui, nesta situação concreta, Deus não é chamado para nada; a minha fé cristã não influi nestes assuntos, nada disto vem de Deus nem se ordena para Deus.

A fé ilumina toda a vida. Tudo se ordena para Deus. É bem verdade que essa ordenação deve respeitar a natureza própria de cada coisa; não se trata de converter o mundo numa imensa sacristia, nem os lares em conventos, nem a economia em beneficência… Mas, sem simplificações ingênuas, a fé deve informar o pensamento e a ação do cristão porque nunca, seja em que circunstância for, em momento algum do dia, se deve deixar de ser cristão e, portanto, de agir e pensar como tal.

Por isso, “os cristãos exercerão as suas respectivas profissões movidos pelo espírito evangélico. Não é bom cristão quem submete a sua forma de atuar profissionalmente ao desejo de ganhar dinheiro ou de alcançar poder como valor supremo e definitivo. Os profissionais cristãos, em qualquer área da vida, devem ser exemplo de laboriosidade, competência, honestidade, responsabilidade e generosidade”9.

III. UM CRISTÃO não pode prescindir da luz da fé à hora de avaliar um programa político ou social, uma obra de arte ou cultural. Não pode restringir-se à consideração de um só aspecto – econômico, político, técnico, artístico… – para julgar da bondade ou malícia de uma realidade. Se nesse acontecimento político ou social ou nessa obra não se respeita a devida ordenação para Deus – manifestada nas exigências da Lei divina –, a sua avaliação definitiva não pode deixar de ser negativa, seja qual for a avaliação parcial de outros aspectos dessa realidade.

Não se pode aplaudir determinada política, determinada ordenação social ou obra cultural, quando se transformam em instrumento do mal. É uma questão de estrita moralidade e, portanto, de bom senso. Quem louvaria um insulto à sua própria mãe, simplesmente por estar vazado num verso de grande perfeição rítmica? Quem difundiria esse verso, louvando as suas perfeições, mesmo fazendo a ressalva de que eram perfeições apenas “formais”? É evidente que a perfeição técnica dos meios só contribui para agravar a maldade de uma coisa desordenada em si, pois de outro modo passaria despercebida ou teria menos virulência.

Diante de crimes abomináveis, que é como o Concílio Vaticano II qualifica os abortos, a consciência cristã retamente formada exige que não se participe na sua prática, que se desaconselhem vivamente, que se impeçam, se for possível, e, além disso, que se trabalhe ativamente por evitar ou subsanar essa aberração moral no ordenamento jurídico. Diante desses fatos gravíssimos e de outros semelhantes que se opõem frontalmente à moral, ninguém deve pensar que não pode fazer nada. O pouco que cada um pode fazer, deve fazê-lo: especialmente mediante uma participação responsável na vida pública. “Mediante o exercício do voto, confiamos a umas instituições determinadas e a pessoas concretas a gestão dos assuntos públicos. Desta decisão coletiva dependem aspectos muito importantes da vida social, familiar e pessoal, não somente na ordem econômica e material, mas também na moral”10.

Está nas mãos de todos, de cada um de nós, se atuarmos com sentido sobrenatural e senso comum, a tarefa de fazer deste mundo, que Deus nos deu para habitar, um lugar mais humano e meio de santificação pessoal. Se nos esforçarmos por cumprir os nossos deveres sociais, quer vivamos numa grande cidade ou num povoado perdido, quer tenhamos um cargo importante ou uma ocupação humilde na sociedade, mesmo que pensemos que o nosso contributo é minúsculo, seremos fiéis ao Senhor, e também o seremos se um dia o Senhor nos pedir uma atuação mais heróica: Aquele que é fiel no pouco também será fiel no muito11.

(1) Cfr. At 4, 18; (2) At 5, 27-29; (3) São João Crisóstomo, Homilias sobre os Atos dos Apóstolos, 13; (4) Conferência Episcopal Espanhola, Testigo de Dios vivo, 28-VI-1985, n. 64; (5) idem, Los católicos en la vida pública, 22-IV-1986, n. 119-121; (6) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 311; (7) João XXIII, Enc. Mater et Magistra, 15-V-1961, 72; (8) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 353; (9) Conferência Episcopal Espanhola, Testigo de Dios vivo, n. 63; (10) idem, Los católicos en la vida pública, n. 118; (11) Lc 16, 10.

