Tratar bem a todos

 

Fonte: Falar com Deus

Reflexão da blogueira:

“ninguém tira onda com a minha cara”

“ninguém tira farinha comigo, o buraco é mais embaixo”

“comigo é: bateu, levou”

“não levo desaforo para casa!”

Quantos de nós já não disse uma dessas frases, com orgulho? Sao a nova lei de talião… se sou ofendido, revido !

Precisamos refletir sobre a mansidão e a caridade, virtudes que o cristão deve cultivar, bem como a necessidade de dar o perdão e não guardar mágoas.

– Devemos viver a caridade em qualquer ocasião. Compreensão com os que estão no erro, mas firmeza na verdade e no bem.

– Caridade com os que não nos apreciam. Oração por eles.

– A caridade leva-nos a viver a amizade com um profundo sentido cristão.

I. OUVISTES QUE FOI DITO: Olho por olho e dente por dente. Mas eu vos digo…: àquele que te levar a juízo para tirar-te a túnica, deixa-lhe também o manto; e se alguém te forçar a andar uma milha, vai com ele duas… São palavras de Jesus no Evangelho da Missa1, que nos convidam a viver a caridade para além dos critérios dos homens.

No nosso relacionamento, não podemos ser ingênuos, sem dúvida, e devemos exigir os nossos direitos dentro do que for justo, mas não nos deve parecer excessiva qualquer renúncia ou sacrifício em prol dos outros. Assim nos assemelhamos a Cristo que, com a sua morte na Cruz, nos deu um exemplo de amor acima de toda a medida humana.

O homem não tem nada de tão divino – tão de Cristo – como a mansidão e a paciência na prática do bem2. “Fomentemos aquelas virtudes – aconselha-nos São João Crisóstomo – que, juntamente com a nossa salvação, aproveitam principalmente ao próximo… Nas coisas terrenas, ninguém vive para si próprio: o artesão, o soldado, o lavrador, o comerciante, todos sem exceção contribuem para o bem comum e para o serviço do próximo. Com muito mais razão há de ser assim no terreno espiritual, porque esta é a verdadeira vida. Quem vive só para si e despreza os outros é um ser inútil, não pertence à nossa linhagem”3.

As múltiplas chamadas que o Senhor nos dirige para que vivamos a todo o momento a caridade4, devem estimular-nos a segui-lo de perto com atos concretos, procurando oportunidades de ser úteis, de proporcionar alegrias aos que estão ao nosso lado, sabendo que nunca progrediremos suficientemente nessa virtude. Ao mesmo tempo, consideremos hoje na nossa oração todos esses aspectos em que seria fácil faltarmos à caridade se não estivéssemos vigilantes: juízos precipitados, críticas negativas, faltas de atenção para com os outros por estarmos excessivamente preocupados com os nossos assuntos, esquecimentos que são fruto do desinteresse ou do menosprezo… Não é norma do cristão retribuir olho por olho e dente por dente, mas fazer continuamente o bem, ainda que, por vezes, não obtenha em troca, aqui na terra, nenhum proveito humano. O coração certamente se terá enriquecido.

A caridade leva-nos a compreender, a desculpar, a conviver com todos, de maneira que aqueles que “pensam ou atuam de um modo diferente do nosso em matéria social, política ou mesmo religiosa, devem ser objeto também do nosso respeito e do nosso apreço […]. Esta caridade e esta benignidade não se devem converter de forma alguma em indiferença no tocante à verdade e ao bem; mais ainda, a própria caridade exige que se anuncie a todos os homens a verdade que salva. Mas é necessário distinguir entre o erro, que sempre deve ser evitado, e o homem que erra, pois este conserva a dignidade da pessoa mesmo quando está dominado por idéias falsas ou insuficientes em matéria religiosa”5.

“Um discípulo de Cristo jamais tratará mal pessoa alguma; ao erro chama erro, mas, a quem está errado, deve corrigi-lo com afeto; senão, não poderá ajudá-lo, não poderá santificá-lo”6, e essa é a maior prova de caridade.

II. O PRECEITO DA CARIDADE não se estende somente àqueles que nos querem e nos tratam bem, mas a todos sem exceção. Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos aborrecem e orai pelos que vos perseguem e caluniam.

