Maria no Evangelho

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Não acompanharemos aqui passo a passo todos os “evangelhos de Maria”. Debruçar-nos-emos apenas sobre alguns textos evangélicos, guiados pelo desejo de captar o que acima se mencionava: que nos diz Deus de Maria? O que é que Ele pensa e quer dela? Simultaneamente, guiar-nos-á o propósito de verificar se a devoção a Maria, tal como a vivem os fiéis católicos, está em sintonia com a vontade de Deus. Para este fim, parece-nos especialmente esclarecedor, como ponto de partida, meditar a narração de São Lucas sobre a Visitação de Maria a sua prima Santa Isabel.
Quando Maria se encaminhou à casa de Isabel, ainda soavam nos seus ouvidos e no seu coração os ecos da mensagem da Anunciação. No seu seio, o Verbo – a segunda Pessoa da Santíssima Trindade – já se fizera carne. Ela era mãe e, em seu corpo virginal, trazia Deus feito homem, formava-lhe um corpo.
Por uma alusão incidental do Anjo Gabriel na Anunciação, Maria tomou conhecimento de que também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na sua velhice; e este é o sexto mês daquela que se dizia estéril (Lc 1,36).
A sua reação imediata foi pensar que Isabel precisaria de ajuda. E é por isso que vai sem demora oferecer o seu auxílio à prima idosa, que se preparava para a primeira experiência da maternidade: Levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel (Lc 1, 39-40).
Até aqui, o Evangelho apresenta uma cena de delicada caridade. Mas, a partir desse momento da narrativa, a cena familiar do encontro das duas mulheres eleva-se a um plano diverso, ganhando uma significação inesperada. Deus intervém. São Lucas descreve o que se passou com os acentos do imprevisto: “Aconteceu”, diz. Passou-se algo que não era esperado. Aconteceu que, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Exclamou ela em alta voz e disse… (Lc 1, 41-42).
Não há a menor dúvida de que o Evangelho mostra neste texto que Deus vai falar por boca de Isabel. Vai falar como o fizera pelos Profetas, cheios do Espírito Santo; e todos sabemos que a voz dos Profetas era a voz de Deus: Deus falou outrora muitas vezes e de muitos modos aos nossos pais pelos Profetas – assim começa a Epístola aos Hebreus (1, 1). Agora dispõe-se a falar de novo.
Pensando bem, o que é que seria lógico esperar dos lábios de Isabel, quando o Espírito Santo a invade – a ela e ao filho que traz nas entranhas –, inundando-a da alegria de receber em sua casa o Salvador de que Maria é portadora, o Messias esperado por séculos e séculos a fio, o próprio Deus habitando entre os homens?
Em princípio, seria razoável esperar que, perante um fato de tal transcendência, Isabel – movida pelo Espírito Santo – entoasse um cântico de adoração e de agradecimento ao Deus, Senhor de céus e terra, que se dignava chegar a sua casa. Diante da presença do Deus vivo, tudo se obscurece, todas as criaturas passam a um segundo plano, como sombras que, quando muito, refletem tenuemente os raios do Sol divino.
Certamente Isabel louva o seu Senhor e exulta nEle em alegre agradecimento. Mas a verdade é que todas as palavras que pronuncia são – do começo ao fim – um louvor e uma glorificação de Maria. É Deus quem fala por ela – precisamos repisá-lo –, e em conseqüência essas palavras inspiradas expressam o que Deus nosso Senhor “pensa” e “quer dizer” daquela que escolheu como Mãe.
Prestemos atenção ao texto do Evangelho: …Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Exclamou ela em alta voz e disse: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que a mãe do meu Senhor venha ter comigo? Porque logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas (Lc 1, 41-45). Cada palavra, cada frase, tem um peso.
Se acompanharmos o ritmo das expressões de Isabel, na sua seqüência linear, perceberemos logo que começam com um louvor a Maria, que identifica a Virgem com a mulher abençoada por Deus de uma forma única entre todas as mulheres; e que se segue um louvor a Cristo, mas a Cristo contemplado através de Maria, precisamente como filho dela: “bendito o fruto do teu ventre”. Esta é a primeira palavra que Deus profere sobre Nossa Senhora por intermédio de Isabel.
Lê-se a seguir uma segunda frase, cujo significado é este: a proximidade de Maria, a presença e a conversa com a Virgem, é um bem, é uma bênção para a alma a quem Ela se chega. “Donde me é dado que a mãe do meu Senhor venha ter comigo?” Isabel sente-se beneficiada por um dom imerecido. Não se limita a agradecer à sua parenta a atenção que está tendo com ela; se se sente honrada, para além de todo o merecimento, é porque recebeu a visita da “Mãe do meu Senhor”. É isto justamente o que a comove: que, diante dos seus olhos, está a Mãe de Deus, e a Mãe de Deus é portadora das bênçãos do céu.
Esta referência emocionada de Isabel ao dom, ao benefício recebido pela visita da Mãe do seu Senhor, torna-se ainda mais explícita e clara nas palavras que profere a seguir, com a fluência de um cântico: “Porque logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre”.
Só entenderemos cabalmente esta frase se não esquecermos que, pouco antes, São Lucas já se referira a um duplo efeito – um duplo dom – produzido pelas palavras de “saudação” proferidas por Maria: por um lado, a alegria sobrenatural de João Batista, que saltou no seio de sua mãe; por outro, a efusão do Espírito Santo na alma de Isabel. É da maior importância perceber que esse duplo dom, conforme diz o Evangelho, tenha sido concedido por Deus em virtude da presença de Maria.
O texto, com efeito, expressa uma autêntica relação de causalidade entre a chegada de Maria, a voz de Maria, e os dons divinos derramados na alma de Isabel e do seu filho. Tudo aconteceu “apenas Isabel ouviu a voz de Maria”, “logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos”, e aconteceu “por isso”. Aqui não se está falando de sentimentos ou de reações emocionais subjetivas – do estado psicológico provocado humanamente pela visita de Maria –, mas de uma iniciativa divina, de uma ação direta de Deus sobre Isabel – “ficou repleta do Espírito Santo” –, que o Evangelho vincula a Maria como causa instrumental. Deus agiu por intermédio dEla.
Também encerram uma grande riqueza as últimas palavras pronunciadas por Isabel. Trata-se de um novo louvor: “Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas”. Se esta frase não se encontrasse no Evangelho, provavelmente acharíamos excessivo o que ela diz. Surpreendentemente, Isabel – Deus por ela – afirma sem ambigüidades que “as coisas que da parte do Senhor foram ditas a Maria” se cumprirão porque Ela acreditou.
Ora, o que é que são essas coisas ditas da parte do Senhor, senão as que pouco antes o Anjo Gabriel anunciara à Virgem? Darás à luz um filho…, será grande, será chamado Filho do Altíssimo…, reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e o seu Reino não terá fim (Lc 1, 31-32). Sem dúvida, as “coisas que foram ditas” são, nem mais nem menos, o plano divino da Redenção da humanidade através da Encarnação, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.
Então, também é fora de dúvida que Isabel afirma que este plano se há de cumprir porque Maria acreditou, isto é, porque abraçou com fé e confiança plenas o convite de Deus para ser a Mãe do Redentor. Isto significa que Deus, em seus desígnios imperscrutáveis, quis fazer depender a Redenção da humanidade, de algum modo, da colaboração de Maria. Por outras palavras, Deus quis contar com a Virgem Santíssima, não como simples instrumento passivo, mas como parte ativa e colaboradora livre da obra da Redenção.
Estas considerações simples abrem-nos desde já como que uma janela, através da qual podemos contemplar o mistério de Maria a partir da perspectiva de Deus, e, simultaneamente, permitem-nos avaliar – segundo a mesma perspectiva – o sentido da devoção que o povo cristão dedica a Maria Santíssima. Na verdade, esses “pensamentos” de Deus são verdadeiros focos de luz, que iluminam por dentro os mistérios da vida e da vocação de Nossa Senhora.

(Padre Faus, Maria, Mãe de Deus, Ed Quadrante)

Mês Mariano: Pedir as graças que os outros recusam

 

mariaarautosSe, porventura, tomamos consciência de que nosso amor mariano é débil e fraco, devemos fazer um pedido a Nossa Senhora.

Por sua onipotente intercessão, a Santíssima Virgem faz chover de modo contínuo sobre o mundo graças de devoção e de fidelidade a Ela, assim como graças de repúdio ao mal e às tentações do demônio. E, infelizmente, essas graças não são recolhidas nem correspondidas da maneira tão ampla como deveriam ser. Muitas delas caem em chão arenoso ou em pedras onde não desabrocham. Devemos, então, ser sensíveis a essa prodigalidade de dons celestiais, não permitir que se desperdicem, e dirigir a Nossa Senhora esta súplica:

Ó minha Mãe, por vossa insondável misericórdia, concedei-me todas as graças que os outros não aproveitam. Enchei minha alma com as dádivas divinas que reservastes para terceiros e que foram recusadas. Desse modo, correspondendo eu, amparado por vosso maternal auxílio, poderei reparar em algo a tristeza que representa para Vós a visão dessa caudal de graças sem aproveitamento. E que assim, ao menos neste vosso mísero escravo, resplandeça o dom feito aos homens. Amém.”

 

 

É uma prece a ser feita em todos os dias do mês de maio, por aqueles que se sentirem movidos interiormente a isso. Por exemplo, ao recebermos a Sagrada Eucaristia, expressemos a Nosso Senhor, por meio de sua Mãe Santíssima, o nosso desejo de que essas graças se recolham em nossa alma, que sejamos tochas ardentes de amor a Eles, e o receptáculo de todo espírito de incompatibilidade com o pecado e o mal, que devem caracterizar o verdadeiro católico.

