A maternidade segundo o espírito

Excelente reflexão sobre a maternidade.

Suma Teológica - Summae Theologiae

Edith_Stein

Santa Teresa Benedita da Cruz – Edith Stein,

Deutsche Bundespost (1983)

Carta Apostólica Mulieris Dignitatem

Sumo Pontífice João Paulo II, 1988

[nº21]

A virgindade no sentido evangélico comporta a renúncia ao matrimônio e, por conseguinte, também à maternidade física. Todavia, a renúncia a este tipo de maternidade, que pode também comportar um grande sacrifício para o coração da mulher, abre para a experiência de uma maternidade de sentido diverso: a maternidade «segundo o espírito» (cf. Rm 8, 4). A virgindade, de fato, não priva a mulher das suas prerrogativas. A maternidade espiritual reveste-se de múltiplas formas. Na vida das mulheres consagradas que vivem, por exemplo, segundo o carisma e as regras dos diversos Institutos de caráter apostólico, ela poderá exprimir-se como solicitude pelos homens, especialmente pelos mais necessitados: os doentes, os deficientes físicos, os abandonados, os órfãos, os idosos, as crianças, a juventude, os encarcerados, e, em…

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Maria no Evangelho

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Não acompanharemos aqui passo a passo todos os “evangelhos de Maria”. Debruçar-nos-emos apenas sobre alguns textos evangélicos, guiados pelo desejo de captar o que acima se mencionava: que nos diz Deus de Maria? O que é que Ele pensa e quer dela? Simultaneamente, guiar-nos-á o propósito de verificar se a devoção a Maria, tal como a vivem os fiéis católicos, está em sintonia com a vontade de Deus. Para este fim, parece-nos especialmente esclarecedor, como ponto de partida, meditar a narração de São Lucas sobre a Visitação de Maria a sua prima Santa Isabel.
Quando Maria se encaminhou à casa de Isabel, ainda soavam nos seus ouvidos e no seu coração os ecos da mensagem da Anunciação. No seu seio, o Verbo – a segunda Pessoa da Santíssima Trindade – já se fizera carne. Ela era mãe e, em seu corpo virginal, trazia Deus feito homem, formava-lhe um corpo.
Por uma alusão incidental do Anjo Gabriel na Anunciação, Maria tomou conhecimento de que também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na sua velhice; e este é o sexto mês daquela que se dizia estéril (Lc 1,36).
A sua reação imediata foi pensar que Isabel precisaria de ajuda. E é por isso que vai sem demora oferecer o seu auxílio à prima idosa, que se preparava para a primeira experiência da maternidade: Levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel (Lc 1, 39-40).
Até aqui, o Evangelho apresenta uma cena de delicada caridade. Mas, a partir desse momento da narrativa, a cena familiar do encontro das duas mulheres eleva-se a um plano diverso, ganhando uma significação inesperada. Deus intervém. São Lucas descreve o que se passou com os acentos do imprevisto: “Aconteceu”, diz. Passou-se algo que não era esperado. Aconteceu que, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Exclamou ela em alta voz e disse… (Lc 1, 41-42).
Não há a menor dúvida de que o Evangelho mostra neste texto que Deus vai falar por boca de Isabel. Vai falar como o fizera pelos Profetas, cheios do Espírito Santo; e todos sabemos que a voz dos Profetas era a voz de Deus: Deus falou outrora muitas vezes e de muitos modos aos nossos pais pelos Profetas – assim começa a Epístola aos Hebreus (1, 1). Agora dispõe-se a falar de novo.
Pensando bem, o que é que seria lógico esperar dos lábios de Isabel, quando o Espírito Santo a invade – a ela e ao filho que traz nas entranhas –, inundando-a da alegria de receber em sua casa o Salvador de que Maria é portadora, o Messias esperado por séculos e séculos a fio, o próprio Deus habitando entre os homens?
Em princípio, seria razoável esperar que, perante um fato de tal transcendência, Isabel – movida pelo Espírito Santo – entoasse um cântico de adoração e de agradecimento ao Deus, Senhor de céus e terra, que se dignava chegar a sua casa. Diante da presença do Deus vivo, tudo se obscurece, todas as criaturas passam a um segundo plano, como sombras que, quando muito, refletem tenuemente os raios do Sol divino.
Certamente Isabel louva o seu Senhor e exulta nEle em alegre agradecimento. Mas a verdade é que todas as palavras que pronuncia são – do começo ao fim – um louvor e uma glorificação de Maria. É Deus quem fala por ela – precisamos repisá-lo –, e em conseqüência essas palavras inspiradas expressam o que Deus nosso Senhor “pensa” e “quer dizer” daquela que escolheu como Mãe.
Prestemos atenção ao texto do Evangelho: …Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Exclamou ela em alta voz e disse: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que a mãe do meu Senhor venha ter comigo? Porque logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas (Lc 1, 41-45). Cada palavra, cada frase, tem um peso.
Se acompanharmos o ritmo das expressões de Isabel, na sua seqüência linear, perceberemos logo que começam com um louvor a Maria, que identifica a Virgem com a mulher abençoada por Deus de uma forma única entre todas as mulheres; e que se segue um louvor a Cristo, mas a Cristo contemplado através de Maria, precisamente como filho dela: “bendito o fruto do teu ventre”. Esta é a primeira palavra que Deus profere sobre Nossa Senhora por intermédio de Isabel.
Lê-se a seguir uma segunda frase, cujo significado é este: a proximidade de Maria, a presença e a conversa com a Virgem, é um bem, é uma bênção para a alma a quem Ela se chega. “Donde me é dado que a mãe do meu Senhor venha ter comigo?” Isabel sente-se beneficiada por um dom imerecido. Não se limita a agradecer à sua parenta a atenção que está tendo com ela; se se sente honrada, para além de todo o merecimento, é porque recebeu a visita da “Mãe do meu Senhor”. É isto justamente o que a comove: que, diante dos seus olhos, está a Mãe de Deus, e a Mãe de Deus é portadora das bênçãos do céu.
Esta referência emocionada de Isabel ao dom, ao benefício recebido pela visita da Mãe do seu Senhor, torna-se ainda mais explícita e clara nas palavras que profere a seguir, com a fluência de um cântico: “Porque logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre”.
Só entenderemos cabalmente esta frase se não esquecermos que, pouco antes, São Lucas já se referira a um duplo efeito – um duplo dom – produzido pelas palavras de “saudação” proferidas por Maria: por um lado, a alegria sobrenatural de João Batista, que saltou no seio de sua mãe; por outro, a efusão do Espírito Santo na alma de Isabel. É da maior importância perceber que esse duplo dom, conforme diz o Evangelho, tenha sido concedido por Deus em virtude da presença de Maria.
O texto, com efeito, expressa uma autêntica relação de causalidade entre a chegada de Maria, a voz de Maria, e os dons divinos derramados na alma de Isabel e do seu filho. Tudo aconteceu “apenas Isabel ouviu a voz de Maria”, “logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos”, e aconteceu “por isso”. Aqui não se está falando de sentimentos ou de reações emocionais subjetivas – do estado psicológico provocado humanamente pela visita de Maria –, mas de uma iniciativa divina, de uma ação direta de Deus sobre Isabel – “ficou repleta do Espírito Santo” –, que o Evangelho vincula a Maria como causa instrumental. Deus agiu por intermédio dEla.
Também encerram uma grande riqueza as últimas palavras pronunciadas por Isabel. Trata-se de um novo louvor: “Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas”. Se esta frase não se encontrasse no Evangelho, provavelmente acharíamos excessivo o que ela diz. Surpreendentemente, Isabel – Deus por ela – afirma sem ambigüidades que “as coisas que da parte do Senhor foram ditas a Maria” se cumprirão porque Ela acreditou.
Ora, o que é que são essas coisas ditas da parte do Senhor, senão as que pouco antes o Anjo Gabriel anunciara à Virgem? Darás à luz um filho…, será grande, será chamado Filho do Altíssimo…, reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e o seu Reino não terá fim (Lc 1, 31-32). Sem dúvida, as “coisas que foram ditas” são, nem mais nem menos, o plano divino da Redenção da humanidade através da Encarnação, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.
Então, também é fora de dúvida que Isabel afirma que este plano se há de cumprir porque Maria acreditou, isto é, porque abraçou com fé e confiança plenas o convite de Deus para ser a Mãe do Redentor. Isto significa que Deus, em seus desígnios imperscrutáveis, quis fazer depender a Redenção da humanidade, de algum modo, da colaboração de Maria. Por outras palavras, Deus quis contar com a Virgem Santíssima, não como simples instrumento passivo, mas como parte ativa e colaboradora livre da obra da Redenção.
Estas considerações simples abrem-nos desde já como que uma janela, através da qual podemos contemplar o mistério de Maria a partir da perspectiva de Deus, e, simultaneamente, permitem-nos avaliar – segundo a mesma perspectiva – o sentido da devoção que o povo cristão dedica a Maria Santíssima. Na verdade, esses “pensamentos” de Deus são verdadeiros focos de luz, que iluminam por dentro os mistérios da vida e da vocação de Nossa Senhora.

