Maria no Evangelho

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Não acompanharemos aqui passo a passo todos os “evangelhos de Maria”. Debruçar-nos-emos apenas sobre alguns textos evangélicos, guiados pelo desejo de captar o que acima se mencionava: que nos diz Deus de Maria? O que é que Ele pensa e quer dela? Simultaneamente, guiar-nos-á o propósito de verificar se a devoção a Maria, tal como a vivem os fiéis católicos, está em sintonia com a vontade de Deus. Para este fim, parece-nos especialmente esclarecedor, como ponto de partida, meditar a narração de São Lucas sobre a Visitação de Maria a sua prima Santa Isabel.
Quando Maria se encaminhou à casa de Isabel, ainda soavam nos seus ouvidos e no seu coração os ecos da mensagem da Anunciação. No seu seio, o Verbo – a segunda Pessoa da Santíssima Trindade – já se fizera carne. Ela era mãe e, em seu corpo virginal, trazia Deus feito homem, formava-lhe um corpo.
Por uma alusão incidental do Anjo Gabriel na Anunciação, Maria tomou conhecimento de que também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na sua velhice; e este é o sexto mês daquela que se dizia estéril (Lc 1,36).
A sua reação imediata foi pensar que Isabel precisaria de ajuda. E é por isso que vai sem demora oferecer o seu auxílio à prima idosa, que se preparava para a primeira experiência da maternidade: Levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel (Lc 1, 39-40).
Até aqui, o Evangelho apresenta uma cena de delicada caridade. Mas, a partir desse momento da narrativa, a cena familiar do encontro das duas mulheres eleva-se a um plano diverso, ganhando uma significação inesperada. Deus intervém. São Lucas descreve o que se passou com os acentos do imprevisto: “Aconteceu”, diz. Passou-se algo que não era esperado. Aconteceu que, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Exclamou ela em alta voz e disse… (Lc 1, 41-42).
Não há a menor dúvida de que o Evangelho mostra neste texto que Deus vai falar por boca de Isabel. Vai falar como o fizera pelos Profetas, cheios do Espírito Santo; e todos sabemos que a voz dos Profetas era a voz de Deus: Deus falou outrora muitas vezes e de muitos modos aos nossos pais pelos Profetas – assim começa a Epístola aos Hebreus (1, 1). Agora dispõe-se a falar de novo.
Pensando bem, o que é que seria lógico esperar dos lábios de Isabel, quando o Espírito Santo a invade – a ela e ao filho que traz nas entranhas –, inundando-a da alegria de receber em sua casa o Salvador de que Maria é portadora, o Messias esperado por séculos e séculos a fio, o próprio Deus habitando entre os homens?
Em princípio, seria razoável esperar que, perante um fato de tal transcendência, Isabel – movida pelo Espírito Santo – entoasse um cântico de adoração e de agradecimento ao Deus, Senhor de céus e terra, que se dignava chegar a sua casa. Diante da presença do Deus vivo, tudo se obscurece, todas as criaturas passam a um segundo plano, como sombras que, quando muito, refletem tenuemente os raios do Sol divino.
Certamente Isabel louva o seu Senhor e exulta nEle em alegre agradecimento. Mas a verdade é que todas as palavras que pronuncia são – do começo ao fim – um louvor e uma glorificação de Maria. É Deus quem fala por ela – precisamos repisá-lo –, e em conseqüência essas palavras inspiradas expressam o que Deus nosso Senhor “pensa” e “quer dizer” daquela que escolheu como Mãe.
Prestemos atenção ao texto do Evangelho: …Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Exclamou ela em alta voz e disse: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que a mãe do meu Senhor venha ter comigo? Porque logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas (Lc 1, 41-45). Cada palavra, cada frase, tem um peso.
Se acompanharmos o ritmo das expressões de Isabel, na sua seqüência linear, perceberemos logo que começam com um louvor a Maria, que identifica a Virgem com a mulher abençoada por Deus de uma forma única entre todas as mulheres; e que se segue um louvor a Cristo, mas a Cristo contemplado através de Maria, precisamente como filho dela: “bendito o fruto do teu ventre”. Esta é a primeira palavra que Deus profere sobre Nossa Senhora por intermédio de Isabel.