Maio, mês de Maria

As referências dos Evangelhos e do Atos dos Apóstolos a Maria, Mãe de Jesus, apesar de poucas, deixam ver muito desta privilegiada criatura, escolhida para tão alta missão. São Paulo, na Carta aos Gálatas (4,4), dá a entender claramente que, no pensamento divino de nos enviar o Seu Filho, quando os tempos estivessem maduros, uma Mulher era predestinada a no-Lo dar. Para que se compreenda a presença da Virgem Maria nesta predestinação divina, a Igreja, na festa de 8 de dezembro, aplica à Mãe de Deus aquilo que o livro dos Provérbios (8, 22) diz da sabedoria eterna: "Os abismos não existiam e eu já tinha sido concebida. Nem fontes das águas haviam brotado nem as montanhas se tinham solidificado e eu já fora gerada. Quando se firmavam os céus e se traçava a abóboda por sobre os abismos, lá eu estava junto dele e era seu encanto todos os dias". Era, pois, a predestinada nos planos divinos.

Para se perceber melhor o perfil materno de Nossa Senhora, três passagens bíblicas podem esclarecer isso. A primeira é a das Bodas de Caná, que realça a intercessora. Quando percebeu – o olhar feminino que tudo vê e tudo observa – estar faltando vinho, sussurra no ouvido do Filho sua preocupação e obtém, quase sem pedir, apenas sugerindo, o milagre da transformação da água em generoso vinho. Ela é, de fato, a mãe que se interessa pelos filhos de Deus que são seus filhos.

Outra passagem do Evangelho esclarecedora da personalidade de Maria é a que nos mostra seu silêncio e sua humildade. O anjo a encontra na quietude de sua casa, rezando, para dizer-lhe que fora escolhida por Deus para dar ao mundo o Emanuel, o Salvador. Ela se assusta com a mensagem celeste, porque, na sua humildade, nunca poderia ter pensado em ser escolhida do Altíssimo. Acolhe assim, por vontade divina, a palavra do mensageiro, silenciosamente, sem dizer, nem sequer ao noivo, José, o que nela se realizava. Deus tem o direito de escolher e por isso ela diz apenas o generoso “sim” que a tornou Mãe de Deus.

O terceiro traço de Maria-Mãe é sua corajosa atitude diante do sofrimento. Ao apresentar o seu Jesus no templo, ouve a assustadora profecia do velho Simeão: “Uma espada de dor transpassará a tua alma”. Pouco mais tarde, estreitando ao peito o Menino Jesus, deve fugir para o Egito com o esposo, para que a crueldade de Herodes não atingisse a Criança que – pensava ele, Herodes – lhe poderia roubar o trono. Quando seu Filho tem doze anos, desencontra-se dele e, ao achá-Lo após três dias, queixa-se amorosamente: “Por que fizeste isto? Eu e teu pai te procurávamos, aflitos”. Sua coragem se confirma na Paixão e Crucifixão de Jesus. De pé, ali no Calvário, sofre e associa-se ao sacrifício do Redentor. É a mulher forte, a mãe corajosa e firme, a quem a dor não derruba. De fato, a espada de Simeão lhe atravessara a alma e o coração. É a Senhora das Dores.

Maio, mês dedicado a Nossa Senhora, pela piedade cristã, é um convite para voltarmos nosso olhar a esta Mãe querida para pedir-lhe que abra as mãos maternas em bênção de carinho sobre nossos passos nesta difícil escalada da Jerusalém celeste.

Dom Benedicto de Ulhoa Vieira
Arcebispo Emérito de Uberaba – MG

Perseveraram, com Maria, em oração…

 

«Maria exerce sua maternidade com respeito à comunidade de crentes… também educando os discípulos do Senhor na comunhão constante com Deus. Assim, se converte em educadora do povo cristão na oração e no encontro com Deus…»1

A oração é «em sentido próprio, toda elevação do coração ao Senhor, o diálogo pessoal com Deus, no qual se dá uma entrega amorosa do coração, cheia de reconhecimento, gratidão e louvor… é um meio excelente posto por Deus para que os homens percorram o caminho da plenitude e da amizade com Ele. Para encontrar-se, para ser autêntico, para amar, a oração é o caminho»2. Nada substitui a oração, de modo que aquele que não reza, reza pouco ou mal, é como quem pretende viver sem respirar e sem alimentar-se adequadamente. E assim como para alimentar-me há horas específicas ao longo do dia, assim também para a oração deve-se ter momentos fortes de encontro com o Senhor na oração mental ou “lectio”, na meditação bíblica, ou no diálogo íntimo com o Senhor no Santíssimo. Dedicar tempos fortes para a oração, «em intensidade e em duração»3, são também necessários para poder orar «em todo tempo»4.

Orar sempre

O Senhor Jesus inculcou em seus discípulos «que era preciso orar sempre sem esmorecer»5. Ele mesmo se oferece como modelo, pois Ele «aprendeu a orar conforme o seu coração de homem. E o fez de sua Mãe que conservava todas as “maravilhas” do Todo poderoso e as meditava em seu coração6»7. Do Senhor «podemos dizer perfeitamente que “orava todo o tempo sem esmorecer”. A oração era a vida de sua alma, e toda a sua vida era oração»8.

Com sua palavra e exemplo Cristo nos ensina em primeiro lugar que é necessário rezar sempre, quer dizer, é necessário não só elevar o coração a Deus nos intervalos, em diversos momentos da jornada, mas aprender a rezar de tal modo que nossa oração não se interrompa em nenhum momento. Esse é o ideal ao qual os discípulos de Cristo temos que aspirar: a oração contínua.

Mas, acaso isto é possível? Podemos por acaso rezar sem interrupção? Santo Agostinho, ao meditar sobre a indicação do Apóstolo do Senhor orar sem cessar9, se perguntava: «Acaso nos ajoelhamos, nos prostramos e levantamos as mãos sem interrupção, e por isso se disse: Orai sem cessar? Se dissermos que só podemos orar assim, creio que é impossível orar sem cessar». Por isso, explicava o santo de Hipona, há que se entender que «existe outra oração interior e contínua», uma oração que não se interrompe, ainda que abandonemos o lugar de nossa oração: «Você se cala se deixa de amar… o fogo da caridade é o clamor do coração. Se a caridade permanece sempre, você clama sempre»10. E em outro momento dizia também: «Não cante os louvores a Deus só com sua voz, faça com que suas obras concordem com sua voz. Quando você canta com a voz, cala de tempo em tempo. Cante com sua vida de forma que nunca cale… Quando Deus é louvado por sua boa obra, com sua boa obra você louva a Deus»11. Assim, pois, quando nutridos pelos momentos fortes de oração atuamos conforme o Plano de Deus, procurando fazer o que o Filho de Maria nos disse, nos inserimos vitalmente em uma «dinâmica oracional»12 que permite converter cada um de nossos atos, apostolado e a própria vida em uma oração contínua, em um “gesto litúrgico”13, chegando a ser nós mesmos uma «hóstia viva, santa, agradável a Deus»14.

…e sem esmorecer

O Senhor Jesus também adverte sobre a necessidade de rezar sem esmorecer, quer dizer, é necessária também a perseverança na oração. Isto porque somos tão inconstantes na oração! Não poucas vezes desculpas como: “não sinto nada”, “não tenho tempo para rezar”, “tenho coisas mais urgentes/importantes para fazer”, “não tenho vontade”, “estou cansado”, “depois rezo” (e esse “depois” nunca chega), “me dá vergonha aproximar-me do Senhor porque pequei”, “o Senhor não me escuta”, etc., nos levam a abandonar facilmente a vida de oração! Quantas vezes deixamos de acudir ao Senhor nas diversas, e às vezes difíceis, provas pelas quais tivemos que passar por causa do nosso desejo de seguir o Senhor Jesus!

Perante todas as dificuldades, provas e tentações que nos convidam a abandonar a vida de oração, o Senhor nos alenta a não esmorecer. Em qualquer circunstância, favorável ou adversa, aprendamos com o Senhor a permanecer obstinadamente perseverantes na oração! E mais, é da própria oração que obtemos a força necessária para ultrapassar as provas!

Perseveravam em oração com Maria

Maria, como ensina o Papa, é «educadora do povo cristão na oração e no encontro com Deus»15, pois também Ela «orava todo o tempo sem esmorecer», também para Ela «a oração era a vida de sua alma, e toda a sua vida era oração»16. No Cenáculo, exercendo sua função maternal, vemo-la reunindo em torno de si os apóstolos e discípulos de seu Filho, perseverando com eles na oração unânime, ensinando-lhes a dispor seus corações —como Ela soube fazê-lo ao longo de toda a sua vida— para acolher o Dom prometido pelo Senhor: «virá sobre vós o Espírito Santo». Assim Maria, «Mestra de oração e Paradigma de proximidade com o Altíssimo, vai educando evangelicamente os discípulos na prece confiada»17: ora a Mãe implorando o Dom do Espírito que há de acender neles o ardor por anunciar o Evangelho do Senhor, ora em união com seus filhos, que aprendem a levar uma vida espiritual intensa de seu testemunho vivo de oração.

E o que os discípulos de Cristo aprendemos também hoje daquela que é escola e «Mãe da Oração»18? Aprendemos de sua atitude de silêncio e recolhimento interior, disposições essenciais para acolher e meditar no mais profundo do coração as grandezas de Deus, assim como para escutar, acolher e meditar continuamente a Palavra divina, aderindo-nos cordialmente a ela para pô-la em prática. Maria, mulher de oração e ação, nos ensina com seu exemplo a reservar para Deus momentos fortes de oração assim como a andar continuamente na Presença de Deus, a buscar que tudo o que façamos seja feito com a intenção de servir a Deus e seus desígnios19, desdobrando-nos assim em uma vida que dá glória a Deus com todo o nosso ser e atuar. Maria nos ensina a ter uma visão de eternidade que nos permite ver e valorizar tudo desde uma perspectiva divina. Contemplemos, pois, à Mãe, e unidos a Ela aprendamos a perseverar na oração, e em uma oração que busca ser contínua!