(Padre Faus, Maria, Mãe de Deus, Ed Quadrante)

Maio, mês de Maria

As referências dos Evangelhos e do Atos dos Apóstolos a Maria, Mãe de Jesus, apesar de poucas, deixam ver muito desta privilegiada criatura, escolhida para tão alta missão. São Paulo, na Carta aos Gálatas (4,4), dá a entender claramente que, no pensamento divino de nos enviar o Seu Filho, quando os tempos estivessem maduros, uma Mulher era predestinada a no-Lo dar. Para que se compreenda a presença da Virgem Maria nesta predestinação divina, a Igreja, na festa de 8 de dezembro, aplica à Mãe de Deus aquilo que o livro dos Provérbios (8, 22) diz da sabedoria eterna: "Os abismos não existiam e eu já tinha sido concebida. Nem fontes das águas haviam brotado nem as montanhas se tinham solidificado e eu já fora gerada. Quando se firmavam os céus e se traçava a abóboda por sobre os abismos, lá eu estava junto dele e era seu encanto todos os dias". Era, pois, a predestinada nos planos divinos.

Para se perceber melhor o perfil materno de Nossa Senhora, três passagens bíblicas podem esclarecer isso. A primeira é a das Bodas de Caná, que realça a intercessora. Quando percebeu – o olhar feminino que tudo vê e tudo observa – estar faltando vinho, sussurra no ouvido do Filho sua preocupação e obtém, quase sem pedir, apenas sugerindo, o milagre da transformação da água em generoso vinho. Ela é, de fato, a mãe que se interessa pelos filhos de Deus que são seus filhos.

Outra passagem do Evangelho esclarecedora da personalidade de Maria é a que nos mostra seu silêncio e sua humildade. O anjo a encontra na quietude de sua casa, rezando, para dizer-lhe que fora escolhida por Deus para dar ao mundo o Emanuel, o Salvador. Ela se assusta com a mensagem celeste, porque, na sua humildade, nunca poderia ter pensado em ser escolhida do Altíssimo. Acolhe assim, por vontade divina, a palavra do mensageiro, silenciosamente, sem dizer, nem sequer ao noivo, José, o que nela se realizava. Deus tem o direito de escolher e por isso ela diz apenas o generoso “sim” que a tornou Mãe de Deus.

O terceiro traço de Maria-Mãe é sua corajosa atitude diante do sofrimento. Ao apresentar o seu Jesus no templo, ouve a assustadora profecia do velho Simeão: “Uma espada de dor transpassará a tua alma”. Pouco mais tarde, estreitando ao peito o Menino Jesus, deve fugir para o Egito com o esposo, para que a crueldade de Herodes não atingisse a Criança que – pensava ele, Herodes – lhe poderia roubar o trono. Quando seu Filho tem doze anos, desencontra-se dele e, ao achá-Lo após três dias, queixa-se amorosamente: “Por que fizeste isto? Eu e teu pai te procurávamos, aflitos”. Sua coragem se confirma na Paixão e Crucifixão de Jesus. De pé, ali no Calvário, sofre e associa-se ao sacrifício do Redentor. É a mulher forte, a mãe corajosa e firme, a quem a dor não derruba. De fato, a espada de Simeão lhe atravessara a alma e o coração. É a Senhora das Dores.

Maio, mês dedicado a Nossa Senhora, pela piedade cristã, é um convite para voltarmos nosso olhar a esta Mãe querida para pedir-lhe que abra as mãos maternas em bênção de carinho sobre nossos passos nesta difícil escalada da Jerusalém celeste.

Dom Benedicto de Ulhoa Vieira
Arcebispo Emérito de Uberaba – MG

Sofrimento humano e mistério da cruz

 

Costumamos pensar no sofrimento como algo que deve ser evitado a todo o custo, E não há nada que irrite mais determinadas sociedades do que a ideia cristã de que se deveria suportar a dor  e o sofrimento, e mesmo entregar-se a eles, a fim de superá-los. Sofrer, dizia João Paulo II, é parte do mistério de ser homem. Por que é assim? 