Lê-se a seguir uma segunda frase, cujo significado é este: a proximidade de Maria, a presença e a conversa com a Virgem, é um bem, é uma bênção para a alma a quem Ela se chega. “Donde me é dado que a mãe do meu Senhor venha ter comigo?” Isabel sente-se beneficiada por um dom imerecido. Não se limita a agradecer à sua parenta a atenção que está tendo com ela; se se sente honrada, para além de todo o merecimento, é porque recebeu a visita da “Mãe do meu Senhor”. É isto justamente o que a comove: que, diante dos seus olhos, está a Mãe de Deus, e a Mãe de Deus é portadora das bênçãos do céu.
Esta referência emocionada de Isabel ao dom, ao benefício recebido pela visita da Mãe do seu Senhor, torna-se ainda mais explícita e clara nas palavras que profere a seguir, com a fluência de um cântico: “Porque logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre”.
Só entenderemos cabalmente esta frase se não esquecermos que, pouco antes, São Lucas já se referira a um duplo efeito – um duplo dom – produzido pelas palavras de “saudação” proferidas por Maria: por um lado, a alegria sobrenatural de João Batista, que saltou no seio de sua mãe; por outro, a efusão do Espírito Santo na alma de Isabel. É da maior importância perceber que esse duplo dom, conforme diz o Evangelho, tenha sido concedido por Deus em virtude da presença de Maria.
O texto, com efeito, expressa uma autêntica relação de causalidade entre a chegada de Maria, a voz de Maria, e os dons divinos derramados na alma de Isabel e do seu filho. Tudo aconteceu “apenas Isabel ouviu a voz de Maria”, “logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos”, e aconteceu “por isso”. Aqui não se está falando de sentimentos ou de reações emocionais subjetivas – do estado psicológico provocado humanamente pela visita de Maria –, mas de uma iniciativa divina, de uma ação direta de Deus sobre Isabel – “ficou repleta do Espírito Santo” –, que o Evangelho vincula a Maria como causa instrumental. Deus agiu por intermédio dEla.
Também encerram uma grande riqueza as últimas palavras pronunciadas por Isabel. Trata-se de um novo louvor: “Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas”. Se esta frase não se encontrasse no Evangelho, provavelmente acharíamos excessivo o que ela diz. Surpreendentemente, Isabel – Deus por ela – afirma sem ambigüidades que “as coisas que da parte do Senhor foram ditas a Maria” se cumprirão porque Ela acreditou.
Ora, o que é que são essas coisas ditas da parte do Senhor, senão as que pouco antes o Anjo Gabriel anunciara à Virgem? Darás à luz um filho…, será grande, será chamado Filho do Altíssimo…, reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e o seu Reino não terá fim (Lc 1, 31-32). Sem dúvida, as “coisas que foram ditas” são, nem mais nem menos, o plano divino da Redenção da humanidade através da Encarnação, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.
Então, também é fora de dúvida que Isabel afirma que este plano se há de cumprir porque Maria acreditou, isto é, porque abraçou com fé e confiança plenas o convite de Deus para ser a Mãe do Redentor. Isto significa que Deus, em seus desígnios imperscrutáveis, quis fazer depender a Redenção da humanidade, de algum modo, da colaboração de Maria. Por outras palavras, Deus quis contar com a Virgem Santíssima, não como simples instrumento passivo, mas como parte ativa e colaboradora livre da obra da Redenção.
Estas considerações simples abrem-nos desde já como que uma janela, através da qual podemos contemplar o mistério de Maria a partir da perspectiva de Deus, e, simultaneamente, permitem-nos avaliar – segundo a mesma perspectiva – o sentido da devoção que o povo cristão dedica a Maria Santíssima. Na verdade, esses “pensamentos” de Deus são verdadeiros focos de luz, que iluminam por dentro os mistérios da vida e da vocação de Nossa Senhora.