Citações para a oração

  • O Senhor Jesus, Ele mesmo homem de oração, é mestre e modelo de oração contínua e perseverante: Lc 3,21-22; Lc 5,16; Lc 6,12-13; Lc 9,18; Lc 9,28-29; Lc 11,1; Lc 21,37-38; Lc 22,39-46.
  • O Senhor nos ensina que é necessário perseverar na oração: Lc 1,18; para não cair em tentação: Lc 22,46; Mt 26,41; para ter força no momento da prova:Lc 21,36.
  • Também Paulo convida a ser perseverantes na oração: Rm 12,12; Cl 4,2; a orar em todas as ocasiões: Ef 6,17-18; Fl 4,6; a orar constantemente: 1Ts5,17.
  • Maria, mulher de oração, nos ensina a guardar e meditar constantemente as obras e palavras de Deus em nosso coração: Lc 2,19.51; A viver a dinâmica da oração contínua atuando em amorosa obediência aos desígnios divinos: Lc 1,38; Jo 2,5; Lc 11,27-28.
  • Os apóstolos e discípulos perseveravam na oração com Maria: At 1,14.

Notas

  • 1 S.S. João Paulo II, Catequesis do 6/9/95, n.5.
  • 2 Luis Fernando Figari, Huellas de um Peregrinar, Fondo Editorial, Lima, 1991, 2ª edição, p. 35. Esta é a mais recente.
  • 3 Catecismo da Igreja Católica, 2697.
  • 4 Lc 21,36.
  • 5 Lc 18,1.
  • 6 Ver Lc 1,49; 2,19.51.
  • 7 Catecismo da Igreja Católica, 2599.
  • 8 S.S. João Paulo II, La oração do Hijo ao Padre, 22/7/1987, 1. (Deve ter em português) ? pedir o dado na comunidade para conferirme em L’Osservatore
  • 9 1Ts 5, 17.
  • 10 Santo Agostinho, Narrações sobre os Salmos, 37. ? em portugués, acho que se traduz como “enarrações” e também como “comentários” sobre os salmos: melhor conferir
  • 11 Santo Agostinho, Narrações sobre os Salmos, 146,2. ? idem. Se precisar dos textos em portugués, acho que o Joathas os têm.
  • 12 Ver Luis Fernando Figari, Características de uma espiritualidade para nosso tempo desde a América Latina, Loyola, São Paulo 1990, p. 38.
  • 13 Ver Puebla, 213.
  • 14 Rm 12,1; ver Lumen gentium, 10.
  • 15 S.S. João Paulo II, Catequesis do 6/9/95, n.5.
  • 16 S.S. João Paulo II, A oração do Filho ao Pai, 22/7/1987, 1.
  • 17 Luis Fernando Figari, Maria paradigma de unidade.
  • 18 Luis Fernando Figari, Com María em Oração, p.28. Trata-se da oração de Santa María de Pentecostes.
  • 19 Ver Lc 1,38.

Fonte: MVC

O Melhor Lugar

 

– Os primeiros lugares.

– Humildade de Maria.

– Frutos da humildade.

I. TODOS OS DIAS são bons para fazer uns minutos de oração junto da Virgem, mas hoje, sábado, é um dia especialmente apropriado, pois são muitos os cristãos de todas as regiões da terra que procuram que os sábados transcorram muito perto de Maria.

Aproximamo-nos dEla, no dia de hoje, para que nos ensine a progredir na virtude da humildade, fundamento de todas as outras, pois a humildade “é a porta pela qual passam as graças que Deus nos outorga; é ela que amadurece todos os nossos atos, dando-lhes valor e fazendo com que sejam agradáveis a Deus. Finalmente, constitui-nos donos do coração de Deus, até fazer dEle, por assim dizer, nosso servidor, pois Deus nunca pode resistir a um coração humilde”1. É tão necessária à salvação que Jesus aproveita qualquer circunstância para elogiá-la.

O Evangelho da Missa2 diz que Jesus foi convidado para um banquete. Na mesa, como também acontece freqüentemente nos nossos dias, havia lugares de honra. Os convidados, talvez atabalhoadamente, dirigiam-se para esses lugares mais considerados. Jesus observava-os. A certa altura, quando talvez a refeição estava já a ponto de terminar, num desses momentos em que a conversa se torna menos ruidosa, disse: Quando fores convidado para umas bodas, não te sentes no primeiro lugar […]. Mas vai tomar o último lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, vem mais para cima. Então serás muito honrado na presença de todos os comensais. Porque todo aquele que se exalta será humilhado; e aquele que se humilha será exaltado.

Jesus ocupou provavelmente um lugar discreto ou aquele que o anfitrião lhe indicou. Ele sabia onde estar, e ao mesmo tempo apercebeu-se da atitude pouco elegante, mesmo humanamente, de alguns comensais. Estes, por sua vez, enganaram-se por completo, porque não souberam perceber que o melhor lugar é sempre ao lado de Jesus. Era em ocupar esse lugar, ao lado de Jesus, que deveriam porfiar. Na vida dos homens, observa-se não poucas vezes uma atitude parecida à desses comensais: quanto empenho em serem considerados e admirados, e que pouco em permanecerem perto de Deus! Nós pedimos hoje a Santa Maria, neste tempo de oração e ao longo do dia, que nos ensine a ser humildes, que é a única maneira de crescermos no amor ao seu Filho, de estarmos perto dEle. A humildade conquista o Coração de Deus.

“«Quia respexit humilitatem ancillae suae» – porque viu a baixeza da sua escrava…

“Cada dia me persuado mais de que a humildade autêntica é a base de todas as virtudes!

“Fala com Nossa Senhora, para que Ela nos vá adestrando em caminhar por essa senda”3.

II. A VIRGEM MOSTRA-NOS o caminho da humildade. É uma virtude que não consiste essencialmente em reprimir os impulsos da soberba, da ambição, do egoísmo, da vaidade…, pois Nossa Senhora nunca teve nenhum desses movimentos e, no entanto, foi humilde em grau eminente. A palavra “humildade” vem do latim humus, terra, e significa inclinar-se para a terra. Trata-se de uma virtude que consiste fundamentalmente em inclinar-se diante de Deus e diante de tudo o que há de Deus nas criaturas4, em reconhecer a nossa pequenez e indigência em face da grandeza do Senhor.

As almas santas “sentem uma alegria muito grande em aniquilar-se diante de Deus, em reconhecer que só Ele é grande e que, em comparação com a dEle, todas as grandezas humanas estão vazias de verdade e não são mais do que mentira”5. Este aniquilamento não reduz, não encurta as verdadeiras aspirações da criatura, mas enobrece-as e concede-lhes novas asas, abre-lhes horizontes mais amplos.

Quando Nossa Senhora é escolhida como Mãe de Deus, proclama-se imediatamente sua escrava6. E no momento em que ouve a sua prima Santa Isabel dizer-lhe que é bendita entre as mulheres7, dispõe-se a servi-la. É a cheia de graça8, mas guarda na sua intimidade a grandeza que lhe foi revelada. Não desvenda o mistério nem sequer a José; deixa que a Providência o faça no momento oportuno. Cheia de alegria, canta as coisas grandes que se realizaram nEla, mas diz que essas maravilhas cabem ao Todo-Poderoso; da sua parte, só colaborou com a sua pequenez e o seu querer9.

“Ignorava-se a si mesma. Por isso, aos seus próprios olhos, não contava absolutamente nada. Não viveu preocupada consigo própria, mas com a vontade de Deus. Por isso pôde medir plenamente o alcance da sua baixeza e da sua condição de criatura – desamparada e segura ao mesmo tempo –, sentindo-se incapaz de tudo, mas sustentada por Deus. A conseqüência foi que se entregou a Deus, que viveu para Deus”10. Nunca buscou a sua própria glória, nem se esforçou por aparecer, nem ambicionou os primeiros lugares nos banquetes, nem quis ser considerada ou receber elogios por ser a Mãe de Jesus. Procurou unicamente a glória de Deus.

A humildade funda-se na verdade, na realidade; sobretudo numa certeza: a de que a distância que existe entre o Criador e a criatura é infinita. Quanto mais se compreende esta distância e o modo como Deus se aproxima da criatura com os seus dons, a alma, com a ajuda da graça, torna-se mais humilde e agradecida. Quanto mais alto se encontra uma criatura, mais compreende esse abismo; por isso a Virgem foi tão humilde.

Ela, a Escrava do Senhor, é hoje a Rainha do universo. Cumpriram-se nEla, de modo eminente, as palavras de Jesus no final da parábola: quem se humilha, quem ocupa o seu lugar diante de Deus e dos homens, será exaltado. Quem é humilde ouve Jesus dizer-lhe: Amigo, vem mais para cima. “Saibamos pôr-nos ao serviço de Deus sem condições, e seremos elevados a uma altura incrível; participaremos da vida íntima de Deus – seremos como deuses! –, mas pelo caminho regulamentar: o da humildade e da docilidade ao querer do nosso Deus e Senhor”11.

III. A HUMILDADE FAR-NOS-Á descobrir que todas as coisas boas que existem em nós vêm de Deus, tanto no âmbito da natureza como no da graça: Diante de ti, Senhor, a minha vida é como um nada12, exclama o Salmista. Somente a fraqueza e o erro é que são especificamente nossos.