Fonte: Falar com Deus

A Paz de Cristo

 

São Cipriano: «O Espírito Santo nos faz esta advertência: “busca a paz e vai ao seu encalço” (Sal 33,15). O filho da paz tem que procurar e perseguir a paz. Aquele que ama e conhece o vínculo da caridade tem que guardar sua língua do mal da discórdia. Entre suas prescrições divinas e seus mandamentos de salvação, o Senhor, à véspera de sua paixão, acrescentou o seguinte: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz.” (Jo 14,27). Esta é a herança que nos legou: todos os seus dons, todas as recompensas que nos prometeu tendem à conservação da paz que nos promete. Se somos os herdeiros de Cristo, permaneçamos na paz de Cristo. Se somos filhos de Deus temos que ser pacíficos: “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!” (Mt 5,9). Os filhos de Deus são pacíficos, humildes de coração, simples em suas palavras, concordam entre si pelo afeto sincero, unidos fielmente pelos laços da unanimidade».

São Cirilo: «Tenhamos vergonha de prescindir da saudação da paz que o Senhor nos deixou quando ia sair do mundo. A paz é um dom e uma coisa doce, que sabemos provir de Deus, segundo o que o Apóstolo diz aos Filipenses: “A paz de Deus” (Flp 4,7), e “Deus da Paz” (2Cor 13,11). Pois Deus mesmo é a Paz, já que “Ele é nossa paz” (Ef 2,14). A paz é um bem recomendado a todos, mas observado por poucos. Qual é a causa disso? Talvez o desejo do domínio, ou a ambição, ou a inveja, ou a intolerância ao próximo, ou o desprezo, ou alguma outra coisa que vemos a cada passo que damos naqueles que desconhecem o Senhor. A paz procede de Deus, que é quem tudo une. Deus, cujo ser é unidade de sua natureza e de seu estado pacífico. Ele a transmite aos anjos e às potestades do céu, que estão em constante paz com o Senhor e consigo mesmos. Também se estende por todas as criaturas que desejam a paz. Em nós subsiste, segundo o espírito de cada um, por meio da busca e exercício das virtudes, e segundo o corpo, no equilíbrio dos membros e dos elementos de que se forma. O primeiro se chama beleza, o segundo saúde».

São Gregório Magno: «Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Só este discípulo estava ausente e, ao voltar e escutar o que tinha acontecido, não quis acreditar no que lhe contavam. Apresenta-se de novo o Senhor e oferece ao discípulo incrédulo seu flanco para que o apalpe, mostra-lhe suas mãos e, mostrando-lhe a cicatriz de suas feridas, cura a ferida de sua incredulidade. O que é, irmãos muito amados, o que revelam nestes fatos? Acaso vocês creem que esse fatos aconteceram por coincidência: que aquele discípulo eleito primeiro estivesse ausente, que assim que veio, ouvisse, que para ouvir duvidasse, que ao duvidar apalpasse, que ao apalpar acreditasse?

»Tudo isto não aconteceu ao acaso, mas sim por disposição divina. A bondade de Deus atuou neste caso de um modo admirável, já que aquele discípulo que tinha duvidado, ao apalpar as feridas do corpo de seu mestre, curou as feridas de nossa incredulidade. Mais proveitosa foi para nossa fé a incredulidade de Tomé do que a fé dos outros discípulos, já que, ao ser ele induzido a acreditar pelo fato de ter apalpado, nossa mente, livre de toda dúvida, é confirmada na fé. Deste modo, com efeito, aquele discípulo que duvidou e que apalpou se converteu em testemunha da realidade da ressurreição.

»Apalpou e exclamou: “Meu senhor e meu Deus!” Jesus lhe disse: “Creste, porque me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!” Por isso Apóstolo Paulo diz: "A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê" (Hb 11,1). É evidente que a fé é a plena convicção daquelas realidades que não podemos ver, porque as que vemos já não são objeto de fé, mas sim de conhecimento. Por conseguinte, se Tomé viu e apalpou, como é que lhe diz o Senhor: Não acreditaste senão depois de me haver visto? É que o que acreditou superava o que viu. Com efeito, um homem mortal não pode ver a divindade. Por isso o que ele viu foi a humanidade de Jesus, mas confessou sua divindade ao dizer: meu senhor e meu Deus! Ele, pois, acreditou com tudo o que viu, já que, tendo diante de seus olhos um homem verdadeiro, proclamou-o Deus, coisa que escapava a seu olhar.

