Catequese Bíblica (II): Êxodo

Textos lidos na Paróquia Sâo Dimas, em Padre Miguel, Rio de Janeiro, antes das Missas dominicais.

 

Caríssimos Irmãos,

Hoje daremos continuidade ao nosso estudo catequético da Sagrada Escritura. Mais uma vez, renovamos o convite para que todos tragam suas Bíblias, a fim de acompanhar as citações.

O segundo livro do Pentateuco chama-se Êxodo (Ex), nome que em grego significa “saída”. A mensagem essencial contida no livro pode ser resumida como segue: Deus elegeu seu povo e fez-lhe uma promessa. Tal eleição e promessa são garantidas pela aliança. Comprometendo-se pelas promessas que faz, Deus exige, como única contrapartida, a fidelidade de seu povo. As condições desta fidelidade, estabelecidas pelo próprio Deus, estão na lei que Deus revelou ao seu povo na montanha sagrada, escrevendo-as com o “seu Dedo” (Ex 31,18), e que regula a conduta do povo eleito conforme a Sua vontade. Este, porém, mesmo após ter sido liberto e conduzido por Deus, é-lhe infiel, fazendo para si ídolos e murmurando, a cada dificuldade: “O Senhor está, ou não está, no meio de nós?” (Ex 17,7).

O Gênesis termina com a ida de Jacó com seus filhos para o Egito, onde José era administrador. Com a morte de José (Gn 50) e a subida ao trono de um novo Faraó, que, preocupado com o crescimento da população hebreia (Ex 1,7), passou a oprimi-la com trabalhos forçados e controle de natalidade, o povo clama a Deus, que intervém, levantando, do meio do povo, Moisés, o libertador.

O Êxodo se inicia com a opressão dos israelitas no Egito (Ex 1), narra o nascimento e vocação de Moisés (Ex 2-4), a saída do Egito mediante as dez pragas e a celebração da Páscoa (Ex 7, 8-29,11;13, 17-21), apresenta a aliança e a doação da lei (Ex 19, 1-40,38) e segue até a construção do santuário junto ao monte Sinai, ou seja, até o primeiro dia do segundo ano após a saída do Egito (Ex 40, 2.17).

Ao contrário do Gênesis, que se utiliza de uma linguagem predominantemente simbólica, a narrativa do Êxodo se preocupa em mencionar fatos históricos, que, confrontados com o estudo de documentos arqueológicos, permite aos historiadores situar a saída do povo de Israel do Egito, com grande probabilidade, no período de 1.290 – 1.224 aC, inserido no reinado do faraó Ramsés II, ou no reinado imediatamente posterior. Entretanto, devido à importância do fato para o povo, e a sua incorporação na tradição oral, algumas partes do relato têm um colorido heroico-mítico, como se vê na famosa passagem do Mar Vermelho.

No Êxodo podemos encontrar temas importantes e recorrentes na mensagem bíblica: A lei mantém a aliança e prepara o cumprimento das promessas, numa pedagogia que conduz a Cristo, em quem estas promessas se realizam. O Êxodo é o esboço de nossa redenção.

A figura humana de destaque no livro do Êxodo é Moisés, libertador, portador dos mandamentos e mediador entre Deus e o povo, conduzindo-o rumo à liberdade da Terra Prometida, enquanto ensina os israelitas a viverem na obediência e na confiança em Deus, durante a sua longa permanência no deserto.

Ademais, Moisés é um intercessor capaz de um amor que chega até ao dom total de si mesmo. Reza pelo Faraó quando Deus, com as pragas, procurava converter o coração dos Egípcios (cf. Êx 8–10); intercede pelo povo quando este é infiel (Ex 32, 7-14), e principalmente, vê Deus e fala com Ele «face a face, como alguém que fala com o próprio amigo» (cf. Êx 24, 9-17; 33, 7-23; 34, 1-10.28-35). Quando roga pelo povo, depois da destruição do bezerro de ouro, é possível enxergar nele a prefiguração de Cristo,: «Rogo-te que lhes perdoes agora este pecado! Senão, apaga-me do livro que escreveste» (v. 32), pois toma sobre si os pecados do povo e oferece a si próprio: “apaga-me”.[1]

Por fim, outros pontos de relevo são: a instituição da Páscoa judaica, que prepara a Páscoa cristã e que, a princípio, era uma festa anual de pastores nômades, de origem pré-israelita, para o bem dos rebanhos, em que as primícias eram apresentadas à divindade, e que, posteriormente, tornou-se memorial da saída do Egito (12,11b-14.42), ganhando uma significação inteiramente nova, exprimindo a salvação trazida ao povo por Deus; e o maná, alimento que Deus providencia para o seu povo no deserto (Ex 16,15) e que mais tarde é reconhecido como a figura da Eucaristia, alimento espiritual da Igreja durante o seu êxodo terrestre (Jo 6,26-58).

No próximo Domingo finalizaremos o estudo do Pentateuco, com o exame do Levítico, Números e Deuteronômio. Os textos das catequeses serão publicados na internet pela Pastoral da Comunicação (Página da paróquia no Facebook).

Fontes: Bíblia Sagrada Ed. Vozes; Bíblia de Jerusalém; Curso Bíblico – Escola Mater Ecclesiae – Pe. Estêvão Bettencourt OSB.

Notas: [1] SS. Bento XVI, Audiência Geral, 1-VI-2011.

Catequese Bíblica (I): Gênesis

Textos escritos e lidos na Paróquia São Dimas – Padre Miguel, no Rio de Janeiro/RJ.

Caríssimos Irmãos,

Por solicitação e sob a orientação de nosso pároco, iniciamos hoje uma série de catequeses sobre temas essenciais à nossa fé, a serem ministradas sempre ao início de cada missa dominical. O primeiro tema a ser abordado é a Sagrada Escritura. Por isso, convidamos a todos a trazerem as suas Bíblias, a fim de melhor acompanhar a explanação.

A escolha do tema se justifica pelo fato de ser a Escritura o meio pelo qual Deus se revela ao homem por palavras humanas, e porque é nela que “a Igreja encontra incessantemente seu alimento e sua força, pois nela não acolhe somente uma palavra humana, mas o que ela é realmente: a Palavra de Deus.” (CIC §104). Nas palavras de São Jerônimo, ignorar as Escrituras é ignorar Cristo.

O cânon bíblico (lista dos livros inspirados) compõe-se de 46 livros para o Antigo Testamento, abreviado como AT, e de 27 para o Novo Testamento, abreviado NT.

O Novo Testamento nos apresenta Jesus Cristo, seus atos, ensinamentos, paixão e glorificação, assim como os inícios de Sua Igreja sob a ação do Espírito Santo (CIC §124).

Os livros do AT dão testemunho de toda a divina pedagogia do amor salvífico de Deus (CIC §122). Toda a narrativa está ordenada para preparar e aponta para a vinda de Cristo, iniciando com a história da criação (“No princípio”, Gn, 1, 1). Ao proceder à leitura, no entanto, deve-se ter em mente que a Sagrada Escritura não tem a pretensão de fazer um relato científico, exato, mas transmitir uma mensagem de Deus aos homens através de linguagem simbólica.

O AT inicia-se com o Pentateuco (penta = cinco; teuchos = rolo, livro), que são os cinco primeiros livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.

A mensagem contida no Gênesis (Gn) – que quer dizer origem – é, basicamente, a seguinte: “o Criador fez o mundo e o homem muito bons, mas o pecado estragou a obra de Deus (Caim, Dilúvio, torre de Babel); por isso Deus separa um homem e sua descendência para serem os depositários (guardiões) da esperança de um Messias Salvador.

O livro do Gênesis compreende duas partes: Gn 1-11 e 12-50. A primeira é chamada “pré-história” bíblica, pois são acontecimentos anteriores à história do povo de Deus, que começa no capítulo 12 com Abraão. Tudo o que precede Gn 12 pretende contextualizar a Aliança, ou seja, explicar porque Deus quis chamar Abraão e fazer-lhe promessas, de forma gratuita e unilateral.

Gn 1-11 relata a criação do universo e do homem, a queda original e suas consequências, e a perversidade crescente, castigada pelo dilúvio. A partir de Noé, a terra se repovoa, e a segunda parte do Gênesis conta a história dos antepassados, mediante os quais Deus vai realizando a preparação do Messias: Abraão, Isaque, Jacó e seus doze filhos, que deram origem às doze tribos de Israel, a história de José.

Abraão é o homem da fé, cuja obediência (em oposição à desobediência dos primeiros pais, Adão e Eva) é recompensada por Deus com uma numerosa descendência, a quem prometeu a Terra Santa (Gn 12,1-25,18).

Jacó é o homem da astúcia, que foi preferido por Deus desde antes de seu nascimento a seu irmão Esaú, de quem roubou a bênção de seu pai Isaque. Deus renova com Jacó, a quem dá o nome de Israel, as promessas da aliança concedida a Abraão (Gn 25,19-36,43).

José é o homem sábio cuja fé e virtude é recompensada pela Providência Divina.

O livro do Gênesis é o princípio da mensagem revelada, apresentando os temas da eleição, da promessa e da aliança, que estarão presentes durante todo o AT. Da leitura aprendemos que Deus escolheu o seu povo, fez-lhe promessas gratuitamente e recompensa aqueles que nEle confiam.

Domingo que vem daremos continuidade a este estudo, abordando o livro do Êxodo. Renovamos o convite para que todos tragam suas Bíblias, a fim de criarmos familiaridade com o seu manuseio. Aqueles que desejarem tomar notas, sintam-se à vontade para fazê-lo.

Os textos das catequeses serão também publicados na internet pela Pastoral da Comunicação (Página da paróquia no Facebook).

Fontes: Catecismo da Igreja Católica; Bíblia de Jerusalém; Curso Bíblico – Escola Mater Ecclesiae – Pe. Estêvão Bettencourt OSB.

Quartas feiras de São José

 

É costume entre os devotos de São José dedicar-lhe um dia na semana; e assim como se consagra a Nossa Senhora o sábado, assim os devotos de São José dedicam a nosso Santo as quartas-feiras.