Ao mesmo tempo, porém, a humildade nada tem a ver com a timidez, com a pusilanimidade ou a mediocridade. Longe de apoucar-se, a alma humilde coloca-se nas mãos de Deus e enche-se de alegria e de agradecimento quando o Senhor quer fazer grandes coisas através dela. Os santos foram homens magnânimos, capazes de grandes empreendimentos para a glória de Deus. O humilde é audaz porque conta com a graça do Senhor, que tudo pode, porque recorre com freqüência à oração – reza muito –, convencido da absoluta necessidade da ajuda divina. E por ser simples e nada arrogante ou auto-suficiente, atrai as amizades, que são veículo para uma ação apostólica eficaz e de longo alcance.

A humildade é o fundamento de todas as virtudes, mas é-o especialmente da caridade: na medida em que nos esquecemos de nós mesmos, podemos interessar-nos verdadeiramente pelos outros e atender às suas necessidades. Ao redor destas duas virtudes encontram-se todas as outras. “Humildade e caridade são as virtudes mães – afirma São Francisco de Sales –; as outras seguem-nas como os pintinhos seguem a galinha”13. Em sentido contrário, a soberba, aliada ao egoísmo, é a “raiz e mãe” de todos os pecados, mesmo dos capitais14, e o maior obstáculo que o homem pode opor à graça.

A soberba e a tristeza andam frequentemente de mãos dadas15, enquanto a alegria é patrimônio da alma humilde. “Olhai para Maria. Jamais criatura alguma se entregou com tanta humildade aos desígnios de Deus. A humildade da ancilla Domini (Lc 1, 38), da escrava do Senhor, é a razão pela qual a invocamos como causa nostrae laetitiae, como causa da nossa alegria. Eva, depois de pecar por ter querido na sua loucura igualar-se a Deus, escondia-se do Senhor e envergonhava-se: estava triste. Maria, ao confessar-se escrava do Senhor, é feita Mãe do Verbo divino e enche-se de júbilo. Que este seu júbilo, de Mãe boa, nos contagie a todos nós: que nisto saiamos a Ela – a Santa Maria –, e assim nos pareceremos mais com Cristo”16.

(1) Cura d’Ars, Sermão para o décimo domingo depois de Pentecostes; (2) Lc 14, 1, 7-11; (3) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Sulco, n. 289; (4) cfr. Réginald Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior, vol. II, pág. 670; (5) ibid.; (6) cfr. Lc 1, 38; (7) Lc 1, 42; (8) Lc 1, 28; (9) cfr. Lc 1, 47-49; (10) Federico Suárez, A Virgem Nossa Senhora, pág. 129; (11) cfr. Antonio Orozco Delclos, Olhar para Maria, pág. 138; (12) Sl 38, 6; (13) São Francisco de Sales, Epistolário; (14) São Tomás de Aquino, Suma teológica, II-II, q. 162, aa. 7-8; (15) cfr. Cassiano, Colações, 16; (16) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 109.

Fonte: Falar com Deus

Mariolatria – é possível amar Maria demais?

Reprodução

Considera-se culto de latria o amor absoluto que se deve ao Ser Absoluto, de modo que nenhum outro amor rivalize contra esse. É um dever natural e não se proclame justo quem não dá louas ao Ser Absoluto, Criador e Providente. Com efeito, há cultos de latria, estritamente, onde se reconhece um Absoluto. Portanto, como o diferencial é que o homem reconheça um Absoluto e a ele preste culto, pode acontecer de se eleger mal o ente amado e se oferecer este amor de latria a entes incompetentes desse amor. Por exemplo, é possível adorar a saúde, um bem necessário, mas nunca absoluto; é possível adorar o marido ou a esposa, ou os filhos, todos objetos dignos de serem amados, mas nunca com amor de latria. Enfim, pode-se até amar o sucesso e o dinheiro, como fizeram os nossos irmãos mais velhos, os judeus, no tempo de Moisés com o bezerro de ouro; ou certas denominações cristãs atuias, no caso da teologia da prosperidade. Deste modo, é possível “adorar” entes intra-mundanos, como o poder, o dinheiro (ouro e prata) ou a carreira. Esse tipo de adoração, contudo, é tão contrária à razão, que os que a praticam são chamados tolos. A Sagrada Escritura não os chama de descrentes, nem de injustos, pois eventualmente eles podem ser justos e crentes. Chama-lhes insensatos, pois não pensam em quem depositam sua segurança (cf. Lc 12,20).

De modo análogo, como todos os objetos – até mesmo os bons, como a honra e a inteligência – podem ser postos em situação de adoração incompatível com sua dignidade, também Nossa Senhora pode ser amada com um amor incompatível.  Pois bem, o amor que se presta ao objeto amado deve ser proporcional ao valor que o objeto possui em si mesmo. Com efeito, o amor que se deve à Maria, pelo bem que sua adesão à Vontade de Deus proporcionou à humanidade, dificilmente será superdimensionado. Por isso, todo amor que o homem puder devotar à Maria, por causa dos méritos que alcançou diante de Deus, jamais superará o valor que seus méritos merecem.

Por estes motivos, é impossível a Mariolatria, com a única condição de se ter clara a razão deste culto:  a Maternidade Divina. Deve-se notar que – individualmente – qualquer católico pode recair em cultos de idolatria a falsos deuses: assim foi com Israel no passado; assim pode ser conosco hoje em dia. Basta que se ame mais a um objeto que a Deus. O próprio Senhor adverte que quem ama mais os pais que a Ele não é digno dele. Ora, amar mais aos pais que a Jesus é idolatria. Quanto à doutrina, nunca será possível acusar o catolicismo de idolatria pois todos os louvores e honras que se prestam à Virgem Santíssima, todas as merecidas festas realizadas em seu nome, tudo está em vista dos méritos que seu “Fiat” alcançou ao homem. Além disso, é sinal de obediência à Palavra de Deus louvar seu nome pois dela nasceu a Salvação: “todas as gerações me chamarão Bem-aventurada” (Lc 1,48). Proclamá-la bem-aventurada e reconhecê-la acima de qualquer outra mulher é a mais simples obediência ao Evangelho!

Fonte: Humanitatis

Da parte da Santíssima Virgem na Vida Cristã

 


É fora de toda a dúvida que não há mais que um só Deus e um Mediador necessário, Jesus Cristo: «Unus enim Deus, unus, et Mediator c.ominum, homo Christus Iesus» Mas aprouve à Sabedoria e Bondade divina dar-nos protetores, intercessores e modelos que estejam, ou ao menos pareçam estar mais perto de nós: são os Santos que, tendo reproduzido em si mesmos as perfeições divinas e as virtudes de Nosso Senhor, fazem parte do Seu corpo místico e se interessam por nós, que somos seus irmãos.Honrá-los é honrar o próprio Deus neles, que são reflexo das suas perfeições: invocá-los é, em última análise, dirigir a Deus as nossas invocações, pois que pedimos aos Santos sejam nossos intercessores perante o Altíssimo; imitar as suas virtudes, é imitar a Jesus Cristo, já que eles mesmos não foram santos senão na medida em que produziram as virtudes do divino Modelo. Esta devoção aos Santos, longe de prejudicar o culto de Deus e do Verbo Encarnado, não faz, pois, senão confirmá-lo e completá-lo. Como, porém, entre os Santos, a Mãe de Jesus ocupa um lugar à parte, exporemos qual seja o seu papel .

I. Da parte de Maria na vida cristã

1 – Fundamento da sua Missão. O papel de Maria depende da sua estreita união com Jesus, ou, por outros termos, do dogma da maternidade divina, que tem por corolário a sua dignidade e a sua missão de mãe dos homens.

A- É no dia da Encarnação que Maria é constituída Mãe de Jesus, Mãe dum Filho-Deus, Mãe de Deus. Ora, se bem repararmos no diálogo entre o Anjo e a Virgem, Maria é Mãe de Jesus, não somente enquanto este é pessoa privada, senão enquanto é Salvador e Redentor.« O Anjo não fala somente das grandezas pessoais de Jesus; é o Salvador, é o Messias esperado, é o Rei eterno da humanidade regenerada, cuja maternidade se propõe a Maria … Toda a obra redentora está suspensa do Fiat de Maria. E disto tem a Virgem plena consciência. Sabe o que Deus lhe propõe. Consente no que Deus lhe pede, sem restrição nem condição; o seu Fiat responde à ampliação das proposições divinas, estende-se a toda a obra redentora» Maria é pois, a Mãe do Redentor, e, como tal, associada à sua obra redentora; e assim, tem na ordem da reparação o lugar que Eva teve na ordem da nossa ruína espiritual, como os Santos Padres o farão notar com Santo Ireneu.

Mãe de Jesus, Maria terá com as três divinas Pessoas as relações mais íntimas:

Será a Filha muito amada do Pai, e sua associada na obra da Encarnação; a Mãe do Filho,com direito ao seu respeito, ao seu amor, e até mesmo, na terra, à sua obediência; pela parte que terá nos seus mistérios, parte secundária, mas real, será a sua colaboradora na obra da salvação e santificação dos homens; será enfim o templo vivo, o santuário privilegiado do Espírito Santo, e, numa acepção analógica, a sua Esposa, neste sentido que, com Ele e em dependência dele, trabalhará em regenerar almas para Deus.
B -É igualmente no dia da Encarnação que Maria é constituída Mãe dos homens. Jesus, é o chefe da humanidade regenerada, a cabeça dum corpo místico, de que nós somos os membros. Ora Maria, Mãe do Salvador, gera-o todo inteiramente e, por conseguinte, como chefe da humanidade, como cabeça do corpo místico. Gera, pois, também todos os seus membros, todos aqueles que nele estão incorporados, todos os regenerados ou aqueles que são chamados a sê-lo. E assim, ao ser constituída Mãe de Jesus segundo a carne, é constituída ao mesmo tempo Mãe dos seus membros segundo o espírito. A cena do Calvário não fará senão confirmar esta verdade; no próprio momento em que a nossa redenção vai ser consumada pela morte do Salvador, diz este a Maria, mostrando-Ihe São João, e nele todos os seus discípulos presentes ou futuros: Eis aí teu filho e ao próprio São João: Eis aí a tua Mãe. Era declarar, segundo uma tradição que remonta até Orígenes, que todos os regenera dos eram filhos espirituais de Maria. É este duplo título de Mãe de Deus e Mãe dos homens que deriva o papel que Maria desempenha em nossa vida espiritual.