»E é para nós motivo de alegria o que vem a seguir: Felizes aqueles que creem sem ter visto! Nesta sentença o Senhor nos designa especialmente, nós que O guardamos em nossa mente sem vê-lO corporalmente. Designa-nos, com o intuito de que as obras acompanhem nossa fé, porque quem crê de verdade age segundo sua fé. Pelo contrário, com relação àqueles que acreditam só de boca, diz Paulo: "Proclamam que conhecem a Deus, mas na prática o renegam, detestáveis que são, rebeldes e incapazes de qualquer boa obra" (Tt 1,16). E São Tiago diz: "A fé: se não tiver obras, é morta em si mesma". (Tg 2,17)».

Fonte: Estudo Bíblico do Movimento de Vida Cristã, 2º Dom. de Páscoa, ano B.

O Castelo Interior

 

Não é pequena lástima e confusão que, por nossa culpa, não nos entendamos a nós mesmos, nem saibamos quem somos. Não seria grande ignorância, minhas filhas, que perguntassem a alguém quem era e não se conhecesse, nem soubesse quem foi seu pai, nem sua mãe, nem sua terra? Pois, se isto seria grande estupidez, sem comparação é maior a que há em nós quando não procuramos saber que coisa somos e só nos detemos nestes corpos; e assim, só a vulto sabemos que temos alma, porque o ouvimos e porque no-lo diz a fé. Mas, que bens pode haver nesta alma ou quem está dentro dela, ou o seu grande valor, poucas vezes o consideramos; e assim se tem em tão pouco procurar com todo o cuidado conservar sua formosura. Tudo se nos vai na grosseria do engaste ou cerca deste castelo; que são estes corpos.

[…]

Porque, tanto quanto eu posso entender, a porta para entrar neste castelo é a oração e reflexão, não digo mais mental que vocal; logo que seja oração, há-de ser com consideração; porque naquela em que não se adverte com Quem se fala e o que se pede e quem é que pede e a Quem, não lhe chamo eu oração, embora muito meneie os lábios. E, se algumas vezes o for, mesmo sem este cuidado, será porque se teve em outras; mas, quem tivesse por costume falar com a Majestade de Deus como falaria a um seu escravo, que nem repara se diz mal, mas o que lhe vem à boca e decorou, porque já o fez outras vezes, não o tenho por oração e preza a Deus nenhum cristão a tenha desta sorte. Que entre vós, irmãs, espero em Sua Majestade não haverá tal oração, pelo costume que há de tratardes de coisas interiores, e que é muito bom para não cairdes em semelhante bruteza.

Não falemos, pois, com estas almas tolhidas, que, se não vem o mesmo Senhor mandar-lhes que se levantem – como aquele que havia 30 anos que estava junto à piscina-, têm muito má ventura e correm grande perigo; mas sim com outras almas que, por fim, entram no castelo; porque, ainda que estejam muito metidas no mundo, têm bons desejos e algumas vezes, ainda que de longe em longe, encomendam-se a Nosso Senhor e consideram quem são, ainda que sem muita demora. Alguma vez ou outra, num mês, rezam cheias de mil negócios, o pensamento quase de ordinário nisso, porque, como estão tão apegadas a eles, o coração se lhes vai para onde está o seu tesouro. Propõem algumas vezes, para consigo mesmos, desocuparem-se, e já é grande coisa o próprio conhecimento e o ver que não vão bem encaminhadas para atinar com a porta. Enfim, entram nas primeiras dependências do rés-do-chão; mas entram com elas tantas sevandijas, que não lhes deixam ver a formosura do castelo nem sossegar: muito fazem já em ter entrado.

[…]

(Santa Teresa D´Avila – O Castelo Interior).

Este livro ajuda a muitos a iniciarem na Vida interior… para baixá-lo na internet basta ir ao link: Alexandria Católica – Santa Teresa D´Avila .

O Que Rezar?

 

Eis a ideia para vocês refletirem ao longo da semana: “O Que Rezar”.