(Padre Faus, Maria, Mãe de Deus, Ed Quadrante)

O Melhor Lugar

 

– Os primeiros lugares.

– Humildade de Maria.

– Frutos da humildade.

I. TODOS OS DIAS são bons para fazer uns minutos de oração junto da Virgem, mas hoje, sábado, é um dia especialmente apropriado, pois são muitos os cristãos de todas as regiões da terra que procuram que os sábados transcorram muito perto de Maria.

Aproximamo-nos dEla, no dia de hoje, para que nos ensine a progredir na virtude da humildade, fundamento de todas as outras, pois a humildade “é a porta pela qual passam as graças que Deus nos outorga; é ela que amadurece todos os nossos atos, dando-lhes valor e fazendo com que sejam agradáveis a Deus. Finalmente, constitui-nos donos do coração de Deus, até fazer dEle, por assim dizer, nosso servidor, pois Deus nunca pode resistir a um coração humilde”1. É tão necessária à salvação que Jesus aproveita qualquer circunstância para elogiá-la.

O Evangelho da Missa2 diz que Jesus foi convidado para um banquete. Na mesa, como também acontece freqüentemente nos nossos dias, havia lugares de honra. Os convidados, talvez atabalhoadamente, dirigiam-se para esses lugares mais considerados. Jesus observava-os. A certa altura, quando talvez a refeição estava já a ponto de terminar, num desses momentos em que a conversa se torna menos ruidosa, disse: Quando fores convidado para umas bodas, não te sentes no primeiro lugar […]. Mas vai tomar o último lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, vem mais para cima. Então serás muito honrado na presença de todos os comensais. Porque todo aquele que se exalta será humilhado; e aquele que se humilha será exaltado.

Jesus ocupou provavelmente um lugar discreto ou aquele que o anfitrião lhe indicou. Ele sabia onde estar, e ao mesmo tempo apercebeu-se da atitude pouco elegante, mesmo humanamente, de alguns comensais. Estes, por sua vez, enganaram-se por completo, porque não souberam perceber que o melhor lugar é sempre ao lado de Jesus. Era em ocupar esse lugar, ao lado de Jesus, que deveriam porfiar. Na vida dos homens, observa-se não poucas vezes uma atitude parecida à desses comensais: quanto empenho em serem considerados e admirados, e que pouco em permanecerem perto de Deus! Nós pedimos hoje a Santa Maria, neste tempo de oração e ao longo do dia, que nos ensine a ser humildes, que é a única maneira de crescermos no amor ao seu Filho, de estarmos perto dEle. A humildade conquista o Coração de Deus.

“«Quia respexit humilitatem ancillae suae» – porque viu a baixeza da sua escrava…

“Cada dia me persuado mais de que a humildade autêntica é a base de todas as virtudes!

“Fala com Nossa Senhora, para que Ela nos vá adestrando em caminhar por essa senda”3.

II. A VIRGEM MOSTRA-NOS o caminho da humildade. É uma virtude que não consiste essencialmente em reprimir os impulsos da soberba, da ambição, do egoísmo, da vaidade…, pois Nossa Senhora nunca teve nenhum desses movimentos e, no entanto, foi humilde em grau eminente. A palavra “humildade” vem do latim humus, terra, e significa inclinar-se para a terra. Trata-se de uma virtude que consiste fundamentalmente em inclinar-se diante de Deus e diante de tudo o que há de Deus nas criaturas4, em reconhecer a nossa pequenez e indigência em face da grandeza do Senhor.

As almas santas “sentem uma alegria muito grande em aniquilar-se diante de Deus, em reconhecer que só Ele é grande e que, em comparação com a dEle, todas as grandezas humanas estão vazias de verdade e não são mais do que mentira”5. Este aniquilamento não reduz, não encurta as verdadeiras aspirações da criatura, mas enobrece-as e concede-lhes novas asas, abre-lhes horizontes mais amplos.

Quando Nossa Senhora é escolhida como Mãe de Deus, proclama-se imediatamente sua escrava6. E no momento em que ouve a sua prima Santa Isabel dizer-lhe que é bendita entre as mulheres7, dispõe-se a servi-la. É a cheia de graça8, mas guarda na sua intimidade a grandeza que lhe foi revelada. Não desvenda o mistério nem sequer a José; deixa que a Providência o faça no momento oportuno. Cheia de alegria, canta as coisas grandes que se realizaram nEla, mas diz que essas maravilhas cabem ao Todo-Poderoso; da sua parte, só colaborou com a sua pequenez e o seu querer9.