Hoje, o que se pretende é eliminar o sofrimento da face da terra. Para o indivíduo, isso significa evitar a todo o custo a dor. No entanto, precisamos enxergar também que é precisamente dessa forma que o mundo se torna muito duro e muito frio. A dor é parte do ser humano.

Quem quisesse realmente livrar-se do sofrimento, antes de mais nada teria que livrar-se do amor; não há amor sem sofrimento, pois o amor sempre exige certa dose de sacrifício: diante das diferenças de temperamento e dos dramas humanos, sempre trará consigo renúncia e dor.

Quando sabemos que o caminho do amor – esse êxodo, esse sair de si mesmo – é o verdadeiro caminho pelo qual o homem se torna humano, compreendemos também que o sofrimento é o processo pelo qual amadurecemos. Quem aceita interiormente o sofrimento torna-se mais maduro e mais compreensivo com  as fraquezas dos outros: mais humano. Quem evita com pertinácia o sofrimento não é capaz de entender os outros: torna-se duro e egoísta. O próprio amor é uma paixão, isto é, algo que acontece conosco. No amor, a primeira experiência é uma alegria, um sentimento geral de alegria; mas, por outro lado, vejo-me arrancado à minha confortável tranquilidade e tenho que deixar-me reformular.

Se compreendermos que o sofrimento é o "lado de dentro" do  amor, entenderemos também como é importante aprender a sofrer – e veremos por que, em sentido inverso, a fuga de todo o sofrimento torna a pessoa incapaz de lidar com a vida: cairia num estado de vazio existencial, que só pode estar associado à amargura, à rejeição, e já não permite nenhuma aceitação interior nem nenhum progresso na direção da maturidade.

Fonte: Deus e o Mundo, Joseph Ratzinger em entrevista a Peter Seewald.

O Castelo Interior

 

Não é pequena lástima e confusão que, por nossa culpa, não nos entendamos a nós mesmos, nem saibamos quem somos. Não seria grande ignorância, minhas filhas, que perguntassem a alguém quem era e não se conhecesse, nem soubesse quem foi seu pai, nem sua mãe, nem sua terra? Pois, se isto seria grande estupidez, sem comparação é maior a que há em nós quando não procuramos saber que coisa somos e só nos detemos nestes corpos; e assim, só a vulto sabemos que temos alma, porque o ouvimos e porque no-lo diz a fé. Mas, que bens pode haver nesta alma ou quem está dentro dela, ou o seu grande valor, poucas vezes o consideramos; e assim se tem em tão pouco procurar com todo o cuidado conservar sua formosura. Tudo se nos vai na grosseria do engaste ou cerca deste castelo; que são estes corpos.

[…]

Porque, tanto quanto eu posso entender, a porta para entrar neste castelo é a oração e reflexão, não digo mais mental que vocal; logo que seja oração, há-de ser com consideração; porque naquela em que não se adverte com Quem se fala e o que se pede e quem é que pede e a Quem, não lhe chamo eu oração, embora muito meneie os lábios. E, se algumas vezes o for, mesmo sem este cuidado, será porque se teve em outras; mas, quem tivesse por costume falar com a Majestade de Deus como falaria a um seu escravo, que nem repara se diz mal, mas o que lhe vem à boca e decorou, porque já o fez outras vezes, não o tenho por oração e preza a Deus nenhum cristão a tenha desta sorte. Que entre vós, irmãs, espero em Sua Majestade não haverá tal oração, pelo costume que há de tratardes de coisas interiores, e que é muito bom para não cairdes em semelhante bruteza.

Não falemos, pois, com estas almas tolhidas, que, se não vem o mesmo Senhor mandar-lhes que se levantem – como aquele que havia 30 anos que estava junto à piscina-, têm muito má ventura e correm grande perigo; mas sim com outras almas que, por fim, entram no castelo; porque, ainda que estejam muito metidas no mundo, têm bons desejos e algumas vezes, ainda que de longe em longe, encomendam-se a Nosso Senhor e consideram quem são, ainda que sem muita demora. Alguma vez ou outra, num mês, rezam cheias de mil negócios, o pensamento quase de ordinário nisso, porque, como estão tão apegadas a eles, o coração se lhes vai para onde está o seu tesouro. Propõem algumas vezes, para consigo mesmos, desocuparem-se, e já é grande coisa o próprio conhecimento e o ver que não vão bem encaminhadas para atinar com a porta. Enfim, entram nas primeiras dependências do rés-do-chão; mas entram com elas tantas sevandijas, que não lhes deixam ver a formosura do castelo nem sossegar: muito fazem já em ter entrado.

[…]

(Santa Teresa D´Avila – O Castelo Interior).

Este livro ajuda a muitos a iniciarem na Vida interior… para baixá-lo na internet basta ir ao link: Alexandria Católica – Santa Teresa D´Avila .

Reflexão quaresmal: Desprendimento

 

Os bens materiais são bons, porque são de Deus. São meios que Deus pôs à disposição do homem desde a criação, para que se desenvolvesse em sociedade com os outros. Somos administradores desses bens por um breve espaço de tempo. Tudo nos deve servir para amar a Deus – Criador e Pai – e aos outros. Se nos apegamos às coisas que temos e não praticamos atos de desprendimento efetivo, se os bens não nos servem para fazer o bem, se nos separam do Senhor, então não são bens, convertem-se em males.

Exclui-se do Reino dos céus todo aquele que põe as riquezas como centro da sua vida; idolatria, é como chama São Paulo à avareza. Um ídolo ocupa o lugar que só Deus deve ocupar. Exclui-se de uma verdadeira vida interior, de um relacionamento de amor com o Senhor, todo aquele que não quebra as amarras, ainda que finas, que o atam de um modo desordenado às coisas, às pessoas e a si próprio. “Porque tanto faz – diz São João da Cruz – que uma ave esteja presa por um fio muito fino ou por uma corda, porque, mesmo que seja um fio, tão presa estará a ele como à corda, enquanto não o quebrar para poder voar. É verdade que o fio é mais fácil de quebrar; mas, por mais fácil que seja, se não o quebrar, não voará”. […]

Este tempo da Quaresma é muito oportuno para examinarmos a nossa atitude em face das coisas e em face de nós mesmos: Tenho coisas desnecessárias ou supérfluas? Evito tudo o que para mim significa luxo e mero capricho, ainda que não o seja para outros? Estou apegado às coisas ou instrumentos que devo utilizar no meu trabalho? Queixo-me quando não disponho do necessário? Levo uma vida sóbria, própria de uma pessoa que quer ser santa? Faço gastos inúteis por precipitação ou por falta de previsão? Pratico habitualmente a esmola, generosamente, sem avareza? Contribuo para a manutenção de alguma obra apostólica e para o culto da Igreja com uma ajuda proporcionada aos meus ganhos e despesas?