2 – Maria Causa Meritória da Graça. Sabemos que Jesus é a [i]causa meritória principal e em sentido próprio de todas as graças que recebemos. Maria, sua associada na obra da nossa santificação, mereceu secundariamente e somente de congruo (Esta expressão foi ratificada por São Pio X na Encíclica de 1904, em que declara que Maria nos mereceu de ongruo todas as graças que Jesus nos mereceu de condigno), com mérito de conveniência, todas essas mesmas graças. Não as mereceu senão secundariamente, isto é, em dependência de seu Filho, e porque lhe conferiu o poder de merecer por nós. Mereceu-as, primeiro, no dia da Encarnação, no momento em que pronunciou o seu fiat. É que realmente a Encarnação é a Redenção começada ,cooperar, pois, na Encarnação é cooperar na Redenção, nas graças que delas serão frutos, e por conseguinte, em nossa salvação e santificação.
E depois, no decurso de toda a sua vida, Maria, cuja vontade é em tudo conforme à de Deus, como à de seu Filho, associa-se à obra reparadora: É ela que educa a Jesus, que sustenta e prepara para imolação a vítima do Calvário; associada às suas alegrias como às suas provações, aos seus humildes trabalhos na casa de Nazaré, às suas virtudes, Ela se unirá, por uma compaixão generosíssima, à Paixão e morte de seu Filho, repetindo o seu fiat ao pé da Cruz e consentindo na imolação daquele que ama indizivelmente mais que a si mesma, e o seu coração amante será trespassado espada de dor: «tuam ipsius animam pertransibit gladius» Que de merecimentos não adquiriu Ela por esta imolação perfeita!

E continua a aumentá-los por esse longo martírio que padece depois da Ascensão de seu Filho ao céu: privada da presença daquele que fazia a sua felicidade, suspirando ardentemente pelo momento em que lhe poderá ser unida para sempre, e aceitando amorosamente essa provação, para fazer a vontade de Deus e contribuir para edificar a Igreja nascente, Maria acumula para nós inumeráveis merecimentos. Os seus atos são tanto mais meritórios quanto mais perfeita é a pureza de intenção com que são praticados, «Magnificat anima mea Dominum», mais intenso o fervor com que cumpre em sua integridade a vontade de Deus «Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tu um»,mais estreita a união com Jesus, fonte de todo o mérito. É certo que estes merecimentos eram antes de tudo para Ela mesma e aumentavam o seu capital de graça e os seus direitos à glória; mas, em virtude da parte que tomava na obra redentora, Maria merecia também de congruo para todos, e, se é cheia de graça para si mesma, deixa transbordar essa graça sobre nós, segundo a expressão de São Bernardo: ” Plena sibi, nobis superplena et supereffluens.

3 – Maria Causa Exemplar. Depois de Jesus, Maria é o mais belo modelo que é possível imitar: o Espírito Santo que, em virtude dos merecimentos de seu Filho, nela vivia, fez dela uma cópia viva das virtudes desse Filho: «Haec est imago Christi perfectissima, quam ad vivum depinxit Spiritus Sanctus». Jamais cometeu a mínima falta, a mínima resistência à graça, executando à letra o fiat mihi secundum verbum tuum.E, assim, os Santos Padres, em particular Santo Ambrósio e o Papa São Libério, representam-na como o modelo acabado de todas as virtudes, [i]«caritativa e atenciosa para com todas as suas companheiras. sempre pronta a lhes prestar serviço, não dizendo nem fazendo nada que lhes pudesse causar o mínimo desgosto, amando-as a todas e de todas amada»
Baste-nos apontar as virtudes assinaladas no próprio Evangelho:

1) a sua fé profunda, que a levou a crer sem hesitação as coisas que o Anjo lhe anuncia da parte de Deus, fé de que a felicita Isabel, inspirada pelo Espírito Santo: «Feliz de ti que creste: Beata quae credidisti, quonicuam perficientur ea quae dicta sunt tibi a Domino»

2) a sua virgindade, que aparece na resposta ao Anjo; «Quomod: fiet istud, quoniam virtum non cognosco?» que mostra a sua firme vontade de permanecer virgem, ainda que fosse necessário para isso sacrifcar a dignidade de mãe do Messias;

3) a sua humildade, que resplandece na perturbação em que a lançam. os elogios do Anjo, na declaração de ser sempre a escrava do Senhor no próprio momento em que é proclamada, Mãe de Deus, naquele Magnificat anima mea Dominum,que foi chamado o êxtase da sua humildade, no amor que mostra para com a vida oculta, quando, pela qualidade de Mãe de Deus, tinha direito a todas as honras;

4) o seu recolhimento interior que a leva a fixar no espírito e meditar silenciosamente tudo o que se refere a seu divino Filho. «Conservabat omnia verba haec, conferens in corde suo»

5) o seu amor para com Deus e para com os homens, que lhe faz aceitar generosamente todas as provações duma longa vida e sobretudo a imolação de seu Filho no Calvário e a longa separação desse Filho tão amado desde a Ascensão até o momento da sua morte.

Este modelo tão perfeito é, ao mesmo tempo, cheio de encanto: Maria é uma simples criatura como nós, é uma irmã, uma Mãe que nos sentimos estimulados a imitar, quando mais não fosse, para lhe testemunharmos o nosso reconhecimento, a nossa veneração, o nosso amor. E, depois, é modelo fácil de imitar, neste sentido, ao menos que Maria se santificou na vida comum, no cumprimento dos seus deveres de donzela, na vida oculta, nas alegrias como nas tristezas, na exaltação como nas humilhações mais profundas. Temos, pois, a certeza de estar em caminho perfeitamente seguro, quando imitamos a Santíssima Virgem: é o melhor meio de imitar a Jesus e obter a sua poderosa mediação.

4 –Maria Mediadora Universal da Graça. Há muito que São Bernardo formulou esta doutrina no texto tão conhecido: «Sic est voluntas eius qui totum nos habere voluit per Mariam». Importa determinar-lhe com precisão o sentido. É certo que Maria nos deu, duma maneira mediata, todas as graças, dando-nos Jesus, autor e causa meritória da graça. Mas, além disso, conforme o ensino, de dia para dia, mais comum , não há uma só graça, concedida aos homens, que não venha imediatamente de Maria, isto é, sem a sua intercessão. Trata-se, pois, aqui duma mediação imediata, universal, mas subordinada à de Jesus.

Para determinarmos com mais precisão esta doutrina, digamos com o Pe. de la Broise que «a ordem presente dos decretos divinos quer que todo o benefício sobrenatural concedido ao mundo seja outorgado com o concurso de três vontades, e que nenhum o seja de outra forma. É, em primeiro lugar, a vontade de Deus, que confere todas graças: depois, a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo, mediador, que as merece e obtém com todo o rigor de justiça, por Si mesmo; enfim, a vontade de Maria, mediadora secundária, que as merece e obtém com toda a conveniência, por Nosso Senhor Jesus Cristo». Esta mediação é imediata, neste sentido que, para cada graça concedida por Deus, Maria intervém pelos seus méritos passados ou pelas suas orações atuais; isto porém, não implica necessariamente que a pessoa que recebe estas graças deva implorar o socorro de Maria, a qual bem pode intervir, sem que ninguém lho peça. É mediação universal, estendendo-se a todas as graças concedidas aos homens desde a queda de Adão; fica, porém, [u]subordinada[/u] à mediação de Jesus, neste sentido que Maria não pode merecer ou obter graças senão pelo seu divino Filho; e assim, a mediação de Maria não faz mais que realçar o valor, e fecundidade da mediação de Jesus.

Esta doutrina acaba de ser confirmada pelo Ofício e Missa próprios em honra de Maria Mediadora, concedidos pelo Papa Bento XV às igrejas da Bélgica e a todas as da Cristandade que os pedirem. É, pois, doutrina segura, que podemos utilizar na prática e que não pode deixar de nos inspirar grande confiança em Maria.

Conclusão: Devoção à Santíssima Virgem

Desempenhando Maria papel tão importante em nossa vida espiritual, devemos ter para com Ela grandíssima devoção. Esta palavra quer dizer dedicação, e dedicação quer dizer dom de si mesmo. Seremos, pois, devotos de Maria, se nos dermos completamente a Ela, e, por Ela, a Deus. Nisto não faremos senão imitar o próprio Deus que se nos dá a nós e nos dá o Seu Filho por intermédio de Maria. Daremos a nossa [i]inteligência[/i] pela veneração mais profunda, a nossa vontade pela confiança mais absoluta, c nosso coração pelo amor mais filial, inteiramente todo o nosso ser pela imitação mais perfeita, que for possível, da suas virtudes.

A) Veneração Profunda. Esta veneração baseia-se na dignidade de Mãe de Deus e nas conseqüências que daí dimanam. E, com efeito, jamais nos será possível estimar demasiadamente Aquela que o Verbo Encarnado, venera como sua Mãe, que o Pai contempla com amor como sua Filha muito amada e que o Espírito Santo considera como seu templo de predileão. O Pai trata-a com o maior respeito, enviando-lhe um Anjo que a saúda cheia de graça, e pede-lhe o seu consentimento na obra da Encarnação, à qual tão intimamente a quer associar; o Filho respeita-a, ama-a como Mãe e obedece-lhe; o Espírito Santo vem a Ela e nela tem as suas complacências. Venerando a Maria, não fazemos, pois, senão associar-nos às três divinas Pessoas e estimar o que Elas estimam. Há sem dúvida excessos que é mister evitar, particularmente tudo aquilo que porventura tendesse a colocá-la a par de Deus, ou a fazer dela a fonte da graça. Mas, enquanto a consideramos como criatura, que não tem grandeza, nem santidade, nem poder, senão na medida em que Deus lho confere, não há excesso que recear: é Deus que veneramos nela.

