A Espiritualidade do Matrimônio

 

Homilia do Cardeal James Francis Stafford na Peregrinação Aniversária de Julho em Fátima

A espiritualidade do homem e da mulher casados significa que ambos vivem de acordo com o Espírito Santo. A minha homilia vai explicar em que consiste esta vida conjugal de acordo com o Espírito. Terá três partes: 1) a espiritualidade conjugal fundamenta-se no mistério do Verbo Encarnado, Jesus Cristo, o Esposo da Igreja; 2) o arquétipo da espiritualidade conjugal encontra-se na relação entre Cristo e a Igreja; 3) a realização concreta deste mistério encontra-se, por exemplo, no matrimónio do primeiro casal a ser beatificado pela Igreja: Luigi e Maria Quattrochi.

1) A espiritualidade conjugal fundamenta-se no mistério do Verbo Encarnado, Jesus Cristo, o Esposo da Igreja. A substância da primeira leitura, tirada do Livro do Génesis, repete-se e aprofunda-se na leitura tirada da Epístola aos Efésios: “E os dois serão uma só carne’. Este é um profundo mistério, e o que eu digo é que se refere a Cristo e à Igreja”. Aqui, São Paulo esclarece o mistério da comunhão de Cristo com os ‘santos’ da Igreja por meio de um sinal nupcial: o ser ‘uma só carne’ do homem e da mulher. Ele mostra assim que a nupcialidade é uma característica essencial do amor. E insiste em que o mistério da Encarnação encerra uma lógica especial. Quer dizer que o Deus Invisível Se torna Visível através de uma genuína manifestação de Si Mesmo no mundo do homem e em sua história. O Primeiro Prefácio de Natal transmite lindamente a representação que Deus faz de Si Mesmo na Encarnação: “Por meio do mistério do Verbo Encarnado, a nova luz da Vossa claridade brilhou aos olhos da nossa mente, para que, conhecendo nós Deus de modo visível, possamos ser arrebatados por este meio para o amor de coisas invisíveis”.

2) O arquétipo da espiritualidade conjugal encontra-se na relação entre Cristo e a Igreja. São Paulo usa a imagem do amor de esposos em Génesis para ilustrar “o plano do mistério escondido, durante séculos, em Deus” (Ef.3-9). Aqui ele fala do sacramento nupcial entre Cristo e a Sua Igreja. Cristo é o Esposo e a Igreja a Esposa. O mistério da lógica nupcial de Jesus e da Igreja presume que o homem e a mulher cristãos juntos em matrimónio sacramental, como marido e mulher, estão inseridos numa relação distinta e pessoal um com o outro. Nos escritos proféticos, na literatura hebraica sobre a sabedoria e nos salmos, a caracterização de Israel como ‘esposa’ manteve-se principalmente como imagem ética e jurídica.

No Novo Testamento esta caracterização é, acima de tudo, radicalmente alterada pela Encarnação do Verbo: o carácter de ‘esposa’ é agora baseado inteiramente no ‘ser uma só carne’ do Verbo Encarnado (“Uma só pessoa em cada uma das naturezas. Una persona in utraque natura”-Santo Agostinho). Santo Agostinho insiste em que a natureza humana foi assumida pela união pessoal com o Verbo Eterno no mesmo instante em que foi criada. A Sua natureza humana foi criada pela própria assunção (ipsa assumptione) de tal modo que “desde que Ele começou a ser homem, nenhuma outra coisa a não ser o Filho de Deus começou a ser homem”.

Assim a Igreja/Esposa encontra a sua origem e identidade na natureza humana de Cristo. Porque o Verbo se identifica com o servo humano cuja natureza Ele assumiu, o sujeito ‘Igreja/Esposa’, juntamente com todos os baptizados, que recebem cada um a revelação de um modo próprio a cada um, deve necessariamente realizar uma encarnação análoga à Encarnação do Verbo de Deus.

Na primeira leitura ouvimos que no princípio da história humana existiu uma criatura de uma complementaridade única: um homem e uma mulher. Assim o dado original humano não era a identidade, mas a relação. Quando Adão foi apresentado a Eva, ele viu beleza, verdade e bondade nela, e por isso cantou a primeira canção de amor: “Esta é finalmente osso dos meus ossos e carne da minha carne; ela chamar-se-á Mulher porque foi tirada do Homem”.

Por isso o homem não se deve resignar a um universo surdo à sua música e indiferente aos seus anseios, aos seus sofrimentos ou mesmo aos seus crimes. Esse universo não pode ser definido em termos de progresso material, uma vez que estamos a descobrir, para nossa tristeza e desalento, que o preço do progresso é a morte do espírito. O mundo não é simples fruto da evolução; não se pode basear na sobrevivência do mais forte, na economia globalizada. O universo não é tosco e sem esperança; não se parece mais com um campo de batalha do que com uma orquestra. O facto de haver um homem e uma mulher desde o princípio basta para crer na visão nupcial do fim que realmente é o princípio: “Eu vi a cidade santa, a Nova Jerusalém, que descia do Céu de junto de Deus, ataviada como esposa adornada para o seu esposo, e ouvi uma voz alta que vinha do trono e dizia: ‘Eis a morada de Deus entre os homens’” (Apoc.21,2-3).

3) A realização concreta deste mistério encontra-se, por exemplo, no matrimónio do primeiro casal a ser formalmente beatificado pela Igreja: Luigi e Maria Quattrocchi. Vemos esta realidade do significado do começo realizado no matrimónio cristão. Estou a pensar na bondade, verdade e beleza reveladas na relação entre o Beato Luigi Beltrame Quattrocchi e a Beata Maria Beltrame Quattrocchi. Em 2001 a Igreja Católica Romana beatificou o primeiro casal, em toda a sua história. A Igreja achou que o casal Quattrocchi era uma extraordinária testemunha do profundo mistério que é o sacramento do matrimónio. E assim este casal italiano dos nossos tempos foi promovido ao grau de “beato” – apenas a um passo formal da santidade – depois de ter sido julgado modelo da ‘espiritualidade cristã’, vivendo heroicamente o matrimónio e a família.

O Papa João Paulo II declarou aquando da sua beatificação em 2001: “Queridas famílias, hoje temos a singular confirmação de que o caminho da santidade, seguido juntos como casal, é possível, é lindo, é extraordinariamente frutuoso e é fundamental para o bem da família, da Igreja e da sociedade”. Ele proferiu palavras especiais de encorajamento para os casais que experimentam o drama da separação, a doença ou a morte dum filho. O único casal antes deste a quem foi dado tal honra foram os mártires Aquila e Prisca, os quais se tornaram santos nos primórdios do Cristianismo, antes de ser estabelecido o processo formal de beatificação.