O desprendimento necessário para seguir de perto o Senhor inclui, além dos bens materiais, o desprendimento de nós mesmos: da saúde, do que os outros pensam de nós, das ambições nobres, dos triunfos e êxitos profissionais. “Refiro-me também […] a esses anseios límpidos com que procuramos exclusivamente dar toda a glória a Deus e louvá-lo, ajustando a nossa vontade a esta norma clara e precisa: Senhor, só quero isto ou aquilo se for do teu agrado, porque, senão, para que me interessa? Assestamos assim um golpe mortal no egoísmo e na vaidade, que serpenteiam por todas as consciências; ao mesmo tempo, alcançamos a verdadeira paz na nossa alma, com um desprendimento que acaba na posse de Deus, cada vez mais íntima e mais intensa”. É assim que estamos desprendidos dos frutos do nosso trabalho?

Os cristãos devem possuir as coisas como se nada possuíssem. Diz São Gregório Magno que “possui como se nada possuísse aquele que ajunta todas as coisas necessárias para o seu uso, mas prevê cautamente que logo as há de deixar. Usa deste mundo como se não usasse aquele que dispõe do necessário para viver, mas não permite que nada disso domine o seu coração, para assim estar a serviço do bom andamento da alma, que tende para coisas mais altas”.

Desprendimento da saúde corporal. “Punha-me a considerar quanto importa não nos amedrontarmos com a nossa fraca disposição quando se trata claramente de servir o Senhor […]. Para quê a vida e a saúde, senão para as perder por tão grande Rei e Senhor? Crede-me, irmãs, nunca vos fará mal seguir por este caminho”.

Os nossos corações são para Deus, porque foram feitos para Ele e somente nEle saciarão as suas ânsias de felicidade e de infinito. “Jesus não se satisfaz «compartilhando»; quer tudo”. Todos os outros amores nobres e limpos que compõem a nossa vida aqui na terra, cada um segundo a específica vocação recebida de Deus, ordenam-se para esse grande Amor: Jesus Cristo Nosso Senhor, e dele se alimentam.

Senhor, Vós que amais a inocência e a devolvei aos que a perderam, atraí para Vós os nossos corações e queimai-os no fogo do vosso Espírito.

Santa Maria, nossa Mãe, ajudar-nos-á a limpar e ordenar os afetos do nosso coração para que só o seu Filho reine nele. Agora e por toda a eternidade. Coração dulcíssimo de Maria, guardai o nosso coração e preparai-lhe um caminho seguro.

Fonte: Falar com Deus

Todos os Santos

 

Alguém já disse que a Igreja é uma “Fábrica de Santos”; certamente trata-se de uma deveras profunda. Se o motivo da existência da Igreja fundada por Jesus (sobre esta pedra edificarei a minha Igreja) é ensinar a todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ou seja, evangelizar a todos, qual o motivo último senão que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade, numa palavra, que todos sejam santos? “Sede santos, como vosso Pai do céu é santo.”

No entanto, diante de nossas fraquezas e limitações, nossos pecados e inclinações, poderíamos achar que o Evangelho seria algo muito bonito, uma mensagem produnda da paz que plasmou a cultura dos povos, mas uma grande e bela utopia, algo inatingível para nós, simples humanso e pecadores. Neste momento, eis que diante de nossos olhos, literalmente, à vista de seus rostos, de suas imagens são-nos propostas as vidas de homens e mulheres, crianças, adultos e idosos, ricos e pobres, nobres e plebeus, de todas as etinias e épocas, que, em seu próprio estado de vida, vocação e profissão, tornaram-se referência viva do Evangelho. De fato, os santos, são o audiovisual da fé, a Sagrada Escritura em multimídia. Seus rostos, suas histórias, suas vidas, são um resumo, cada um a seu modo, da Palavra de Deus.

Se podemos afirmar a Deus escreveu dois livros, um escrito – a Bíblia, outro feito de imagens – a criação, e que se é possível chegar a Ele e ler sua assinatura nestas duas obras-primas, podemos dizer sem sombra de dúvida, que a Igreja escreveu um terceiro livro, de certa forma, resumo dos dois, feito de palavras e rostos, imagens que ensinam por si só a beleza da Boa-Nova, de como se pode ser feliz. Bem-Aventurado nesta vida quem faz da Palavra Eterna do Pai, a fonte de sua existência…

Celebramos a festa de todos os Santos e Santas de Deus, nossos antepassados que nos ensinam – são nossas histórias de família – que é possível chegar ao céu, que vale a pena viver na graça de Deus aqui na terra, que o céu se conquista fazendo o bem. Bendito seja Deus, nos seus Anjos e nos seus Santos!

Texto retirado do Folheto “A Missa”, da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. (06/11/2011)

Reflexão para o Domingo de Páscoa–Ano A

 

Domingo de Páscoa – Ressurreição do Senhor

Ano A

Citações bíblicas:

At. 10,34a.37-43: www.clerus.org/bibliaclerusonline/it/9bus0jj.htm

Col. 3,1-4: www.clerus.org/bibliaclerusonline/it/9abscnc.htm

Jo. 20,1-9: www.clerus.org/bibliaclerusonline/it/9abthdt.htm

Quão grande deve ter sido a admiração que expressaram os olhos de Maria Madalena! Quão grande o tremor ao ver a sepultura, onde estava o corpo Daquele que foi a causa da mudança de rumo fundamental e definitiva de sua vida, e que agora está aberta e vazia: “Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram”.

O corpo de Jesus era a última coisa que restava àquele pequeno grupo de pessoas, fascinados por Ele. Parecia que o poder daquela época tivesse vencido. E agora, aquele pequeno tesouro, contido num sepulcro destinado a estar fechado para todo o sempre, tinha sido “retirado”.

A preciosidade daquele corpo e daquele lugar é a única razão que poderia explicar a corrida de Pedro e João, quando apenas receberam a notícia da Madalena: agora, Jesus não estava mais com eles, tinham a necessidade de um sepulcro, junto ao qual poderiam chorar a perda do Mestre, e queriam estar certos que ninguém o tivesse profanado.