Devemos também viver a caridade com aqueles que nos tratam mal, que nos difamam e roubam a honra, que procuram positivamente prejudicar-nos. O Senhor deu-nos exemplo disso na Cruz7, e os discípulos seguiram o mesmo caminho do Mestre8. Ele nos ensinou a não ter inimigos pessoais – como o testemunharam heroicamente os santos de todas as épocas – e a considerar o pecado como o único mal verdadeiro.

A caridade terá diversas manifestações que não se opõem à prudência e à defesa justa, à proclamação da verdade em face da difamação, e à defesa enérgica do bem e dos legítimos interesses pessoais ou do próximo, e dos direitos da Igreja. Mas o cristão deve ter sempre um coração grande para respeitar a todos, mesmo aqueles que se manifestam como inimigos; e deve fazê-lo “não por serem irmãos – diz Santo Agostinho –, mas para que o sejam; para tratar sempre com amor fraterno aquele que já é irmão e aquele que se manifesta como inimigo, a fim de que venha a ser irmão”9.

Este modo de atuar, que exige uma profunda vida de oração, distingue-nos claramente dos pagãos e daqueles que realmente não querem viver como discípulos de Cristo. Pois, se amardes os que vos amam, que recompensa tereis? Também não fazem isso os publicanos? E se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis a mais? Também não fazem isso os gentios? A fé cristã pede não apenas um comportamento humano correto, mas virtudes heróicas.

Com a ajuda da graça, estenderemos, pois, a nossa caridade aos que não se comportam como filhos de Deus, aos que o ofendem, porque “nenhum pecador, enquanto tal, é digno de amor; mas todo o homem, enquanto tal, é digno de ser amado por Deus”10. Todos continuam a ser filhos de Deus e capazes de converter-se e de alcançar a glória eterna.

A caridade incitar-nos-á à oração, à exemplaridade, ao apostolado, à correção fraterna, confiando em que todo o homem é capaz de retificar os seus erros. Se vez por outra as ofensas, as injúrias, as calúnias forem particularmente dolorosas, pediremos ajuda a Nossa Senhora, que contemplamos freqüentemente ao pé da Cruz, sentindo muito de perto todas as infâmias contra o seu Filho: grande parte daquelas injúrias, não o esqueçamos, saíram dos nossos lábios e das nossas ações. Os agravos que nos fazem hão de doer-nos sobretudo pela ofensa a Deus que representam e pelo mal que podem ocasionar a outras pessoas, e hão de mover-nos a desagravar a Deus e a oferecer-lhe toda a reparação que pudermos.

III. O CORAÇÃO DO CRISTÃO tem de ser grande. A sua caridade, evidentemente, deve ser ordenada e, portanto, deve começar pelos mais próximos, pelas pessoas que, por vontade divina, estão à sua volta. No entanto, o seu afeto nunca pode ser excludente ou limitar-se a âmbitos reduzidos. O Senhor não quer um apostolado de horizontes tão estreitos. A atitude do cristão, a sua convivência com todos, deve ser como uma generosa torrente de carinho sobrenatural e de cordialidade humana, que banha tudo à sua passagem.

Pedimos a Deus na nossa oração pessoal que nos dilate o coração; que nos ajude a oferecer sinceramente a nossa amizade a um círculo cada vez mais vasto de pessoas; que nos anime a ampliar constantemente o campo do nosso apostolado, ainda que num caso ou noutro não sejamos correspondidos, ainda que seja necessário enterrarmos freqüentemente o nosso próprio eu, ceder nalgum ponto de vista ou nalgum gosto pessoal. A amizade leal exige um esforço positivo – que será alimentado pelo trato assíduo com Jesus Cristo – “por compreender as convicções dos nossos amigos, mesmo que não cheguemos a partilhar delas nem a aceitá-las”11 por não poderem conciliar-se com as nossas convicções de cristãos.