Os esposos Beltrame Quattrocchi nasceram ambos na década de 1880/89. Casaram-se em 1905 e passaram toda a sua vida em Roma. Tiveram quatro filhos, dos quais três se tornaram religiosos. Os dois rapazes foram ordenados sacerdotes. Uma das raparigas fez-se freira. Os dois sacerdotes concelebraram com o Sumo Pontífice a Missa de beatificação de seus pais. O quarto filho também participou na Santa Missa. Se o quarto filho, o mais novo, tivesse entrado para a vida religiosa, Luigi e Maria haviam decidido que eles mesmos entrariam para a vida consagrada. Houve jornais que relataram que os filhos disseram que o casal decidira, ao fim de vinte anos, dormir em camas separadas, vivendo como irmãos os restantes 26 anos.

Luigi morreu em 1951; era advogado e trabalhou no governo e em bancos, sendo ainda muito activo em vários grupos católicos. Em 1939, Dino Grandi, o ministro italiano da Justiça no regime de Mussolini, ofereceu a Luigi o alto cargo de Procurador Geral do Estado Italiano, mas ele recusou, para evitar ficar associado ao governo fascista.

A esposa morreu em 1965; era professora e escritora. Durante a Primeira Guerra Mundial confortou soldados. Mais tarde estudou enfermagem e acompanhava inválidos em peregrinação a santuários, como Lourdes, França.

“A nossa família era uma família normal que tentava viver os diversos relacionamentos num plano de alta espiritualidade”, disse Dom Tarcísio Beltrame Quattrocchi, um dos quatro filhos do casal, numa entrevista. O casal, ao princípio, apoiava o regime do ditador Mussolini, mas mais tarde rejeitou o fascismo e abriu as portas de sua casa a membros da resistência. Por vezes emprestava as vestes clericais de seus filhos sacerdotes para ajudar esses membros da resistência a evitarem captura pelos ocupantes Nazis. Registos detalhados das beatificações só começaram a ser mantidos há cinco séculos. Luigi e Maria Beltrame Quattrocchi tornaram-se, respectivamente, no 1.273º e 1.274º católicos a serem beatificados pelo Sumo Pontífice.

À luz do que fica aqui dito, eu desejo mencionar explicitamente aquela característica do matrimónio cristão que é, em certo sentido, como escreveu o Cardeal Angelo Scola, fundamental para o laço matrimonial que une homem e mulher no vínculo nupcial: a sua indissolubilidade. Uma das visões de Ezequiel (37-15 & ss) tem sido fundamental para o meu entendimento do matrimónio. Trata-se do sinal dos paus que Deus torna milagrosamente num só. Esta acção divina significa o milagre que Deus opera ao unir de novo Israel e Judá numa só nação. Durante décadas esta visão tem sido para mim a interpretação fundamental da comunhão indissolúvel de marido e mulher, concedida por Deus no matrimónio. O matrimónio sacramental é indissolúvel apenas porque é participação na total e irrevogável comunhão de Jesus, o Esposo, com a Igreja, Sua Esposa.

Para o homem e a mulher, que se unem em matrimónio cristão, as implicações são claras. Ambos devem empenhar-se em transfigurar aquilo que ao princípio é primariamente um amor de apego físico, o eros, naquela espécie de amor que reconhece ser agarrado por e transformado no amor ‘agape’ de Deus, aquele amor que se esvazia de si mesmo para receber o outro.

E vou terminar com aquele magnífico entendimento do que é realmente o matrimónio sacramental manifestado pelo Papa Bento XVI. Escreve ele em sua Encíclica ‘Deus Caritas Est’:”Do ponto de vista da criação, o ‘eros’ aponta ao homem o caminho do matrimónio, um vínculo único e definitivo; assim e só assim é que ele cumpre o seu mais profundo desígnio. Correspondendo a um Deus único temos um matrimónio monógamo. O matrimónio baseado num amor exclusivo e definitivo torna-se o ícone da relação entre Deus e Seu povo e vice-versa. O modo como Deus ama torna-se a medida do amor humano”(12).

Cardeal J. Francis Stafford, Penitenciário-mor

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Homilia do D. Henrique Soares da Costa – Domingo de Ramos – Ano A

 

Para a Procissão de Ramos:

Mt 21,1-11

“Dizei à filha de Sião: ‘Eis que o teu rei vem a ti, manso e montado num jumento, num jumentinho, num potro de jumenta!” – Assim, caríssimos irmãos, o nosso Jesus entra hoje em Jerusalém para sofrer sua paixão e fazer sua Páscoa deste mundo para o Pai.

Jerusalém é a cidade do Messias; nele deveria manifestar-se o Reino de Deus. O Senhor Jesus, ao entrar nela de modo solene, realiza a esperança de Israel. Por isso o povo grita: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!” Hoje, com nossos ramos levados em procissão, fazemos solene memória desse acontecimento e proclamamos com nossos cânticos que Jesus é o Messias prometido! Também nós cantaremos daqui a pouco: Hosana ao Filho de Davi!

Mas, atenção! Este Messias não vem como rei potente, num majestoso cavalo de guerra, símbolo de força e poder! Ele vem num burrico, usado pelos servos nos seus duros trabalhos. Ele vem como manso e humilde servo! Eis o escândalo que Israel não suporta! Esperava-se um Messias que fosse Rei potente e Deus envia um servo humilde e frágil! Que lógica, a de Deus! E, misteriosamente, Israel não consegue compreendê-la e refutará Jesus! Mas, e nós, compreendemos de verdade essa lógica? Hoje, seguir o Cristo em procissão é estar dispostos a aceita-lo como Messias que tem como trono a cruz e como coroa os espinhos! Segui-lo pela rua é comprometer-se a segui-lo pela vida! Caso contrário, nossa liturgia não passará de um teatro vazio…

Vamos com Jesus! Aclamemos Jesus! E quando na vida, a cruz vier, a dor vier, os espinhos vierem, tomemos nas mãos os ramos que levaremos hoje para nossas casas e recordemos que nos comprometemos a seguir o Cristo até a morte e morte de cruz, para chegarmos à Páscoa da Ressurreição!