Além da missa e comunhão, com que costumam honrar o Santo Patriarca, fazem-lhe também algumas orações e devoções particulares. É muito própria para esse dia a coroinha que escreveu e rezava o Revmo. Pe. Xifré, superior geral dos Missionários do Coração de Maria, que morreu em odor de santidade.

 

Coroa de São José, Esposo Castíssimo da Mãe de Deus

– Para implorar seu auxílio em qualquer necessidade

V. Louvemos de todo o coração o Senhor Deus nosso, honrando e recomendando-nos com muito fervor a São José, escolhido para a dignidade mais alta e excelente, depois da divina maternidade.
R. Por todos os séculos dos séculos.

Louvemos e demos graças à Trindade generosíssima, por ter adornado o glorioso Patriarca São José, mais que nenhum outro santo, com seus celestes dons divinos e carismas.
R. Por todos os séculos dos séculos.

Louvemos e demos graças à Trindade bondosíssima, por ter constituído o glorioso São José sobre sua família, e havê-lo instituído em nosso favor, fiel administrador de todos os seus bens.
R. Por todos os séculos dos séculos.

Louvado, exaltado e glorificado seja o Pai Eterno, por ter escolhido o excelso São José para que junto ao Filho de Deus, fizesse suas vezes na terra, e por lhe ter dado um coração amoroso e paternal para com o divino Filho, e supliquemos-lhe com grande fervor e profundíssima humildade, nos conceda benignamente o que tanto desejamos.
Amém.
Pai Nosso, Ave-Maria, Glória

Louvado, exaltado e glorificado seja o Filho Unigênito, por ter recebido o excelso São José por seu Pai adotivo, e infundido em seu coração um cuidado amoroso e diligente para zelar por sua vida, alimentá-lo, vesti-lo e defendê-lo; e supliquemos-lhe confiantemente nos conceda a graça de que tanto necessitamos.
Amém.
Pai Nosso, Ave-Maria, Glória

Louvado, exaltado e glorificado seja o Espírito Divino, que no egrégio São José deu à Virgem Imaculada um esposo castíssimo, muito semelhante à celeste Senhora, e fiel custódio da sua virgindade, enchendo ao mesmo tempo o coração do ilustre Patriarca de muito amor e grande estima do tesouro que lhe tinha confiado; e roguemos-lhe e até importunemo-lo humildemente e com afeto de filhos, para conseguir a graça de que tanto precisamos, que tanto desejamos, e pela qual tanto suspiramos.
Amém.
Pai Nosso, Ave-Maria, Glória


ORAÇÃO

Ó glorioso São José, a quem o Pai Eterno comunicou sua paternidade, o Filho divino honrou com esta mesma qualidade e o Espírito Santo escolheu para ser esposo de sua mesma Esposa; eu vos felicito e vos dou mil parabéns, porque fostes levantado a tão alta dignidade e adornado de tantas graças. Mas lembrai-vos ó glorioso Santo, que de alguma maneira também sois nosso pai, porque o sois de Jesus, nosso irmão maior. Não esqueçais ainda que sois verdadeiro esposo de nossa Mãe muita amada e por esse mesmo título também pai dos filhinhos daquele Coração Imaculado. Ora, cheios de confiança filial, erguemos hoje os olhos e os fitamos nesse vosso rosto bondosíssimo, e a Vós bradamos na presente necessidade, bem assim como os pintinhos constantemente bradam por suas mães, e ainda com muito mais razão, porque não há amor de mãe, por extremosa que seja, que iguale nem se possa comparar ao amor que Vós nos tendes. Lançai, pois, um olhar amoroso para os que assim vos contemplam, e para os que a Vós clamam do fundo de seus corações. Compadeçam-se essas entranhas, já de si tão ternas, das necessidades em que nos encontramos.
Ó Pai amado, que nossas obras digam com o nome que levais, que significa acréscimo; desempenhai dignamente o título de Padroeiro e Protetor universal, que vos dá a Igreja. Fazei conosco segundo a multidão de vossas misericórdias, e sejam as obras garantia de vossos ofícios: fazei, enfim, como quem sois. Olhai, Pai misericordiosíssimo, que não mudastes de condição, que o vosso poder estende-se a todas as nossas necessidades; eia, zelai por vossa honra. E se tudo isto não bastar, vo-lo pedimos pelo grande amor que tivestes a vossa amada Esposa e ao bom Jesus, de cuja divina presença desejamos gozar convosco, por toda a eternidade, na celeste Jerusalém.
Amém.

Fonte: MRP

Jaculatórias ao Sagrado Coração de Jesus

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Bendito seja o Sacratíssimo Coração de Jesus no Santíssimo Sacramento.

Coração de Jesus, em Ti confio.
Coração de Jesus, Ardente de amor por nós, inflamai nosso coração em teu amor.
Coração de Jesus, convertei aos pobres blasfemos.
Coração de Jesus, inflamado em nosso amor, inflamai nosso coração em amor por vós.
Coração de Jesus, que eu vos ame e vos faça amar.
Coração Divino de Jesus, convertei aos pecadores, salvai aos moribundos, livrai as almas santas do purgatório.
Coração Eucarístico de Jesus, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade.
Coração Sacratíssimo de Jesus, tende misericórdia de nós.
Doce Coração de Jesus, sede meu amor.
Doce Coração de Jesus, tende piedade de nós e de nossos irmãos pecadores.
Doce Coração de meu Jesus, fazei que vos ame sempre mais e mais.
Glória, amor e gratidão ao Sagrado Coração de Jesus.
Oh! Coração de amor, eu ponho toda minha confiança em ti, porque tudo temo de minha fraqueza, mas tudo espero de vossas bondades.
Sacratíssimo Coração de Jesus, tende piedade de nós .
Sagrado Coração de Jesus, confortai em vossa agonia por um anjo, confortai-nos em nossa agonia.
Sagrado Coração de Jesus, creio em vosso amor por mim.
Sagrado Coração de Jesus, protegei nossas famílias.
Sagrado Coração de Jesus, sede conhecido, sede amado, sede imitado.
Sagrado Coração de Jesus, venha a nós teu reino.
Sagrado Coração de Jesus, eu me dou a Vós por Maria.
Seja amado em todas partes o Sagrado Coração de Jesus.
Tudo por Ti, Coração Sacratíssimo de Jesus!
Coração dulcíssimo de Maria, preparai-nos um caminho seguro.
Doce Coração de Maria, sede a salvação minha.
Doce Coração de Maria, sede minha salvação.
Puríssimo Coração de Maria, virgem Santíssima, alcançai-nos de Jesus a pureza e a humildade de Coração.

Fonte: Derradeiras Graças.

Invocações ao Sagrado Coração

 

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Amor do Coração de Jesus, abrasai meu coração.

Formosura do Coração de Jesus, cativai meu coração.

Bondade do Coração de Jesus, atrai meu coração.

Caridade do Coração de Jesus, derramai-vos em meu coração.

Clêmencia do Coração de Jesus, consolai meu coração.

Domínio do Coração de Jesus, sujeitai meu coração.

Doçura do Coração de Jesus, penetrai meu coração.

Equidade do Coração de Jesus, regrai meu coração.

Eternidade do Coração de Jesus, encheis meu coração.

Fidelidade do Coração de Jesus, protegei meu coração.

Força do Coração de Jesus, sustentai meu coração.

Glória do Coração de Jesus, ocupai meu coração.

Grandeza do Coração de Jesus, confundi meu coração.

Humildade do Coração de Jesus, humilhai meu coração.

Imutabilidade do Coração de Jesus, fixai meu coração.

Justiça do Coração de Jesus, não abandoneis meu coração.

Liberalidade do Coração de Jesus, enriquecei meu coração.

Luz do Coração de Jesus, iluminai meu coração.

misericórdia do Coração de Jesus, perdoai meu coração.

Obediência do Coração de Jesus, submetei meu coração.

Paciência do Coração de Jesus, não vos canseis de meu coração.

Presença do Coração de Jesus, apaixonai meu coração.

Providência do Coração de Jesus, velai sobre meu coração.

Reino do Coração de Jesus, establecei-vos em meu coração.

Sabedoria do Coração de Jesus, conduzi meu coração.

Santidade do Coração de Jesus, purificai meu coração.

Silêncio do Coração de Jesus, falai a meu coração.

Ciência do Coração de Jesus, ensinai a meu coração.

Poder do Coração de Jesus, assegurai meu coração.

Vontade do Coração de Jesus, dispõe de meu coração.

Zelo do Coração de Jesus, devorai meu coração.

Estudo Bíblico sobre a Santíssima Trindade

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

“Fazei discípulos batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”

I. A PALAVRA DE DEUS
II. APONTMANTOS
III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ
IV. PADRES DA IGREJA
V. CATECISMO DA IGREJA
VI. PALAVRAS DE LUIS FERNANDO

I. A PALAVRA DE DEUS

Dt 4, 32-34. 39-40: “O Senhor é o único Deus; não há outro”

Moisés falou com povo, dizendo:

— «Procura cuidadosamente nos tempos que te precederam, desde o dia em que Deus criou o homem na terra. Pergunta se houve jamais, de uma extremidade dos céus à outra, uma coisa tão extraordinária como esta, e se jamais se ouviu coisa semelhante. Houve, porventura, um povo que, como tu, tenha ouvido a voz de Deus falando do seio do fogo, sem perder a vida? Algum deus tentou jamais escolher para si uma nação do meio de outra, por meio de provas e de sinais, de prodígios e de guerras, com mão poderosa e braço estendido, e de prodígios espantosos, como o Senhor, vosso Deus, fez por vós no Egito diante de vossos olhos?

Sabe, pois, agora, e grava em teu coração que o Senhor é Deus, e que não há outro em cima no céu, nem embaixo na terra. Observa suas leis e suas prescrições que hoje te prescrevo, para que sejas feliz, tu e teus filhos depois de ti, e prolongues teus dias para sempre na terra que te dá o Senhor, teu Deus.».