“Ignorava-se a si mesma. Por isso, aos seus próprios olhos, não contava absolutamente nada. Não viveu preocupada consigo própria, mas com a vontade de Deus. Por isso pôde medir plenamente o alcance da sua baixeza e da sua condição de criatura – desamparada e segura ao mesmo tempo –, sentindo-se incapaz de tudo, mas sustentada por Deus. A conseqüência foi que se entregou a Deus, que viveu para Deus”10. Nunca buscou a sua própria glória, nem se esforçou por aparecer, nem ambicionou os primeiros lugares nos banquetes, nem quis ser considerada ou receber elogios por ser a Mãe de Jesus. Procurou unicamente a glória de Deus.

A humildade funda-se na verdade, na realidade; sobretudo numa certeza: a de que a distância que existe entre o Criador e a criatura é infinita. Quanto mais se compreende esta distância e o modo como Deus se aproxima da criatura com os seus dons, a alma, com a ajuda da graça, torna-se mais humilde e agradecida. Quanto mais alto se encontra uma criatura, mais compreende esse abismo; por isso a Virgem foi tão humilde.

Ela, a Escrava do Senhor, é hoje a Rainha do universo. Cumpriram-se nEla, de modo eminente, as palavras de Jesus no final da parábola: quem se humilha, quem ocupa o seu lugar diante de Deus e dos homens, será exaltado. Quem é humilde ouve Jesus dizer-lhe: Amigo, vem mais para cima. “Saibamos pôr-nos ao serviço de Deus sem condições, e seremos elevados a uma altura incrível; participaremos da vida íntima de Deus – seremos como deuses! –, mas pelo caminho regulamentar: o da humildade e da docilidade ao querer do nosso Deus e Senhor”11.

III. A HUMILDADE FAR-NOS-Á descobrir que todas as coisas boas que existem em nós vêm de Deus, tanto no âmbito da natureza como no da graça: Diante de ti, Senhor, a minha vida é como um nada12, exclama o Salmista. Somente a fraqueza e o erro é que são especificamente nossos.

Ao mesmo tempo, porém, a humildade nada tem a ver com a timidez, com a pusilanimidade ou a mediocridade. Longe de apoucar-se, a alma humilde coloca-se nas mãos de Deus e enche-se de alegria e de agradecimento quando o Senhor quer fazer grandes coisas através dela. Os santos foram homens magnânimos, capazes de grandes empreendimentos para a glória de Deus. O humilde é audaz porque conta com a graça do Senhor, que tudo pode, porque recorre com freqüência à oração – reza muito –, convencido da absoluta necessidade da ajuda divina. E por ser simples e nada arrogante ou auto-suficiente, atrai as amizades, que são veículo para uma ação apostólica eficaz e de longo alcance.

A humildade é o fundamento de todas as virtudes, mas é-o especialmente da caridade: na medida em que nos esquecemos de nós mesmos, podemos interessar-nos verdadeiramente pelos outros e atender às suas necessidades. Ao redor destas duas virtudes encontram-se todas as outras. “Humildade e caridade são as virtudes mães – afirma São Francisco de Sales –; as outras seguem-nas como os pintinhos seguem a galinha”13. Em sentido contrário, a soberba, aliada ao egoísmo, é a “raiz e mãe” de todos os pecados, mesmo dos capitais14, e o maior obstáculo que o homem pode opor à graça.

A soberba e a tristeza andam frequentemente de mãos dadas15, enquanto a alegria é patrimônio da alma humilde. “Olhai para Maria. Jamais criatura alguma se entregou com tanta humildade aos desígnios de Deus. A humildade da ancilla Domini (Lc 1, 38), da escrava do Senhor, é a razão pela qual a invocamos como causa nostrae laetitiae, como causa da nossa alegria. Eva, depois de pecar por ter querido na sua loucura igualar-se a Deus, escondia-se do Senhor e envergonhava-se: estava triste. Maria, ao confessar-se escrava do Senhor, é feita Mãe do Verbo divino e enche-se de júbilo. Que este seu júbilo, de Mãe boa, nos contagie a todos nós: que nisto saiamos a Ela – a Santa Maria –, e assim nos pareceremos mais com Cristo”16.