Para a Missa da Paixão:

Is 50,4-7
Sl 21
Fl 2,6-11
Mt 26,14 – 27,66

O mistério que hoje estamos celebrando – a Paixão e Morte do Senhor – e vamos celebrar de modo mais pausado e contemplativo nesses dias da Grande Semana, foi resumido de modo admirável na segunda leitura desta Eucaristia: o Filho, sendo Deus, tomou a forma de servo e fez-se obediente ao Pai por nós até a morte de cruz. E o Pai o exaltou e deu-lhe um nome acima de todo nome, para nossa salvação! Eis o mistério! Eis a salvação que nos foi dada!

Mas isso custou ao Senhor! É sempre assim: os ideais são lindos; coloca-los na vida, na carne de nossa existência, requer renúncia, lágrimas, sangue! O Filho, para nos salvar, teve que aprender como um discípulo, teve que oferecer as costas aos verdugos e o rosto às bofetadas! Que ideal tão alto; que caminho tão baixo! Que ideal tão sublime, que meios tão trágicos!

Foi assim com o nosso Jesus; é assim conosco! É na dor da carne da vida que o Senhor nos convida a participar da sua cruz e caminhar com ele para a ressurreição. Infelizmente, nós, que aqui nos sentamos à mesa com ele, tantas vezes o deixamos de lado: “Quem vai me trair é aquele que comigo põe a mão no prato!” – Eis! É para nós esta palavra! Comemos o seu Pão ao redor deste Altar sagrado e, no entanto, o abandonamos nas horas de cruz: “Esta noite vós ficareis decepcionados por minha causa!” – Que pena! Queríamos um Messias fácil, um Messias que nos protegesse contra as intempéries da vida, que fosse bonzinho para o mundo atual. Como seria bom um Messias de acordo com o assassinato de embriões, com o aborto, com a libertinagem reinante… Mas, não! Esse Messias prefere morrer a matar, esse Messias exige que o sigamos radicalmente, esse Messias nos convida a receber a mesma rejeição que ele recebe do mundo: Minha alma está triste até à morte. Ficais aqui e vigiai comigo!”

Irmãos, que vos preparais para celebrar estes dias sagrados, não vos acovardeis, não renegueis o nosso Senhor, não o deixeis padecer sozinho, crucificado por um mundo cada vez mais infiel e ateu, um mundo que denigre o nome de Cristo e de sua Igreja católica! Cuidado, irmãos! Não é fácil, não será fácil a luta: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca!” Que nos sustente a força daquele que por nós se fez fraco! Que nos socorra a intercessão daquele que orou por Pedro para que sua fé não desfalecesse! E se, como Pedro cairmos, ao menos, como Pedro, arrependamo-nos e choremos!

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos porque pela vossa santa cruz remistes o mundo!

D. Henrique Soares da Costa

Fonte: Presbíteros

Ainda que caminhe por um vale escuro…

 

2003-12-07- Advento na Casa Pontifícia

Um dia, Francisco de Assis exclamou: «Carlo imperador, Orlando e Olivero, todos os grandes guerreiros que foram valentes nos combates, perseguindo os infiéis com muito suor e fadiga até à morte, conseguiram sobre eles uma glória e memorável vitória, e por último estes santos mártires caíram em batalha pela fé de Cristo. Mas há muitos que, somente narrando suas gestas, querem receber honra e glória dos homens» (1).

Em uma de suas Admonições, o santo explicou o que havia querido dizer com aquelas palavras: «É uma vergonha para nós, servos do Senhor, o fato de que os santos atuaram com os fatos e nós, relatando e pregando as coisas que eles fizeram, queremos receber honra e glória» (2). Estas palavras me vêm à memória como um austero sinal no momento em que me disponho a oferecer a segunda meditação sobre a santidade de Madre Teresa de Calcutá.

1. Na escuridão da noite
O que ocorreu depois que Madre Teresa disse seu «sim» à inspiração divina que a chamava a deixar tudo para colocar-se a serviço dos mais pobres entre os pobres? O mundo conheceu bem o que sucedeu em torno a ela -a chegada das primeiras companheiras, a aprovação eclesiástica, o vertiginoso desenvolvimento de suas atividades caritativas–, mas até sua more, ninguém soube o sucedido dentro dela.

Revelam isso os diários pessoais e as cartas a seu diretor espiritual, divulgadas por ocasião de sua beatificação: «Com o início de sua nova vida a serviço dos pobres, uma opressiva escuridão veio sobre ela» (3). Bastam alguns breves fragmentos para dar uma idéia da densidade das trevas em que entrou.

«Há tanta contradição em minha alma, um profundo anseio de Deus, tão profundo que faz dano, um sofrimento contínuo -e com isso o sentimento de não ser querida por Deus, rejeitada, vazia, sem fé, sem amor, sem entusiasmo… O céu não significa nada para mim, me parece um lugar vazio» (4).

Não foi difícil reconhecer imediatamente nesta experiência de Madre Teresa um caso clássico do que os estudiosos da mística, detrás de São João da Cruz, chamam a noite escura do espírito. Taulero faz uma descrição impressionante desta etapa da vida espiritual:

«Então somos abandonados de tal forma que já não temos conhecimento de Deus e caímos em tal angústia que não sabemos se estivemos no caminho justo, nem sabemos já se Deus existe ou não, ou se nós mesmos estamos vivos ou mortos. De sorte que sobre nós cai uma dor tão estranha que nos parece que todo o mundo em sua extensão nos oprime. Já não temos nenhuma experiência nem conhecimento de Deus, e inclusive todo o demais nos parece repugnante, de forma que nos parece estar prisioneiros entre dois muros» (5).

Tudo permite pensar que esta escuridão acompanhou Madre Teresa até a morte (6), com um breve parêntese em 1958, durante o qual pôde escrever alegre: «Hoje minha alma está cheia de amor, de alegria indizível e de uma ininterrupta união de amor» (7). Se a partir de certo momento já não fala quase disso, não é porque a noite terminou, mas porque ela se adaptou a viver nesta. Não só a aceitou, mas reconhece a graça extraordinária que estabelece para ela.

«Comecei a amar minha escuridão, porque creio que esta é uma parte, uma pequenina parte, da escuridão e do sofrimento em que Jesus viveu na terra» (8).

A flor mais perfumada da noite de Madre Teresa é seu silêncio sobre isso. Tinha medo, ao falar disso, de fazer-se notar. As pessoas mais próximas a ela não suspeitavam de nada, até o final, deste tormento interior da Madre. Por ordem sua, o diretor espiritual teve de destruir todas as suas cartas e se algumas foram salvas é porque ele, com permissão dela, fez uma cópia para o arcebispo e futuro cardeal T. Picachy, as quais foram encontradas após a morte dela. O arcebispo, felizmente, rejeitou a petição que lhe fez também Madre Teresa de destruí-las.