Sal 32(33), 4-5.6.9.18-19.20.22: “Ditosa a nação cujo Deus é o Senhor”

A palavra do Senhor é reta,
em todas as suas obras resplandece a fidelidade:
ele ama a justiça e o direito,
da bondade do Senhor está cheia a terra.
A palavra do Senhor fez os céus,
e pelo sopro de sua boca todo o seu exército.
Porque ele disse e tudo foi feito,
ele ordenou e tudo existiu.  
Os olhos do Senhor estão pousados sobre os que o temem,
sobre os que esperam na sua bondade,
a fim de livrar-lhes a alma da morte
e nutri-los no tempo da fome.
Nossa alma espera no Senhor,
porque ele é nosso amparo e nosso escudo.
Que vossa misericórdia, Senhor, venha sobre nós,
como a esperamos de vós.   
Rom 8, 14-17: “Recebemos um espírito de filhos adotivos”

Irmãos:

Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.

Não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! Pai! 

O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, também somos herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, contanto que soframos com ele, para que também com ele sejamos glorificados.

Mt 28, 16-20: “Ide e fazei discípulos todos os povos”

Naquele tempo os onze discípulos foram para a Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado.

Quando o viram, adoraram-no; entretanto, alguns hesitavam ainda.

Mas Jesus, aproximando-se, lhes disse:

– Toda autoridade me foi dada no céu e na terra.

Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi.

Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo».

II. APONTAMENTOS

Cremos, como verdade revelada, que Deus é um e único, que fora Dele não há outros deuses (1ª leitura). Como verdade revelada cremos também que Deus, sendo um, é comunhão de três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Três pessoas distintas, não três deuses distintos. São um só Deus, porque possuem a mesma natureza divina.

Deus em si mesmo não é, portanto, um ser solitário nem imóvel: é Comunhão divina de Amor. O Pai desde toda a eternidade se entrega ao Filho, o Filho desde toda a eternidade acolhe o Pai e se entrega também a Ele em um dinamismo de mútua entrega e acolhida que é a terceira pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo.

Mas, como chegou ao nosso conhecimento este profundo Mistério, impossível de ser conhecido e plenamente compreendido pela simples razão humana? Foi o Filho quem o revelou: «Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou.» (Jo 1,18). O Senhor Jesus, o Filho que por nossa reconciliação se fez homem, revelou o Pai e o Espírito Santo, revelou a unidade e a comunhão existente entre eles.

No Evangelho deste Domingo vemos o Senhor Jesus que, antes de voltar definitivamente para o Pai, encarrega seus Apóstolos de uma missão muito específica: «Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi».

Batizar, do grego baptízó, significa literalmente “inundar”, “introduzir dentro da água”. Também o Senhor foi batizado por João, submerso nas águas do Jordão. O batismo de João era um “batismo de penitência”, devotado àqueles que, arrependidos de seus pecados, queriam inundar ou sepultar na água sua vida antiga para, purificados, renascer e ressurgir para uma nova vida. O Senhor insistiu em ser batizado por João, apesar de nele não haver pecado algum (ver Mt 3, 14-15).

Naquela ocasião o Batista anunciava que, diferente dele, que batizava com água, o Senhor batizaria «com o Espírito Santo» (Mc 1, 7 8). Com efeito, o Batismo oferecido pelo Senhor Jesus é muito superior ao batismo de João, posto que já não é tão somente um símbolo, mas sim realiza verdadeiramente aquilo que simboliza: liberta o homem da culpa original e perdoa seus pecados. Resgata-o da escravidão do mal e marca seu renascimento espiritual, comunicando uma vida nova que é participação na vida de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.

O Batismo que o Senhor manda conferir aos que creiam nele submerge não só em água (gesto simplificado e substituído na Igreja latina pela da tripla infusão com água na cabeça do candidato), mas naquele outro “Batismo” de Cristo, o de sua Morte e Ressurreição (ver Lc 12, 50; Mc 10, 38). Por isso seu valor transcende absolutamente ao dos antigos ritos batismais, tanto judeus como também pagãos, que, embora significassem uma purificação interior e uma mudança de vida, não eram mais que abluções incapazes de apagar realmente os pecados e, menos ainda, de efetuar uma transformação radical do pecador. Além disso, o Batismo cristão, pelo poder de Cristo Ressuscitado conferido pelo Senhor aos seus Apóstolos (ver Mt 28, 18-19), é um sinal eficaz que também comunica realmente o perdão dos pecados e confere uma vida nova pelo Espírito Santo. Por uma real transformação interior os «batizados em Cristo» (Gal 3, 27) tornam-se verdadeiramente «filhos de Deus» (ver 1 Jo 3, 2).

O Senhor manda que seus Apóstolos batizem “em nome de….” Isto quer dizer não só “em lugar de”, “em representação de”. Na mentalidade hebreia, o nome de alguém substituía a própria pessoa. Ao ser pronunciado ou invocado o nome de alguém sobre uma coisa, esta ficava intimamente ligada com a pessoa nomeada, passava a ser propriedade dela. O mesmo acontecia com o nome de Deus. Batizar «em  nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» significa, portanto, consagrar a pessoa a Deus, fazê-la pertencer totalmente a Ele, incorporando-a Àquele cujo nome era pronunciado, incorporando-a a Deus, uno e trino. Verdadeiramente o Batismo cristão «significa e realiza a morte ao pecado e a entrada na vida da Santíssima Trindade através da configuração com o mistério pascal de Cristo» (Catecismo da Igreja Católica, 1239).

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Chama a atenção que o ser humano, para ser feliz, necessite de outros, de outros “tu” humanos como ele. Ninguém pode achar a felicidade na solidão. Ao contrário, o que tanto tememos é ficar sozinho. Isso é o que menos queremos, pois uma profunda tristeza e desolação inunda quem carece de alguém que o ame e a quem possa amar.

Enquanto a tristeza inunda quem se acha existencialmente sozinho, a alegria e a felicidade transbordam do coração de quem experimenta o amor e a comunhão com seus seres amados. Sim, a mais autêntica e profunda felicidade procede da comunhão das pessoas, comunhão que é fruto do mútuo conhecimento e amor. Sem o outro, e sem o Outro por excelência, a criatura humana não pode chegar a ser feliz, porque é impossível que se realize como pessoa humana.

Sem dúvida parece muito contraditório que a felicidade de alguém seja encontrada em si mesmo, e não  “fora de si”, quer dizer, no outro, na comunhão com o outro. A opção pela auto-suficiência, pela independência dos outros, por não amar a ninguém para não sofrer, pelo próprio egoísmo, afasta cada vez mais do coração humano a felicidade que tanto busca e está chamado a viver. Quem, por qualquer razão, opta por fechar-se aos outros termina frustrado e amargurado em sua busca pela felicidade, concluindo equivocadamente que esta na realidade não existe, que é uma bela mas inalcançável ilusão para o ser humano. O fracasso na busca não se deve à sua inexistência, mas sim ao fato de que se escolheu o caminho equivocado.

E por que o Senhor Jesus quis nos falar da intimidade de Deus? Por que é tão importante que o ser humano saiba algo que é tão incompreensível para a mente humana? Deus uno, e ao mesmo tempo três pessoas? Sem dúvida podemos encontrar uma razão poderosa na afirmação de Santa Catarina de Siena: «Em sua natureza, deidade eterna, conhecerei minha natureza». O ser humano é um mistério para si mesmo, e «para conhecer o homem, o homem verdadeiro, o homem integral, é necessário conhecer Deus» (S.S. Paulo VI). Conhecer Deus, o Mistério da Santíssima Trindade, é conhecer minha origem, é compreender o mistério que sou eu mesmo, é entender que eu fui criado pessoa humana por Deus-Comunhão de Amor para participar de sua mesma vida e comunhão, para participar da mesma felicidade que Ele vive em si mesmo.

Assim, o que o Senhor Jesus nos revelou do mistério de Deus joga uma luz poderosa sobre nossa própria natureza, sobre as necessidades profundas que experimentamos, sobre a necessidade que temos de viver o amor de Cristo e a comunhão com outras pessoas semelhantes a nós para nos realizarmos plenamente. Com efeito, criados à imagem e semelhança de Deus, criados por quem é Amor e para o amor, precisamos viver a mútua entrega e acolhida que as Pessoas divinas vivem entre si para chegar a ser verdadeiramente felizes. E o caminho concreto para viver isso não é outro senão o que Jesus Cristo nos mostrou, o da entrega aos outros, do amor que se faz dom de si mesmo no serviço aos irmãos humanos e na reverente acolhida do outro: «amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (Jo 15,12).

IV. PADRES DA IGREJA

São Gregório Nacianceno: «Acima de tudo, guardem-me este bom depósito, pelo qual vivo e combato, com o qual quero morrer, que me faz suportar todos os males e desprezar todos os prazeres: quero dizer a profissão de fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo. Confio-lhes isso hoje. Por ela lhes introduzirei dentro em pouco na água e lhes tirarei dela. Dou-a a vocês como companheira e padroeira de toda sua vida. Dou-lhes uma só Divindade e Poder, pois existe Uma nos Três, e contém os Três de uma maneira distinta. Divindade sem distinção de substância ou de natureza, sem grau superior que eleve ou grau inferior que abaixe… É a infinita conaturalidade de três infinitos. Cada um, considerado em si mesmo, é Deus todo inteiro… Deus os Três considerados em conjunto… Nem comecei a pensar na unidade e já a Trindade me banha com seu esplendor. Nem comecei a pensar na Trindade e já a unidade me possui de novo».

Santo Ambrósio: «professaste — não o esqueça — sua fé no Pai, no Filho, no Espírito Santo. Vive conforme o que fizeste. (…) Recorda tua profissão de fé no Pai, no Filho, no Espírito Santo. Isto não significa que creias em um que é o maior, em outro que é menor, em outro que é o último, mas sim que o próprio tom de sua profissão de fé te induz a crer no Filho tal como no Pai, no Espírito tal como no Filho».