(1) Cura d’Ars, Sermão para o décimo domingo depois de Pentecostes; (2) Lc 14, 1, 7-11; (3) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Sulco, n. 289; (4) cfr. Réginald Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior, vol. II, pág. 670; (5) ibid.; (6) cfr. Lc 1, 38; (7) Lc 1, 42; (8) Lc 1, 28; (9) cfr. Lc 1, 47-49; (10) Federico Suárez, A Virgem Nossa Senhora, pág. 129; (11) cfr. Antonio Orozco Delclos, Olhar para Maria, pág. 138; (12) Sl 38, 6; (13) São Francisco de Sales, Epistolário; (14) São Tomás de Aquino, Suma teológica, II-II, q. 162, aa. 7-8; (15) cfr. Cassiano, Colações, 16; (16) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 109.

Fonte: Falar com Deus

Nossa Senhora do Carmo

Dom Benedicto de Ulhôa Vieira

Durante o ano litúrgico, a Igreja celebra muitas datas em honra a Maria Santíssima, Mãe de Deus. Com este singular título “Mãe de Deus”, temos o direito de festejá-la pelo honroso privilégio de virginalmente ter dado ao Verbo divino a natureza humana. Por isto nunca nos cansamos de repetir-Lhe a palavra de saudação do Anjo, como nos refere o Evangelho de Lucas (1, 28) “Ave, cheia de graça”.

Temos razão, sem dúvida, de saudá-la como virgem e mãe, assim agraciada singularmente por Deus. O Papa São Leão Magno, num belíssimo sermão, lembra que a Deus, que dera a fecundidade a uma anciã, mãe de João Batista, não se Lhe pode negar tenha dado o dom da maternidade a uma virgem.

A festa de Nossa Senhora do Carmo hoje quer recordar o que a tradição nos transmite: que São Simão Stock recebeu em 1251 das mãos de Maria Santíssima o escapulário no Monte Carmelo. Neste local se ergueu uma capela sobre as ruínas de uma capela anterior. Só bem mais tarde, em 1728, é que esta comemoração festiva foi incluída no calendário da Igreja.

Na oração da Missa desta festa, pedimos ao Senhor que, por intercessão de sua Mãe, nos dê a graça de subir o monte que é Cristo, isto é, subir aos páramos da contemplação, onde, distantes dos estrépitos e do tropel do mundo, possamos sentir aquela alegria suave do encontro amoroso com Deus, que nos leve a repetir a exclamação de Pedro: “É bom estarmos aqui” (Mt 17, 4).

A vida diária da criatura humana, mesmo dos mais afortunados, é entrelaçada de preocupações, dificuldades e tristezas. Para o cristão, homem de fé, que se ilumina sempre pela luz da palavra do Evangelho e se fortalece da esperança – porque Deus não falha – as festas religiosas, como a de hoje, trazem um raio de luz e uma nova força. Faz-nos confiar na certeza de que Deus é Pai e não nos abandona.

A presença solícita de Maria, Mãe de Jesus, vela sobre os filhos de Deus e assim nos dá a certeza de sua solicitude materna junto de seu Filho.

Colocamos-nos hoje sob o olhar materno da Senhora do Carmo, cuja proteção nos leva para mais perto do seu Filho Cristo Jesus.

Fonte: Site da CNBB

Testemunho sobre o Terço

“Não vou fazer qualquer tipo de exposição doutrinal sobre o Terço mas apenas tentar dar um testemunho vivencial sobre esta belíssima oração.

Na sua forma de oração vocal repetitiva, o terço pode parecer, numa primeira abordagem, apenas uma oração de súplica. E é belo suplicar à Mãe de modo incansável, como o desfiar de rosas que a seus pés vamos depositando. Mas o terço é bem mais do que uma simples oração vocal rotineira e mecânica. Rezado na sua dimensão vocal e contemplativa, ele é uma autêntica via, simples e segura de acesso ao mistério de Cristo.

É a meditação dos mistérios que alguém belamente designou “a alma do Terço”, que lhe imprime uma dinâmica profunda de oração interior. Todo o mistério de Cristo é contemplado, absorvido nesta oração. E com os mistérios de Luz introduzidos ultimamente pelo Papa, o quadro ficou mais completo ainda.