Esta veneração deve ser maior que a que temos para com os Anjos e santos, precisamos porque Ela, pela sua dignidade de Mãe de Deus, pelo seu múnus de Mediadora, pela sua santidade, sobrepuja todas as criaturas. E, assim, o seu culto não obstante ser culto de dulia e não de latria é chamado com razão culto de hiperdulia, pois é superior ao que se tributa aos Anjos e Santos.

B)Confiança absoluta,fundada no poder e bondade de Maria.
– Este poder vem, não dela mesma, mas do seu poder de intercessão, já que Deus não quer recusar nada de legitimo Àquela que venera e ama acima de todas as criaturas. Nada mais eqüitativo: tendo Maria subministrado a Jesus aquela humanidade que lhe permitiu merecer, tendo colaborado com Ele pelas suas ações e sofrimentos na obra redentora, é conveniente que tenha parte na distribuição dos frutos da Redenção; Jesus não recusará, pois, nada que Ela pedir de legítimo, e assim se poderá dizer que Ela é onipotente pelas suas súplicas, omnipotentia supplex.

– Quanto à sua bondade, essa é a de Mãe que transfere para nós, membros de Jesus Cristo, a afeição que tem para com seu Filho; de Mãe que, tendo-nos dado à luz na dor, entre as angústias do Calvário, nos terá tanto mais amor quanto mais lhe custamos. Por conseguinte a nossa confiança para com Ela será inabalável e universal.

Inabalável, a despeito das nossas misérias e faltas. É que, na verdade, Maria é Mãe de misericórdia, mater misericordiae, que não tem que se ocupar de justiça, mas foi escolhida para exercer antes de tudo a compaixão, a bondade, a condescendência: sabendo que nos achamos expostos aos ataques da concupiscência, do mundo e do demônio, tem compaixão de nós, que não cessamos de ser seus filhos, ainda quando caímos em pecado. E assim, tanto que manifestamos o mínimo sinal de boa vontade, o desejo de voltar a Deus. Ela nos acolhe com bondade; muitas vezes, até, é Ela que, antecipando-se a esses bons movimentos, nos alcançará as graças que os excitarão em nossa alma. A Igreja compreendeu-o tão bem que instituiu, para certas dioceses, uma festa sob esta invocação que, à primeira vista, parece estranha, mas, na realidade é perfeitamente justificada, de Coração Imaculado de Maria, refúgio dos pecadores; precisamente porque é Imaculada e jamais cometeu a menor falta, é que Maria tem mais compaixão dos seus pobres filhos que não gozam, como Ela, do privilégio da isenção da concupiscência.

Universal, isto é, deve estender-se a todas as graças de que precisamos, graças de conversão, de progresso espiritual, de perseverança final, graças de preservação no meio dos perigos, das angústias, das dificuldades mais graves que se possam apresentar. É esta confiança que recomenda tão instantemente São Bernardo [i]«Se se levantam as tempestades das tentações, se vos encontrais no meio dos escolhos das tribulações, erguei os olhos para a estrela do mar, chamai a Maria em vosso auxílio; se sois sacudidos à mercê das vagas da soberba, da ambição, da maledicência, da inveja, olhai para a estrela, invocai a Maria. Se, perturbados pela grandeza dos vossos crimes, confusos pelo estado miserável da vossa consciência, transidos de horror com o pensamento do juízo, começais a soçobrar no abismo da tristeza e do desespero, pensai em Maria. No meio dos perigos, das angústias, das incertezas, pensai em Maria, invocai a Maria. A sua invocação, o pensamento dela não se afastem nem do vosso coração, nem dos vossos lábios; e, para obterdes mais seguramente o auxílio das suas preces, não vos descuideis de imitar os seus exemplos. Seguindo-A, não vos extraviais; suplicando-A, não desesperais; pensando nela, não vos perdeis. Enquanto Ela vos tem de sua mão, não podeis cair; sob a sua proteção, não tendes nada que temer; sob a sua guia, não há cansaço; com o seu favor, chega-se seguramente ao termo». E, como temos constantemente necessidade de graça, para vencer os nossos inimigos e progredir na virtude, devemos dirigir-nos muito amiúde Àquela que tão justamente é chamada Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

C) À confiança juntaremos o amor, amor filial, cheio de candura, simplicidade, ternura e generosidade. Mas é seguramente a mais amável das mães, pois tendo-A Deus destinado para ser Mãe de seu Filho, lhe deu todas as qualidades que tornam uma pessoa amável: a delicadeza, a prudência, a bondade, a dedicação da mãe. É a mais amante, visto que o seu coração foi criado expressamente para amar um Filho-Deus e amá-lo com a possível perfeição. Ora esse amor que Ela tinha para com seu Filho, transpassa para nós que somos membros vivos desse divino Filho, sua extensão e complemento. E assim, esse amor resplandece no mistério da Visitação, em que Ela se apressa a levar a sua prima Isabel aquele Jesus que em seu seio e que, só pela sua presença, santifica toda a casa; nas Bodas de Caná, onde, atenta a tudo o que se passa, intervém junto de seu Filho, para evitar aos jovens esposos uma dolorosa humilhação; no Calvário, onde consente em sacrificar o que tem de mais caro, para nos salvar; no Cenáculo, onde exercita o seu poder de intercessão, para obter aos Apóstolos maior abundância dos dons do Espírito Santo.

Se Maria é a mais amável e a mais amante das mães, deve ser a mais amada. E, na verdade, é este um dos seus privilégios mais gloriosos; em toda a parte, onde Jesus é conhecido e amado, é o também Maria. Não se separa a Mãe do Filho; e, sem jamais se esquecer a diferença um e outro, envolvem-se na mesma afeição, posto que em grau diferente: [u]ao Filho tributa-se o amor que é devido a Deus, a Maria, o que se deve à Mãe dum Deus :amor terno, generoso, dedicado, mas subordinado ao amor de Deus. É amor de complacência,que se goza das grandezas, virtudes e prerrogativos de Maria, repassando-as amiúde pela memória, admirando-as, comprazendo-se nelas e dando-lhe o parabém de a vermos tão perfeita. Mas é também amor de benevolência,que deseja sinceramente que o nome de Maria seja mais conhecido e amado, que ora para que se estenda a sua influência sobre as almas, e à oração ajunta a palavra e ação. É amor filial, cheio de ilimitada confiança e simplicidade, de ternura e dedicação, chegando até àquela intimidade respeitosa que a mãe permite a seu filho. É e sobretudo amor de conformidade, que se esforça por conformar em todas as coisas a sua vontade com a de Maria e, por esse modo, com a de Deus, já que a união das vontades é o sinal mais autêntico da amizade. É o que nos leva à imitação da Santíssima Virgem.

D) A imitação é, com efeito, a homenagem mais delicada que se lhe pode tributar; é proclamar não somente com palavras, senão com atos, que Ela é um modelo perfeito, cuja imitação é para nós suprema ventura. Como, sendo Maria uma cópia viva de seu Filho, nos dá o exemplo de todas as virtudes. Aproximar-se dela é aproximar-se de Jesus; e por isso é que não podemos fazer nada mais excelente do que estudar as sua virtudes, meditá-las amiúde, esforçar-nos por as reproduzir.

Para melhor o alcançarmos, não podemos seguir método mais eficaz do que praticar todas e cada uma das nossas ações por Maria, com Maria e em Maria; per Ipsam etc cum Ipsa, et in Ipsa.
Por Maria, isto é, pedindo por meio dela as graças de que precisamos para a imitar, passando por Ela para ir a Jesus, [i]ad Iesum per Mariam.

Com Maria, isto é, considerando-A como modelo e colaboradora, perguntando-nos muitas vezes: Que faria a Mãe Santíssima, se estivesse em meu lugar? E pedindo-lhe humildemente que nos auxilie a conformar as nossas ações com os seus desejos.

Em Maria na dependência desta boa Mãe, compenetrando-nos dos seus desígnios, das suas intenções, e fazendo as nossas ações, com Ela, para glorificar a Deus: Magnificat anima mea Dominum.
É com este espírito que havemos de recitar, em honra da Senhora, a Ave-Maria e o Angelus que lhe relembram a cena da Anunciação e o seu título de Mãe de Deus; o Sub tuum praesidium, que é o ato de confiança naquela que nos protege no meio de todos os nossos perigos; o Domina mea, que é o ato de entrega completa nas suas mãos, pelo qual lhe confiamos a nossa pessoa, as nossas ações e os nossos méritos; e sobretudo o Terço ou o Rosário, que unido-nos aos seus mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos, nos permite santificar em união com Ela e com Jesus, as nossas tristezas e as nossas glórias. O Officium da Santíssima Virgem é, para as pessoas que o podem recitar, o equivalente do Breviário, e relembrar-lhes muitas vezes ao dia as grandezas, a santidade e a missão santificadora desta Boa Mãe.