Muitas pessoas me perguntam quais orações são interessantes fazer ao longo do dia. Gostaria de mencionar algumas que são vivamente recomendadas pelos santos.

Eis aí as orações:

1. Oferecimento de obras
É a oração recomendada para fazer logo ao acordar. Os santos nos ensinam que, se queremos amar a Deus sobre todas as coisas, o primeiro pensamento do dia deve ser para Deus. Com essa oração, nós agradecemos a Deus mais um dia de vida e oferecemos a Ele tudo aquilo que faremos ao longo do dia.

2. Leitura do Santo Evangelho
É a leitura dos livros da Bíblia que narram a vida de Jesus: Mateus, Marcos, Lucas e João. Essa leitura é fundamental, pois é através dela que vamos conhecer e amar Jesus Cristo, vamos entender a fonte de toda a sabedoria humana e espiritual, vamos aprender, olhando para Jesus, o modo de nos comportarmos em cada situação da vida. Tempo recomendado: 5 minutos por dia.

3. Leitura espiritual
É a leitura de algum livro espiritual: sobre a vida de santos, textos que aprofundam algum aspecto da fé, que explicam alguma virtude cristã etc. Essa leitura é fundamental, pois nos ajudará a sempre progredir na vida espiritual, a entender cada vez mais a Deus e também os seus mistérios. Tempo recomendado: 10 minutos por dia.

4. Angelus (Anjo do Senhor)
É a oração antiquíssima que se reza a Nossa Senhora ao meio-dia. Tem o objetivo de pôr Nossa Senhora no centro do nosso dia e da nossa vida.

5. Oração mental
É a oração em que paramos um momento do dia para conversar com Deus. É diferente da conversa que estabelecemos com Ele ao longo do dia. Na oração mental, nós paramos tudo para estar a sós com Ele. Sem ela, não temos ocasião para aprender tudo o que Deus tem a nos ensinar nem para intensificar nossa sintonia e nosso amor por Ele. É o momento de desabafar, encontrar consolo e luz. Tempo recomendado: 15 minutos por dia.

6. Visita ao Santíssimo
É a breve visita que fazemos a Jesus, que se encontra no sacrário das igrejas.

7. Terço
É a oração tão conhecida e amada por Nossa Senhora.

8. 3 Ave-Marias antes de deitar
É uma oração antiquíssima da igreja em que pedimos pela pureza do nosso coração e de todas as pessoas.

9. Exame de consciência
É o momento no fim do dia em que repassamos as nossas ações e vemos o que fizemos de bom, de ruim e o que podemos fazer no dia seguinte para melhorar.

Garanto a todos que, se conseguirem incorporar pouco a pouco essas orações, o progresso espiritual será inimaginável!

Uma santa semana a todos!
Pe Paulo M. Ramalho

http://perseveranza.blogspot.com.br/

Disposições para Encontrar Jesus

 

– Fé e correspondência à graça. Purificar a alma para ver Jesus.

– A cura de Naamã. Docilidade e humildade.

– Docilidade na direção espiritual.

I. A MINHA ALMA desfalecida consome-se suspirando pelos átrios do Senhor. O meu coração e a minha carne exultam pelo Deus vivo, lemos no Intróito da Missa1. E para penetrar na morada de Deus, é necessário ter uma alma limpa e humilde; para ver Jesus, são necessárias boas disposições. O Evangelho da Missa no-lo mostra uma vez mais.

O Senhor, depois de um tempo dedicado à pregação pelas aldeias e cidades da Galiléia, volta a Nazaré, onde se tinha criado. Ali todos o conhecem: é filho de José e Maria. No sábado, foi à sinagoga, conforme era seu costume2,levantou-se para a leitura do texto sagrado e escolheu um trecho messiânico do profeta Isaías. São Lucas capta a densa expectativa que havia no ambiente: Enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-se; todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Tinham ouvido maravilhas sobre o filho de Maria e esperavam ver coisas ainda mais extraordinárias em Nazaré.