(…)

Deste modo, o terço é um entrar suavemente no mistério de Cristo. É um deixar-se envolver no anúncio do Reino que o Terço comunica através dos seus mistérios. Maria, a Serva humilde, acompanha o crente nesta caminhada e introdu-lo, maternalmente, no mistério de seu divino Filho. As Ave Marias são, então, como a chuva miudinha que vai penetrando na terra, fazendo que absorva a semente da mensagem evangélica compendiada nos mistérios do Rosário. Isto mesmo diz João Paulo II na carta apostólica Rosarium Virginis Mariae: “Contemplar o rosto de Cristo é contemplá-lo com Maria”.

Maria conhece bem os seus filhos. Ela sabe quanto esta oração é benéfica para cada um. E a sua insistência em recomendar esta oração é, certamente, não para seu proveito, mas de todos nós. O Papa, conhecedor da eficácia santificadora desta oração, recomenda-a continuamente e consagra um ano ao Rosário. Oxalá aprofundemos na riqueza que ele encerra e a experimentemos na vida.”

Ir. Maria Albertina Monteiro de Azevedo, OSC.

Fonte: http://www.veritatis.com.br/article/5238/como-rezar-o-terco

Silêncio e Recolhimento

GOSTARÍAMOS DE QUE os Evangelistas tivessem narrado mais acontecimentos e palavras de Santa Maria. O amor faz?nos desejar mais notícias da nossa Mãe do Céu. No entanto, Deus cuidou de no?las dar a conhecer, na medida em que nos era necessário, tanto durante a vida de Nossa Senhora aqui na terra como agora, depois de vinte séculos, através do Magistério da Igreja, que, com a assistência do Espírito Santo, desenvolve e explicita os dados revelados.

Pouco tempo depois da Anunciação, ainda que a Virgem não tivesse comunicado nada a Santa Isabel, esta penetrou no mistério da sua prima por revelação divina. O mesmo se passou com José, que não foi informado por Maria, mas por um anjo em sonhos, sobre a grandeza da missão daquela que já era sua esposa. No nascimento do Messias, Maria continuou a guardar silêncio, e os pastores foram informados pelos anjos do maior acontecimento da humanidade. Maria e José também nada disseram a Simeão e Ana quando, como um jovem casal entre muitos, foram a Jerusalém para apresentar o Menino no Templo. E, primeiro no Egito e depois em Nazaré, Maria não falou a ninguém do mistério divino que envolvia a sua vida. Nada comentou com os seus parentes e vizinhos. Limitou?se a conservar todas estas coisas, ponderando?as no seu coração. “A Virgem não procurava, como tu e como eu, a glória que os homens dão uns aos outros. Bastava?lhe saber que Deus sabe tudo. E que não necessita de pregadores para anunciar aos homens os seus prodígios. Que, quando quer, os céus publicam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos (Sl 18, 1?2). Dos ventos fazes os teus mensageiros, e do fogo ardente os teus ministros (Sl 104, 4)”.

“É tão formosa a Mãe no perene recolhimento com que o Evangelho no?la mostra!… Conservava todas estas coisas, ponderando?as no seu coração! Esse silêncio pleno tem o seu encanto para a pessoa que ama”. Na intimidade da sua alma, Nossa Senhora foi penetrando cada vez mais no mistério que lhe tinha sido revelado. Mestra de oração, ensinou?nos a descobrir Deus – tão perto das nossas vidas! – no silêncio e na paz dos nossos corações, pois “só quem pondera com espírito cristão as coisas no seu coração pode descobrir a imensa riqueza do mundo interior, do mundo da graça, desse tesouro escondido que está dentro de nós […]. Foi este ponderar as coisas no coração que fez com que a Virgem Maria fosse crescendo, com o decorrer do tempo, na compreensão do mistério, na santidade e na união com Deus”.

O Senhor também nos pede esse recolhimento interior em que guardamos tantos encontros com Ele, preservando?os dos olhares indiscretos ou vazios para tratar deles a sós “com quem sabemos que nos ama”.