Santo Antonio de Pádua (Doutor da Igreja): «O Pai, o Filho e o Espírito Santo são da mesma substância e de uma inseparável igualdade. A unidade reside na essência, a pluralidade nas pessoas. O Senhor indica abertamente a unidade da divina essência e a Trindade das pessoas quando diz: “batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Não diz “nos nomes” e sim “no nome”. Assim nos ensina a unidade na essência. Mas, prosseguindo, emprega três nomes, para nos ensinar que há três pessoas».

V. CATECISMO DA IGREJA

233. Os cristãos são batizados «em nome» do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e não «nos nomes» deles porque não há senão um só Deus – o Pai Onipotente, o Seu Filho Unigênito e o Espírito Santo: a Santíssima Trindade.

O mistério central da fé

234. O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. É o mistério de Deus em si mesmo. E, portanto, a fonte de todos os outros mistérios da fé e a luz que os ilumina. É o ensinamento mais fundamental e essencial na «hierarquia das verdades da fé». «Toda a história da salvação não é senão a história do caminho e dos meios pelos quais o Deus verdadeiro e único, Pai, Filho e Espírito Santo, Se revela, reconcilia consigo e Se une aos homens que se afastam do pecado».

237. A Trindade é um mistério de fé em sentido estrito, um dos «mistérios ocultos em Deus, que não podem ser conhecidos se não forem revelados lá do alto». É verdade que Deus deixou traços do seu Ser trinitário na obra da criação e na sua revelação ao longo do Antigo Testamento. Mas a intimidade do seu Ser como Trindade Santíssima constitui um mistério inacessível à razão sozinha e, mesmo, à fé de Israel antes da Encarnação do Filho de Deus e da missão do Espírito Santo.

240. Jesus revelou que Deus é «Pai» num sentido inédito: não o é somente enquanto Criador: é Pai eternamente em relação ao seu Filho único, o qual, eternamente, só é Filho em relação ao Pai: «Ninguém conhece o Filho senão o Pai, nem ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar» (Mt 11, 27).

242. Na esteira deles, seguindo a tradição apostólica, no primeiro concílio ecumênico de Niceia, em 325, a Igreja confessou que o Filho é «consubstancial» ao Pai (44), quer dizer, um só Deus com Ele. O segundo concilio ecumênico, reunido em Constantinopla em 381, guardou esta expressão na sua formulação do Credo de Niceia e confessou «o Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, luz da luz. Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai».

243. Antes da sua Páscoa, Jesus anuncia o envio de um «outro Paráclito»(Defensor), o Espírito Santo. Agindo desde a criação e tendo outrora «falado pelos profetas», o Espírito Santo estará agora junto dos discípulos, e neles, para os ensinar e os guiar «para a verdade total» (Jo 16, 13). E, assim, o Espírito Santo é revelado como uma outra pessoa divina, em relação a Jesus e ao Pai.

244. A origem eterna do Espírito revela-se na sua missão temporal. O Espírito Santo é enviado aos Apóstolos e à Igreja, tanto pelo Pai, em nome do Filho, como pessoalmente pelo Filho, depois do seu regresso ao Pai. O envio da pessoa do Espírito, após a glorificação de Jesus revela em plenitude o mistério da Santíssima Trindade.

Chamados A participar da vida de Deus, Comunhão de Amor

260. O fim último de toda a economia divina é o acesso das criaturas à unidade perfeita da bem-aventurada Trindade. Mas já desde agora nós somos chamados a ser habitados pela Santíssima Trindade: «Quem me tem amor, diz o Senhor, porá em prática as minhas palavras. Meu Pai amá-lo-á; Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23):

1997. A graça é uma participação na vida de Deus, introduz-nos na intimidade da vida trinitária: pelo Batismo, o cristão participa na graça de Cristo, cabeça do seu corpo; como «filho adotivo», pode doravante chamar «Pai» a Deus, em união como seu Filho Unigênito; e recebe a vida do Espírito, que lhe infunde a caridade e forma a Igreja.

VI. PALAVRAS DE LUIS FERNANDO (conforme textos publicados)

«À luz do mistério trinitário — onde descobrimos, não sem assombro e maravilha, o Pai comunicando, como perfeito gerador, a natureza divina ao Filho e o amor mútuo do Pai e do Filho: o Espírito; e como Comunhão criadora e reconciliadora vemos sua ação criando e reconciliando —, como ensinamento de vida, recebemos a consciência do valor da pessoa, sua abertura dialogal, assim como a necessária dimensão comunicativa dos bens, acima de tudo os pessoais: os talentos que o Senhor nos concedeu; e também, obviamente, os bens perecíveis.

»Então como um dom que o mistério trinitário ilumina na vida humana temos a dimensão pessoal, aberta ao encontro, comunicativa e serviçal da existência, como projeto a realizar a partir da própria liberdade acolhendo o Plano divino.

»Igualmente, o mistério ilumina a realidade do valor infinito de cada ser humano, que é irredutível aos outro: a dimensão de valor da pessoa, de onde surge a ideia da missão própria contemplada no Plano de Deus desde todos os tempos. Cada qual, segundo o desígnio divino impresso em sua natureza, vê brotar na originalidade de seu existir uma missão que constitui caminho de realização para a plenitude da felicidade no Senhor. Tudo isto é realidade decisiva para a pessoa, iluminada extraordinariamente ao descobrir, pela revelação da comunhão da Trindade na unidade, que cada pessoa é para a outra a partir de sua singularidade inconfundível.

»Também como ensinamentos para a vida concreta, que brotam da contemplação do mistério da Trindade criadora, temos que, ser pessoa é estar em reverente abertura ao outro. Os outros não são o inferno, como dizia Sartre, e sim um convite a plenificar-me pela comunicação e pelo amoroso serviço. Comprometer-me no serviço a todos, mas preferencialmente aos mais necessitados e pobres, é desdobrar-me a partir da permanência de meu ser, em posse de minha liberdade, realizando-me no encontro com o irmão. Quão claramente se percebe isso no texto do Evangelho segundo São Mateus (ver Mt 25, 31-46) onde se descreve a cena do julgamento final, ou na prece de Jesus no Evangelho segundo São João (ver Jo 17)!»

 

Fonte: Movimento de Vida Cristã

Estudo Bíblico: Ascensão do Senhor

 

"O Senhor foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus.”

I. A PALAVRA DE DEUS
II. APONTAMENTOS
III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ
IV. PADRES DA IGREJA
V. CATECISMO DA IGREJA
VI. PALAVRAS DE LUIS FERNANDO

I. A PALAVRA DE DEUS
At 1, 1-11: “Viram-no elevar-se”

No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei as obras e os ensinamentos de Jesus, desde o princípio até ao dia em que, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera, foi arrebatado ao Céu. A eles também apareceu vivo depois da sua paixão e deu-lhes disso numerosas provas com as suas aparições, durante quarenta dias, e falando-lhes também a respeito do Reino de Deus.

No decurso de uma refeição que partilhava com eles, ordenou-lhes:

— Não se afastassem de Jerusalém, mas esperem lá o Prometido do Pai, do qual me ouvistes falar. «João batizava em água, mas, dentro de pouco tempo, vós sereis batizados no Espírito Santo.»

Estavam todos reunidos, quando lhe perguntaram: «Senhor, é agora que vais restaurar o Reino de Israel?»
Respondeu-lhes:
— «Não vos compete saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a sua autoridade. Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.»
Dito isto, elevou-se à vista deles e uma nuvem subtraiu-o a seus olhos. E como estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava, surgiram de repente dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: «Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o céu? Esse Jesus que vos foi arrebatado para o Céu virá da mesma maneira, como agora o vistes partir para o Céu.»
Sal 46, 2-3.6-7.8-9: “Subiu Deus por entre aclamações, o Senhor, ao som das trombetas.”
Povos todos, batei palmas,
aclamai a Deus com brados de alegria,
porque o Senhor, o Altíssimo, é temível;
Ele é o grande rei de toda a terra.
Subiu Deus por entre aclamações,
o Senhor, ao som das trombetas.
Cantai à glória de Deus, cantai;
cantai à glória de nosso rei, cantai.
Porque Deus é o rei do universo;
entoai-lhe, pois, um hino!
Deus reina sobre as nações,
Deus está em seu trono sagrado.
Ef 1, 17-23: “Sentou-o à sua direita, no alto do Céu”
Irmãos:

Que o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória, vos dê o Espírito de sabedoria e vo-lo revele, para o conhecerdes; sejam iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes que esperança nos vem do seu chamamento, que riqueza de glória contém a herança que Ele nos reserva entre os santos e como é extraordinariamente grande o seu poder para conosco, os crentes, de acordo com a eficácia da sua força poderosa, que eficazmente exerceu em Cristo: ressuscitou-o dos mortos e sentou-o à sua direita, no alto do Céu, muito acima de todo o Poder, Principado, Autoridade, Potestade e Dominação e de qualquer outro nome que seja nomeado, não só neste mundo, mas também no que há de vir.

Sim, Ele tudo submeteu a seus pés e deu-o, como cabeça que tudo domina, à Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude daquele que tudo preenche em todos.

Mc 16, 15-20: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura”
Naquele tempo, Jesus apareceu aos  Onze e disse-lhes:
—«Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura.
Quem acreditar e for batizado será salvo; mas, quem não acreditar será condenado.

Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demônios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal; hão de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados.»

Então, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus.

Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.

II. APONTAMENTOS

Antes de subir ao Céu o Senhor Ressuscitado manda que seus Apóstolos permaneçam em Jerusalém para aguardar o Dom do Espírito, prometido pelo Pai. Por Ele receberão «a força do Espírito Santo que descenderá sobre vocês» para serem suas testemunhas «em Jerusalém, em toda Judeia, na Samaria, e até os confins do mundo» (1ª. leitura). A reconciliação obtida pelo Senhor Jesus já não é somente para os filhos de Israel, mas tem um alcance universal: é para todos os homens, de todos os tempos e culturas.