Ato de Consagração total a Maria
Natureza e extensão deste ato. É um ato de devoção que contém todos os demais. Tal qual o expõe São Luís Grignion de Montfort, consiste em se dar inteiramente a Jesus por Maria, e compreende dois elementos: um ato de consagração, que se renova de tempos a tempos, e um estado habitual que nos faz viver e operar sob a dependência de Maria. O ato de consagração, diz São Luís Grignion, «consiste em se dar um todo inteiramente, em qualidade de escravo, a Maria e a Jesus por Ela». Ninguém se escandalize do termo escravo, ao qual se deve tirar todo o sentido pejorativo, isto é, toda a idéia de coração; este ato, longe de implicar violência, é a expressão do amor mais puro. Não se conserve, pois, senão o elemento positivo, tal qual o explica o Bem-aventurado: Um simples servo ou criado recebe salário, fica livre de deixar o patrão e não dá mais que o seu trabalho, não dá a sua pessoa, os seus direitos pessoais, os seus bens; um escravo consente livremente em trabalhar sem salário; confiando no senhor, que assegura sustento e abrigo, dá-se para sempre, com todos os seus recursos, a sua pessoa e os seus direitos, para viver em completa dependência dele.

Para fazer aplicação às coisas espirituais, o perfeito servo de Maria, dá-lhe, e por Ela, a Jesus:

a) O corpo, com todos os seus sentidos, não conservando senão o uso, e obrigando-se a não se servir deles senão conforme o beneplácito da Santíssima Virgem ou de seu Filho: aceita de antemão todas as disposições providenciais relativas à sua saúde, enfermidade, vida e morte.

b) Todos os bens de fortuna, não usando deles senão sob a dependência de Maria, para sua glória e honra de Deus.

c) A alma com todas as suas formalidades, consagrando-as ao serviço de Deus e do próximo, sob a direção de Maria, e renunciando a tudo que pode pôr em risco a nossa salvação e santificação.

d) Todos os bens interiores e espirituais, merecimentos, satisfações e o valor impetratório das boas obras, na medida em que estes bens são alienáveis.

Expliquemos este último ponto:
1) Os nossos méritos propriamente ditos (de condigno), pelos quais merecemos para nós mesmos aumento de graça e de glória, são inalienávis; se, pois, os damos a Maria, é para que Ela os conserve e aumente, não para que Ela os aplique a outros. Mas os méritos de simples conveniência (de congruo), como podem ser oferecidos por outrem, deixamos que Maria disponha deles livremente.

2) O valor satisfatório dos nossos atos, incluindo as indulgências, é alienável, e deixamos a aplicação deles à Santíssima Virgem. (S. Thom., Supplement, q.XIII, a.2).

3) O valor impetratório, isto é, as nossas orações e as boas obras enquanto gozam deste mesmo valor, podem ser-lhe entregues e de fato o são por este ato de consagração.

Uma vez feito este ato, não podemos dispor mais destes bens sem a permissão da Santíssima Virgem; mas podemos e por vezes devem rogar-lhe se digne, conforme o seu beneplácito, dispor deles em favor das pessoas a que nos ligam obrigações particulares. O meio de tudo conciliar é oferecer-lhe, ao mesmo tempo, não somente a nossa pessoa e os nossos bens, mas todas as pessoas que nos são caras: «Tuus totus sum, omnia mea tua sunt, et omnes mei tui sunt»; deste modo a Santíssima Virgem servirse-á dos nossos bens e sobretudo dos seus tesouros e dos de seu Filho, para socorrer essas pessoas que, assim, longe de perderem, só ganharão com a nossa consagração à Santíssima Virgem.

A excelência deste ato. É um ato de confiança absoluta, já excelente como tal, mas que ademais contém os atos das mais belas virtudes.

1) Um ato de eligião profunda para com Deus, Jesus e Maria: com ele, efetivamente reconhecemos o supremo domínio de Deus, o nosso próprio nada, e proclamamos de todo o coração os direitos que Deus deu a Maria sobre nós.

2) Um ato de humildade, pelo qual, reconhecendo o nosso nada e a nossa impotência, nos desapossamos de tudo quanto Deus Nosso Senhor nos deu, restituindo-lhe pelas mãos de Maria, de quem, depois dele e por Ele, tudo recebemos.

3) Um ato de amor cheio de confiança, pois que o amor é o dom de si mesmo, e, para se dar, é necessária confiança perfeita e fé viva.
Pode-se, pois, dizer que este ato de consagração se é bem feito, freqüentemente renovado de coração, e posto em prática, é mais excelente ainda que o ato heróico, pelo qual não se abandona mais que o valor satisfatório dos próprios atos e as indulgências que se ganham.

Os frutos desta devoção. Derivam da sua natureza.
1) Por este meio glorificamos a Deus e a Maria do modo mais perfeito, pois lhe damos tudo o que somos e tudo o que temos, sem reserva e para sempre; e isto fazemo-lo da maneira que lhe é mais agradável, seguindo a ordem estabelecida pela sua sabedoria, voltando a Ele pelo caminho que Ele seguiu para vir a nós.

2) Por este meio asseguramos outrossim a nossa santificação pessoal. É que, na verdade, Maria, vendo que nós lhe entregamos a nossa pessoa e bens, sente-se vivamente estimulada a ajudar a santificar aqueles que são, por assim dizer, propriedade Sua. Obter-nos-á, pois, graças abundantíssimas, para nos permitir aumentar os nossos pequenos tesouros espirituais que são seus, e para os conservar e fazer frutificar até o momento da morte. Para isso usará tanto da autoridade do seu crédito sobre o coração de Deus, como da superabundância dos seus méritos e satisfações.

3) Enfim a santificação do próximo, e sobretudo as almas que nos estão confiadas, não pode deixar de lucrar com isto; confiando a Maria a distribuição dos nossos méritos e satisfações segundo o seu beneplácito, sabemos que tudo será empregado da maneira mais acertada; Ela é mais prudente, previdente e dedicada que nós; por conseguinte, os nossos parentes e amigos só podem lucrar com isso.

Objeta-se que por este ato alienamos todo o nosso haver espiritual, sobretudo as nossas satisfações, as indulgências e sufrágios que poderiam oferecer por nós, e que assim poderíamos ficar longos anos no purgatório. Em si, é verdade; mais é uma questão de confiança: temos nós, sim ou não, mais confiança em Maria que em nós mesmos e em nossos amigos? Se sim, não receemos nada: Ela terá cuidado da nossa alma e dos nossos interesses, melhor do que nós o poderíamos fazer; se não, não façamos este ato de consagração total, de que poderíamos a vir mais tarde a arrepender-nos. Em todo o caso, não se deve fazer este ato senão depois de madura reflexão, e de acordo com o próprio diretor.

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Segundo, TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007. pgs. 123 -135).

Fonte: É Razoável Crer?

Escapulário do Carmo

 

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 008/1958)

«Como se explicam as promessas anexas ao escapulário do Carmo? A Justiça Divina poderia, simplesmente em atenção a essa insígnia, permitir que um pecador endurecido não seja condenado?»
Dividiremos a resposta em três etapas: 1) origem do escapulário como tal; 2) privilégios anexos ao escapulário do Carmo; 3) valor histórico e significado religioso dos mesmos.

1. Origem do escapulário
O escapulário (do latim scapula, espádua) é uma longa peça de pano que das espáduas desce sobre o peito e as costas de quem a traja, recobrindo a respectiva túnica. Inicialmente servia de avental durante o trabalho manual. Muito usado entre os monges, tornou-se uma das insígnias carac terísticas das Ordens monásticas e religiosas em geral.

Na Idade Média as Ordens Religiosas propriamente ditas foram criando em torno de si o que se chama «as Ordens Terceiras» (ou as famílias de «Oblatos» e «Oblatas»), compostas de pessoas seculares desejosas de viver em contato assíduo com os mosteiros e conventos (a «Ordem Segunda» era o ramo feminino, enclausurado, de uma Ordem masculina dita Primeira»). Os terciários e Oblatos receberam, como distin tivo de seu estado, o escapulário. Aos poucos, este foi sendo adotado até pelas Confrarias, associações remotamente vei culadas a determinada Ordem. Então, para facilitar o uso da insígnia, os Superiores religiosos resolveram admitir, ao lado do escapulário grande, o escapulário pequeno, que consta de dois retângulos de pano de lã ligados entre si por duas fitas, de sorte a poder ser trazidos pelos irmãos dia e noite sobre o peito e as costas. É esta a forma hoje em dia mais comumente adotada pelos fiéis que vivem no mundo.
Distinguem-se atualmente vários tipos de escapulários segundo as diversas Ordens Religiosas e modalidades da piedade cristã: o mais famoso é o escapulário marron ou negro, da Or dem do Carmo, ao lado do qual se podem citar: o escapulário branco, da SSma. Trindade, propagado a partir de 1200; o escapulário negro, das Sete Dores de Maria, devido aos Servitas, a partir de 1255; o escapulário azul, da Imaculada Conceição, concedido em 1691 e 1710 aos Teatinos; o escapulá rio vermelho, dedicado à Paixão do Senhor, difundido pelos Lazaristas e aprovado em 1847.

O uso do escapulário não visa apenas ornamentar o respectivo portador. Ao contrário, tem valor religioso digno de nota: significando a filiação a uma Ordem ou Confraria, implica, em quem o traz, o desejo sincero de praticar os conselhos evangélicos (cf. Mt 19,21), na medida em que são aplicáveis à vida no século. Além disto, significa participação nos bens espirituais de que goza a respectiva família religiosa; costuma ser bento e entregue aos fiéis segundo determinado ritual, tornando-se assim um sacramental, ou seja, objeto que comuni ca a graça em quem o usa com fé e caridade. Vê-se, por conseguinte, que, embora sejam múltiplos os tipos de escapulá rio, têm todos a mesma finalidade: significar e, ao mesmo tempo, fomentar o serviço aprimorado de Deus, que é a grande devoção de todos os cristãos.

2. Os privilégios anexos ao escapulário do Carmo

Dentre os favores espirituais outorgados ao uso do escapulário, sobressaem os que se prendem ao da Ordem do Carmo.