O Senhor não deixa de perdoar as nossas ofensas sempre que voltamos para Ele movidos pela sua graça; tem uma paciência infinita com as nossas mesquinhezes e com os nossos erros; por isso nos pede – e assim nos ensinou expressamente no Pai Nosso – que tenhamos paciência em face de certas situações e circunstâncias que dificultam que os nossos amigos ou conhecidos se aproximem de Deus. A falta de formação e a ignorância da doutrina que as pessoas revelam, os seus defeitos patentes, mesmo a sua aparente indiferença, não nos devem afastar delas, antes hão de ser para nós chamadas positivas, prementes, luzes que indicam uma maior necessidade de ajuda espiritual; hão de ser um estímulo para intensificarmos o nosso interesse por cada uma dessas pessoas e nunca um motivo para nos afastarmos delas.

Formulemos um propósito concreto que nos faça aproximar-nos dos nossos parentes, amigos e conhecidos que estejam espiritualmente mais necessitados, e peçamos graças à Santíssima Virgem para levá-lo a cabo.

(1) Mt 5, 38-48; (2) cfr. São Gregório Nazianzeno, Oração, 17, 9; (3) São João Crisóstomo,Homilias sobre São Mateus, 77, 6; (4) cfr. Jo 13, 34-35; 15, 12; (5) Conc. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 28; (6) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 9; (7) cfr. Lc 23, 34; (8) cfr. At 7, 60; (9) Santo Agostinho, Comentário à primeira Epístola de São João, 4, 10, 7; (10) idem, Sobre a doutrina cristã, 1, 27; (11) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 746.

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Mansidão (III)

A MANSIDÃO opõe-se às manifestações estéreis de violência – que no fundo são sinais de fraqueza: impaciência, irritação, frieza, mau humor, ódio, etc. -, ao dispêndio inútil de forças por aborrecimentos que não têm razão de ser, nem pela sua origem – muitas vezes, surgem de ninharias que se podiam ter ultrapassado com um sorriso ou com o silêncio -, nem pelos seus resultados, porque não resolvem nada.

Da falta desta virtude provêm as explosões de mau humor entre os esposos, que vão corroendo pouco a pouco o verdadeiro amor; a iracúndia e suas conseqüências funestas na educação dos filhos; a falta de paz na oração, porque, ao invés de se falar com Deus, ruminam-se ofensas recebidas.

O domínio de si próprio – que faz parte da verdadeira mansidão – é a arma dos fortes; impede que falemos cedo demais, que digamos palavras ferinas que depois preferiríamos nunca ter pronunciado. A mansidão sabe esperar o momento oportuno e matiza os juízos, preservando-lhes toda a sua força.

A falta habitual de mansidão é fruto da soberba e só produz solidão e esterilidade à sua volta. “O teu mau gênio, as tuas reações bruscas, os teus modos pouco amáveis, as tuas atitudes desprovidas de afabilidade, a tua rigidez – tão pouco cristã! -, são a causa de que te encontres só, na solidão do egoísta, do homem amargurado, do eterno descontente, do ressentido, e são também a causa de que à tua volta, em vez de amor, haja indiferença, frieza, ressentimento e desconfiança. É preciso que, com um temperamento amável e compreensivo, com a mansidão de Cristo amalgamada à tua vida, sejas feliz e faças felizes todos os que te rodeiam, todos os que te encontram no caminho da sua vida”.

Os mansos possuirão a terra. Possuir-se-ão a si próprios, porque não serão escravos das suas impaciências e do seu caráter iracundo; possuirão a Deus, porque a sua alma estará sempre inclinada à oração, num clima de contínua presença de Deus; possuirão os que os rodeiam, porque só um coração manso e humilde conquista a amizade e o carinho dos outros. Na nossa passagem pelo mundo, temos que espalhar o bom aroma de Cristo: o nosso sorriso habitual, uma calma serena, bom-humor e alegria, caridade e compreensão.

Examinemos qual a nossa disposição para o sacrifício, necessário para tornar agradável a vida aos outros; se somos capazes de renunciar aos nossos juízos, sem pretender ter sempre razão; se sabemos reprimir o mau gênio e passar por alto os atritos que surgem no convívio diário.

O tempo do Advento é uma boa ocasião para reforçarmos esta atitude do coração. Chegaremos a consegui-lo se procurarmos com mais freqüência Jesus, Maria e José; se soubermos aproximar-nos do Sacrário para conversar com o Senhor sobre os assuntos que mais nos preocupam ou nos contrariam.