O mandato explícito e a missão de ir ao mundo inteiro proclamando o Evangelho a todas as nações é uma tarefa que os discípulos não poderão realizar só com suas forças. Para isso necessitarão a força e o impulso do Espírito divino. O Espírito do Senhor é que acende nos corações o fogo do amor divino e os lança ao anúncio audaz, decidido, valente. A evangelização, nesse sentido, tem como protagonista o Espírito Santo que atua naqueles que humilde e decididamente cooperam com Ele, emprestando-lhe suas mentes, seus corações e seus lábios. Com esta força que vem de Deus, os Apóstolos poderão tocar outros corações e acender neles o fogo do amor divino. O Espírito Santo anima e conduz a Igreja na tarefa evangelizadora ao longo dos séculos, até que o Senhor volte em sua glória.

Na Ascensão contemplamos o Senhor ressuscitado que vitoriosamente sobe ao Céu. Mas, quem sobe ao Céu, senão Aquele que antes baixou do Céu? O mistério da Ascensão é o ápice de um processo que se inicia com o “abaixamento” do Filho de Deus, mediante a encarnação do Verbo eterno. O Filho de Deus “se abaixou” ao assumir nossa natureza humana, e se “abaixou” até a morte na Cruz. Este abaixamento é descrito pelo termo grego “kenosis”. Logo depois de ser glorificado na Cruz, o Senhor com sua Ressurreição inicia um processo de ascensão, de elevação (ver Flp 2,6 -11), mediante o qual eleva todo ser humano novamente à condição divina mediante a participação nos mistérios de sua Morte e Ressurreição.

Assim, pois, todos os mistérios do Verbo encarnado no ventre puríssimo da Virgem Maria por obra do Espírito Santo, estão unidos entre si, da kenosis ou abaixamento da Encarnação, passando pelos acontecimentos dramáticos da Sexta-feira Santa, até o júbilo do Primeiro Dia da Semana, a Páscoa do Senhor, a Ressurreição e finalmente a Ascensão.

A Ascensão, pela qual o Senhor «deixa o mundo e volta ao Pai» (ver Jo 16, 28), integra-se no mistério da Encarnação e é seu momento conclusivo. A Ascensão ao Céu constitui o fim da peregrinação do Verbo Encarnado neste mundo. A presença visível do Senhor Jesus «termina com a entrada irreversível de sua humanidade na glória divina simbolizada pela nuvem e pelo Céu» (Catecismo da Igreja Católica, 659).

Ao subir aos Céus o Senhor Ressuscitado leva consigo uma multidão de redimidos. Por isso a Ascensão é uma festa de esperança para toda a humanidade. Celebrar a Ascensão do Senhor ressuscitado é confessar que Ele é verdadeiramente o Caminho, a Verdade e a Vida que conduzem ao Pai (ver Jo 14, 6), é repetir com o coração alegre que realmente vale a pena ser homem pois Deus, fazendo-se homem, reconciliando-nos por sua morte na Cruz, ressuscitando ao terceiro dia e realizando uma nova Criação mediante o dom de seu Espírito, abriu-nos, por sua Ascensão, o caminho ascensional que conduz à plena realização humana, na participação da Comunhão Divina de Amor.

Eis aí a esperança à qual todo ser humano foi chamado por Deus, a riqueza da glória que outorga em herança aos Santos (2ª. leitura). O Senhor Jesus, como primícia, como Cabeça da Igreja cujos membros somos nós, subiu à direita do Pai para nos preparar um lugar (ver Jo 14, 2-3). Para onde o Senhor Ressuscitado ascendeu, dirige-se também todo aquele que faz de Cristo seu Caminho, a Verdade que ilumina seus passos, a Vida da qual se nutre e que ao mesmo tempo é a meta final de seu peregrinar terreno (ver Jo 5, 24; 6, 40).

Logo depois de sua Ascensão os Apóstolos voltaram para Jerusalém à espera do acontecimento anunciado e prometido. No Cenáculo, unidos em comum oração em torno de Maria, a Mãe de Jesus (ver At 1, 13-14), os discípulos preparam seus corações aguardando a Promessa do Pai.

Nos Atos dos Apóstolos São Lucas relata a vida e ação evangelizadora da Igreja primitiva a partir da Ascensão. Este acontecimento, junto com o dom do Espírito Santo no dia de Pentecostes, marca o início do desdobramento da missão evangelizadora da Igreja. São Paulo é chamado pelo Senhor a somar-se àqueles Apóstolos que cumprem fielmente a missão confiada a eles pelo Senhor. O “Apóstolo dos Gentios” escreve aos efésios sobre Aquele a quem o Pai, logo depois de ressuscitá-lO de entre os mortos, sentou a sua mão direita nos Céus», submetendo todas as coisas sob seus pés e constituindo-O «Cabeça suprema da Igreja, que é seu Corpo» (2ª. leitura).

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Contemplamos a Cristo, o Senhor ressuscitado, que vitoriosamente sobe ao Céu. Ao contemplá-lo nossos olhos se dirigem com firme esperança para esse destino glorioso que Deus por e em seu Filho nos prometeu também a cada um de nós: a participação na vida divina, na comunhão de Deus-Amor, por toda a eternidade (ver 2Pe 1, 4; Ef 1, 17ss).

Mas ao contemplar nosso destino glorioso não podemos menosprezar nossa condição de viadores#. Enquanto estivermos neste mundo, há caminho a percorrer. Portanto, tampouco nós podemos ficar  «aqui parados olhando ao céu» (At 1, 11), mas sim temos que “descer o monte” e “voltar para a cidade” (ver At 1, 12), voltar para a vida cotidiana com todos seus afazeres, com toda a carga de preocupações diárias às vezes pesada. Entretanto, embora submersos novamente nas diversas atividades e preocupações de cada dia, tampouco podemos perder de vista nosso destino eterno, não podemos deixar de dirigir nosso olhar interior para o Céu.

Assim temos que viver dia a dia este dinamismo: sem deixar de olhar sempre para onde Cristo está glorioso, com a esperança firme e o ardente desejo de poder participar um dia de sua própria glória junto com todos os Santos, temos que viver intensamente a vida cotidiana como Cristo nos ensinou. Devemos procurar, em cada momento, impregnar com a força do Evangelho nossas próprias atitudes, pensamentos, opções e modos de vida, assim como as diversas realidades humanas que nos rodeiam.

A “aspiração às coisas do alto” (ver Cl 3, 2), o desejo de participar da mesma glória de Cristo, longe de nos deixar inativos frente às realidades temporárias nos compromete a trabalhar intensamente para transformá-las segundo o Evangelho.

Sem deixar de olhar ao Céu, devemos agir! Há muito por fazer! Há muito que mudar, em mim mesmo e a meu redor! Muitos dependem de mim! É todo um mundo que deve ser transformado desde seus alicerces! E o Senhor nos promete a força de seu Espírito para que sejamos hoje seus apóstolos anunciando seu Evangelho oportuna e importunamente. Um pequeno exército de Santos que com a força de seu Amor trabalhemos incansavelmente por mudar o mundo inteiro, para fazê-lo mais humano, mais fraterno, mais reconciliado, segundo o Evangelho do Jesus Cristo e com a força de sua graça, sem a qual nada podemos.

IV. PADRES DA IGREJA

São Leão Magno: «Assim como na solenidade da Páscoa a Ressurreição do Senhor foi para nós causa de alegria, assim também agora sua Ascensão ao céu nos é um novo motivo de felicidade, ao recordar e celebrar liturgicamente o dia em que a pequenez de nossa natureza foi elevada, em Cristo, acima de todos os exércitos celestiais, de todas as categorias de anjos, de toda a sublimidade das potestades, até compartilhar o trono de Deus Pai».

São Gregório de Nisa: «Cristo, o primogênito de entre os mortos, que com sua ressurreição destruiu a morte, que mediante a reconciliação e o sopro de seu Espírito fez de nós novas criaturas, diz hoje: Subo a meu Pai e a seu Pai, a meu Deus e a seu Deus. Oh mensagem cheia de felicidade e de formosura! Ele, que por nós se fez homem, sendo o Filho único, quer nos fazer seus irmãos e, para isso, faz chegar até o Pai verdadeiro sua própria humanidade, levando nela consigo a todos os de sua mesma raça».

São Cirilo da Alexandria: «O Senhor sabia que muitas de suas moradas já estavam preparadas e esperavam a chegada dos amigos de Deus. Por isso, dá outro motivo para sua partida: preparar o caminho para nossa ascensão para estes lugares do Céu, abrindo o caminho, que antes era intransitável para nós. Porque o Céu estava fechado aos homens e nenhum ser criado tinha penetrado nunca neste domínio santíssimo dos anjos. É Cristo quem inaugura para nós este caminho para as alturas. Oferecendo-se Ele mesmo a Deus Pai como primícia dos que dormem o sono da morte, permite à carne mortal subir ao céu. Ele foi o primeiro homem a penetrar nas moradas celestiais… Assim, pois, Nosso Senhor Jesus Cristo inaugura para nós este caminho novo e vivo: “inaugurou para nós um caminho novo e vivo através do véu de sua carne” (Heb 10, 20)».

São Gregório Magno: «O Senhor arrastou cativos quando subiu aos céus, porque com seu poder mudou nossa corrupção em incorrupção. Repartiu seus dons, porque enviando de cima o Espírito Santo, a uns deu palavras de sabedoria, a outros de ciência, a outros a graça dos milagres, a outros a de curar, a outros a de interpretar. Assim que Nosso Senhor subiu aos céus, sua Santa Igreja desafiou o mundo e, confortada com sua Ascensão, pregou abertamente o que acreditava às ocultas».

V. CATECISMO DA IGREJA
«Jesus Cristo subiu aos Céus, e está sentado à direita de Deus, Pai todo-poderoso»

659. «Então, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi elevado ao céu e sentou-se à direita de Deus» (Mc 16, 19). O corpo de Cristo foi glorificado desde o momento da sua ressurreição, como o provam as propriedades novas e sobrenaturais de que, a partir de então, ele goza permanentemente. Mas, durante os quarenta dias em que vai comer e beber familiarmente com os discípulos e instruí-los sobre o Reino, a sua glória fica ainda velada sob as aparências duma humanidade normal. A última aparição de Jesus termina com a entrada irreversível da sua humanidade na glória divina, simbolizada pela nuvem e pelo céu. onde a partir de então, está sentado à direita de Deus. Só de modo absolutamente excepcional e único é que Se mostrará a Paulo, «como a um aborto» (1 Cor 15, 8), numa última aparição que o constitui Apóstolo.