O perigo mais insidioso para a alma na noite escura do espírito é o de… perceber que se trata, precisamente, da noite escura, daquilo que os grandes místicos viveram antes dela e, portanto, formar parte de um círculo de almas eleitas. Com a graça de Deus, Madre Teresa evitou este risco escondendo a todos seu tormento sob um eterno sorriso.

«Todo o tempo sorrindo, dizem de mim as irmãs e as pessoas. Pensam que meu interior está cheio de fé, confiança e amor… Se só souberem como minha aparência alegre não é senão um manto com o qual cubro vazio e miséria!» (9).

Os Padres do deserto dizem: «Por grandes que sejam tuas penas, tua vitória sobre elas está no silêncio» (10). Madre Teresa o pôs em prática de forma heróica.

2. Madre Teresa de Calcutá e Padre Pio de Pietrelcina
Por ocasião da canonização de Padre Pio de Pietrelcina, os observadores leigos expressaram o parecer de que a santidade do místico Padre Pio era uma santidade arcaica, diferentemente da de Madre Teresa, a santa da caridade, que seria uma santidade moderna. Agora descobrimos que também Madre Teresa era uma mística (que Padre Pio era também um santo da caridade basta para demonstrá-lo a obra que ele realizou no «alívio do sofrimento»).

O erro é contrapor estas duas marcas da santidade cristã, que vemos, ao contrário, com freqüência unidas admiravelmente, isto é, altíssima contemplação e intensíssima ação. Santa Catarina de Gênova, considerada uma das maiores da mística, foi desde Pio XII proclamada patrona dos hospitais na Itália por sua obra e a de seus discípulos a favor dos enfermos e dos incuráveis, que recorda de perto a obra de Madre Teresa em nossos dias.

Em um belo artigo, escrito com ocasião da beatificação, um autor indiano define Madre Teresa como «uma irmã para Gandhi» (11). Certamente muitas marcas reúnem as duas grandes almas, os dois Mahatma, da Índia moderna, mas é ainda mais justo, creio, ver em Madre Teresa «uma irmã para Padre Pio». Lhes une não só a mesma veneração da Igreja, mas também um mesmo ciclo de glória de parte da opinião pública mundial. Uma se distinguiu sobretudo nas obras de misericórdia corporais, o outro nas obras de misericórdia espirituais. Mas foi precisamente Madre Teresa a que recordou ao mundo de hoje que a pobreza pior não é a dos pobres de coisas, mas a dos pobres de Deus, de humanidade e de amor, a pobreza, em suma, do pecado.

A marca que mais aproxima estes dois santos é, talvez, precisamente a longa noite escura na qual viveram toda a vida. Sempre recordarei a impressão que tive ao ler o relato com que Padre Pio descrevia a seu pai espiritual o fato dos estigmas. Ele terminava fazendo suas as palavras do salmo que diz: «Senhor, não me corrijas em teu enojo, em teu furor não me castigue» (Sal 38, 2). Estava convencido e esta convicção lhe acompanhou toda a vida, de que os estigmas não eram um sinal de predileção e de aceitação de parte de Deus, mas, ao contrário, de sua rejeição e do justo castigo divino por seus pecados. Foi aquilo o que me abriu os olhos sobre a estatura mística deste irmão meu do qual, até então, me havia interessado pouco.

Para irradiar luz, estas duas almas tiveram que passar a vida na escuridão, convencidas, além disso, de «enganar as pessoas». São Gregório Magno diz que a característica dos homens superiores é que «na dor da própria tribulação, não descuidam da convivência dos demais; e enquanto suportam com paciência as adversidades que os golpeiam, pensam em ensinar aos demais o necessário, semelhantes nisso a certos grandes médicos que, afetados estes mesmos, esquecem suas feridas para atender os demais» (12). Este sinal resplandece em grau eminente na vida de Madre Teresa e de Padre Pio.

3. Não só purificação
Por que este estranho fenômeno de uma noite do espírito que dura praticamente toda a vida? Aqui há algo novo a respeito dos que viveram e explicaram os mestres do passado, incluindo São João da Cruz. Esta noite escura não se explica com a única idéia tradicional da purificação passiva, a chamada via purgativa, que prepara à via iluminada. Madre Teresa estava convencida de que se tratava precisamente disto em seu caso; pensava que seu «eu» era particularmente duro de vencer, se Deus se via obrigado a tê-la durante tão longo tempo nesse estado.

Mas isto não era certo. A interminável noite de alguns santos modernos é o meio de proteção inventado por Deus para os santos de hoje que vivem e trabalham constantemente sob os focos da mídia. É o traje de amianto para quem deve ir entre as chamas; é o isolamento que impede a corrente elétrica de sair provocando curtos-circuitos…

São Paulo dizia: «Para não me envaidecer com a sublimidade dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne» (2 Cor 12, 7). O espinho na carne, que era o silêncio de Deus, se revelou eficaz para Madre Teresa: a preservou de todo entusiasmo em medo a tudo o que o mundo dizia dela, também no momento de receber o prêmio Nobel da paz. «A dor interior que sente –dizia– é tão grande que não me afeta nada toda a publicidade e o falar das pessoas».

Também isto une Madre Teresa e Padre Pio. Um dia, Padre Pio, olhando pela janela a multidão reunida na praça, perguntou maravilhado ao irmão que tinha ao lado: «Por que vieram todos estes?», e a resposta: «Por você, Padre», retirou-se rapidamente suspirando: «Se só soubessem…».

Mas existe uma razão ainda mais profunda que explica estas noites que se prolongam durante toda uma vida: a imitação de Cristo, a participação na noite escura do espírito que envolveu Jesus no Getsemani e na qual morreu no Calvário, gritando: «Deus meu, Deus meu, por que me abandonou?». Na carta apostólica Novo millennio ineunte, a propósito do «rosto doente» de Cristo, o Papa escreve:

«Ante este mistério, além de investigação teológica, podemos encontrar uma ajuda eficaz naquele patrimônio que é a «teologia vivida» dos Santos. Estes nos oferecem algumas indicações preciosas que permitem acolher mais facilmente a intuição da fé, e isto graças às luzes particulares que alguns deles receberam do Espírito Santo, ou inclusive através da experiência que eles mesmos tiveram dos terríveis estados de prova que a tradição mística descreve como «noite escura». Muitas vezes os Santos viveram algo semelhante à experiência de Jesus na cruz na paradoxal confluência de felicidade e dor» (13).

