Conta e Tempo

Deus pede estrita conta do meu tempo
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta.
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta;
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.
Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo…"

(Autor: Frei Antônio das Chagas, Séc. XVII)

Poesia para almas cansadas de tanta tribulação… (II)

Poesias neolatinas… Reparem bem nas estrofes, a ortografia do Português é diferente, mas não se perde a compreensão das idéias dos autores. Boa leitura!

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Da Oração

Por Frei Agostinho da Cruz (1540-1619)

Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:

Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.

Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?

Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?

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Trecho extraído do Auto da Alma

 Por Gil Vicente (1465?-1537?)

Santo Agostinho

Consolar à sua despesa
Nesta mesa
Qualquer alma caminheira
Necessário foi, amigos,
Que nesta triste carreira
Desta vida,
Para os mui perigosos perigos
Dos imigos,
Houvesse algua maneira
De guarida.
Porque a humana transitória
Natureza vai cansada
Em várias calmas,
Nesta carreira de glória
Meritória,
Foi necessária pousada
Para as almas.

Pousada com mantimentos,
Mesa posta em clara luz,
Sempre esperando,
Com dobrados mantimentos
Dos tormentos
Que o Filho de Deus, na cruz,
Comprou, penando.
Sua morte foi avença,
Dando, por dar-nos paraíso,
A sua vida
Apreçada, sem detença,
Por sentença
Julgada a paga em provido
E recebida.
A sua mortal empresa
Foi: santa estalajadeira
Igreja Madre
Com o padre.
E o Anjo Custódio aio
Alma que lhe é encomendada
Se enfraquece
E lhe vai tomando raio
De desmaio
E chegando a esta pousada
Se guarece.

Anjo:

Alma humana, formada
De nenhuma cousa, feita
Mui preciosa,
De corrupção separada,
E esmaltada
Naquela frágua perfeita,
Gloriosa;
Planta neste vale posta
Para dar celestes flores
Olorosas,
E para serdes transposta
Em a alta costa
Onde se criam primores
Mais que rosas.

Planta sois e caminheira,
Que ainda que estais, vos is
Donde viestes.
Vossa pátria verdadeira
é ser herdeira
Da glória que conseguis;
Andai prestes,
Alma bem-aventurada,
Dos anjos tanto querida,
Não durmais;

Um ponto não esteis parada,
Que a jornada
Muito em breve é fenecida
Se atentais.

 

 Fonte: http://www.geocities.com/Paris/LeftBank/2238/1indice1.htm

Poesia para almas cansadas de tanta tribulação… (I)

À VIRGEM SANTÍSSIMA

Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia

(Anthero de Quental)

Num sono todo feito de incerteza,
De noturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza.

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade,
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza.

Um místico sofrer, uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira.

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!

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BUSCANDO A CRISTO

(Gregório de Matos)

À vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p’ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.