661. Esta última etapa continua intimamente unida à primeira, isto é, à descida do céu realizada na Encarnação. Só Aquele que «saiu do Pai» pode «voltar para o Pai»: Cristo. «Ninguém subiu ao céu senão Aquele que desceu do céu: o Filho do Homem» (Jo 3, 13). Abandonada às suas forças naturais, a humanidade não tem acesso à «Casa do Pai», à vida e à felicidade de Deus. Só Cristo Pode abrir ao homem este acesso: «subindo aos céus, como nossa cabeça e primogênito, deu-nos a esperança de irmos um dia ao seu encontro, como membros do seu corpo».

662. «E Eu, uma vez elevado da terra, atrairei todos a Mim» (Jo 12, 32). A elevação na cruz significa e anuncia a elevação da ascensão aos céus. É o princípio dela, Jesus Cristo, o único sacerdote da nova e eterna Aliança, «não entrou num santuário feito por homens […]. Entrou no próprio céu, a fim de agora se apresentar diante de Deus em nosso favor» (Heb 9, 24). Nos céus, Cristo exerce permanentemente o seu sacerdócio, «sempre vivo para interceder a favor daqueles que, por seu intermédio, se aproximam de Deus» (Heb 7, 25). Como «sumo sacerdote dos bens futuros» (Heb 9, 11), Ele é o centro e o ator principal da liturgia que honra o Pai que está nos céus.

663. Doravante, Cristo está sentado à direita do Pai: «Por direita do Pai entendemos a glória e a honra da divindade, em cujo seio Aquele que, antes de todos os séculos, existia como Filho de Deus, como Deus e consubstancial ao Pai, tomou assento corporalmente desde que encarnou e o seu corpo foi glorificado».

664. Sentar-se à direita do Pai significa a inauguração do Reino messiânico, cumprimento da visão do profeta Daniel a respeito do Filho do Homem: «Foi-Lhe entregue o domínio, a majestade e a realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviram. O seu domínio é um domínio eterno, que não passará jamais, e a sua realeza não será destruída» (Dn 7, 14). A partir deste momento, os Apóstolos tornaram-se as testemunhas do «Reino que não terá fim».

668. «Cristo morreu e voltou à vida para ser Senhor dos mortos e dos vivos» (Rm 14, 9). A ascensão de Cristo aos céus significa a sua participação, na sua humanidade, no poder e autoridade do próprio Deus. Jesus Cristo é Senhor: Ele possui todo o poder nos céus e na Terra. Está «acima de todo o principado, poder, virtude e soberania», porque o Pai «tudo submeteu a seus pés»(Ef 1, 20-22). Cristo é o Senhor do cosmos e da história, NEle, a história do homem, e até a criação inteira, encon tram a sua «recapitulação», o seu acabamento transcendente.

O mandato missionário

849. «Enviada por Deus às nações, para ser o sacramento universal da salvação, a Igreja, em virtude das exigências íntimas da sua própria catolicidade e em obediência ao mandamento do seu fundador, procura incansavelmente anunciar o Evangelho a todos os homens» (AG, 1). «Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo quanto vos mandei. E eis que Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo» (Mt 28, 19-20).

A origem e o fim da missão.

850. O mandato missionário do Senhor tem a sua fonte primeira no amor eterno da Santíssima Trindade: «Por sua natureza, a Igreja peregrina é missionária, visto ter a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na missão do Filho e do Espírito Santo». E o fim último da missão consiste em fazer todos os homens participantes na comunhão existente entre o Pai e o Filho, no Espírito de amor.

VI. PALAVRAS DE LUIS FERNANDO (conforme textos publicados)

«A Anunciação-Encarnação do Verbo Eterno de Deus no ventre Imaculado da sempre Virgem Maria, e sua consequência — os mistérios de sua Vida, Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão —, arrancam-nos de uma perspectiva que poderia colorir-se de pessimismo para nos situar em um horizonte pascal pleno de esperança. Nesse horizonte, pela força da graça, que nos chama à cooperação, aderimo-nos vitalmente ao Senhor Jesus em um dinamismo ascensional que transforma o sentido do obrar e nos conduz à vida plena».

«A nova criação no Senhor Jesus — que nos faz homens novos pelo dinamismo kenótico, que alcança seu momento sacrificial na Cruz, e o ascensional, cuja realização culminante se dá na Ressurreição e Ascensão — ao nos reconciliar com o Pai, tal como na primeira criação, abre novamente o horizonte de amizade, de comunhão. Trata-se de uma realidade concreta, efetiva, mas que convida livremente à participação do ser humano em seus dons. Termos sido marcados com a Vida de Cristo pelo sacramento do Batismo, que realiza o que significa, não é uma garantia de que nos dias e anos deste peregrinar terreno vamos responder às graças de amor que o Espírito Santo derrama abundantemente em nossos corações. Viver a dinâmica da reconciliação supõe uma vontade que se adira ao Plano de Deus e a seu dinamismo reconciliador com a força da graça, com fortaleza e firmeza ».

«A consciência missionária está fortemente presente nos escritos do Novo Testamento. Acima de tudo a missão do Filho ocupa um lugar super central no anúncio apostólico. “Mas, ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher”, para restaurar o vínculo quebrado, redimir a humanidade e realizar o dom da adoção filial. “Com efeito, quando ainda estávamos fracos, no tempo marcado, Cristo morreu pelos ímpios; na verdade, alguém aceitaria morrer por um justo; por um homem de bem talvez alguém se atrevesse a morrer; mas a prova de que Deus nos ama é que Cristo, sendo nós ainda pecadores, morreu por nós. Com mais razão ainda, nós, justificados agora por seu sangue, seremos por ele salvos da cólera! Se quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida!”.

»Prolongando essa missão através da história, aparece a Igreja, em Maria, nos Apóstolos, nos discípulos, nos seguidores do Senhor Jesus. A Epístola aos Hebreus diz: “Meus santos irmãos e companheiros da vocação celestial, considerai atentamente a Jesus, o Apóstolo e Sumo sacerdote da nossa profissão de fé” (Hb 3,1). O chamado à fidelidade onde aparece esta passagem faz referência à consequência do chamado celestial de confessar e anunciar a fé no Apóstolo e Sumo Sacerdote por excelência: Jesus, o Senhor. O sentido missionário da existência cristã fica belamente explicado no relato sobre a Ascensão, quando o Senhor Jesus revela a missão daqueles que teriam que receber a força do Espírito Santo: “serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda Judeia e Samaria, e até os limites da terra”. O anúncio evangélico está ligado ao chamado a ser cristão como se vê na história da Igreja desde o começo. A vida apostólica de São Paulo é um exemplo especial disso. Dando testemunho de sua missão ele declara: “E me disse: ‘Vai, porque é para os gentios, para longe, que eu quero enviar-te’”. E em outra ocasião escreve: “Pregar o Evangelho não é título de glória para mim; é, antes, uma necessidade que se me impõe. E ai de mim se não evangelizar!”.

»A Igreja que brota publicamente na Páscoa do Senhor como humanidade nova tem como missão, pela efusão do Espírito sobre os discípulos, servidores responsáveis pela marcha do novo Povo de Deus, dar testemunho da Vida, prolongando sua missão. Em Pentecostes, a grande efusão do Espírito divino inicia a manifestação pública da Igreja, que se produz através dos frutos do dom, pela palavra que gera a fé e pelos sacramentos. O horizonte transcende o antigo povo escolhido para estender-se universalmente no novo Povo de Deus. As conversões de samaritanos e gentios tornam concreta a missão universal do anúncio do Senhor Jesus, O Salvador. Há um novo horizonte produzido pela irrupção do Verbo Eterno na história humana, fazendo-se Filho da Virgem Maria para a reconciliação dos seres humanos, seus irmãos. Este novo horizonte leva à adesão pessoal ao Senhor Jesus e à aceitação de seu Plano. O sentido missionário da existência cristã brota precisamente dessa adesão, do aceitar a vocação de viver o amor e permanecer nele, e de compartilhar essa experiência de graça com todos os irmãos. A generosidade no compartilhar, no comunicar os bens alcança também, e em primeiro lugar, a maior riqueza que se possui: a fé».

 

Fonte: Movimento de Vida Cristã

São José Operário

1º DE MAIO

32. SÃO JOSÉ OPERÁRIO

Memória

– O trabalho, um dom de Deus.

– Sentido humano e sobrenatural do trabalho.

– Amar a nossa ocupação profissional.

A memória de São José Operário vem-se celebrando liturgicamente desde 1955. A Igreja recorda assim – seguindo o exemplo de São José e sob o seu patrocínio – o valor humano e sobrenatural do trabalho. Todo o trabalho humano é colaboração com a obra de Deus Criador, e por Jesus Cristo converte-se – na medida do amor a Deus e da caridade com os outros – em verdadeira oração e em apostolado.

I. VIVERÁS DO TRABALHO das tuas mãos…1

A Igreja, ao apresentar-nos hoje São José como modelo, não se limita a louvar uma forma de trabalho, mas a dignidade e o valor de todo o trabalho humano honrado. Na primeira Leitura da Missa2, lemos a narração do Gênesis em que o homem surge como participante da Criação. A Sagrada Escritura também nos diz que Deus colocou o homem no jardim do Éden paraque o cultivasse e guardasse3.