A carta cita a experiência de Santa Catarina de Siena e de Teresa do Menino Jesus. Agora sabemos que poderia citar também o exemplo de Madre Teresa. Ela chegou a ver cada vez mais claramente sua prova como uma resposta a seu desejo de compartilhar o «Lugar» de Jesus na cruz.

«Se a pena e o sofrimento, minha escuridão e separação te dá uma gota de consolação, Jesus meu, faz de mim o que quiseres… Imprime em minha alma e vida o sofrimento de teu coração. Quero saciar tua sede com cada gota de sangue que possa encontrar em mim. Não te preocupes de voltar logo; estou disposto a esperar-te toda a eternidade» (14).

Seria um grande erro pensar que a vida destas pessoas seja toda sombrio sofrimento. A carta Novo Millennio ineunte, ouvimos, fala de uma «paradoxal confluência de felicidade e dor». No fundo da alma, estas pessoas gozam de uma paz e alegria desconhecidas para o resto dos homens derivados da certeza, mais forte que a dúvida, de estar na vontade de Deus. Santa Catarina de Gênova compara o sofrimento das almas neste estado ao do Purgatório, e diz que este «é tão grande que somente é comparável ao do inferno», mas que existe nelas uma «grandessíssima alegria» que somente se pode comparar a dos santos no Paraíso (15).

A alegria e a serenidade que emanavam do rosto de Madre Teresa não eram uma máscara, mas o reflexo da união profunda com Deus, em que vivia sua alma. Era ela que se «enganava» sobre si mesma, não as pessoas.

4. Ao lado dos ateus
Em lugar de santos «arcaicos», os místicos são os mais modernos entre os santos. O mundo de hoje conhece uma nova categoria de pessoas: os ateus de boa fé, aqueles que vivem dolorosamente a situação do silêncio de Deus, que não crêem em Deus mas não se vangloriam disso; experimentam mais a angústia existencial e a falta de sentido de tudo; vivem também eles, a seu modo, em uma noite escura do espírito. Albert Camus lhes chamava «os santos sem Deus». Os místicos existem sobretudo para eles; são seus companheiros de viagem e de mesa. Como Jesus, eles «estão sentados à mesa dos pecadores e comeram com eles» (Cf. Lc 15, 2).

Isto explica a paixão com a qual certos ateus, uma vez convertidos, lançaram-se sobre os escritos dos místicos: Claudel, Bernanos, os dois Maritain, L. Bloy, o escritor J. -K. Huysmans e muitos outros sobre os escritos de Angela de Foligno; T. S. Eliot sobre os de Giuliana de Norwich. Ali encontravam a mesma paisagem que haviam deixado mas desta vez iluminada pelo sol. Este ano se celebra o 50º aniversário da primeira representação de «Esperando Godot», o drama mais representativo do teatro do absurdo, mas poucos sabem que seu autor, Samuel Beckett, em seu tempo livre lia São João da Cruz.

A palavra «ateu» pode ter um sentido ativo e um sentido passivo. Pode indicar aquele que rejeita Deus, mas também aquele que –pelo menos assim lhes parece– é rejeitado por Deus. No primeiro caso, trata-se de um ateísmo de culpa (quando não é de boa fé), no segundo de um ateísmo de pena, ou de expiação. Neste último sentido podemos dizer que os místicos, na noite do espírito, são os a-teus, os sem Deus. Madre Teresa tem palavras que ninguém havia suspeitado nela:

«Dizem que a pena eterna que sofrem as almas no inferno é a perda de Deus… Em minha alma eu experimento precisamente esta terrível pena da perda, de Deus que não me quer, de Deus que não é Deus, de Deus que na realidade não existe. Jesus, te rogo, perdoa minha blasfêmia» (16).

Mas se dá conta da natureza distinta, de solidariedade e de expiação, deste «ateísmo» seu:

«Quero viver neste mundo tão longe de Deus e que deu as costas à luz de Jesus, para ajudar as pessoas, carregando com algo de seu sofrimento» (17).

Os místicos chegaram a um passo do mundo onde vivem os sem Deus; experimentaram a vertigem de precipitar-se para baixo. Escreve Madre Teresa a seu pai espiritual:

«Estive a ponto de dizer “não”… Sinto-me como se algo, um dia ou outro, tivesse de romper em mim». «Rogue por mim, para que eu não rejeite Deus nesta hora. Não quero fazê-lo, mas temo que possa fazê-lo» (18).

Por isto os místicos são os evangelizadores ideais no mundo pós-moderno, onde se vive «etsi Deus non daretur», como se Deus não existisse. Recordam aos ateus honestos que não estão «longe do reino de Deus»; que lhes bastaria dar um salto para encontrar-se ao lado dos místicos, passando do nada ao tudo. Tinha razão Karl Rahner ao dizer: «O cristianismo do futuro, ou é místico ou não será». Padre Pio e Madre Teresa são a resposta a este sinal dos tempos. Não devemos «desperdiçar» os santos reduzindo-os a dispensadores de graças ou de bons exemplos.

5. Nossa pequena noite
Os místicos têm contudo algo a dizer aos crentes, e não só aos ateus. Não são uma exceção, ou uma categoria à parte de cristãos. Mostram mais, como de forma ampliada, o que deveria ser a plena expansão da vida de graça. Uma coisa aprendemos especialmente da noite escura dos místicos, e em particular da de Madre Teresa; como comportar-nos em tempo de aridez, quando a oração se converte em luta, fatiga, um golpe da cabeça contra um «muro de lamentação».

Não é necessário insistir na oração de Madre Teresa em todos aqueles anos passados na escuridão; a imagem dela em oração é a que todos temos ainda ante os olhos. Uma série de belíssimas orações se encontra entre a herança mais preciosa que ela deixou a suas filhas e à Igreja. De Jesus, o evangelista Lucas diz que, «sumido em agonia, insistia mais em sua oração», factus in agonia prolixius orabat (Lc 22, 44). É o que se observa também na vida destas almas.

A aridez na oração, quando não é fruto de dissipação ou de pactos com a carne, mas permissão de Deus, é a forma atenuada e comum que a noite escura advém na maioria das pessoas que tendem à santidade. Nesta situação é importante não se render e começar a omitir a oração para entregar-se ao trabalho, visto que se consegue bem pouco estando em oração. Quando Deus não está, é importante ao menos que seu lugar permaneça vazio e que não seja ocupado por algum ídolo, especialmente o que chamamos ativismo.