Quais são precisamente?
Enunciam-se dois: a) o privilégio de uma boa morte; b) a pronta libertação do purgatório.

a) A graça da boa morte teria sido prometida pela SSma. Virgem numa aparição a S. Simão Stock, sexto Superior Geral dos Carmelitas (1242-1265), em Cambridge, aos 16 de julho de 1251. Trazendo em mão o hábito da Ordem, teria dito a excelsa Senhora: «Eis o privilégio que dou a ti e a todos os filhos do Carmelo: todo aquele que morrer, revestido por este hábito, será salvo».

b) O privilégio «sabatino» afirma que a Virgem SSma. liberta do purgatório os irmãos filiados à Ordem do Carmelo no primeiro sábado após a morte de cada um. Este favor, dizem, foi revelado pela própria Mãe de Deus ao Papa João XXII, provavelmente na véspera de sua eleição. O mesmo Pontífice terá anunciado aos fiéis tal graça e várias outras concedidas à Ordem do Carmo mediante a bula «Sacratissimo uti culmine» de 3 de março de 1317.

3. Valor histórico e significado religioso de tais privilégios

a) Os documentos sobre os quais se baseia a afirmação dos dois privilégios têm despertado a atenção dos estudiosos, levando-os a perguntar se são fontes históricas de todo fide dignas.
Examinemos o que consta.

O primeiro documento que refere a aparição da Bem-aventurada Virgem a S. Simão Stock, data do ano de 1430 aproximadamente: é o chamado «Viridarium» do Prior Geral Carmelita João Grossi (cf. Daniel a S. Virg. Maria, Speculum Carmelitarum I. Antverpia 1680,131). Entre o ano em que se terá dado a visão (1251) e a data acima, a história não apresenta documento algum que relate o caso.

No ano de 1642 apareceu pela primeira vez em público, por iniciativa do Pe. Provincial João Chéron O. C, uma carta circular de Simão Stock aos religiosos de sua Ordem, carta em que o Prior Geral referia a aparição e as palavras de Maria. Este documento teria sido ditado pelo Santo a seu secretário, Pe. Swanyngton. Denegam fé a esse instrumento os historiado res modernos, inclusive os Carmelitas (cf. Annales Ord. Carm. 1927 e 1929).

Quanto ao privilégio «sabatino», desde o séc. XVII contesta-se a autenticidade da bula de João XXII que o anuncia ao mundo cristão. Entre a data que este documento traz (1317) e o ano de 1461 não há menção da bula na tradição. O primeiro autor que a deu a conhecer foi o Carmelita Balduíno Leersius (†1483). Hoje em dia não há quem afirme a autenticidade de tal documento. O próprio Pe. Zimmermann na sua coleção de documentos referentes à Ordem do Carmo (Monumenta histó rica Carmelitana 1356-363) renunciou a defendê-la. — No texto mesmo da bula paira dúvida sobre uma das passagens principais: lê-se no original latino que a Virgem SSma. libertará do purgatório súbito (em breve, sem demora) ou, conforme outros códigos, sabbato, no sábado seguinte à morte, as almas dos seus fiéis.

Ademais notam os historiadores que até o séc. XV os membros da Ordem do Carmo não atribuíam maior importância ao uso do escapulário do que os filhos de outras Ordens.

Eis o que, do ponto de vista historiográfico, se poderia dizer sobre as promessas anexas ao escapulário do Carmo.

b) Pergunta-se agora: que resulta disso tudo para a piedade dos fiéis?

Deve-se reconhecer que uma série de Papas, a partir do séc XVI, tem favorecido o uso do escapulário do Carmo, enriquecendo-o com novas indulgências e permitindo sejam anunciadas aos fiéis as duas promessas acima. Ao fazer isso, porém, nenhum Pontífice intencionou dar definição dogmática cobre o assunto; os Papas apenas quiseram fazer da piedosa crença vigente um estímulo para a piedade dos fiéis. As promessas anexas ao escapulário do Carmo, por conseguinte, ficam pertencendo ao setor das revelações particulares, que cada cristão é livre de admitir ou não, seguindo os critérios que lhe pareçam mais fidedignos.

Observe-se, porém, que o privilégio da boa morte (a pri meira das duas promessas) jamais poderá ser entendido em sentido mecânico, como se o uso mesmo do escapulário, inde pendentemente do teor de vida moral do cristão, fosse sufi ciente para garantir a salvação eterna. Não; o portador do escapulário deverá cultivar as virtudes cristãs para que a dita insígnia lhe possa valer como penhor de especial tutela de Maria SSma. na hora da morte. Foi o que o Papa Leão XIII quis inculcar, quando, ao aprovar o Ofício de S. Simão Stock para os católicos ingleses, mandou inserir no texto respectivo uma palavrinha que não se achava no original apresentado a S. Santidade: «Todo aquele que morrer piedosamente trajando esse hábito, não sofrerá as chamas do inferno». Conseqüente mente comenta J.-B. Terrien: «Certamente os antigos consideravam o escapulário como penhor de predestinação, mas não chegavam, como penso, ao ponto de dizer que não restem dúvidas justificadas a respeito da salvação de um pecador que na hora da morte rejeita o amparo da religião, embora tenha trazido até o último suspiro a veste sagrada de Maria» (La Mère de Dieu et la Mère des hommes IV 304).

As boas disposições espirituais são também exigidas por um comentário do privilégio, comentário atribuído a S. Simão Stock: «Conservando, meus irmãos, esta palavra em vossos corações, esforçai-vos por assegurar vossa eleição mediante boas obras e por jamais desfalecer; vigiai em ação de graças por tão grande beneficio; orai incessantemente a fim de que a promessa a mim comunicada se cumpra para a glória da SSma. Trindade… e da Virgem sempre bendita» (cf. Bento XIV, De festis B. V. c. VI §§ 7-8).
No tocante ao segundo privilégio, devem-se observar os termos precisos segundo os quais a Santa Sé se tem referido a ele. Um decreto do S. Ofício datado de 15 de fevereiro de 1615 (sob o Papa Paulo V) e renovado pela S. Congregação das Indulgências a 1° de dezembro de 1885 assinala a atitude definitiva do magistério da Igreja sobre o assunto: sem proferir palavra acerca da autenticidade da controvertida bula de João XXII, admite que a Virgem Maria recobrirá com a sua proteção materna, principalmente no sábado (fórmula devida à ambi güidade do texto acima referido: súbito… sabbato…?), dia consagrado ao seu culto, as almas daqueles que na terra tive rem sido seus fiéis servos.

Aos 4 de julho de 1908, a S. Congregação aprovou uma Súmula de indulgências e privilégios concedidos à Confraria do Escapulário do Carmo, em que se lê verbalmente o seguinte: «O privilégio comumente chamado sabatino, de João XXII, aprovado e confirmado por Clemente VII, Ex clementis, aos 12 de agosto de 1530, por Pio V, Superna dispositione, aos 18 de fevereiro de 1566, por Gregório XIII, Ut laudes, aos 18 de setembro de 1577, e por outros, assim como pelo decreto da S. Inquisição Romana sob Paulo V, aos 20 de janeiro de 1613, declara: ‘É permitido aos Padres Carmelitas pregar que os fiéis podem admitir a piedosa crença no auxílio concedido após a morte aos Religiosos e confrades da Asso ciação de Nossa Senhora do Monte Carmelo’. Com efeito, é permitido crer que a SSma. Virgem socorra às almas dos Religiosos e confrades falecidos em estado de graça, contanto que tenham trazido durante a vida o escapulário, tenham guardado a castidade do seu estado e recitado o Ofício Parvo da Virgem ou, se não sabem ler, tenham observado os jejuns da Igreja e praticado a abstinência de carne às quartas e sábados, a menos que a festa de Natal caia num desses dias. As orações contínuas de Maria, seus piedosos sufrágios, seus méritos e sua especial proteção lhes são assegurados após a morte, principalmente no sábado, que é o dia consagrado pela Igreja à SSma. Virgem».

Neste documento chama a nossa atenção, de um lado, o fato de não serem mencionadas nem a aparição da SSma. Virgem nem a bula de João XXII «Sacratissimo uti culmine»; de outro lado, verifica-se que, independentemente desses tópicos, a Santa Sé aprecia a fidelidade ao escapulário do Carmo, mencionando especial proteção de Maria para os verdadeiros devotos do mesmo (o que certamente exclui o porte meramente mecânico de tal insígnia); o documento, porém, não fala de libertação do purgatório no primeiro sábado após a morte, preferindo a fórmula mais geral: «especial proteção». — Como quer que seja, a idéia de sábado no purgatório teria que ser entendida em sentido largo ou translato, visto que a sucessão de dias da semana só pode ser critério na terra, onde o tempo é medido pelo movimento dos corpos; no purgatório há apenas almas separadas de seus corpos.

As considerações e conclusões acima talvez causem surpresa em um ou outro dos nossos leitores. Foram contudo ditadas pela objetividade dos documentos e fatos. Não acarretam, de modo algum, detrimento para a piedade. Muito ao contrário; esta tanto mais forte e frutuosa é quanto mais alicerçada sobre a verdade e o «sentire cum Ecclesia», sobre as normas e declarações da Esposa de Cristo. A cada cristão fica a liberdade de se santificar dando fé às promessas anexas ao escapulário do Carmo. A finalidade destas linhas era apenas a de remover qualquer concepção teologicamente errônea a respeito da tradicional devoção.

BIBLIOGRAFIA:
A. Michel. Scapulaire, em «Dictionnaire de Théologie Catholique» XIV 1. Paris 1939, 1254-9.
K. Bihlmeyer, Skapulier, em «Lexikon für Théologie und Kirche» IX 617.
N. Paulus, Geschichte des Ablasses im Mittelalter II. 1923.
Beringer-Steinen, Les indulgences. Paris 1925.