Fonte: Falar com Deus.

Mansidão (II)

A MANSIDÃO não é característica dos homens moles ou amorfos; pelo contrário, exige uma grande fortaleza de espírito, e o próprio exercício desta virtude implica contínuos atos de fortaleza. Assim como os pobres são os verdadeiramente ricos segundo o Evangelho, assim também os mansos são os verdadeiramente fortes. “Bem-aventurados os mansos porque estão protegidos contra o demônio e contra os golpes das perseguições na guerra deste mundo. São como copos de vidro recobertos de palha ou de feno, que não se quebram quando recebem uma pancada. A mansidão é como um escudo muito forte contra o qual se chocam e se desfazem os ataques das setas agudas da ira. Os mansos vão vestidos com vestes de algodão muito suave, que os defendem sem incomodar ninguém”. A matéria própria desta virtude é a paixão da ira nas suas múltiplas manifestações, uma paixão que passa a ser de tal modo moderada e retificada que não desperta senão quando é necessário e na medida em que o é.

Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração. Diante da majestade de Deus, que se fez criança em Belém, tudo o que nos atinge adquire as suas justas proporções, e o que poderia ser uma grande contrariedade permanece na sua exata medida. Aprendemos a não perder a paz e a ser justos ao avaliarmos os diversos incidentes da vida diária, a calar-nos em muitas ocasiões, a sorrir, a tratar bem os outros, a esperar o momento oportuno para lhes corrigir uma falta.

Aprendemos também a sair em defesa da verdade e dos interesses de Deus e dos nossos irmãos com toda a firmeza que seja necessária. Porque a mansidão não é contrária a uma cólera santa perante a injustiça. Não é mansidão o que serve de refúgio à covardia.

A ira é, pois, justa e santa quando se propõe respeitar os direitos dos outros e, de modo especial, a soberania e a santidade de Deus. Vemos Jesus santamente irado diante dos fariseus e dos mercadores do Templo. O Senhor encontra o Templo convertido num covil de ladrões, num lugar profanado, dedicado a coisas que não tinham nada que ver com a adoração de Deus, e irrita-se terrivelmente, demonstrando-o com as suas palavras e atos. Os evangelistas descreveram-nos muito poucas cenas tão contundentes como esta.

E juntamente com a santa ira de Jesus para com os que prostituem o lugar santo, vemos a sua grande misericórdia para com os necessitados: Chegaram-se a Ele cegos e coxos que se encontravam no Templo, e Ele os sarou.

Fonte: Falar com Deus.

Mansidão (I)

A liturgia do Advento propõe-nos Cristo manso e humilde para que o procuremos com simplicidade, e também para que nos esforcemos por imitá-lo como preparação para o Natal. Só assim poderemos compreender os acontecimentos de Belém; e só assim poderemos fazer com que aqueles que caminham ao nosso lado nos acompanhem até o Menino-Deus.

A um coração manso e humilde como o de Cristo, as almas abrem-se de par em par. No seu Coração amabilíssimo, as multidões encontravam refúgio e descanso; e também agora se sentem fortemente atraídas por Ele, e nEle acham a paz. O Senhor disse-nos que aprendêssemos dEle. A fecundidade da ação apostólica estará sempre muito relacionada com esta virtude da mansidão.

Se observarmos Jesus de perto, vê-lo-emos paciente com os defeitos dos seus discípulos e disposto a repetir-lhes constantemente os mesmos ensinamentos, para que, apesar de lentos e distraídos, conheçam a doutrina da salvação. Não se impacienta com as suas rudezas e faltas de correspondência. Realmente, Jesus, “que é nosso Mestre e Senhor, manso e humilde de coração, atraiu e convidou pacientemente os seus discípulos”.

Imitar Jesus na sua mansidão é o remédio para as nossas irritações, impaciências e faltas de cordialidade e de compreensão. Este espírito sereno e acolhedor nascerá e crescerá em nós à medida que procurarmos estar cada vez mais na presença de Deus e considerarmos com mais freqüência a vida de Nosso Senhor. “Oxalá fossem tais o teu porte e a tua conversação que todos pudessem dizer, ao ver-te ou ouvir-te falar: «Este lê a vida de Jesus Cristo»”. A contemplação de Jesus nos ajudará especialmente a não ser altivos e a não nos impacientarmos com as contrariedades.