Para impedir que isto ocorra é bom interromper cada momento o trabalho para elevar ao menos um pensamento a Deus, ou para sacrificar-lhe simplesmente um pouco de tempo. Em tempo de aridez há que descobrir um tipo de oração especial que a beata Angela de Foligno definia como a oração forçada e que diz ter praticado ela mesma:

«É bom e muito agradável a Deus que tu ores com o fervor da graça divina, que veles e te fatigues ao realizar toda ação boa; mas é mais agradável e aceitável ao Senhor se, faltando a graça, não diminuas tuas orações, tuas vigílias, tuas boas obras. Atue sem a graça da mesma maneira como o fazias quando a possuías… tu fazes tua parte, filho meu, e Deus fará a sua. A oração forçada, violenta, é muito agradável a Deus» (19).

Esta é uma oração que se pode fazer mais com o corpo que com a mente. Existe uma secreta aliança entre a vontade e o corpo e há de usá-la: a razão. Com freqüência, quando nossa vontade não pode ordenar à mente que tenha ou não certos pensamentos, pode ordenar ao corpo: os joelhos que se dobram, as mãos que se juntam, os lábios que se abrem e pronunciam algumas palavras, por exemplo, «Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo».

Um místico oriental, Isaac o Sírio, dizia: «Quanto teu coração está morto e já não temos a mínima oração nem súplica alguma, quando Ele vier, que nos encontre prostrados com o rosto em terra perpetuamente». Madre Teresa conheceu também esta oração «forçada».

«Não posso dizer-lhe o mal que senti outro dia; houve um momento no qual por pouco rejeitei aceitar. Então tomei decididamente o Rosário e o rezei lentamente e com calma, sem meditar nem pensar em nada» (20).

Simplesmente permanecer com o corpo na igreja, ou no lugar eleito para a oração, simplesmente estar em oração, é então o único modo que fica para continuar sendo perseverantes na oração. Deus sabe que poderíamos ir e fazer centenas de coisas mais úteis e que nos agradariam mais, mas permanecemos ali, consumimos em branco o tempo a Ele destinado por nosso horário ou por nosso propósito.

A um discípulo que se lamentava continuamente de não poder orar por causa das distrações, um ancião monje, ao que se havia dirigido, lhe respondeu; «que teu pensamento vá onde queira, mas que teu corpo não saia da cela!» (21). É um conselho que também nos serve, quando nos encontramos em situação de distrações crônicas que já não estão em nossas mãos poder controlar: que nosso pensamento vá aonde queira, mas que nosso corpo permaneça em oração!

Em tempo de aridez, devemos recordar a dulcíssima palavra do Apóstolo: «O Espírito vem em ajuda de nossa fraqueza…» (Rm 8, 26 s). Ele, sem que o notemos, enche nossas palavras e nossos gemidos de desejo de Deus, de humildade, de amor. O Paráclito se converte, então, na força de nossa oração «Fraca», na luz de nossa oração apagada; em uma palavra, na alma de nossa oração. Verdadeiramente, como diz a Sequência, Ele «rega o que é árido», rigat quod est aridum.

Tudo isto sucede por fé. Basta que eu diga: «Padre, tu me presenteaste o Espírito de Jesus; formando, por isso, “um só Espírito” com Ele, eu rezo este salmo, celebro esta Santa Missa, ou estou simplesmente em silêncio, aqui, em tua presença. Quero dar-te a glória e a alegria que te daria Jesus, se fosse Ele quem te orasse ainda desde a terra». Com esta certeza, concluímos nossa reflexão orando:

«Espírito Santo, Tu que intercedes no coração dos crentes com gemidos inefáveis, chama o coração de tantos de nossos contemporâneos que vivem sem Deus e sem esperança neste mundo. Ilumina a mente daqueles que neste momento estão delineando a fisionomia de nosso continente; faz-lhes compreender que Cristo não é uma ameaça para ninguém, mas irmão de todos. Que aos pobres, aos pequenos, aos perseguidos e aos excluídos da Europa de amanhã não lhes seja tirado, com culpado silêncio, a garantia que até agora mais lhes defendeu do arbítrio dos grandes e da dureza da vida; o nome do primeiro deles, Jesus de Nazaré!».

(1) Leyenda Perusina, 72 (Fontes Franciscanas, n. 1626)
(2) Admonições, VI (FF, n. 155).
(3) Pe. Joseph Neuner, S.J., On Mother Teresa’s Charism, “Review for Religious”, Set-Out 2001, vol. 60, vol. 60, n. 5 (Adiante abreviado: JN) (Os documentos citados nesta pregação colocou amavelmente à disposição a Postulação geral da Causa de Madre Teresa).
(4) “There is so much contradiction in my soul, such deep longing for God, so deep that it is painful, a suffering continual – yet not wanted by God, repulsed, empty, no faith, no love, no zeal… Heaven means nothing to me, it looks an empty Place” (JN)
(5) Juan Taulero, Homilia 40 (ed. G. Hofman, Johannes Tauler, Predigten, Friburgo em Br. 1961, p. 305).
(6) Cf. Pe. A. Huart, S.J., Mother Teresa: Joy in the Night, “Review for Religious”, Set-Out 2001. Vol. 60, n. 5 (Adiante abreviado AH).
(7) “Today my soul is filled with love, with joy untold, with an unbroken union of love” (JN)
(8) “I have begun to love my darkness for I believe now that it is a part, a very small part, of Jesus’ darkness and pain on earth” (JN).
(9) “The whole time smiling – Sisters and people pass such remarks – they think my faith, trust, and love are filling my very being… Could they but know – and how my cheerfulness is the cloak by which I cover the emptiness and misery” (AH).
(10) Apophtegmata Patrum, Poemen 37 (PG 65, 332).
(11) G. Varangalakudy, A sister for Gandhi, “The Tablett”, 11 outubro 2003, p. 12
(12) S. Gregorio Magno, Maralia in Job I,3,40 (PL 75, 619).
(13) NMI, 27
(14) “If my pain and suffering, my darkness and separation give you a drop of consolation, my own Jesus, do with me as you wish…Imprint on my soul and life the suffering of your heart… I want to satiate your thirst every single drop of blood that you can find in me… Please do not take the trouble to return soon. I am ready do wait for you for all eternity” (JN).
(15) Cf. S. Caterina da Genova, Trattato del Purgatorio, 4 (ed. Cassiano Carpaneto da Langasco, Sommersa nella fontana dell’amore. Santa Catarina Fieschi Adorno, vol. 2, Le opere, p. 96; cf. também vol. 1. La vita, pp. 49 s.
(16)”They say people in hell suffer eternal pain because of the loss of God… In my soul I feel just this terrible pain of loss, of God not wanting me, of God not being God, of God not reallly existing. Jesus, please forgive the blasphemy” (JN).
(17)”I wish to live in this world which is so far from God, which has turned so much from the light of Jesus, to help them – to take upon myself something of their suffering” (JN).
(18)”I have been on the verge of saying – No… I feel as if something will break in me one day”. “Pray for me that I may not refuse God in this hour – I don’t want to do it, but I am afraid I may do it” (AH).).
(19) Il libro della Beata Angela da Foligno, ed. Quaracchi, Grottaferrata, 1985, p. 576 s.
(20)”The other day I can’t tell you how bad I felt – there was a moment when I nearly refused to accept – deliberately I took the Rosary and very slowly without even meditating – I said it slowly and calmly” (AH).
(21) Apophtegmi dei padri, del manuscrito Coislin 126, n. 205 (ed. F. Nau, en “Revue de l’Orient Chrétien” 13, 1908, p. 279.
(Tradução realizada por Zenit)