O trabalho foi desde o princípio um preceito para o homem, uma exigência da sua condição de criatura e expressão da sua dignidade. É a forma como colabora com a Providência divina sobre o mundo. Com o pecado original, a forma dessa colaboração, o como, sofreu uma alteração: A terra será maldita por tua causa – lemos também no Gênesis4 –;com fadiga te alimentarás dela todos os dias da tua vida… Comerás o pão com o suor do teu rosto…

O que deveria ser realizado de um modo sereno e aprazível, tornou-se depois da queda original trabalhoso, e muitas vezes esgotador. No entanto, permanece inalterada a realidade de que o trabalho em si está relacionado com o Criador e colabora com o plano de redenção dos homens. As condições que o rodeiam fizeram com que alguns o considerassem um castigo, ou que, pela malícia do coração do homem, se convertesse numa simples mercadoria ou num “instrumento de opressão”, a tal ponto que por vezes se torna impossível compreender a sua grandeza e dignidade. E há ainda os que pensam que é um meio de ganhar dinheiro, a serviço da vaidade, da auto-afirmação, do egoísmo… Em todas essas atitudes, esquece-se que o trabalho é de per si obra divina, porque é colaboração com Deus e oferenda que se lhe faz, meio por excelência de adquirir e desenvolver as virtudes humanas e sobrenaturais.

É freqüente observar que a sociedade materialista dos nossos dias aprecia os homens “pelo que ganham”, pela sua capacidade de obter um maior nível de bem-estar econômico. “É hora de que todos nós, cristãos, anunciemos bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz nenhum sentido dividir os homens em diferentes categorias, conforme os tipos de trabalho, considerando umas ocupações mais nobres do que outras. O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da personalidade; é vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para o sustento da família; meio de contribuir para o progresso da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade”5.

Tudo isto no-lo recorda a festa de hoje6, ao propor-nos São José como modelo e padroeiro: um homem que viveu do seu ofício, a quem devemos recorrer com freqüência para que não se degrade nem se distorça o trabalho que temos entre mãos, pois não raras vezes, quando se esquece Deus, “a matéria sai da oficina enobrecida, ao passo que os homens se envilecem”7. O nosso trabalho, com a ajuda de São José, deve sair das nossas mãos como uma oferenda gratíssima ao Senhor, convertido em oração.

II. O EVANGELHO DA MISSA8 mostra-nos, uma vez mais, como Jesus é conhecido em Nazaré pelo seu trabalho. Quando voltou à sua terra, os seus conterrâneos comentavam: Não é este o filho do carpinteiro? A sua mãe não é Maria?… Em outro lugar, a Escritura diz que, como acontece em tantas ocasiões, Jesus continuou o ofício daquele que na terra fez junto dEle as vezes de pai: Não é este o carpinteiro, filho de Maria?…9

Ao ser assumido pelo Filho de Deus, o trabalho ficou santificado e, desde então, pode converter-se numa tarefa redentora se o unirmos a Cristo, Redentor do mundo. A fadiga, o esforço, as dificuldades, que são conseqüências do pecado original, convertem-se com Cristo em algo de imenso valor sobrenatural. Sabemos que o homem foi associado à obra redentora de Jesus Cristo, “o qual conferiu uma dignidade eminente ao trabalho quando trabalhou em Nazaré com as suas próprias mãos”10.

Qualquer trabalho nobre pode chegar a ser uma tarefa que aperfeiçoa aquele que o realiza bem como toda a sociedade, e pode converter-se em meio de ajudar os outros através da comunhão que existe entre todos os membros do Corpo Místico de Cristo que é a Igreja. Mas, para isso, é necessário não esquecer o fim sobrenatural que devem ter todos os atos da vida, mesmo os que se apresentam como muito duros ou difíceis: “O condenado às galés bem sabe que rema a fim de mover um barco, mas, para reconhecer que isso dá sentido à sua existência, terá que aprofundar no significado que a dor e o castigo têm para um cristão; quer dizer, terá que encarar a sua situação como uma possibilidade de identificar-se com Cristo. Pois bem, se por ignorância ou por desprezo não o consegue, chegará a odiar o seu “trabalho”. Um efeito similar pode dar-se quando o fruto ou o resultado do trabalho (não a sua retribuição econômica, mas aquilo que se “trabalhou”, “elaborou” ou “fez”) se perde numa lonjura de que quase não se tem notícia”11. Quantas pessoas, infelizmente, se dirigem todas as manhãs ao seu “trabalho” como se fossem para as galés! Vão remar um barco que não sabem para onde se dirige, e aliás sem se importarem com isso. Só esperam o fim de semana e o ordenado. Esse trabalho, evidentemente, não dignifica, não santifica; dificilmente servirá para desenvolver a personalidade.

Pensemos hoje, junto de São José, no valor que damos às nossas ocupações, no esforço que pomos em acabá-las com perfeição, na pontualidade, na competência profissional, na serenidade – não contraposta à urgência – com que as realizamos… Se o nosso trabalho for sempre humanamente bem feito, poderemos dizer com a liturgia da Missa de hoje: Ó Deus, fonte de todos os benefícios, olhai as oferendas que vos apresentamos na festa de São José, e fazei que estes dons se transformem em fonte de graça para aqueles que vos invocam12.

III. OBRA BEM FEITA é aquela que se executa com amor. Ter apreço pelo trabalho profissional, pelo ofício que se exerce, é talvez o primeiro passo para dignificá-lo e para elevá-lo ao plano sobrenatural. Devemos pôr o coração nas tarefas que temos entre mãos, e não fazê-lo “porque não há outro remédio”. “Meu filho, aquele homem que veio ver-me esta manhã – aquele de blusão cor de terra – não é um homem honesto […]. Exerce a profissão de caricaturista num jornal ilustrado. Isso lhe dá de que viver, ocupa-lhe as horas do dia. E, no entanto, sempre fala com repugnância do seu ofício e diz: «Se eu pudesse ser pintor! Mas é indispensável que desenhe essas bobagens para poder comer. Não olhe para os bonecos, homem, não os veja! Comércio puro…» Quer dizer que trabalha unicamente pelo lucro. E deixou que o seu espírito se ausentasse daquilo em que ocupa as mãos. Porque tem o seu trabalho na conta de coisa muito vil. Mas eu te digo, filho, que se o trabalho do meu amigo é tão vil, se os seus desenhos podem ser chamados bobagens, a razão está justamente em que ele não pôs neles o seu espírito. Não há tarefa que não se torne nobre e santa quando o espírito nela reside. É nobre e santa a tarefa do caricaturista, como a do carpinteiro e a do lixeiro […]. Há uma maneira de fazer caricaturas, de trabalhar a madeira […], que revela que se pôs amor nessa atividade, cuidados de perfeição e harmonia, e uma pequena chispa de fogo pessoal: isso que os artistas chamam estilo próprio, e que não há obra nem obrinha humana em que não possa florescer. Essa é a boa maneira de trabalhar. A outra, a de menosprezar o ofício, tendo-o por vil, ao invés de redimi-lo e secretamente transformá-lo, é má e imoral. O visitante de blusão cor de terra é, pois, um homem imoral, porque não ama o seu ofício”13.

São José ensina-nos a realizar bem o ofício que nos ocupa tantas horas: as tarefas domésticas, o laboratório, o arado ou o computador, o trabalho de carregar pacotes ou de cuidar da portaria de um edifício… A categoria de um trabalho reside na sua capacidade de nos aperfeiçoar humana e sobrenaturalmente, nas possibilidades que nos oferece de levar adiante a família e de colaborar nas obras em favor dos homens, na ajuda que através dele prestamos à sociedade…

São José, enquanto trabalhava, tinha Jesus diante de si. Pedia-lhe que segurasse uma madeira enquanto ele a serrava, ensinava-lhe a manejar o formão e a plaina… Quando se sentia cansado, olhava para o seu filho, que era o Filho de Deus, e aquela tarefa adquiria aos seus olhos um novo vigor, porque sabia que com o seu trabalho colaborava com os planos misteriosos, mas reais, da salvação. Peçamos-lhe hoje que nos ensine a ter essa presença de Deus que ele teve enquanto exercia o seu ofício. E não nos esqueçamos de Santa Maria, a quem vamos dedicar com muito amor este mês de Maio que hoje começa. Não nos esqueçamos de oferecer em sua honra todos estes dias, alguma hora de trabalho ou de estudo, mais intensa, mais bem acabada.

(1) Sl 127, 1-2; cfr. Antífona de entrada da Missa de 1º de maio; (2) Gen 1, 26; 2, 3; (3) Gen 2, 15; (4) Gen 3, 17-19; (5) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 47; (6) João Paulo II, Exort. Apost. Redemptoris custos, 15-VIII-1989, 22; (7) Pio XI, Enc.Quadragesimo anno, 15-V-1931; (8) Mt 13, 54-58; (9) Mc 6, 3; (10) Conc. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 67; (11) P. Berglar, Opus Dei, Rialp, Madrid, 1987, pág. 309; (12) Oração sobre as oferendas da Missa de 1º de maio; (13) E. D’Ors,Aprendizaje y heroísmo: grandeza y servidumbre de la inteligencia, EUNSA, Pamplona, 1973, págs. 19-20.

 

Fonte: Falar com Deus

Catequese de Bento XVI sobre Santa Catarina de Sena

 

Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé
(tradução de Leonardo Meira – equipe CN Notícias)

Queridos irmãos e irmãs,

hoje, eu gostaria de falar-vos sobre uma mulher que teve um papel de destaque na história da Igreja. Trata-se deSanta Catarina de Sena. O século em que viveu – o décimo quarto – foi uma época conturbada para a vida da Igreja e da sociedade em geral na Itália e na Europa. No entanto, mesmo nos momentos de maior dificuldade, o Senhor não cessa de abençoar o seu Povo, suscitando Santos e Santas que inspiram as mentes e os corações, levando à conversão e à renovação. Catarina é uma dessas e ainda hoje fala-nos e estimula-nos a caminhar com coragem rumo à santidade, para sermos cada vez mais plenamente discípulos do Senhor.

Nascida em Sena em 1347, em uma família muito numerosa, morreu em sua cidade natal, em 1380. Com a idade de 16 anos, impulsionada por uma visão de São Domingos, entrou na Ordem Terceira Dominicana, o ramo feminino dito das Mantellate. Permanecendo em família, confirmou o voto de virgindade feito privadamente quando ainda era adolescente, dedicou-se à oração, à penitência, às obras de caridade, especialmente em benefício dos doentes.