Não obstante, ainda que a princípio todos lhe davam testemunho e se admiravam das palavras de graça que procediam da sua boca3, não têm fé. Jesus explica-lhes que os planos de Deus não se baseiam na pátria ou no parentesco: não basta ter convivido com Ele, é necessária uma fé grande. E serve-se de alguns exemplos do Antigo Testamento: Havia muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi curado a não ser Naamã, o sírio. As graças do Céu são concedidas sem qualquer limitação por parte de Deus, sem levar em conta a raça – Naamã não pertencia ao povo judeu –, a idade ou a posição social. Mas Jesus não encontrou boas disposições nos ouvintes, na terra onde se havia criado, e por isso não fez ali nenhum milagre. Aquelas pessoas só viram nEle o filho de José, aquele que fabricava mesas e consertava portas. Não é este o filho de José?, perguntavam4. Não souberam ir além disso. Não descobriram o Messias que os visitava.

Nós, para podermos contemplar o Senhor, também devemos purificar a nossa alma. “Esse Cristo que tu vês não é Jesus. – Será, quando muito, a triste imagem que podem formar teus olhos turvos… – Purifica-te. Clarifica o teu olhar com a humildade e a penitência. Depois… não te hão de faltar as luzes límpidas do Amor. E terás uma visão perfeita. A tua imagem será realmente a sua: Ele!”5

A Quaresma é uma boa ocasião para intensificarmos o nosso amor com obras de penitência que preparem a alma para receber as luzes de Deus.

II. NA PRIMEIRA LEITURA da Missa, narra-se a cura de Naamã, general do exército sírio6, a quem o Senhor se refere no Evangelho. Este leproso ouvira dizer, a uma escrava hebréia, que vivia em Israel um profeta com poder para curá-lo. Depois de uma longa viagem, Naamã veio com o seu carro e os seus cavalos e parou à porta de Eliseu. Este mandou-lhe dizer por um mensageiro: Vai, lava-te sete vezes no Jordão e a tua carne ficará limpa.

Mas Naamã não entendeu esse caminho de Deus, tão diferente do que havia imaginado. Eu pensava que ele viria em pessoa e, diante de mim, invocaria o Senhor, seu Deus, poria a mão no lugar infetado e me curaria da lepra. Porventura os rios de Damasco, o Abana e o Farfar, não são melhores que todas as águas de Israel? Não poderia eu lavar-me neles e ficar limpo?

O general sírio queria curar-se, e tinha feito um longo trajeto para isso; mas levava consigo a sua própria solução sobre o modo de ser curado. E quando já regressava, dando por inútil a viagem, os seus servidores disseram-lhe: Mesmo que o profeta te tivesse mandado uma coisa difícil, não a deverias tu fazer? Quanto mais agora que ele te disse: Lava-te e ficarás curado.

Naamã refletiu sobre as palavras dos seus acompanhantes e, retornando, prontificou-se com humildade a cumprir o que o profeta Eliseu lhe havia dito. Desceu ao Jordão e banhou-se ali sete vezes, como lhe ordenara o homem de Deus, e a sua carne tornou-se tenra como a de uma criança. Acabou por aceitar com docilidade um conselho que podia parecer inútil. E ficou curado. As suas novas disposições interiores tornaram eficaz a oração de Eliseu.

Não poucas vezes nós também andamos doentes da alma, cheios de erros e defeitos que não acabamos de arrancar. O Senhor espera que sejamos humildes e dóceis às indicações e conselhos das pessoas por Ele estabelecidas para nos ajudarem a procurar a santidade. Não tenhamos soluções próprias quando o Senhor nos indica outras, talvez contrárias aos nossos gostos e desejos.

No que diz respeito à alma, ninguém é bom conselheiro nem bom médico de si próprio. Ordinariamente, o Senhor serve-se de outras pessoas. “Cristo chamou e falou diretamente com São Paulo. Mas, embora pudesse revelar-lhe naquele momento o caminho da santidade, preferiu encaminhá-lo a Ananias e ordenou-lhe que aprendesse a verdade dos lábios deste: Levanta-te, entra na cidade e lá te será dito o que deves fazer”7. São Paulo deixar-se-á guiar. A sua forte personalidade, manifestada de tantos modos e em tantas ocasiões, serve-lhe agora para ser dócil. Primeiro os seus companheiros de viagem o levam a Damasco; depois Ananias devolve-lhe a vista, e só a partir desse momento é que será já um homem útil para as batalhas do Senhor.

Mediante a direção espiritual, a alma prepara-se para encontrar o Senhor e para reconhecê-lo nas situações correntes do seu dia.