A passagem evangélica de hoje nos chama a atenção não pelas as coisas que nos são relatadas, mas por aquelas que não são descritas: não nos é dito como o Senhor ressuscitou e não nos é descrito como os discípulos o viram! O que realmente domina a cena é o “sepulcro vazio”.

Tão logo entraram naquela cova cavada na pedra, deram-se conta de tudo o que havia acontecido: “Viu e creu” (Jo. 20,8). Mas o que viram? “As faixas de linho no chão, e o pano que tinha coberto a cabeça de Jesus: este pano não estava com as faixas, mas enrolado num lugar à parte” (Jo. 20,6-7). Em si, um fato banal, sem significado relevante, mas que foi suficiente para fazer com que os olhos de João se abrissem à verdade. “Ressuscitei e estarei sempre contigo” (Cf. Antifona de entrada), assim deve ter escutado, com o próprio coração, o discípulo amado!

Ademais, se paramos um momento para refletir, o Senhor continua a entrar em nossas vidas através dos encontros, gestos ou situações que, para a maior parte das pessoas, poderiam resultar insignificantes, mas que para nós assumem a mesma importância que tiveram aqueles panos de linho para o discípulo amado.

Depois de dois mil anos, aquele sepulcro está ainda vazio, mas diante de um acontecimento desses, cada um de nós é chamado a tomar uma decisão. Como fazê-lo de forma consciente, sem que sejam outros a decidirem por nós? Não nos servem grandes conhecimentos ou uma inteligência superior. Podemos ser testemunhas do Senhor Ressuscitado, podemos reconhecer no sinal das faixas ali deixadas, a sua ressurreição, somente se estamos dispostos a deixar que Ele entre em nossas vidas e as cumulem com o seu Espírito. Será a amizade com Cristo, a familiaridade com Ele, dia após dia, que nos levará a darmo-nos conta “de tudo o que Jesus fez” (At. 10,39) e nos ajudará a compreender que a esperança – de justiça, de bem, de bondade, de verdade, de beleza – que se ascendeu quando o encontramos, realmente se realizará.

O cristão não é um visionário ou um iludido, mas sim uma pessoa dotada de simplicidade de coração, a tal ponto que o leva a chamar as coisas pelo próprio nome e, dessa forma, o que para o mundo é uma “sepultura vazia”, para nós tornou-se o maior sinal da única Presença que pode satisfazer os anseios do nosso coração.

“Ressuscitei e estarei sempre contigo” é o que o Senhor, neste momento, está dizendo também a você!

Fonte: Clerus.org

A Batina do pobre

Por Prof. Carlos Ramalhete

Costumo dizer que a única coisa boa que a TV Globo já fez no Brasil foi não deixar as pessoas esquecerem que padre usa batina. Para a imensa maioria das pessoas, hoje em dia, padre de batina é coisa que só se vê em novela. É uma pena.

Além das questões legais (o Código de direito canônico manda usar, sendo contudo legalmente permitida no Brasil a sua substituição pelo "clergyman") e espirituais (a batina é um sacramental), há uma questão social e psicológica que me parece estar sendo deixada de lado por muita gente boa.

É simples: a batina é um uniforme. A diferença maior entre o pobre e o rico, entre quem serve e quem é servido, é que o pobre, geralmente, trabalha de uniforme. Seja o faxineiro ou o trocador do ônibus, o porteiro ou a mocinha que serve atrás do balcão, é a impossibilidade de escolha do vestuário que designa quem está ali para servir.

É até curioso perceber como é geralmente fácil descobrir o dono de uma lanchonete ou padaria: enquanto os empregados estão todos de uniforme, frequentemente com direito até a touquinhas tampando os cabelos, o dono é o único sujeito atrás do balcão que não usa uniforme. É como um delegado de polícia entre soldados da PM, como um doutor que passa altaneiro entre os faxineiros que, anônimos, varrem os corredores.

O objetivo primeiro do uniforme é justamente este: a negação da
personalidade. É por isso que os "bacanas" fogem do uniforme como o Diabo da cruz, mas o impõem aos menos afortunados. O faxineiro é o faxineiro; o "bacana" é o Doutor Fulano. Doutor Fulano usa gravatas vistosas, terno que brilha, sapatos engraxados. O faxineiro é invisível, não tem nome, não tem brilho, não tem nada que não o seu humilde serviço, que só é percebido quando não é feito. Ele é faxineiro.

Um pesquisador da USP fez uma curiosa experiência, que lhe valeu um livro ("Homens invisíveis – Relatos de uma humilhação social", de Fernando Braga da Costa, ISBN 8525038911): uniu-se aos faxineiros da própria universidade, onde estudava e tinha amigos e colegas aos magotes. Ele simplesmente sumiu. Desapareceu atrás do uniforme: pessoas que sempre o cumprimentavam não mais o viam, amigos passavam por ele sem perceberem sua existência… De homem, de personalidade que faz escolhas (inclusive de vestuário), ele passou a ser um ente categorial: um faxineiro sem nome, invisível como os meios-fios que lava e as latas de lixo que esvazia.

O mesmo acontece com a mocinha atrás do balcão, com o motorista do ônibus ("aquele ônibus me fechou!"), com, em suma, todos os pobres que a sociedade não quer ver afirmados como pessoas.

O padre que usa batina afirma-se, assim, categorial: ele não é o Fulano, mas é um padre, é alguém que está ao serviço dos outros. A batina é um componente da pobreza evangélica, que é negada quando o padre se dá ao luxo de escolher roupa, parecer "bacana", de poder escolher – ao contrário do faxineiro ou da moça atrás do balcão – se vai ou não servir.

O padre de roupa social parece um "doutor", alguém que é percebido como uma pessoa que faz escolhas, que atende quem quer atender, que ou bem não está "no serviço" ou bem é importante o suficiente para definir os termos do seu serviço, como o dono da padaria. Para os mais pobres, isso é algo que faz do padre uma figura psicologicamente distante. Quem é faxineiro, quem é trocador, quem trabalha de uniforme reconhece sempre que por trás do uniforme há um ser humano. Mas também reconhece no uniforme o sinal do serviço, o sinal da disponibilidade para atender. Quem é "bacana", quem trabalha sem uniforme, vê do mesmo modo no uniforme do padre – a batina – um sinal de disponibilidade.