 

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Quando a fama de sua santidade espalhou-se, foi protagonista de uma intensa atividade de aconselhamento espiritual na relação com todas as categorias de pessoas: nobres e políticos, artistas e gente do povo, pessoas consagradas, eclesiásticos, incluindo o Papa Gregório XI que, naquele período, residia em Avignon e ao qual Catarina exortou enérgica e eficazmente que retornasse para Roma. Viajou muito para solicitar a reforma interior da Igreja e promover a paz entre os Estados: também por esse motivo, o Venerável João Paulo II desejou declará-la copadroeira da Europa: o Velho Continente nunca poderá esquecer as raízes cristãs que formam a base de seu caminho e continua a desenhar, a partir do Evangelho, os valores fundamentais que asseguram a justiça e a harmonia.

Catarina sofreu muito, como muitos Santos. Alguns chegaram a pensar que se devesse ter cautela com ela ao ponto de que, em 1374, seis anos antes de sua morte, o capítulo geral dos Dominicanos convocou-a a Florença para interrogá-la. Colocaram-na junto a um frade douto e humilde, Raimundo de Cápua, futuro Mestre-Geral da Ordem. Ele tornou-se seu confessor e também seu "filho espiritual" e escreveu a primeira biografia completa da santa. Foi canonizada em 1461.

A doutrina de Catarina, que aprendeu a ler com dificuldade e aprendeu a escrever quando já era adulta, está contida no Il Dialogo della Divina Provvidenza ovvero Libro della Divina Dottrina [O Diálogo da Divina Providência ou Livro da Divina Doutrina], uma obra-prima da literatura espiritual, em seu Epistolario [Correspondências] e na reunião dasPreghiere [Orações]. Seu ensino possui uma riqueza tamanha que o Servo de Deus Paulo VI, em 1970, declarou-a Doutora da Igreja, título que se uniu àquele de copadroeira da cidade de Roma, por desejo do Beato Pio IX, e de Padroeira da Itália, de acordo com a decisão do Venerável Papa Pio XII.

Em uma visão que jamais se apagou do coração e da mente de Catarina, Nossa Senhor apresentou-a a Jesus, que lhe deu um esplêndido anel de ouro, dizendo: "Eu, teu Criador e Salvador, esposo-te na fé, que conservarás sempre pura, até quando vieres celebrar comigo no céu as tuas núpcias eternas" (Raimundo de Cápua, S. Caterina da Siena, Legenda maior, n. 115, Siena, 1998). Aquele anel foi visível somente para ela. Nesse episódio extraordinário, colhemos o centro vital da religiosidade de Catarina e de toda a espiritualidade verdadeira: o cristocentrismo. Cristo é para ela como o esposo, com quem há uma relação íntima, de comunhão e de fidelidade; é o bem amado acima de todos os outros bens.
Essa união profunda com o Senhor é ilustrada por um outro episódio da vida dessa grande mística: a troca de corações. Segundo Raimundo de Cápua, que transmite as confidências recebidas de Catarina, o Senhor Jesus lhe aparece segurando na mão um coração humano vermelho esplendente, abre-lhe o peito, introdu-lo e diz: "Querida filha, como no outro dia eu tomei o teu coração que tu me ofereceste, eis que agora te dou o meu, e de agora em diante ficará no lugar que ocupava o teu" (ibid.). Catarina viveu realmente as palavras de São Paulo, "[…] não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim" (Gl 2, 20).

Assim como a santa sienesa, todo o crente sente a necessidade de conformar-se com os sentimentos do Coração de Cristo para amar a Deus e o próximo como Cristo mesmo ama. E todos nós podemos deixar-nos transformar o coração e aprender a amar como Cristo, em uma familiaridade com ele nutrida pela oração, meditação da Palavra de Deus e dos Sacramentos, sobretudo recebendo frequentemente e com devoção a santa Comunhão. Também Catarina pertence àquela fileira de santos eucarísticos com que eu desejei concluir a minhaExortação Apostólica Sacramentum Caritatis (cf. n. 94). Queridos irmãos e irmãs, a Eucaristia é um dom extraordinário de amor que Deus nos renova continuamente para alimentar o nosso caminho de fé, revigorar a nossa esperança, inflamar a nossa caridade, para tornar-nos sempre mais semelhantes a Ele.

Em torno de uma personalidade tão forte e autêntica foi-se constituindo uma verdadeira e própria família espiritual. Tratava-se de pessoas fascinadas pela autoridade moral desta jovem mulher de elevadíssimo nível de vida, e às vezes impressionadas também pelos fenômenos místicos de que participava, como o êxtase frequente. Muitos colocaram-se ao seu serviço e, sobretudo, consideraram um privilégio serem guiados espiritualmente por Catarina. Eles chamavam-na de "mamãe", porque, como filhos espirituais, dela obtêm a nutrição do espírito.

Também hoje a Igreja recebe um grande benefício do exercício da maternidade espiritual de tantas mulheres, consagradas e leigas, que alimentam nas almas o pensamento por Deus, fortalecem a fé do povo e orientam a vida cristã rumo a picos sempre mais elevados. "Filho, digo-vos e chamo-vos – escreve Catarina dirigindo-se a um de seus filhos espirituais, o cartuxo João Sabatini –, enquanto dou-vos à luz através de contínuas orações e lembrança constante diante de Deus, como uma mãe dá à luz ao filho" (Epistolario, Lettera  n. 141: A don Giovanni de’ Sabbatini). Ao frade dominicano Bartolomeu de Dominici era usual dirigir-se com estas palavras: "Diletíssimo e queridíssimo irmão e filho em Cristo, doce Jesus".

Uma outra característica da espiritualidade de Catarina está relacionada com o dom das lágrimas. Elas expressam uma sensibilidade profunda e requintada, capacidade de comoção e ternura. Não poucos santos tiveram o dom das lágrimas, renovando a emoção do próprio Jesus, que não reteve ou escondeu suas lágrimas diante do sepulcro de seu amigo Lázaro e da tristeza de Maria e Marta, e à vista de Jerusalém, em seus últimos dias terrenos. Segundo Catarina, as lágrimas dos Santos se mesclam ao Sangue de Cristo, de quem ela falava com tons vibrantes e imagens simbólicas muito eficazes: "Fazei memória de Cristo crucificado, Deus e homem […]. Tenhais como objetivo Cristo crucificado, esconde-te nas chagas de Cristo crucificado, mergulha-te no sangue de Cristo crucificado" (Epistolario, Lettera n. 16: Ad uno il cui nome si tace).

Aqui nós podemos entender porque Catarina, embora consciente das carências humanas dos padres, sempre teve uma grandíssima reverência por eles: dispensam, através dos Sacramentos e da Palavra, o poder salvador do Sangue de Cristo. A Santa Sienesa convidou sempre os ministros sagrados, também o Papa, a quem chamava de "doce Cristo na terra", a serem fiéis às suas responsabilidades, movida sempre e somente pelo seu amor profundo e constante pela Igreja. Antes de morrer, disse: "Partindo-me do corpo, na verdade, consumei e dei a vida na Igreja e pela Igreja Santa, o que me é singularíssima graça" (Raimundo de Cápua, S. Caterina da Siena, Legenda maior, n. 363).

De Santa Catarina, portanto, aprendemos a ciência mais sublime: conhecer e amar Jesus Cristo e sua Igreja. NoDialogo della Divina Provvidenza, ela, com uma imagem singular, descreve Cristo como uma ponte entre o céu e a terra. Essa ponte é composta por três escadas, constituídas pelos pés, pelo lado e pela boca de Jesus. Elevando-se através das escadas, a alma passa por três fases de toda a via de santificação: a separação do pecado, a prática das virtudes e do amor, a união doce e afetuosa com Deus.

Queridos irmãos e irmãs, aprendemos de Santa Catarina a amar com coragem, de modo intenso e sincero, Cristo e a Igreja. Façamos nossas, por isso, as palavras de Santa Catarina, que lemos no Dialogo della Divina Provvidenza, na conclusão do capítulo que fala de Cristo-ponte: "Por misericórdia lavou-nos no sangue, por misericórdia desejastes conversas com as criaturas. Ó, Louco de amor! Não te bastou encarnar-te, mas desejastes também morrer! […] Ó misericórdia! O coração meu afoga-se no pensar em ti: que para onde quer que eu dirija meu pensamento, não encontro nada que não seja misericórdia" (cap. 30, pp 79-80). Obrigado.

Mês Mariano: Pedir as graças que os outros recusam

 

mariaarautosSe, porventura, tomamos consciência de que nosso amor mariano é débil e fraco, devemos fazer um pedido a Nossa Senhora.

Por sua onipotente intercessão, a Santíssima Virgem faz chover de modo contínuo sobre o mundo graças de devoção e de fidelidade a Ela, assim como graças de repúdio ao mal e às tentações do demônio. E, infelizmente, essas graças não são recolhidas nem correspondidas da maneira tão ampla como deveriam ser. Muitas delas caem em chão arenoso ou em pedras onde não desabrocham. Devemos, então, ser sensíveis a essa prodigalidade de dons celestiais, não permitir que se desperdicem, e dirigir a Nossa Senhora esta súplica:

Ó minha Mãe, por vossa insondável misericórdia, concedei-me todas as graças que os outros não aproveitam. Enchei minha alma com as dádivas divinas que reservastes para terceiros e que foram recusadas. Desse modo, correspondendo eu, amparado por vosso maternal auxílio, poderei reparar em algo a tristeza que representa para Vós a visão dessa caudal de graças sem aproveitamento. E que assim, ao menos neste vosso mísero escravo, resplandeça o dom feito aos homens. Amém.”

 

 

É uma prece a ser feita em todos os dias do mês de maio, por aqueles que se sentirem movidos interiormente a isso. Por exemplo, ao recebermos a Sagrada Eucaristia, expressemos a Nosso Senhor, por meio de sua Mãe Santíssima, o nosso desejo de que essas graças se recolham em nossa alma, que sejamos tochas ardentes de amor a Eles, e o receptáculo de todo espírito de incompatibilidade com o pecado e o mal, que devem caracterizar o verdadeiro católico.