Não cometamos o erro de pensar que o nosso “mau gênio”, que se manifesta em ocasiões e circunstâncias bem determinadas, depende da maneira de ser dos que nos rodeiam. “A paz do nosso espírito não depende do bom caráter e benevolência dos outros. Esse caráter bom e essa benignidade dos nossos próximos não estão submetidos de modo algum ao nosso poder e ao nosso arbítrio. Isso seria absurdo. A tranqüilidade do nosso coração depende de nós mesmos. É em nós que deve estar o esforço por evitar os efeitos ridículos da ira e por não fazê-lo depender da maneira de ser dos outros. O trabalho de superarmos o nosso mau gênio não há de depender da perfeição alheia, mas da nossa virtude.

Fonte: Falar com Deus.

Ira e Mansidão

A lição maior que Jesus nos ensinou foi aquela de “amar o inimigo” (cf. Mt 5, 44). Nada é tão estranho e repugnante para aquele que não age movido pelo Espírito de Deus, e se deixa guiar pela simples natureza.
O nosso mundo ensina, sem cessar, que é preciso revidar, “não levar desaforo pra casa”, ir ao revanche, etc.
Jesus, por outro lado, ensina a mansidão; isto é, não pagar o mal com o mal, mas com o bem. É o que Gandhi chamou de “não violência”, e que fez dela a sua arma mais poderosa para libertar a Índia da colonização inglesa. Dizia ele que “a força de um homem e de um povo está na não violência”.
Buscar o revide, a desforra, a vingança, é colocar-se no mesmo nível do agressor. É reagir como um animal, e não como um homem.
O segredo cristão para destruir a força do inimigo, não é a vingança, mas a mansidão. Jesus nos ensina que aí está um dos pontos da perfeição cristã. Ele quer que sejamos “perfeitos como o Pai celeste é perfeito”. (Mt 5, 48) A pedagogia de Deus, que é Pai amoroso, é esta: ser bom para com aquele que é mal, para que este, experimentando a doçura do bem, queira deixar de ser mal e se converta para o bem.
Jesus é o novo legislador, o novo Moisés, que leva a Lei antiga à perfeição: “Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelo que vos maltratam e perseguem”. (Mt 5, 43-44) Em seguida Jesus explica a razão desta exigência tão difícil:
“Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos?” (Mt 5, 46-47)
É impressionante como Jesus exige de maneira radical a vivência do perdão, e não da ira:
“Tendes ouvido o que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra”. (Mt 5, 38-39)
Se queremos ser autênticos cristãos, e não apenas de nome, Jesus nos proíbe qualquer tipo de manutenção da ira, desejo de vingança ou represália. A razão é simples: Jesus veio nos ensinar acima de tudo que somos irmãos, filhos do mesmo Pai, que ama a todos, e que não suporta que um dos filhos negue o perdão ao outro, já que Ele nos perdoa a todo instante.
A lição do perdão é fundamental , porque é o caminho para se implantar na terra o Reino de Deus, reino de irmãos que vivem o amor.
Para destruir o mal e a violência em todas as formas, Ele trouxe o remédio: o perdão. Isto é tão importante que Ele morreu na cruz dolorosamente, dando o maior exemplo do que é perdoar. Ele, que não fez mal a ninguém, mesmo tão injustiçado, soube dizer:
“Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”. (Lc 23,31)
É claro que não é fácil perdoar aquela pessoa que te magoou, aquele “amigo” que te traiu, aquele assassino do teu filho, ou aquela mulher que seduziu o seu marido. Se fosse fácil não teria mérito algum. E é preciso dizer que, por nossas próprias forças, não conseguiremos perdoar. É preciso a força do alto para vencer a fraqueza da nossa natureza ferida e que clama por vingança.
Diante de uma situação dessas onde é difícil perdoar, só há um caminho, olhar para Jesus crucificado e clamar: Senhor, Tu que perdoaste até o extremo, dá-me da Tua força e do Teu Espírito para que eu possa fazer o mesmo.
Nesta hora será preciso clamar pelo sangue inocente que Jesus deixou ser derramado na cruz para o perdão de cada um de nós.