A disponibilidade do padre é e deve ser absoluta, por não ser, como é o caso dos outros trabalhadores de uniforme, algo limitado a uma dada situação. O trocador do ônibus, fora do veículo, não é trocador: é apenas trabalhador, identificado como tal pelo seu uniforme. Mas o padre nunca está "fora do serviço", porque não serve à companhia de ônibus, mas a Deus e, por Ele e n’Ele, aos homens.

Passar desapercebido, como passa o faxineiro quando vestido com suas roupas de folga, não é para o padre uma opção. Ele deve estar disponível para o escarro do herege e para a confissão do fiel, porque não há folga no seu serviço.

O mesmo, evidentemente, vale para o hábito religioso das freiras e
frades: se eles o usam, mostram estar "em serviço", mostram estar à disposição para quem precise de uma oração, para quem precise de ajuda. Chega a ser engraçado ouvir de alguns padres a justificativa furadíssima de que não usam batina porque querem se identificar com "o pobre"! Só se for com o pobre de folga… ou com o rico que alguns pobres sonham em ser.

Pobre usa uniforme quando trabalha. Quem o dispensa, ou melhor, quem a ele não é obrigado, é a madame – e o que há de freira fantasiada de madame! -, é o "doutor"- e o que há de padre com roupa social, entrando ou saindo de um carro, indistinguível, para todos os que estão em torno, de qualquer rico acumulando bens e negando serviço!

O uso do "clergyman", a meu ver, apresenta também este problema: é próximo demais de um terno, de uma roupa de quem, por sua posição social, pode se dar ao luxo – negado ao pobre – de negar seu serviço. Como todos sabem, o uso do "clergyman", originalmente, uma roupa usada por "pastores" protestantes, surgiu na Igreja como uma forma de apagar a identidade do sacerdote, tornando-o indistinguível dos protestantes em lugares onde padres corriam o risco de ser atacados na rua, tamanho o sentimento anti-católico.

É por isso, por ser em cada país diferente a situação do clero, que a legislação canônica faculta às Conferências episcopais de cada país autorizar ou não o uso do "clergyman" em substituição à batina. Presume-se que a Conferência possa distinguir se é ou não necessário "esconder" o padre. No Brasil, é ridícula a idéia de que isso seja necessário, o que faz da permissão dada pela CNBB um abuso de um direito lícito. Em outras palavras: é permitido usar o "clergyman" no lugar da batina no Brasil, mas não existem as razões que autorizariam esta substituição, apenas o frio texto da lei.

Cumpre mesmo observar que só reconhece no "clergyman" uma roupa de padre quem já é "de Igreja", quem já viu padres assim vestidos. A TV Globo, graças a Deus, manteve viva a percepção nas massas afastadas da Igreja de que padre usa batina: para quem não é "de Igreja", o "clergyman" indica que seu portador é um "pastor" protestante, não um padre.

Há ainda outra razão para o uso da batina, igualmente importante: a simbologia deste um uniforme específico. Assim como a roupa do faxineiro o faz ser indiscutivelmente um faxineiro e a roupa do motorista faz com que ele não seja confundido com o atendente da lanchonete, a batina mostra que ali há um padre. O hábito não faz o monge, mas o identifica.

Isto tem vários benefícios. Para o padre, há o benefício imediato de que sua condição será sempre reconhecida antes mesmo que abra a boca. Por exemplo, a mocinha que vê o rapaz bonito vestido de batina vai logo suspirar que é um "desperdício", sem achar que ele possa ser um namorado em potencial. Isto vai livrar o padre de algumas tentações mais perigosas que a média, e vai livrar a mocinha de um desapontamento sério. Afinal, a moça honesta não tenta seduzir o padre que ela sabe ser padre, mas pode tentar e conseguir seduzir o padre que ela não identificou como tal e que, por fraqueza, não desfez o malentendido. A chance de um momento de fraqueza se transformar em uma relação desorganizada duradoura é muito menor para o padre cuja batina à vista afasta desde logo as moças honestas. Resta-lhe apenas lidar com as que querem um "troféu" sacrílego, mas estas dificilmente quereriam uma relação duradoura. São quedas de que é mais fácil se levantar.

Do mesmo modo, o reconhecimento do padre como tal faz com que ele seja chamado na rua quando há um acidente e alguém jaz moribundo, para ministrar-lhe os sacramentos, quando há uma crise espiritual em andamento, o que pode salvar uma alma e mesmo uma vida (conheço um padre que, reconhecido pela batina, foi chamado numa lanchonete e convenceu uma moça a não abortar), quando há, em suma, a necessidade do seu serviço.

E, finalmente, o padre de batina, como a freira ou o frade de hábito, servem como "homens-sanduíche" (aquelas pessoas com placas enormes na frente e nas costas, anunciando a compra de ouro ou os serviços de uma lanchonete): eles anunciam que Deus não esqueceu de nós. A simples visão de um padre ou freira pode servir, e serve, para muita gente como um "recado" de que devem se emendar, devem procurar voltar à Fé. É uma presença da Igreja no mundo, mais forte que os sinos da Matriz ou que milhares de campanhas de propaganda. É um bem enorme prestado à sociedade, um lembrete de que há algo além da cobiça, da luxúria, do orgulho.

Que Deus abençoe todos os padres e religiosos que andam pelo mundo sem medo de mostrar que, como qualquer outro pobre, estão em serviço. Um serviço, porém, que não acaba e que não tem folga: o serviço do Bem.

Trabalho: Trabalho e contemplação

 

Ser contemplativos é desfrutar do olhar de Deus. Por isso, quem se sabe acompanhado por Ele durante o dia, vê com outros olhos as ocupações nas quais está empenhado.

Gostaria que hoje, na nossa meditação, nos persuadíssemos definitivamente da necessidade de nos dispormos a ser almas contemplativas, no meio da rua, do trabalho, mantendo com o nosso Deus um diálogo contínuo, que não deve decair ao longo do dia. Se pretendermos seguir lealmente os passos do Mestre, esse é o único caminho.[1]

Para aqueles que são chamados por Deus  a santificar-se no meio do mundo,  converter o trabalho em oração e ter alma contemplativa, é o único caminho, porque ou sabemos encontrar o Senhor em nossa vida ordinária, ou nunca O encontraremos[2].

Opus Dei -

Convém que meditemos bem devagar sobre este ensinamento capital de São Josemaria. Neste texto, consideraremos o que é a contemplação; em outras ocasiões deter-nos-emos no aprofundamento da vida contemplativa no trabalho e nas atividades da vida ordinária.