III. A FÉ NOS MEIOS que o Senhor nos oferece opera milagres. Certa vez, Jesus pediu a um homem que fizesse uma coisa que esse homem sabia por experiência que não podia fazer: estender a sua mão seca, sem movimento. E a docilidade, sinal de uma fé operativa, tornou possível o milagre: Estendeu-a e ela tornou-se tão sã como a outra8. Haverá ocasiões em que nos pedirão coisas que nos sentiremos incapazes de fazer, mas que serão possíveis se deixarmos que a graça atue em nós. E essa graça chegar-nos-á freqüentemente como conseqüência da docilidade que manifestemos na direção espiritual.

Houve dez homens, segundo narra o Evangelho, que ficaram curados por terem sido dóceis. Jesus Cristo dissera-lhes somente: Ide, mostrai-vos ao sacerdote. E enquanto eles iam andando, ficaram curados9. Em outra ocasião, o Senhor compadeceu-se de um mendigo que era cego de nascença, e diz-nos São João queJesus cuspiu no chão, fez um pouco de lodo com a saliva e com o lodo ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: Vai, lava-te na piscina de Siloé. O mendigo não duvidou um instante. O cego foi, lavou-se e voltou com vista10.

“Que exemplo de firmeza na fé nos dá este cego! Uma fé viva, operativa […]. Que poder continha a água, para que os olhos ficassem curados ao serem umedecidos? Teria sido mais adequado um colírio misterioso, um medicamento precioso preparado no laboratório de um sábio alquimista. Mas aquele homem crê; põe em prática o que Deus lhe ordena, e volta com os olhos cheios de claridade”11.

A cegueira, os defeitos, as fraquezas são males que têm remédio. Nós não podemos nada, mas Jesus Cristo é onipotente. A água daquela piscina continuou a ser água; e o barro, barro. Mas o cego recuperou a vista, e depois, além disso, alcançou uma fé mais viva no Senhor. É assim que a fé dos que encontram Jesus se mostra tantas vezes ao longo do Evangelho.

Sem docilidade, a direção espiritual é estéril. E não poderá ser dócil quem se empenhe em ser teimoso, obstinado, incapaz de assimilar uma idéia diferente da que já tem ou da que lhe dita uma experiência que foi negativa por não ter contado com a ajuda da graça. O soberbo é incapaz de ser dócil, porque, para aprender, é necessário estarmos convencidos de que há coisas que ainda não conhecemos e de que precisamos de alguém que nos ensine. E para melhorarmos espiritualmente, devemos estar convencidos de que não somos ainda tão bons quanto Deus espera que sejamos.

Nos assuntos da nossa vida interior, devemos estar prevenidos e manter uma prudente desconfiança em relação aos nossos próprios juízos, para podermos aceitar outro critério diferente ou oposto ao nosso. E devemos deixar que Deus nos faça e refaça através dos acontecimentos e das inspirações e luzes que venhamos a receber na direção espiritual: com a docilidade do barro nas mãos do oleiro, sem oferecer resistência, com espírito de fé, vendo e ouvindo o próprio Cristo na pessoa que orienta a nossa alma. Assim nos diz a Sagrada Escritura: Desci então à casa do oleiro e encontrei-o ocupado a trabalhar no torno. Quando o vaso que estava a modelar não lhe saiu bem, como costuma acontecer nos trabalhos de cerâmica, pôs-se a trabalhar em outro do modo que lhe aprouve […]. Sabei que o que é a argila nas mãos do oleiro, isso sois vós nas minhas12.

Disponibilidade, docilidade, deixar-se modelar e remodelar por Deus quantas vezes for necessário. Este pode ser o propósito da nossa oração de hoje, que poremos em prática com a ajuda da Virgem.

(1) Sl 83, 3; Intróito da Missa da segunda-feira da terceira semana da Quaresma; (2) Lc 2, 16; (3) Lc 4, 22; (4) ib.; (5) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 212; (6) cfr. 2 Rs 5, 1-15; (7) Cassiano, Colações, 2; (8) cfr. Mt 12, 9 e segs.; (9) Lc 17, 11-19; (10) Jo 9, 1 e segs.; (11) Josemaría Escrivá, Amigo de Deus, n. 193; (12) Jer 18, 1-7.

Fonte: Falar com Deus