A única exigência que Deus nos impõe para perdoar os nossos pecados, quaisquer que sejam, é que estejamos dispostos a perdoar a todos que nos ofenderam.
“Porque se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará”. (Mt 6, 14-15)
E Jesus vai ainda mais longe na sua exigência; garante que Deus não aceita a nossa oferta se houver no coração o desejo de vingança ou a negação do perdão a alguém:
“Se estás portanto para fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-se com teu irmão; só então, vem fazer a tua oferta”. (Mt 5, 23-24)
Também entre os sete grandes pedidos da maior Oração que Ele nos ensinou, acrescenta:
“Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam”. (Mt 6, 12)
Quando Pedro, um tanto afoito, lhe perguntou quantas vezes deveria perdoar a seu irmão, sete vezes?, o Senhor lhe disse:
“Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. (Mt 18, 21-22)
Ora, a resposta a Pedro é clara: “perdoar sempre”, porque Deus está pronto a nos perdoar sempre. Aquele que puser limites no perdão a ser dado ao irmão, está também pondo limites no perdão que deve receber de Deus por suas faltas. Portanto, não será Deus que porá o limite ao perdão a nos ser dado, mas nós mesmos se o negarmos aos outros.
Cada um de nós tinha uma dívida impagável para com Deus, pois cada pecado nosso ofende a Majestade infinita de Deus, e nos causa uma dívida infinita para com a sua Justiça. Para pagar esta dívida impagável pelo homem, o Pai aceitou sacrificar seu Filho amado, Unigênito, à Justiça divina, para que fôssemos perdoados. E agora, negamos o perdão ao irmão, por causa de uma simples ofensa, insignificante se comparada com o sacrifício de Jesus?
O perdão é a face mais bela da caridade. Deixemos a “vingança” por conta da justiça de Deus; não queiramos fazê-la com as nossas próprias mãos, pois elas ficarão manchadas. Deus fará cumprir toda a justiça. São Paulo ensinou isto aos cristãos de Roma:
“Abençoai aos que vos perseguem, abençoai-os e não os praguejeis… Não pagueis a ninguém o mal com o mal… Não vos vingueis uns aos outros, caríssimos, mas deixai agir a ira de Deus, porque está escrito: A mim a vingança; a mim exercer a justiça, diz o Senhor (Dt 32, 35)”. (Rom 12, 14-19)
A força do perdão é algo insuperável. Tertuliano de Alexandria († 230) disse algo que atravessou a história da Igreja e chegou até nós:
“O sangue dos mártires era semente de novos cristãos”.
O império romano matou cerca de cem mil cristãos indefesos, desarmados, que não impunham resistência, senão fugir quando podiam. No entanto, o cristianismo, pela força do amor e do perdão, não da violência, subjugou o império maior de todos os tempos. O último dos imperadores a perseguir o cristianismo, Juliano, o apóstata, no leito de morte exclamou: “Tu venceste, ó galileu!”.
Esta é a força do amor e da não violência.
Deus torna-se nosso escudo quando depomos as armas terrenas.
São Paulo ensina que quando somos capazes de perdoar aquela pessoa maldosa que fez algo contra nós, a força do nosso perdão a leva a conversão. É o que ele chamava de “amontoar brasas sobre a sua cabeça”.
Muitos se converteram porque foram perdoados e receberam o bem em troca do mal que praticaram.
Na vida de São Clemente Hofbauer, há um fato que mostra a força do perdão e da mansidão. Certa vez ele entrou numa taverna para pedir uma esmola para as obras que realizava. Um homem, Kalinski, o odiava, e estava presente. São Clemente entra e se dirige à mesa de Kalinski e pede uma esmola. “Como é Kalinski, você não vai fazer nada?” perguntou o amigo. Kalinski pegou o copo de cerveja que bebia, encheu a boca e despejou no rosto de São Clemente.