COMO EM NAZARÉ, COMO OS PRIMEIROS CRISTÃOS

A descoberta de Deus na atividade habitual de cada dia dá aos próprios afazeres seu valor último e sua plenitude de sentido. A vida oculta de Jesus em Nazaré, os anos intensos de trabalho e de oração, nos quais Jesus Cristo levou uma vida comum — como a nossa, se o quisermos —,  divina e humana ao mesmo tempo[3], mostram que a atividade profissional, a atenção dedicada à família e as relações sociais não são obstáculo para orar sempre[4], mas ocasião e meio para uma vida intensa de intimidade com Deus, até que chega um momento em que é impossível estabelecer uma diferença entre trabalho e contemplação.

Por esse caminho de contemplação na vida ordinária, seguindo as pegadas do Mestre, decorreu a vida dos primeiros cristãos: «quando passeia, conversa, descansa, trabalha ou lê, o crente ora»[5], escrevia um autor do século II. Anos mais tarde, São Gregório Magno testemunha, como um ideal tornado realidade em numerosos fiéis, que «a graça da contemplação não se dá sim aos grandes e não aos pequenos; mas muitos grandes a recebem, e também muitos pequenos; e tanto entre os que vivem retirados como entre pessoas casadas. Portanto, se não há estado algum entre os fiéis que fique excluído da graça da contemplação, aquele que guarda interiormente o coração pode ser ilustrado com essa graça»[6].

Opus Dei -

O Magistério da Igreja, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, recordou muitas vezes esta doutrina, tão importante para os que têm a missão de levar Cristo a todas as partes e transformar o mundo com o espírito cristão. «As atividades diárias apresentam-se como um precioso meio de união com Cristo, podendo converter-se em matéria de santificação, terreno de exercício das virtudes, diálogo de amor que se realiza nas obras. O espírito de oração transforma o trabalho e assim torna-se possível estar em contemplação de Deus ainda que permanecendo nas ocupações mais variadas»[7].

A CONTEMPLAÇÃO DOS FILHOS DE DEUS

Ensina o Catecismo que «a contemplação de Deus na Sua glória celestial é chamada pela Igreja "visão beatífica"»[8]. Desta contemplação plena de Deus, própria do Céu, podemos ter uma certa antecipação nesta terra, um princípio imperfeito [9] que, embora seja de ordem diversa da visão, é já uma verdadeira contemplação de Deus, assim como a graça, embora sendo de ordem distinta da glória, é, não obstante, uma verdadeira participação na natureza divina. Agora vemos como num espelho, obscuramente; depois veremos cara a cara. Agora conheço de modo imperfeito, depois conhecerei como sou conhecido [10], escreve São Paulo.

Essa contemplação de Deus como num espelho, durante a vida presente, é possível graças às virtudes teologais, à fé e à esperança vivas, informadas pela caridade. A fé unida à esperança e vivificada pela caridade «faz-nos saborear antecipadamente o gozo e a luz da visão beatífica, fim de nosso caminhar aqui em baixo»[11].

A contemplação é um conhecimento amoroso e gozoso de Deus e de seus desígnios manifestados nas criaturas, na Revelação sobrenatural e plenamente na Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, nosso Senhor. «Ciência de amor»[12], chama-a São João da Cruz. A contemplação é um conhecimento total da verdade, alcançado não por um processo de raciocínio, mas por uma intensa caridade[13].

A oração mental é um diálogo com Deus. Escreveste-me: "Orar é falar com Deus. Mas, de quê?" — De quê? D´Ele e de ti: alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias…, fraquezas!: e ações de graças e pedidos: e Amor e desagravo. Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te: "relacionar-se!"[14]. Na vida espiritual, este relacionamento com Deus tende a simplificar-se à medida que aumenta o amor filial, cheio de confiança. Sucede então que, com frequência, já não são necessárias as palavras para orar, nem as exteriores nem as interiores. Sobram as palavras, porque a língua não consegue expressar-se; já o entendimento se aquieta. Não se raciocina, olha-se![15].

Isto é a contemplação, um modo de orar ativo mas sem palavras, intenso e sereno, profundo e simples. Um dom que Deus concede aos que o buscam com sinceridade, aos que põem toda a alma no cumprimento de Sua Vontade, com obras, e procuram mover-se na sua presença. Primeiro uma jaculatória, e depois outra, e outra…, até que parece insuficiente esse fervor, porque as palavras resultam pobres…: e dá-se passagem à intimidade divina, num olhar para Deus sem descanso e sem cansaço[16]. Isto pode suceder, como ensina São Josemaria, não só nos tempos dedicados expressamente à oração, mas também enquanto realizamos com a maior perfeição possível, dentro de nossos erros e limitações, as tarefas próprias de nossa condição e de nosso ofício[17].

SOB A ACÃO DO ESPÍRITO SANTO

O Pai, o Filho e o Espírito Santo habitam na alma em graça[18]: somos templos de Deus[19]. As palavras não chegam para expressar a riqueza do mistério da Vida da Santíssima Trindade em nós: o Pai que gera eternamente o Filho, e que com o Filho expira ao Espírito Santo, vínculo de Amor subsistente. Pela graça de Deus, tomamos parte dessa Vida como filhos. O Paráclito une-nos ao Filho, que assumiu a natureza humana para nos fazer participantes da natureza divina: ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus a seu Filho, nascido de mulher (…) a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: «¡Abba, Pai!»[20]. E nesta união com o Filho não estamos sós, mas formamos um corpo, o Corpo místico de Cristo, ao qual todos os homens estão chamados a incorporar-se como membros vivos e a ser, como os apóstolos, instrumentos para atrair a outros, participando no sacerdócio de Cristo[21].

Opus Dei -

A vida contemplativa é a vida própria dos filhos de Deus, vida de intimidade com as Pessoas Divinas e transbordante de afã apostólico. O Paráclito infunde em nós a caridade que nos permite alcançar um conhecimento de Deus que sem a caridade é impossível, pois o que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor[22]. Quem mais O ama melhor O conhece, já que esse amor —a caridade sobrenatural— é uma participação na infinita caridade que é o Espírito Santo[23], que tudo perscruta, até as profundezas de Deus. Pois quem sabe o que existe no homem, senão o espírito do homem que está nele? Assim também, as coisas de Deus ninguém as conheceu se não o próprio Espírito de Deus[24].