Fonte: Padre Raniero Cantalamessa

Homilia de Bento XVI na Vigília Pascal

 

Amados irmãos e irmãs,

Uma antiga lenda judaica, tirada do livro apócrifo "A vida de Adão e Eva", conta que Adão, durante a sua última enfermidade, teria mandado o filho Set juntamente com Eva à na região do Paraíso buscar o óleo da misericórdia, para ser ungido com este e assim ficar curado. Aos dois, depois de muito rezar e chorar à procura da árvore da vida, aparece o Arcanjo Miguel para dizer que não conseguiriam obter o óleo da árvore da misericórdia e que Adão deveria morrer. Em seguida, os leitores cristãos adicionaram a esta comunicação do arcanjo, uma palavra de consolação. O Arcanjo teria dito que, depois de 5.500 anos, viria o benévolo Rei Cristo, o Filho de Deus, e ungiria com o óleo da sua misericórdia todos aqueles que acreditassem nele. "O óleo da misericórdia para toda a eternidade será dado a quantos deverão renascer da água e do Espírito Santo. Então, o Filho de Deus rico de amor, Cristo, descerá às profundezas da terra e conduzirá o teu pai ao Paraíso, para junto da árvore da misericórdia". Nesta lenda, faz-se palpável toda a aflição do homem diante do destino de enfermidade, dor e morte que nos foi imposto. Torna-se evidente a resistência que o homem oferece à morte: em algum lugar – repetidamente pensaram os homens – deveria existir a erva medicinal contra a morte. Mais cedo ou mais tarde, deveria ser possível encontrar o remédio não somente contra as diversas doenças, mas contra a verdadeira fatalidade – contra a morte. Deveria, em suma, existir o remédio da imortalidade. Também hoje, os homens andam à procura de tal substância curativa. A ciência médica atual, incapaz de excluir a morte, procura, contudo, eliminar o maior número possível das suas causas, adiando-a sempre mais; procura uma vida sempre melhor e mais longa. Mas, pensemos um pouco: caso se conseguisse quiçá não excluir totalmente a morte mas adiá-la indefinidamente, como seria chegar a uma idade de várias centenas de anos? Isto seria bom? A humanidade envelheceria numa medida extraordinária; não haveria lugar para a juventude. A capacidade de inovação se apagaria e uma vida interminável não seria um paraíso, mas uma condenação. A verdadeira erva medicinal contra a morte deveria ser diversa. Não deveria levar simplesmente a uma prolongação indefinida desta vida atual. Deveria transformar a nossa vida a partir do interior. Deveria criar em nós uma vida nova, verdadeiramente capaz de eternidade: deveria transformar-nos de tal modo que não terminasse com a morte, mas com ela iniciasse em plenitude. A novidade impressionante da mensagem cristã, do Evangelho de Jesus Cristo era, e ainda é, dizer-nos isto: sim, esta erva medicinal contra a morte, este autêntico remédio da imortalidade existe. Foi encontrado. É acessível. No Batismo, este medicamento nos é dado. Uma vida nova começa em nós, uma vida nova que amadurece na fé e não é cancelada pela morte da vida velha, mas só então se tornará plenamente visível.

Ouvindo isto alguns, quiçá muitos, responderão: a mensagem sim, eu escuto, mas falta-me a fé. E, mesmo quem quer acreditar perguntará: mas, é verdadeiramente assim? Como devemos imaginá-la? Como se realiza esta transformação da vida velha, de tal modo que nela se forme a vida nova que não conhece a morte? Mais uma vez, um antigo escrito judaico pode nos ajudar a ter uma idéia daquele processo misterioso que tem início em nós no Batismo. Neste escrito se conta que o patriarca Henoc foi arrebatado até ao trono de Deus. Mas, ele se atemorizou à vista das gloriosas potestades angélicas e, na sua fraqueza humana, não pôde contemplar a Face de Deus. "Então Deus disse a Miguel – assim continua o livro de Henoc – ‘Toma Henoc e tira-lhe as vestes terrenas. Unge-o com o óleo suave e reviste-o com vestes de glória! ‘ E, Miguel tirou as minhas vestes, ungiu-me com óleo suave; este óleo possuía algo mais que uma luz radiosa… O seu esplendor era semelhante aos raios do sol. Quando me vi, eis que eu era como um dos seres gloriosos" (Ph. Rech, Inbild des Kosmos, II 524).

Isto mesmo – ser revestidos com a nova veste de Deus – verivica-se Batismo; assim nos ensina a fé cristã. É verdade que esta mudança das vestes é um percurso que dura toda a vida. Aquilo que acontece no Batismo é o início de um processo que abarca toda a nossa vida –torna-nos capazes de eternidade, de tal modo que, na veste de luz de Jesus Cristo, podemos aparecer diante de Deus e viver com Ele para sempre.