Embora de índole colérica, o santo não se perturba. Puxou o lenço, limpou o rosto e disse ao agressor: “você já deu o que eu mereço, agora dê uma esmola para os meus pobres”. A atitude do santo desconcertou Kalinski e os demais do grupo. Na mesma noite Kalinski mandou a São Clemente um saquinho de moedas de ouro e, arrependido e penitente, tornou-se grande amigo e colaborador do santo. É a força da mansidão e do perdão. Isto é amontoar brasas ardentes sobre a cabeça do pecador.
A mansidão deve ser vivida em pensamentos, palavras e atos. No trato com as pessoas é preciso ser cordial, bem-humorado, ter o sorriso nos lábios e ser paciente com os defeitos dos outros, principalmente quando estes nos irritam.
São Francisco de Sales diz que: “Não há nada que tanto edifique o próximo como a caridosa benignidade nos tratos”. Nunca ele repreendia alguém com agressividade; apenas os advertia dos seus erros com bondade. O seu grande amigo, São Vicente de Paulo, admirava a sua mansidão e aprendeu com ele a ser manso. Dizia também: “Para os superiores, não há melhor meio de se fazer obedecer do que a mansidão”.
É preciso evitar o mal hábito que ás vezes temos de repreender os outros com aspereza, com raiva e nervosismo, pois isto faz mais mal do que bem a quem queremos corrigir. Muitos pais enganam-se muito neste ponto e corrigem os filhos com agressividade, por palavras e atos. É um mal. São Paulo diz aos pais:
“Não exaspereis os vossos filhos. Pelo contrário, criai-os na educação e na doutrina do Senhor”. (Ef 6, 4)
É preciso saber corrigir o filho, com paciência, bondade e mansidão, na hora oportuna e sem humilhá-lo na frente dos outros, principalmente dos seus amigos.
São Vicente de Paulo ensinava que: “A afabilidade, o amor e a humildade tem um força maravilhosa para ganhar os corações dos homens e levá-los a abraçar as coisas mais desagradáveis à natureza humana”.
E dizia ainda que: “O espírito infernal se serve do rigor de alguns para causar maior dano às almas”.
É preciso saber calar quando estamos com o sangue fervendo nas veias. Um coisa é certa: só dizemos coisas erradas quando estamos inflamados pela paixão. Depois ficamos com vergonha de nossas atitudes e palavras destemperadas.
É preciso também saber ser manso consigo mesmo. Não se irritar com as próprias faltas. Santo Afonso de Ligório ensina-nos que “irritar-se contra nós mesmos, após uma falta, não é humildade, mas refinada soberba, como se nós não fossemos fracos e miseráveis criaturas”.
Santa Teresa dizia: “A humildade que irrita não vem de Deus, mas do demônio”.
O grande perigo, de zangar-se contra si mesmo após uma falta, está no fato de deixar a alma perturbada e, nesse estado deixa-se a oração, a comunhão e as demais práticas da piedade, ou então as fazemos mal. Santo Afonso afirma: “Uma alma perturbada pouco conhece a Deus e aquilo que deve fazer”.
Ninguém e nada rouba a paz de quem tem o coração manso e humilde, e é neste sentido que eles “possuirão a terra”. (Mt 5, 4)
Um coisa é certa – afirmam os santos – só possui a mansidão quem cultiva a humildade, e tem pouco conceito de si mesmo.
É muito difícil encontrar alguém que, ao ser corrigido, não fique se desculpando e se defendendo. É um ótimo exercício de humildade e mansidão calar-se ao ser corrigido por alguém, mesmo tendo-se certa razão. O fato de ficarmos ofendidos quando somos criticados é sinal forte de que precisamos dessa crítica.
“Aquele que odeia a correção segue os passos do pecador”. (Eclo 21, 7)
É preciso compreender que perdoar sempre e agir com não violência, não quer dizer abdicar da luta contra o mal. Pelo contrário, é uma forma muito ativa e real para vencê-lo. Assim, destruímos o pecado, e não o pecador.
Os que usam da violência contra a violência, ao invés de destruirem o pecado, acabam destruindo o pecador.
Jesus perdoou muito os pecadores ao invés de castigá-los; isto mostra que a força do perdão supera em muito a do castigo.

Pecados e Virtudes Capitais, Prof. Felipe Aquino.