Esse Amor, com maiúscula, instaura na vida da alma uma estreita familiaridade com as Pessoas Divinas, e um entendimento de Deus mais agudo, mais rápido, certeiro e espontâneo, em profunda sintonia com o Coração de Cristo[25]. Também no plano humano, os que se amam compreendem-se com mais facilidade e por isso São Josemaria recorre a essa experiência para transmitir de algum modo o que é a contemplação de Deus; por exemplo, dizia que em sua terra, às vezes, se dizia: olha como o contempla!; e explicava como esse modo de dizer se referia a uma mãe que tinha seu filho nos braços, a um noivo que contemplava sua noiva, à mulher que velava a cabeceira do marido. Pois bem, assim devemos contemplar ao Senhor.

Mas toda a realidade humana, por mais formosa que seja, transforma-se em uma sombra da contemplação que Deus concede às almas fiéis. Se a caridade sobrenatural supera em altura, em qualidade e em força qualquer amor simplesmente humano, que dizer dos dons do Espírito Santo, que nos permitem deixar-nos conduzir docilmente por Ele? Com o crescimento destes dons – Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor Filial—, cresce a co-naturalidade ou a familiaridade com Deus e se revela todo o colorido da vida contemplativa.

Em especial, pelo dom da Sabedoria – o primeiro e maior dos dons do Espírito Santo[26]—, é-nos concedido não só conhecer e assentir às verdades reveladas acerca de Deus e das criaturas, como é próprio da fé, mas também saborear essas verdades, conhecê-las com «um certo sabor de Deus»[27]. A Sabedoria – sapientia – é uma sapida scientia: uma ciência que se saboreia. Graças a este dom não só se crê no Amor de Deus, mas também se sabe de um modo novo[28]. É um saber ao qual só se chega com santidade: e há almas obscuras, ignoradas, profundamente humildes, sacrificadas, santas, com um sentido sobrenatural maravilhoso: Eu Te glorifico, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondestes  estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as revelastes aos pequeninos[29]. Com o dom da Sabedoria, a vida contemplativa introduz-se nas profundezas de Deus[30]. Neste sentido, São Josemaria nos convida a meditar sobre um texto de São Paulo, no qual nos propõe todo um programa de vida contemplativa —conhecimento e amor, oração e vida— (…): que Cristo habite pela fé nos vossos corações; e que arraigados e cimentados na caridade, possais compreender com todos os santos qual é a largura e a grandeza, a altura e a profundidade do mistério; e conhecer também aquele amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento para que vós estejais repletos de toda a plenitude de Deus (Ef 3,17-19)[31].

Temos de implorar ao Espírito Santo o dom de Sabedoria junto com os restantes dons, seu séquito inseparável. São os presentes do Amor divino, as joias que o Paráclito entrega aos que querem amar a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças.

PELO CAMINHO DA CONTEMPLAÇÃO

Quanto maior for a caridade, mais intensa é a familiaridade com Deus, na qual surge a contemplação.Até a caridade mais fraca, como a de quem se limita a não pecar gravemente, mas que não busca cumprir em tudo a Vontade de Deus, estabelece uma certa conformidade com a Vontade divina. No entanto, um amor que não busca amar mais, que não tem o fervor da piedade, parece-se mais com a cortesia formal de um estranho do que com o afeto de um filho. Quem se conformasse com isso em sua relação com Deus não passaria de um conhecimento das verdades reveladas, insípido e passageiro, porque quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, é semelhante a um homem que contempla a figura de seu rosto no espelho: olha-se, vai embora  e imediatamente se esquece de como era[32].

Muito diferente é o caso de quem deseja sinceramente identificar em tudo sua vontade com a Vontade de Deus e, com a ajuda da graça, emprega os meios: a oração mental e vocal, a participação nos Sacramentos – a Confissão frequente e a Eucaristia -, o trabalho e o cumprimento fiel dos próprios deveres, a procura da presença de Deus ao longo do dia: o cuidado do plano de vida espiritual junto com uma intensa formação cristã.

O ambiente atual da sociedade conduz muitos a viverem voltados para o exterior, com uma permanente ânsia de possuir isto ou aquilo, de ir daqui para ali, de olhar e ver, de mover-se, de distrair-se com futilidades, talvez com o objetivo de esquecer seu vazio interior, a perda do sentido transcendente da vida humana. Àqueles que, como nós, descobrimos o chamado divino à santidade e ao apostolado, deve suceder o contrário. Quanto mais atividade exterior, mais vida para dentro, mais recolhimento interior, procurando o diálogo com Deus presente na alma em graça e mortificando os afãs da concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida[33]. Para contemplar a Deus é preciso limpar o coração. Bem aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus[34].

Peçamos à Nossa Mãe Santa Maria que nos obtenha do Espírito Santo o dom de sermos contemplativos no meio do mundo, dom que excedeu na sua vida santíssima.

Texto de: J. López. Fonte: Opus Dei

[1] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 238.
[2] São Josemaria, Conversações, n. 114.
[3] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 56.
[4] Lc 18, 1.
[5] Clemente de Alexandría, Stromata, 7, 7.
[6] São Gregório Magno, In Ezechielem homiliae, 2, 5, 19.
[7] João Paulo II, Discurso ao Congresso «A grandeza da vida ordinária», no centenário do nascimento de São Josemaria, 12-I-2002, n. 2.
[8] Catecismo da Igreja Católica, n. 1028.
[9] Cfr. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q. 12, a. 2, c; e II-II, q. 4, a.1; q. 180, a. 5, c.
[10] 1 Cor 12, 12. Cfr. 2 Cor 5, 7; 1 Jn 3, 2.
[11] Catecismo da Igreja Católica, n. 163.
[12] São João da Cruz, Noite escura, liv. 2, cap. 18, n. 5.
[13] Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 180, a. 1, c e a.3, ad 1.
[14] São Josemaria, Caminho, n. 91.
[15] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 307.
[16] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 296.
[17] Idem.
[18] Cfr. Jo 14, 23.
[19] Cfr. 1 Cor 3, 16; 2 Cor 6, 16.
[20] Gal 4, 4-6.
[21] Cfr. 1 Cor 12, 12-13, 27; Ef 2, 19-22; 4, 4.
[22] 1 Jo 4, 9.
[23] Cfr. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 24, a. 7, c. In Epist. ad Rom., c. 5, lect. 1.
[24] 1 Cor 2, 10-11.
[25] Cfr. Mt 11, 27.
[26] Cfr. João Paulo II, Alocução 9-04-1989.
[27] Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae II-II, q. 45, a. 2, ad 1.
[28] Cfr. Rm 8, 5.
[29] Mt 11, 25.
[30] 1 Cor 1, 10.
[31] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 163.
[32] St 1, 23-24.
[33] 1 Jo 2, 16.
[34] Mt 5, 8.