No rito do Batismo, há dois elementos nos quais este evento se expressa e torna visível, também como exigência para o resto da nossa vida. Em primeiro lugar, temos o rito das renúncias e das promessas. Na Igreja Antiga, o batizando virava-se para ocidente, símbolo das trevas, do pôr do sol, da morte e, portanto, do domínio do pecado. O batizando virava-se para aquela direção e pronunciava um tríplice "não": ao diabo, às suas pompas e ao pecado. Com a estranha palavra "pompas", ou seja, o fausto do diabo, indicava-se o esplendor do antigo culto dos deuses e do antigo teatro, onde a diversão era ver pessoas vivas sendo dilaceradas pelas feras. Portanto, isto era o repúdio de um tipo de cultura que acorrentava o homem à adoração do poder, ao mundo da cobiça, à mentira, à crueldade. Era um ato de libertação da imposição de uma forma de vida que se apresentava como prazer e, contudo, levava à destruição daquilo que no homem são as suas qualidades melhores. Esta renúncia – com um comportamento menos dramático – constitui ainda hoje uma parte essencial do Batismo. Assim removemos as "vestes velhas", com as quais não se pode estar diante de Deus. Melhor dito: começamos a depô-las. Com efeito, esta renúncia é uma promessa na qual damos a mão a Cristo, para que Ele nos guie e revista. Quais sejam as "vestes" que depomos e qual seja a promessa que pronunciamos fica claro quando lemos, no quinto capítulo da Carta aos Gálatas, aquilo que Paulo denomina "obras da carne" – termo que significa precisamente as vestes velhas que devem ser depostas. Paulo as designa assim: "fornicação, libertinagem, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a essas" (Gal 5, 19ss). São estas as vestes que depomos; são vestes da morte.

Em seguida, o batizando na Igreja Antiga se virava para oriente – símbolo da luz, símbolo do novo sol da história, novo sol que se levanta, símbolo de Cristo. O batizando determina a nova direção da sua vida: a fé em Deus trino, a quem ele se oferece. Assim, o próprio Deus nos veste com o traje de luz, com a veste da vida. Paulo chama a estas novas "vestes" "fruto do Espírito" e as descreve com as seguintes palavras: "caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência" (Gal 5, 22).

Na Igreja Antiga, depois o batizando era verdadeiramente despojado das suas vestes. Descia à fonte batismal e era imerso por três vezes – um símbolo da morte que significa toda a radicalidade deste despojamento e desta mudança de veste. Esta vida, que em todo o caso já está voltada à morte, o batizando a entrega à morte, junto com Cristo, e por Ele se deixa arrastar e elevar para a vida nova, que o transforma para a eternidade. Depois subindo das águas batismais, os neófitos eram revestidos com a veste branca, a veste luminosa de Deus, e recebiam a vela acesa como sinal da vida nova na luz que Deus mesmo acendera neles. Eles sabiam que tinham obtido o remédio da imortalidade, que agora, no momento de receber a sagrada Comunhão, tomava a sua forma plena. Na Comunhão, recebemos o Corpo do Senhor ressuscitado e nós mesmos somos atraídos para este Corpo, de tal modo que ficamos já guardados por Aquele que venceu a morte e nos conduz através da morte.

No decorrer dos séculos, os símbolos tornaram-se mais escassos, mas o acontecimento essencial do Batismo continue sendo o mesmo. Este não é apenas um lavacro, e menos ainda uma recepção um pouco complicada numa nova associação. O Batismo é morte e ressurreição, renascimento para a nova vida.

Sim, a erva medicinal contra a morte existe. Cristo é a árvore da vida, que se fez novamente acessível. Se aderimos a ele, então estamos na vida. Por isso, nesta noite da ressurreição, cantaremos com todo o coração o aleluia, o canto da alegria que não tem necessidade de palavras. Por isso Paulo pode dizer aos Filipenses: "alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos!" (Fl 4, 4). Não se pode comandar a alegria. Somente pode ser dada. O Senhor ressuscitado nos dá a alegria: a verdadeira vida. Já estamos protegidos para sempre guardados no amor daquele a quem foi dado todo o poder no céu e na terra (cf. Mt 28,18). Assim, seguros de ser escutados, peçamos como diz a oração sobre as oferendas que a Igreja eleva nesta noite: Acolhei, ó Deus, com estas oferendas as preces do vosso povo, para que a nova vida, que brota do mistério pascal, seja por vossa graça penhor da eternidade. Amém.

Por que Deus não fala comigo ?

 

No livro do Êxodo, ficamos conhecendo a história de Moisés, que, tendo matado um Egípcio, esconde-se de faraó em Madiã. Neste povoado, conhece sua esposa, filha de Jetro, sacerdote daquele lugar. Na leitura de hoje (18/07/07 – Ex 3, 1-6.9-12), Moisés estava cuidando do rebanho do seu sogro, quando, entrando pelo deserto, chegou ao monte Horeb, chamado monte do Senhor. Moisés viu então uma sarça – planta espinhosa da família das acácias – que queimava e não se consumia. Para ver melhor, aproximou-se. Foi então que Deus falou com ele.

Vendo o Senhor que ele se aproximou para ver, chamou-o do meio da sarça: “Moisés, Moisés!” “Eis-me aqui!” respondeu ele. E Deus: “Não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma terra santa. Eu sou, ajuntou ele, o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó”. Moisés escondeu o rosto, e não ousava olhar para Deus.

Foi nessa mesma ocasião que Deus transmitiu a Moisés a missão de libertar o povo hebreu do Egito. Deus falou a Moisés por meio de uma sarça, e poderia ter escolhido qualquer outro meio. Ele nos fala por pessoas, por acontecimentos, por muitas maneiras… por que não ouvimos? Por que temos a sensação de que Deus está em silêncio e não nos fala ? Na passagem acima, Deus diz a Moisés para tirar as sandálias dos pés. As sandálias então eram feitas de couro animal. Eram uma proteção para os pés. Vejamos que para ouvir o que Deus tinha a dizer, Moisés teve que tirar tudo o que portava que era animal, tirar a proteção, a couraça, a armadura. Precisamos, para ter a experiência de ouvir Deus, retirar de nós tudo o que é instinto animal; a gula, a busca por prazeres sensoriais, o egoísmo, etc. Precisamos estar entregues, sem máscara, sem armadura, precisamos "baixar a guarda". Assim, poderemos entrar em terra santa, para ouvir o que Deus tem a nos dizer.

Para escutar o Pai, precisamos principalmente escutar o Filho (Mt 11, 25-27). Somente somos capazes de escutar e compreender o Pai, se buscamos escutar o Filho, procurando viver seus ensinamentos. Dessa forma, encontraremos força para levarmos à frente nossa missão, seja ela qual for. Moisés tinha como missão libertar seu povo, qual será a nossa ? Libertar nossa família, nossos amigos, nossos colegas de trabalho ? Trazê-los para junto de Deus ? Somente saberemos qual é nossa missão quando, descalços e limpos de tudo o que impede que escutemos Deus, respondermos como Moisés: "Eis-me aqui !"

Notas tomadas durante a homilia de 18/07/2007 – Missa das 19:30 – Paróquia Nª Sª da Conceição de Realengo – Pe. Bruno Lins.